segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Política - Dilma e FHC, tudo a ver

Leonardo Atuch, ISTOÉ

Brotou uma faísca entre os dois que pode reaproximar PT e PSDB. Seria bom para o País.

Pintou um clima. Ela gosta dele, ele gosta dela. A cena se deu na Sala São Paulo, na festa de 90 anos do jornal “Folha de São Paulo”.

Do encontro entre Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso, brotou aquela faísca que alguns especialistas definem como paixão. Sorrisos furtivos, coração acelerado e promessas de encontros futuros. FHC sugeriu levar a Brasília, ao Palácio do Planalto, um grupo de velhinhos, conhecido como The Elders, que, além dele, inclui outros líderes políticos, como Nelson Mandela, Jimmy Carter e Felipe Gonzalez

Dilma retrucou de imediato: “Vá também sozinho.”

Nos últimos anos, FHC sempre reclamou pelos cantos do seu sucessor, dizendo que, nesse tempo todo, Lula nunca o convidou para tomar um café no Palácio do Planalto. E Lula vivia dizendo a interlocutores que FHC não era confiável. Apostava no seu fracasso para que um dia voltasse ao poder, carregado nos braços do povo.

Essa relação tensa entre os dois determinou o distanciamento progressivo entre PT e PSDB, partidos que estiveram juntos em diversos momentos históricos, mas que migraram para polos opostos.

Mas que antagonismo é esse? Tanto PT quanto PSDB ocupam o campo ideológico da social-democracia. Ambos têm, entre seus fundadores, pessoas que lutaram contra a ditadura. No poder, lançaram mão de políticas sociais compensatórias.

Acertaram de maneiras parecidas, assumindo compromissos com a estabilidade, e também erraram de modo semelhante – quase sempre, escolhendo vencedores na economia.

Na prática, os petistas deveriam ter mais afinidades com os tucanos do que com as velhas e novas oligarquias do PMDB. Assim como o PSDB deveria estar mais próximo do PT do que do DEM.

Essa aproximação seria benéfica para o País e tem defensores no núcleo duro do governo Dilma. Um deles, o ministro Antônio Palocci, da Casa Civil, que sempre reconheceu méritos no governo FHC.

Ao mesmo tempo, boa parte do PSDB – José Serra talvez seja a única exceção – gostaria de aderir a um governo que deve passar quatro anos com crescimento próximo a 5%. No fim, pode ser bom também para os dois.

A presidente Dilma, mulher livre, carrega, com todo o respeito, um quê de Ruth Cardoso. E FHC, viúvo boa-pinta, que também anda com saudades da piscina aquecida do Palácio da Alvorada, daria um ótimo primeiro-marido. Só vai ser difícil administrar as crises de ciúme de Lula.

domingo, fevereiro 27, 2011

Harley-Davidson no céu

O inventor da moto Harley-Davidson, Arthur Davidson, morreu e foi para o céu. Ao chegar lá, São Pedro disse-lhe:

- Meu filho, fostes um bom homem e as tuas motos mudaram o mundo, podes fazer um pedido.

Arthur pensou um pouco e disse:

- Quero encontrar-me com Deus! São Pedro levou Artur até a sala do trono e apresentou-o a Deus, que o reconheceu e disse-lhe:

- Então inventaste a Harley-Davidson?

Arthur respondeu:

- É verdade, fui eu…

Deus comentou:

- Não foi uma boa invenção… É um veículo instável, barulhento e poluidor. Manutenção complicada, alto consumo…

Arthur ficou aborrecido com o comentário e retrucou:

- Desculpe-me, mas não foi o senhor que inventou a mulher?

- Sim, fui eu! – Responde Deus.

- Bem, aqui entre nós, de profissional para profissional, você também não foi nada feliz na sua invenção! Há muita inconsistência na suspensão dianteira. É muito barulhenta e tagarela em altas velocidades. Na maioria dos casos, a suspensão traseira é muito macia e vibra demais. A área de lazer está localizada perto demais da área de reciclagem. Os custos de manutenção são exorbitantes.

Deus refletiu e respondeu:

- Sim, é verdade que o meu invento tem defeitos, mas de acordo com os dados que levantei, há muito mais homens montados na minha invenção do que na tua.

(do Blog Aqui Tem Coisa)

sábado, fevereiro 26, 2011

Prisão?



Cláudio Mattos





Minha mente ultimamente anda pensando em imagens
talvez sons também
os sons ajudam a criar as imagens

Sinto que tenho filmes,curtas e longas
roteiros todos prontos em minha mente

mas o tempo me tira o tempo de ter tempo

acabo sentindo os personagens, as cenas
mas tudo fica em mim

parado não

preso

porém numa dinâmica vivaz

poesias presas
filmes presos
histórias presas

a escrita liberta

me sinto livre
pelos menos por hora

Esquentando os Tamborins


Celso Japiassu

A enchente do mês passado na região serrana do Rio de Janeiro saiu das páginas dos jornais e do noticiário da TV. Novas notícias, outros acontecimentos dramáticos tomaram o lugar dos mortos de Friburgo, Teresópolis e Itaipava.

As vítimas foram estimadas em mais de mil e muitas ainda se encontram sob os escombros. O barro que restou no caminho das águas enterram os corpos em sepulturas desajeitadas. Muitos jamais serão encontrados e permanecerão para sempre na conta de pessoas desaparecidas.

O luto pelos mortos passa rápido na memória dos vivos. Restam como trágicas lembranças a leishmaniose, a leptospirose, a hepatite A e a toxoplasmose. Pois agora é tempo de festa, do carnaval que excita as multidões e as leva para as ruas exaltando a vida.

Blog do Celso Japiassu

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

É aí que mora o perigo

Governadores do NE defendem nova CPMF


Julia Duailibi -
O Estado de S.Paulo

Governadores do Nordeste reunidos nesta segunda-feira, 21, em encontro em Barra dos Conqueiros, Sergipe, defenderam a volta de um mecanismo para o financiamento da saúde, nos moldes da CPMF, extinta pelo Senado em 2007.

“É fundamental que tenhamos uma fonte de recursos para custeio. É fundamental implementarmos uma nova contribuição”, declarou o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), ao chegar ao Fórum dos Governadores do Nordeste.

O governador da Bahia, Jacques Wagner (PT), seguiu a mesma linha. Segundo ele, “8% ou 10%” da população devem ajudar a prover recursos para atender “85% da sociedade”. “Sou a favor de uma nova contribuição, sim”, completou Wagner.

Tanto Wagner quanto Cid não deram detalhes de como seria esse novo instrumento de financiamento. A CPMF foi extinta em 2007, depois de ser derrubada no Congresso, numa das principais derrotas no Legislativo do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Teatrinho Eucalol

Botirama ou Toritama, ah, eis a questão...

Enquanto isso... em Sergipe...

Ela - "Nós achamos que há que dar suporte e fazer com que se reproduza experiências de sucesso, como é o caso das confecções em Botirama," né, Eduardo - afirmou, dirigindo-se ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos de los ojos verdes.

(Nat King Cole cantando "Aquellos ojos verdes)

Ele - Apicultura em Botirama
Ela - (batida de bigorna) Eu falei para vocês que não era Botirama!
Ela - (fanfarra) Vocês vejam o que é uma ótima assessoria. É Toritama. E eles acharam essa Botirama sabe aonde? Na internet. (pano rápido)

E vocês vejam o clip abaixo. HC


A Foto do Fato

Concurso. Que nome você daria a esse trio?

1 - Trio Los Evos ?
2 - Trio Parada Dura ?
3 - Trio Ternurinha ?
4 - Dois Ases e um Cocaleiro ?

... use a sua imaginação. O vencedor ganhará uma viagem de ida e volta ao próprio quintal. Com acompanhante. HC

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Caso Battisti: um criminoso e a lei de extradição

Paulo Brossard

Ainda não se passou um mês do termo do maior e melhor governo da história do Brasil, segundo a versão de seu protagonista, assoalhada aos quatro ventos, e sua sucessora continua a ter de digerir capítulos indigestos da herança recebida.

O caso da extradição do italiano Battisti é um deles e não é dos menos expressivos. Curiosamente, o presidente expirante aguardou até o último dia de seu mandato para, louvando-se em parecer da Advocacia-Geral da União, e com base nele, negar a extradição. Nesse entretempo, não cessaram manifestações de entidades de alta responsabilidade. Uma delas do Parlamento Europeu… outra do chefe de Estado da República Italiana dirigida à presidente da República do Brasil.

Não quero e não devo rediscutir teses que o Supremo Tribunal Federal já enfrentou, decidiu, e que poderá ter de voltar a pronunciar-se à vista e consequência do conflito arquitetado, mas posso e devo fazê-lo como cidadão e como estudante de temas jurídicos, a fim de opinar acerca da singularidade da emergência; contudo desejo limitar o campo de apreciação aos seus termos mais singelos e objetivos.

Tendo sido encaminhado ao Supremo Tribunal Federal o pedido de extradição formulado pelo Estado italiano, processada a querela, a decisão derradeira seria da Corte Suprema, como se lê na Constituição, artigo 102, “compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente a guarda da Constituição cabendo-lhe:
I – processar e julgar originariamente g) a extradição solicitada por Estado estrangeiro”. Foi o que se deu, tendo o Supremo Tribunal determinado que, quanto à entrega do extraditando, o presidente da República tinha obrigação de agir nos termos do tratado firmado entre o Brasil e a Itália.

Ora, tratando-se de competência originária e cabendo ao Tribunal Supremo processar e julgar a extradição, nele começa e termina o julgamento da extradição requerida, pois só a ele compete processar e julgar a extradição requerida. Em matéria de extradição, em lei alguma se reserva atribuição à Advocacia-Geral da União. De mais a mais, convém lembrar que o presidente da República não é parte do processo de extradição. Partes são o requerente e o extraditando.

Quando o ex-presidente, no último dia de seu mandato, praticamente “recorreu” da decisão do Supremo Tribunal Federal para um serviço de assessoramento do Poder Executivo, embora não houvesse recurso, na prática “cassou” o acórdão do Supremo Tribunal, prolatado em processo originário e portanto irrecorrível. Ainda mais, o então presidente da República deixou de observar o expresso na ementa do acórdão da extradição, aliás, transitado em julgado:

“(…) Obrigação apenas de agir nos termos do Tratado celebrado com o Estado requerente. (…) Decretada a extradição pelo Supremo Tribunal Federal, deve o Presidente da República observar os termos do Tratado celebrado com o Estado requerente, quanto à entrega do extraditando.” Ainda mais, o Executivo atribuiu-se a prerrogativa de ignorar o julgamento do Supremo e, ignorando-o, a ele atribuir o caráter de mera opinião.

Ora, o Supremo Tribunal Federal não dá opiniões a ninguém; sendo órgão máximo do Poder Judiciário, não lhe cabe emitir pareceres para fins acadêmicos, mas processar e julgar conclusivamente. Para encerrar, se bem me lembro, em nenhuma das extradições requeridas, processadas e julgadas pelo Supremo Tribunal Federal, a douta Advocacia-Geral da União teve acesso. Esta parece-me a situação a que o país foi jogado, como se a questão fosse de somenos.


Do Blog Diplomatizzando de Paulo Roberto de Almaieda
Paulo Brossard é jurista, ex-ministro da Justiça e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal

O salário mínimo e o salário dos pais-da-pátria

Augusto Nunes

O salário mínimo e o salário dos pais-da-pátria: um abismo separa o país real do Brasil Maravilha guardado no cartório

Entre o salário-mínimo reajustado pela Câmara (R$545,00) e o salário dos que aprovaram o reajuste (R$ 26.723, 13, depois do aumento de 61,8% que se concederam em dezembro), a diferença é de R$ 26.178,13. Essa quantia equivale a

131 bolsas-família.

476 quilos de picanha.

1.189 quilos de carne de contrafilé

11.382 quilos de arroz

4.363 quilos de feijão-fradinho

9.027 passagens do metrô de SP

1.454 ingressos para o cinema

52 bicicletas Caloi Aro 26

22 televisore Samsung LCD 32 polegadas

18 geladeiras Brastemp 342 litros

131 pares de tênis Nike Air Max

1 carro popular

145 passagens de ida e volta na ponte aérea Rio-SP

1.047 livros infantis

1.745 DVDs

21 computadores pessoais (notebook HP com processador Intel Dual Core, 3 gigabytes de memória e HD de 320 Gigabytes)

3.022 frascos de óleo de peroba

Em dezembro, Lula e Dilma Rousseff não viram nada de errado no aumento repulsivo aprovado pelo Congresso que controlam. O discurso da austeridade não vale para os parceiros que, somados os demais benefícios, embolsam mais de R$ 1 milhão por ano. Neste fevereiro, o ex-presidente e a sucessora impuseram a quantia endossada pela imensa maioria da Câmara. Os dois garantem que governam para os pobres. Segundo números oficiais, 47,7 milhões de brasileiros sobrevivem com um salário mínimo ou menos. Se Lula, Dilma e seus parceiros tentassem atravessar um mês com R$ 545,00, conheceriam o abismo que separa o país real do Brasil Maravilha que só existe na papelada que seu inventor guardou num cartório.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

PRECONCEITO e INCOMPETÊNCIA

AMAZONINO MENDES (PTB), prefeito de Manaus, em visita a uma área de risco de desabamento, mandou na manhã desta segunda-feira uma moradora "morrer" ao ser questionado por ela sobre a solução do problema de habitação.

No fim de semana, durante um temporal, três pessoas morreram após o desabamento de um barranco sobre casas na cidade.

De camiseta verde, Amazonino, cercado por moradores, falava sobre a necessidade de deixar o lugar. O vídeo foi gravado por um repórter de um site local e colocado no Youtube, foi há pouco desativado. Corre pra ver esse antes que retirem também.

"É preciso parar de construir casas em áreas de risco", disse o prefeito.

A moradora desempregada Laudenice Paiva, 37, rebateu. "Mas prefeito, se a gente mora aqui é porque não tem onde morar."

Irritado, ele afirmou: "Minha filha, então morra, morra, morra!"

O prefeito indagou de qual cidade a moradora vinha. Ela disse que era paraense. "Então tá explicado", reiterou Amazonino.

Estupidez Constitucional


Carlos Alberto Sardenberg

O Estado de S.Paulo - 21 de fevereiro de 2011

Parece que esse reajuste do salário mínimo vai parar no Supremo Tribunal Federal (STF). E vai sair uma bela confusão. Ocorre que qualquer dos três valores em discussão (ou R$ 545, ou R$ 560, ou R$ 600) é inconstitucional, na letra da lei.

Está na Constituição: "art. 7.º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim".

Considerem uma família de quatro pessoas, casal e dois filhos, morando em São Paulo ou em outra região metropolitana, e está na cara que nem o valor mais alto cobre todas aquelas necessidades. Estimativas até moderadas indicam que o salário mínimo constitucional deveria alcançar algo como R$ 2.500.

Para se ter uma ideia do que significa isso, é preciso fazer algumas comparações. Primeira e mais importante: o salário médio dos trabalhadores das seis principais regiões metropolitanas, medido pelo IBGE, chegou a exatos R$ 1.515,10, em dezembro último.

Ou seja, o "salário mínimo constitucional" é quase 70% superior ao salário médio efetivamente pago na economia real. Assim, se o STF mandar pagar os R$ 2.500, vai ser uma festa nacional: a imensa maioria dos trabalhadores terá um gordo reajuste imediato.

E muitas famílias ficarão em situação mais do que confortável. O mínimo tem de ser nacional, um mesmo valor no País inteiro. E precisa atender às necessidades descritas na Constituição. Logo, é preciso fazer a conta para as famílias que moram nas áreas em que o custo de vida é o mais caro. Resultado: os R$ 2.500 vão dar em cima para os trabalhadores de São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, e vão sobrar para os moradores, por exemplo, do interior do Piauí, onde tudo é muito mais barato, do aluguel a um prato de comida. Se um residente nas cidades maiores gasta uns R$ 200 por mês apenas com condução, aquele do interior vai a pé.

Em um dado momento, havia no Brasil o salário mínimo regional, uma tentativa de adequar a remuneração às enormes disparidades de custo de vida. Mas na Constituição de 1988, sob o argumento de que não poderia haver discriminações, determinou-se que todos deveriam receber a mesma coisa. O que é falso. Os mesmos R$ 2.500 valem muito mais em determinados locais. Assim, há uma discriminação contra os moradores das áreas urbanas.

Mas, além da farra dos reajustes, o que aconteceria no Brasil se o STF mandasse o salário mínimo subir para o valor constitucional?

O déficit das contas públicas iria às alturas. Considerando que cada real a mais no salário mínimo representa uma despesa anual de R$ 300 milhões só para o governo federal - 23 milhões de aposentados e pensionistas recebem por esse piso -, o custo daquele reajuste, partindo dos atuais R$ 545, seria de nada menos que R$ 586 bilhões. Comparando: a despesa prevista pelo governo federal neste ano - para tudo, incluindo salários, Previdência, custeio e obras - é de R$ 720 bilhões.

Assim, para financiar o salário mínimo constitucional, os impostos precisariam ter uma alta imediata de uns 80%. Ou o governo federal faria uma dívida monstruosa, a qual, aumentando o risco de calote, provocaria a imediata elevação das taxas de juros.

As prefeituras do interior não teriam como pagar o salário mínimo constitucional sem o auxílio do governo federal, que já estaria suficientemente encrencado.

As empresas, tanto as privadas quanto as públicas, teriam de repassar os custos mais altos para os seus preços. Como todas fariam isso ao mesmo tempo, a inflação daria um salto para níveis iguais às da era pré-real. E muitas empresas simplesmente passariam para a informalidade, eliminando os trabalhadores com carteira assinada.

O que fecha o ciclo: todo o ganho dos trabalhadores que continuassem empregados seria comido pela inflação generalizada, pelos impostos mais elevados e pelas taxas de juros mais altas nos crediários.

Ou seja, o mínimo de R$ 2.500 rapidamente seria de novo inconstitucional, exigindo-se novo reajuste pela letra da lei. Em pouco tempo, estaríamos todos naquela espiral inflacionária que dizima o poder de compra dos mais pobres.

Pode existir uma norma constitucional mais estúpida que esta?

A rigor, a norma deveria ser imediatamente eliminada, mas qual parlamentar ou governo tomaria a iniciativa de propor isso? Quem estivesse na oposição, seja do PT, DEM ou PSDB, atacaria na hora "os inimigos do mínimo".

E a coisa voltaria ao STF. Até onde se pode imaginar, os ministros do STF não são loucos para deliberar a favor de uma catástrofe econômica e social como descrita nesta coluna. Por outro lado, o inciso IV do artigo 7.º da Constituição de 1988 está em vigor. Logo, Suas Excelências, se provocadas nesse caso, precisarão de uma ginástica jurídica para dizer que certas letras da Constituição não valem em determinadas circunstâncias.

E depois reclamam quando o brasileiro comum também resolve que certas leis não precisam ser respeitadas.

Precisamos não apenas de uma reforma previdenciária...

JORNALISTA
SARDENBERG@CBN.COM.BR
WWW.SARDENBERG.COM.BR

O Brasil Anedótico


O Guarda-chuva do Padre Severiano


A pasmaceira reinante. O "déjà vu", o nada de novo no front, os ronaldos salvadores da Pátria, o carnaval carioca, a gente se vendo na Globo, et caterva, nos incitam à um exercício de imaginação. Semanalmente iremos postar textos interessantes de vários autores do passado e tentar em gotas homeopáticas, reviver um pouco os tempos áureos desta terra Pindorama, dita Das Palmeiras. Um exemplo curioso é esse texto de Humberto de Campos em seu livro, "O Brasil Anedótico".


Humberto de Campos

De regresso de Paris, onde deixara a batina, o padre Severiano de Rezende surgia uma tarde, à rua Gonçalves Dias, trajando jaquetão claro, chapéu de palha, flôr à lapela, mas tendo à mão, em conflito com aquela meia elegância, um guarda-chuva de cabo torcido. Ao encontrá-lo à porta da Confeitaria Colombo, Emílio de Menezes abriu os braços para estreitá-lo:

- Estás belo, padre, assim à paisana!

- Achas?

- Decerto

E olhando melhor:

- Agora é só a bengala que traja à clerical.

- Que bengala? Estranhou o ex-sacerdote. Isto é um guarda-chuva...

E Emílio:

- Pois é isso mesmo: que é um guarda-chuva senão uma bengala de batina?

"Discurso na Academia Brasileira de Letras, 8 de maio de 1920"

domingo, fevereiro 20, 2011

Dúvidas e crenças sobre o misterioso Universo





José Virgolino de Alencar



De minha janela, contemplo o céu, o firmamento;

O que será que há além do céu, parte azul, parte nublada?

Vejo o mar imenso, até a linha do horizonte, traçada

Pelo arquiteto-mor do Universo; paira um momento



De dúvida, de agnosticismo; porém, na fundada crença,

Meu subconsciente cobra-me visão com fé espiritual,

Convenço-me de que há um ente superior, sacral,

Construtor do cosmo sideral e quem sabiamente pensa



Sente o mistério, pouco sondável, mas plenamente crível,

Sobre a existência desse arquiteto que desenhou a partir

Do nada que se fez tudo, e aos nossos olhos fez surgir

Uma realidade que somente com fé conhecer é possível.



Vejo as matas, os rios, as cachoeiras, os pássaros, enfim

A bela natureza, tão perfeita, quadros de arte admirável,

Pintados com tintas, cores, matéria-prima não palpável,

Encantamento indescritível; entanto, a mente vê, sim,



E crê, ainda que não desvende a origem da criação,

Que é real, é um produto tangível, nele se toca,

Olfata-se o aroma, ouve-se o rugir do vento e se foca,

Se deslumbra com tanta - e pouco explicável - emoção.

Religiões

Celso Japiassu

A crença nas divindades consola as emoções humanas e dá aos homens a esperança de sobreviverem à morte. Compensa a brevidade da vida e assegura a existência de uma outra dimensão desconhecida. Os sacerdotes, intermediários entre os viventes e as entidades divinas, encarregam-se de descrever o além e de assegurar a eternidade do castigo para os maus e da bonança para os bons.

As religiões desprezam a vida em benefício da morte, quando só então existe a possibilidade de paz para as almas e eterno descanso para o corpo. A doutrina das grandes religiões tenta domar o comportamento humano e dele exigir absoluta fidelidade a seus mandamentos.

O sacrifício é cultuado e promovido, pois só através dele são possíveis as recompensas. A repressão aos instintos vitais é a prova de fidelidade aos preceitos divinos. As religiões têm escravizado os homens em troca da esperança.

Do Blog do Celso Japiassu

SAD AND TIRED

W. J. Solha

O título, tirei-o do maravilhoso solo Getsemani ( I only want to say), de Jesus Christ Superstar :

Naquele tempo eu estava inspirado,
Agora estou triste (SAD) e cansado (TIRED).
Ouça, eu seguramente superei as expectativas.
Tentei por três anos, que me pareceram trinta.
Você poderia pedir mais de qualquer outro homem?

Na verdade, tentei por trinta anos (maneira de dizer, pois foi muito tempo mais) ... que me pareceram os três, dele. E, pela primeira vez, me vejo... muito cansado. E triste. Porque o resultado de tanto esforço foi nulo. Claro: para mim, a arte – qualquer que a tenha praticado – foi sempre teofania, mas apenas no momento da realização. Ela, porém, é expressão, comunicação... e sempre me senti a voz que clama no deserto, a cada livro lançado.

Ouço Orlando Silva:
... sei que o direito é levar
a cruz até o fim...
mas não posso, é pesada demais...
para mim.

Apesar da idade, sinto que, num ataque de fúria, ainda seria capaz de matar mil filisteus com uma queixada de jumento. Mas... pra quê? E reconheço minhas falhas. Em 1990, percebendo que iria me repetir ao começar nova montagem teatral com o grupo Bigorna, resolvi não mais fazer teatro. Em 2002, ao ver, no Festival de Cinema de Brasília, minha performance no longa-metragem “Lua Cambará”, de Rosenberg Cariry, de que eu participara no Ceará, resolvi: “Chega de dar uma de ator”. Claro: isso depois de “O Salário da Morte”, “Fogo Morto” e “Soledade”. Nunca me saí essas coisas. E parei. Recebi, um belo dia, telefonema do Rutílio Oliveira, diretor de Casting de um longa sobre Gregório Bezerra, no Pernambuco, chamando-me para uma pontinha no elenco e eu lhe disse “Não, companheiro: desisti de tudo isso”. Rutílio de novo: outra pontinha, agora no “Bezerra de Menezes”. Disse-lhe novamente que não, ele insistiu, pediu-me pra lhe quebrar o galho – “É só um dia!” E acabei fazendo parte daquela parte do elenco que jamais consta no cartaz de um filme.

Em 2004, no meio de minha maior exposição de pintura, no Casarão dos Arquitetos, João Pessoa, senti que prosseguir pintando seria, também, dar uma de besouro contra a vidraça, como num velho romance de J. G. de Araújo Jorge,... e mais uma vez decidi: “Basta.”

Em 2009, José Nêumane me disse que possivelmente meu Relato de Prócula não sairia pela A Girafa, “pois ninguém mais está comprando livros”. Comprometi-me a comprar da editora – e comprei - quinhentos exemplares do meu romance, tão logo saísse. Claro que me senti desonesto por isso. E injustiçado. Afinal, eu ganhara uma bolsa da Funarte com o trabalho. Recebi, sim, duas ou três críticas bastante favoráveis a respeito do romance. Como as de Hugo Almeida e Ivo Barroso na imprensa do Rio e São Paulo, Bráulio Tavares, na de João Pessoa. Mas olhei para outro romance meu, inédito, Dricas, de que gosto muito, encalhado, e resolvi: “Chega também disso”.

Triste – Sad – and tired – cansado, resolvo – como não sei ficar ocioso - começar novo poema longo – Marco do Mundo – já que o primeiro – Trigal com Corvos – me consumiu catorze anos na sua produção. A ideia é a de, assim, “levar a cruz até o fim”, pois completo setenta anos em 2011 e dificilmente terminarei nova empreitada assim longa, muito menos me preocuparei em editá-la.

Aí veio a inesperada e estupenda experiência de novamente trabalhar como ator, agora com dois grandes diretores pernambucanos - Kléber Mendonça Filho e Marcelo Gomes – nos longas O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, entre setembro e novembro do ano passado, o que foi – para mim – a gota d´água. Tendo sido insistentemente convidado para um teste para o primeiro – o que já me causou surpresa - , e sendo – ainda mais surpreendentemente – aceito, ainda mais impactado fiquei quando, no final da primeira produção, fui convidado para um teste para a segunda, que andara buscando um ator para o papel de pai de Verônica em Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa e Fortaleza. “O que está havendo?”, perguntei-me ao ser o escolhido. Ao viver intensamente essas histórias, em lugar de cerebralmente escrevê-las, senti – definitivamente – que o tempo do romance foi o século XIX, que teve morte datada na metade da centúria seguinte. Exatamente o que aconteceu com a pintura. A fotografia, nesse caso, e a fotografia em movimento, no anterior, mudaram tudo.

Dez anos sem almoçar, quando ainda trabalhava no Banco do Brasil, pra ter algum tempo pra escrever! E a renúncia, evidentemente, de qualquer futuro numa carreira na empresa. O mesmo comportamento do garoto que, alucinado por uma coleção de histórias em quadrinhos de grande porte – as épicas Epopéias da EBAL – deixou de lanchar, nos anos 50, para, com o dinheiro, comprar os números atrasados dessa revista. Como já disse, vivi teofanias à custa de não sei mais quais sacrifícios, mas não consegui passá-las a meus leitores.
Em parte devido às minhas limitações, em parte devido às limitações da literatura.

Exausto, ao terminar os dois longas pernambucanos, tive ainda dois curtas paraibanos em seguida – A Arte de Pedir Aumento ao Chefe, do Dowling, e Antoninha de Laércio Ferreira, um em João Pessoa, outro a quatrocentos quilômetros daqui, no alto sertão do sítio Acauã, em Aparecida. Exausto, porque me concentrei até o esgotamento total nos quatro personagens que interpretei. Exausto porque, ao mesmo tempo, vi que correra a vida toda na raia errada.

sábado, fevereiro 19, 2011

AVISO AOS NAVEGANTES

Este Blog se reserva o direito de não acatar mensagens anônimas. Identifique-se. É o certo e o mais educado. HC

DONA ODETE

Maria Lucia Silva Rosas Ribeiro - nome pomposo não acham? Pois é o nome da minha amiga de longas datas e aventuras, paraibana da gema, como eu exilada no Recife há décadas. Curiosamente somente fomos nos conhecer aqui na Mauricéia. Morávamos perto, nos freqüentávamos, nossos filhos ainda pequenos e amigos. O mundo rodou, a fila andou e nossos caminhos foram em direção oposta. Até que, não mais que de repente "Lucia Cravo" me reaparece e como podem verificar em muito bom estilo. Não sei se a chamo de Lucia Rosas ou Lucia Cravo, como eu a chamava, até porque ambas são flores, que nem ela. Seja bem-vinda, Lucinha. HC

Maria Lucia Silva Rosas Ribeiro

Tudo ocorreu nos idos de 80. Era Carnaval. Nessa época todos os carnavalescos que nem eu, “enlouqueciam” ao ouvir os primeiros acordes de Vassourinhas. Fantasias eram encomendadas, cantis comprados, planos traçados. A questão maior era brincar “de leve” ou “pra valer”. Isto, no bom português da época, significava beber, namorar, dançar e realizar outras peripécias, com pouca ou muita intensidade. Na prática, nunca, nada era de leve. Donde sempre se concluía que não valia a pena planejar. Fosse o que Deus quisesse. Como se o nosso Pai Celestial tivesse algo a ver com aquela coisa pecaminosa. Mas, era assim que os incautos pecadores pensavam.

Cecília não era diferente nesses aspectos. Mas, em outros, seria quase que uma estranha no ninho. Era inexperiente e ingênua. De boa fé, melhor dizendo. Separada do marido há muito pouco tempo, estava querendo refazer toda a sua vida, principalmente a afetiva. E, entre uma prévia carnavalesca e outra, conheceu Arnaldo. Rapaz de aparência boa, jeitoso com as mulheres, bom de “papo”. Vinha bem a calhar. Principalmente pela carência acumulada da moça. Ela, bonita, inteligente e muito agradável, despertou grande interesse no jovem que, por sua vez, também estava solteiro. Aí, como se diz, juntou-se a fome com a vontade de comer. Literalmente.

Acontece que, naquele tempo, não havia essa prática de hoje: “ficar”. Até porque moça que “ficava” no primeiro encontro era “mulher fácil”. Ficava mesmo era “falada”, comentada para todo o sempre. Sendo assim, Cecília marcou encontro, para o sábado de Carnaval, à noite, no Clube Atlântico de Olinda. “Point” do que havia de melhor em matéria de intelectuais, artistas, profissionais liberais e assemelhados.

A partir daí, todos os seus pensamentos, palavras e obras passaram a existir em função daquele dia. Todos os detalhes eram planejados. Na vestimenta, desde as externas às mais íntimas, tudo teria que combinar em perfeita harmonia, de forma a impressionar e, claro, incentivar os instintos masculinos do desejado mancebo. O batom, que cor teria? A sombra, mais ou menos carregada? Com ou sem carmim? E o perfume, suave ou forte? Tudo teria que ser na medida certa para não dar impressão equivocada. O importante era estar bonita, muito bela. Charmosa como uma Rainha.

Finalmente chega o dia tão sonhado. Combinaram, ela, Anacléia e Risolene. Se encontrariam à tarde para assistir ao desfile das Agremiações, ir à concentração do “EU ACHO É POUCO”, dar uma esticada até as “CONCUBINAS DO SULTÃO”.Tempo mais do que suficiente para chegar ao baile do Atlântico. Em meio a tudo isso, encontrariam outros amigos e fariam um lanche para renovar as energias. Assim foi feito.
Cecília tinha uma preocupação saudável e prudente, que valia para ela e para os amigos, a de não beber de estômago vazio. Assim evitaria o inconveniente efeito do álcool, quando ingerido sem antes dar uma “forrada”. Pensando nisso chamou as “meninas” para uma rápida refeição, em uma das muitas barracas instaladas na Praça do Carmo.

Como estavam, as três, tomando uma cervejinha esperta, optaram por comer um espetinho de churrasco. Gostoso, sem dúvida, embora de absoluta suspeita quanto à sua origem e higiene. Mas. Como dizíamos todos nós: “ triste do bicho que outro engole” E, foi com base nessa sábia, mas irresponsável teoria que começaram a degustar o apetitoso”tira-gosto”quando, de repente, ouviu-se um terrível grito, misto de dor e indignação. Na ânsia de saborear o tal churrasquinho, Cecília quebrou o dente. E, logo o frontal, aquele que formata a expressão do sorriso, do rosto. Que define a fachada da criatura. E agora, como iria ao encontro do tão esperado príncipe?

Horrorizadas e sensibilizadas com a desgraça da amiga, Anacléia e Risolene tiveram, imediatamente, a idéia de procurar um dentista. Mas, àquela hora, sábado de carnaval, onde achariam uma alma caridosa e, sobretudo sóbria, que tirasse Cecília daquele “sufoco”? Movidas pela solidariedade, mas, sobretudo pelo já razoável grau de teor etílico, resolveram sair à procura de um consultório odontológico. Seguindo a intuição feminina, subindo e descendo ladeiras, ouvindo indicações de moradores da cidade baixa, empurradas por foliões inspirados por frevo, aguardente e cerveja, chegaram à casa de Dona Odete, numa das ruas de Bonsucesso.

Àquela altura, todo o visual de Cecília, tão meticulosamente produzido, já tinha ido suor abaixo. Mas, não fosse por isso, o importante era consertar o dente. Portas fechadas resolveram arriscar. Bateram palmas, chamaram, na esperança que Dona Odete as atendesse. Quando, desesperadas, já pensavam em desistir a porta se abriu. Eis que aparece uma figura pra lá de exótica. Aproximadamente 1.70m de estatura, com peso estimado em 140kg. Seria uma pessoa como tantas outras que circulam por esse mundo de Deus, não fosse o estranho visual: vestido longo, confeccionado em tecido dourado, todo bordado em paetês, minúsculas pedrinhas vermelhas, verdes e azuis. A maquiagem puxa vida, deixou a pobre da Cecília completamente humilhada. Perfeita, com mil tonalidades de brilho. Sobrancelhas bem definidas e pintadas com cor preta carregada. Complementadas com longos, enormes cílios postiços. Sem esperar qualquer pronunciamento das visitantes – sequer desejou-lhes Boa Noite – foi logo dizendo:

- “meu expediente de hoje acabou. Estou de saída para o baile”.

Levou um copo americano à boca, bebendo com imenso prazer o líquido nele contido, comentando ser “de primeira” o "Pau do Índio" preparado pelo marido. Depois de tudo que haviam enfrentado e com a perspectiva de ver todo o sonho da amiga descer pelo ralo, “as meninas” sentaram no batente da porta e começaram a chorar. Ao mesmo tempo em que contavam a Dona Odete a terrível tragédia.

Mas, Deus é Pai, diziam elas depois. A profissional do subúrbio compungida, visivelmente sensibilizada com tudo que ouviu, deu mais um gole, olhou longamente para os olhos lacrimejantes de Cecília, para o dente que segurava entre o polegar e o indicador, dizendo: ”sente ali naquela cadeira, vou ver o que posso fazer por você”. Apanhou, na gaveta de um pequeno móvel localizado no corredor, próximo à cozinha, um tubinho minúsculo. Uma gotícula do milagroso líquido gelatinoso resolveu, como num passe de mágica, o problema.
Ainda disse: ”minha filha, você pode comer todos os churrasquinhos que quiser. Esse dente não cai mais. Só se for outro”.

Feito o pagamento – que em moeda de hoje equivaleria a aproximadamente, dois reais – e devidamente recompostas, correram para o Clube Atlântico. A tempo de assistir a entrada das principais personalidades e autoridades convidadas. E, como não poderia deixar de ser, a chegada de Arnaldo fantasiado de Pierrot Apaixonado.

Bem, o final é de fácil e óbvia conclusão. O que pode contou às amigas. O censurado ficou por conta da imaginação.

E Viva a grande Dona Odete que realizou obra tão competente. O dentista de Cecília que o diga. Na Quinta-Feira seguinte teve um enorme trabalho para desfazer o improviso. Nem a broca resolveu. Foi obrigado a lançar mão de outros instrumentos.

Esta crônica é para as minhas velhas amigas Vilna Serpa, Graça Barreto e Cléa Wanderley, também, grandes companheiras de antigos carnavais. Aqui e alhures.

Recife - Final do Século XX



Cadê o Museu Guggenheim?

Plínio Palhano

Em 2001, a Fundação Guggenheim promoveu, no Brasil, uma apresentação das suas estratégias para instalar uma das sucursais do Museu Guggenheim no País e, depois, expandir pela América Latina, reunindo, na ocasião, secretários de Cultura. É possível imaginar a parafernália tecnológica para fornecer aos participantes do encontro uma visão da grandiosidade sedutora desses museus no mundo. O País foi tomado por uma febre guggenheimniana, e explodiram notícias nutridas com polêmicas em grande parte nas capitais. No Recife, só se pensava “grande”, quando naturalmente poderia se pensar simplesmente com realidade, porque bastava perceber e procurar resolver primeiro os problemas dos nossos museus.

Fui um dos primeiros a expressar, em artigo, que seria inviável uma sucursal do Museu Guggenheim no Recife, porque não havia condições econômicas e sociais que possibilitassem um museu desse porte, que requer uma estrutura inimaginável para os tantos problemas básicos que já tínhamos (e temos) para resolver. Teria que se destinar toda a verba municipal da cultura e mais outras para instalar e manter o museu; seria como uma obra cultural única, porque, depois de sua construção, não existiria mais nada por fazer a não ser manter o monstro sagrado vivo, sacrificando todas as outras instituições culturais — certamente, estas morreriam de inanição, sem chance para ressuscitar.

Bastaria, no caso, olhar para dentro, isto é, para os museus que temos, e ver as coisas simples que faltam aos seus diretores para atuarem com mais eficiência. É necessário um projeto político-cultural mais amplo, que possa oferecer um aperfeiçoamento nessa estrutura, além de um corpo técnico especializado permanente, e destinar verbas corajosas para a divulgação da cultura plástica local.

A informação que se tem hoje é de que o diretor de estratégia global da Fundação Solomon R. Guggenheim, de Nova York, Juan Ignácio Vidarte, desistiu dos projetos que teriam como finalidade abrir novos museus no Brasil e no México. Segundo ele, “a Fundação está interessada exclusivamente no Museu Guggenheim de Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos”. Isso depois de gerar, no Brasil, imensas polêmicas, principalmente no Rio de Janeiro, quando a comunidade repudiou a forma como a prefeitura estava negociando com a Fundação Guggenheim. E, no México, faltou dinheiro público para embarcar no projeto. Claro, os Emirados Árabes serão um paraíso para um novo Museu Guggenheim.


Plínio Palhano - Artista Plástico
ppalhano@hotlink.com.br

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

ASSIM COMEÇOU O POVOAMENTO DA BAHIA...

A Torre do Tombo é o local onde se guardam todos os documentos antigos. Está situada em Lisboa, junto à Cidade Universitária.
Sentença de 1587 - Trancoso, Portugal

Arquivo Nacional da Torre do Tombo

SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas. Da própria mãe teve dois filhos.” Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres". Não satisfeito tal apetite, o malfadado prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento, que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa, infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais, completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.

"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador como colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

NR: Decididamente já não se fazem mais padres como antigamente. Os padres de hoje, a exemplo dos comunistas, só comem criancinhas! HC

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

A trajetória do PT


Editorial - O Estado de S.Paulo - 17 de fevereiro de 2011

Quando foi fundado, o Partido dos Trabalhadores (PT) se proclamou agente das transformações políticas e sociais que, pautadas pelo rigor da ética e pelo mais genuíno sentimento de justiça social, mudariam a cara do Brasil. Trinta e um anos depois, há oito no poder, o PT pode se orgulhar de ter contribuído - os petistas acham que a obra é toda sua - para melhorar o País do ponto de vista do desenvolvimento econômico e da inclusão social. Mas nada no Brasil mudou tanto, nessas três décadas, como a cara do próprio PT. O antigo bastião de idealistas, depois de perder pelo caminho todos os mais coerentes dentre eles, transformou-se numa legenda partidária como todas as outras que antes estigmatizava, manobrada por políticos profissionais no pior sentido, e, como nem todas, submissa à vontade de um "dono", porque totalmente dependente de sua enorme popularidade. Esse é o PT de Lula 31 anos depois.

Uma vez no poder, o PT se transformou em praticamente o oposto de tudo o que sempre preconizou. O marco formal dessa mudança de rumo pode ser considerado o lançamento da Carta ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, a quatro meses da eleição presidencial em que pela primeira vez Lula sairia vitorioso. Concebido com o claro objetivo de tranquilizar o eleitorado que ainda resistia às ideias radicais e estatizantes do PT no âmbito econômico, entre outras coisas a Carta arriou velhas bandeiras como o "fora FMI" e passou a defender o cumprimento dos contratos internacionais, banindo uma antiga obsessão do partido e da esquerda festiva: a moratória da dívida externa. Eleito, Lula fez bom uso de sua "herança maldita". Adotou sem hesitação os fundamentos da política econômico-financeira de seu antecessor, redesenhou e incrementou os programas sociais que recebeu, barganhou como sempre se fez o apoio de que precisava no Congresso e, bafejado por uma conjuntura internacional extremamente favorável, bastou manejar com habilidade os dotes populistas em que se revelou um mestre para tornar-se um presidente tão popular como nunca antes na história deste país.

E o balzaquiano PT? O partido que pretendia transformar o País passou a se transformar na negação de si mesmo. E foi a partir daí que começaram as defecções de militantes importantes, muitos deles fundadores, decepcionados com os novos rumos, principalmente com os meios e modos com que o partido se instalou no poder. O mensalão por exemplo.

Os anais da recente história política do Brasil registram enorme quantidade de depoimentos de antigos petistas que não participaram da alegre festa de 31.º aniversário do partido - na qual o grande homenageado foi, é claro, ele - porque se recusaram a percorrer os descaminhos dos seguidores de Lula. Um dos dissidentes é o jurista Hélio Bicudo, fundador do PT, ex-dirigente da legenda, ex-deputado federal, ex-vice-prefeito de São Paulo. Em depoimento à série Decanos Brasileiros, da TV Estadão, Bicudo criticou duramente os partidos políticos brasileiros, especialmente o PT: "O Brasil não tem partidos políticos. Os partidos, todos, se divorciaram de suas origens. E o PT é entre eles - digo-o tranquilamente - um partido que começou muito bem, mas está terminando muito mal, porque esqueceu sua mensagem inicial e hoje é apenas a direção nacional que comanda. Uma direção nacional comandada, por sua vez, por uma só pessoa: o ex-presidente Lula, que decide tudo, inclusive quem deve ou não ser candidato a isso ou aquilo, e ponto final".

Bicudo tem gravada na memória uma das evidências do divórcio de seu ex-partido com o idealismo de suas origens. Conta que, no início do governo Lula, quando foi lançado o Bolsa-Família, indagou do então todo-poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu, os objetivos do programa. Obteve uma resposta direta: "Serão 12 milhões de bolsas que poderão se converter em votos em quantidade três ou quatro vezes maior. Isso nos garantirá a reeleição de Lula".

De qualquer modo, há aspectos em que o PT é hoje, inegavelmente, um partido muito melhor do que foi: este ano, com base na contribuição compulsória de seus filiados, pretende recolher a seus cofres R$ 3,6 milhões. Apenas 700% a mais do que arrecadava antes de assumir o poder.

O PT está completamente peemedebizado.

Dúvidas e crenças sobre o misterioso Universo



José Virgolino de Alencar






De minha janela, contemplo o céu, o firmamento;

O que será que há além do céu, parte azul, parte nublada?

Vejo o mar imenso, até a linha do horizonte, traçada

Pelo arquiteto-mor do Universo; paira um momento



De dúvida, de agnosticismo; porém, na fundada crença,

Meu subconsciente cobra-me visão com fé espiritual,

Convenço-me de que há um ente superior, sacral,

Construtor do cosmo sideral e quem sabiamente pensa



Sente o mistério, pouco sondável, mas plenamente crível,

Sobre a existência desse arquiteto que desenhou a partir

Do nada que se fez tudo, e aos nossos olhos fez surgir

Uma realidade que somente com fé conhecer é possível.



Vejo as matas, os rios, as cachoeiras, os pássaros, enfim

A bela natureza, tão perfeita, quadros de arte admirável,

Pintados com tintas, cores, matéria-prima não palpável,

Encantamento indescritível; entanto, a mente vê, sim,



E crê, ainda que não desvende a origem da criação,

Que é real, é um produto tangível, nele se toca,

Olfata-se o aroma, ouve-se o rugir do vento e se foca,

Se deslumbra com tanta - e pouco explicável - emoção.

Memórias do Liceu


ANCO MÁRCIO DE MIRANDA TAVARES

Eu tinha uma pasta meio amarelada e diariamente levava todos os livros, somente pra aparecer. Nos dias da aula de Trabalhos Manuais, eu levava também uma folha de compensado, serra, arco e tudo o mais para a decupagem. Sentava na carteira da frente, era o número dois na chamada, e fiquei impressionado com Dona Mauri a professora de francês, quando ela falou na primeira aula:

- De agora por diante nós só vamos falar francês...

Mas não explicou que era somente na aula e eu me vi angustiado em casa perguntando "parlez vous" pra minha mãe, Me apaixonei à primeira vista pela professora de História do Brasil. Também...Quem não se apaixonaria pelo rostinho lindo de Leda. Ela falando em Capitanias Hereditárias e eu pensando em namorar com ela.

Fui com meu pai na loja de Inácio Vinagre, comprar o material da aula de Educação Física. Calção, camiseta, sunga e tenis. Duas vezes por semana, eu acordava às cinco e ia em jejum, ouvir Velosão dizer "e um , e dois e três" e depois um gostoso refresco garapão com pão doce na cantina de Luiz...

Lembro do dia em que, levados por um professor, entramos na mãquina do relógio da torre. Porra, meu! Fiquei encantado com as engrenagens que faziam os ponteiros andar e com os sinos com dois martelos de lado, que soavam nas horas e meia horas. Voltei pra casa e fiquei falando nisso o dia todo...

Lembro do Gordo Cabral que um dia levou pro Liceu uma revista de mulher nua... Ficamos todos entusiasmados!! Uma loura com cada peito que dava meio quilo e um monte de cabelos entre as pernas. Naquele dia foi grande a movimentação dos banheiros, pois os "mãos cabeludas" ficaram excitados...

Estavam construindo o IEP e a gente ia pra lá, olhar as meninas fazendo ginástica. Maneca trouxe um binóculo e olha lá, Lurdinha do volley com aqueles coxonas bem na minha cara...Olha lá Nice, olha lá Nira, bem ao alcance de nossos olhos meninos!! Maneca viu que a gente tinha gostado e começou a cobrar deztões pela olhada, o safado!!

Liceu, que o tempo num traz mais. Liceu que eu frequentava de calça caqui remendada e blusa cinza, mais remendada ainda...Toda cerzida pela minha mãe... Eu sou um pobre congênito. Mas eu nem ligava... Tava nem aí... O que eu queria mesmo nesse tempo antes do teatro, era jogar no Come e Dorme, cujo famoso trio final era o seguinte: Cabral, Anco e Edson.Três merdas jogando, três refinados merdas...

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

"PÁTRIA MADRASTA VIL"


Clarice Zeitel Vianna Silva

Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL. Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.

O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições. Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.

A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade.

Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-naClarice Zeitel Vianna Silvada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!

É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem! A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.

Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?

Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.

Afinal, de que serve um governo que não administra?
De que serve uma mãe que não afaga?
E, finalmente, de que serve um homem que não se posiciona?

Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos.

Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído? Como gente... Ou como bicho?


Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade' A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

Hoje é Dia de Frevo

Recebi da minha amiga Lucia "Cravo" este clip carnavalesco. Muito bem elaborado como clip e como representação cultural. Até um paraibano desanimado como eu se empolga. A sequência final, não sei o porque, me lembrou Fellini. HC

"Hugão, ao ver este video lembrei, imediatamente, do seu Blog. Pela época. Estamos em "pleno carnaval". Acho que animaria bastante a todos. E seria bem oportuno. É a nossa belíssima cultura. O que acha? Apenas quero contribuir com o Blog, por meio dessas apresentações maravilhosas. Beijão, Lucia Rosas."


terça-feira, fevereiro 15, 2011

Enquanto o salário mínimo não sai...

Coitada, era uma bezerrinha tão bonita... Estava até de casamento acertado com o garrote Zebedeu do cumpade Luís... Tadinha, morreu...!

Um exemplo a seguir


Vejam vocês a força da Web. O Faraó Mubarak dançou mercê da arregimentação via web para os protestos na Praça Tahrir na cidade do Cairo. Não agüentou um mês a pertinácia e a obstinação do povo. O povo, quando quer opera milagres. Postei aqui, neste mesmo Blog no dia 07 do corrente um clip com denúncia sobre o pouco caso que A Brastemp estava tendo em relação à reclamação de um cliente. Vocês devem lembrar pela ilustração acima. Pois muito bem, menos de uma semana depois vejo no jornal da televisão que a empresa talvez pressionada pela publicidade negativa resolveu o problema que se arrastava há meses, numa fração de segundos. Que bom, sinto-me recompensado por ter cooperado para difundir o clip/protesto. Que tal começarmos a usar essa força no tocante à corja dos 3 poderes? Vamos arranjar uma Praça Tahrir por aqui? Pensem nisso! HC

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Frase Lapidar do Dia

“Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e de Gabriele D’Annunzio”. Diogo Mainardi

O VERBO E A VERBA DOS POLÍTICOS

O artigo abaixo foi escrito em fevereiro de 2007 e publicado nos Sites aqui citados. O Brasil mudou de governo central, mudaram os governadores de Estado e todo o parlamento. Porém, não tenho dúvida de que o panorama continua o mesmíssimo e, pela impunibilidade, só tende a piorar.

José Virgolino de Alencar

No princípio, fala a Bíblia, era o verbo, a palavra, o expressar o pensamento, preliminarmente com sinceridade e na evolução com qualidade. Stendhal afirmou, ironicamente através de um personagem, que o homem usa a palavra para esconder o pensamento. Queria dizer o autor de “O Vermelho e o Negro” que, quando o homem está falando, deixa o que está verdadeiramente pensando em background, encoberto, e expõe ou expele só a insinceridade.

O aforismo de Stendhal não deixa de ter um fundo de verdade, embora, por coerência, o escritor, ao pronunciá-lo, também pode ter deixado o verdadeiro sentido do que queria dizer escondido por trás das palavras que escreveu. Em verdade, os políticos dão razão a Stendhal e com um agravante. Eles escondem o seu verbo no fundo do subconsciente mentiroso quando estão falando aos eleitores/espectadores/cidadãos, porque o seu subconsciente está pensando mesmo é em verba.

Verbo e verba é o binômio que dá toda motivação de vida ao político, é alimento que mata a sua fome e água que sacia a sua sede de poder e da ambição de juntar, quanto o mais possível, a verba. Ele só gasta verbo se resultar em boa verba. Outro agravante, é que o político somente busca o caminho da verba pública, do dinheiro que os cidadãos mandam para os tesouros públicos em forma de impostos. Na verba governamental, da sociedade portanto, o político vai como abelha no mel e até como urubu em carniça.

A verborragia do político esconde o vício verbanômano ou seja, a viciada dependência da verba. Como disse lá no início dessa crônica, o verbo, a palavra, devia expressar o pensamento de forma sincera e evoluir para o verbo de qualidade. Contudo, o político usa o verbo mal-articulado, nunca aprende a falar bem, preocupa-se mais com a esperteza no falar, isto porque com sua meia-dúzia de vocabulário padrão, com os chavões repetitivos, ele consegue muita verba que se acumula a cada dia, enquanto a sociedade fica sem escola para aprender o verbo e sem condições para ganhar honestamente a verba.

E quem consegue por competência cobrar boa verba remuneratória por seu trabalho de qualidade, vem os políticos e lhe tomam boa parte da verba, metendo a mão no seu bolso, retirando, via carga tributária, significativa parcela da verba salarial. Assim, o verbo é sacrificado na qualidade e a verba é desviada na finalidade e na quantidade.

E a revelação bíblica, “no princípio era o verbo e com o verbo se fez a vida”, muda para o “verbo se fez verba” que é a vida e o alimento dos políticos.

Tão longe do Cairo

Yoani Sánchez

O Estado de S.Paulo - 13-02-2011

A cena durou alguns segundos na tela, um clarão fugaz que nos gravou na retina a imagem de milhares de pessoas protestando nas ruas do Cairo.

A situação era descrita pela voz empostada de um locutor cubano, que sustentava que a crise do capitalismo havia feito explodir o inconformismo no Egito e as diferenças sociais estavam afundando o governo.

Ele apenas mencionou que um ciclo de quase 30 anos estava desmoronando em apenas uma semana, justo lá, um país onde a história se mede com números de quatro cifras.

A alusão entre nós à prolongada permanência no poder de Hosni Mubarak foi - como observa o cancioneiro popular - o mesmo que "falar de corda em casa de enforcado", insinuar que em nosso próprio quintal um autoritarismo de cinco décadas também excedeu sua data de validade.

Talvez para evitarmos essa comparação, os meios de comunicação estatais se mostraram cautelosos com as notícias que chegavam do Norte da África. Eles nos administram a colheradas a narração dos fatos, sem insistir em todos os motivos que empurraram o povo a colocar limite ao mandato personalista de um octogenário.

Apesar do sigilo jornalístico, outros fragmentos do ocorrido chegaram até nós pelas redes alternativas de informação.

A prudência oficial não pôde evitar que nos surpreendêssemos com a vista aérea da Praça Tahrir que vibrava ao ritmo da espontaneidade, quando por estes lados há muito anos que não se vê essa fraqueza na sóbria e cinzenta Praça da Revolução.

Era inevitável que, ao observar a multidão manifestando-se com cartazes, terminássemos fazendo a pergunta que aquele locutor queria afastar de nossas mentes: Por que não ocorre algo assim em Cuba?

Se nosso governo é de data mais antiga e o colapso econômico se converteu em elemento inseparável de nossos dias, o que impede que empreendamos o caminho do protesto civil, da pressão pacífica nas ruas?

O Egito veio sacudir-nos em nossa mansidão e o arrojo de outros nos defrontou com nossa apatia, nesta nação onde o tempo se mede em efemérides "revolucionárias".

Yaoni Sanchez é uma filóloga e jornalista cubana que alcançou fama internacional e vários prêmios por seus artigos e críticas à situação na ilha de Fidel Castro e de seu hermanito, Raúl Castro. É conhecida por seu blog Generación Y, (14º Blog de baixo para cima na lista de blogs, à direita de quem vai), editado desde 2007, com a maior dificuldade, simplesmente porque não pode acessá-lo de casa, razão pela qual se auto-definiu uma blogueira "cega". A revista Time a incluiu em sua lista de "cem pessoas mais influentes de 2008", dizendo que "debaixo do nariz de um regime que nunca tolerou dissensão, Sánchez exerce um direito não garantido aos jornalistas que trabalham com papel: liberdade de expressão". Há poucos dias Yaoni Sanchez iniciou sua colaboração com "O Estado de São Paulo". HC

Aviso aos Navegantes

O artigo de W.J Solha, "Irmãos de Criação" foi retirado do ar por deficiência técnica na diagramação. A postagem retornará tão logo seja resolvido o problema. HC.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Morreu Maria Preá...

Essa é uma história de ficção inspirada em um cordel que me foi enviado. As ocorrências, os nomes e as localidades aqui citados são fictícios. Qualquer semelhança com situações e pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Hugo Caldas

O caso ficou conhecido como "O Falecimento de Maria Preá".

Antes de mais nada, mister se faz localizar geograficamente onde tudo aconteceu. Foi em Brejo de Xaxerê do Norte, umas doze léguas pra lá dos Cafundós do Judas, ainda em solo paraibano, bem pertinho da fronteira com o Ceará. Lugar inóspito, de uma secura abrasadora, na verdade a região jamais fora amena. A seca era como um castigo de Deus. Dizia-se que dava para fritar ovos na calçada da Pracinha. Chuva, por ali só de dez em dez anos ou quando muito apenas na imaginação dos poucos alunos da escolinha paroquial onde a professora Maria Gertrudes, derramava meia caneca d'água numa peneira para demonstrar o que era a chuva.

Quando Padre Belarmino aportou por aquelas bandas em 1937, chegado recém da sua ordenação em Roma, era homem bem-apessoado. Ainda lembrava muito o jovem padre saído do seminário de Lagoa Seca, em Campina Grande. Um padre cheio de esperanças e planos, nos seus quarenta e cinco anos de idade, para o serviço da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Além de professora na escola paroquial, Maria era muito chegada às coisas da casa do Senhor. Não se poderia afirmar em sã consciência que a professora Maria Gertrudes fosse uma beata, na mais completa acepção da palavra. Digamos que a jovem adorava perambular pelos altares da pequena igreja, sempre vigilante e sempre cantarolando o bendito favorito, boa zeladora que era.

A nós descei divina luz
A nós descei divina luz
Em nossas almas acendei
O amor, o amor de Jesus

Tinha o porte de princesa, vestia-se bem, sempre uma roupa leve que lhe vinha dos ombros e caia aos tornozelos. Falsa magra, belas pernas que apareciam furtiva e generosamente graças à uma pródiga fenda na saia. Seios rijos e túmidos, uma deslumbrante cor bronzeada, cabelos curtinhos, usava óculos com lentes marrom-claro embora não os necessitasse, falava num cicio, adocicando as palavras que lhe saíam num quase sussurro. Isso tudo, convenhamos, destrambelhou de vez a cabeça do Pe Belarmino que não se conteve quando certa tarde quente a viu trepada, pés descalços, no altar de Nossa Senhora da Conceição limpando diligentemente uma sujeirinha de azinhavre no sovaco do crucifixo. Não se conteve e ali mesmo puxou-a para si e perdendo o equilíbrio, caíram ambos em um providencial colchão de molas que havia por detrás do altar-mor. A agarração começou naquele instante e ali ele a amou pela primeira vez.

Da parte de Maria Gertrudes houve pouca ou nenhuma resistência ao assédio do padre. Deste dia em diante o caso com a professorinha virou um chamego, um amor louco, que só tendia a aumentar. Cada vez que Pe Belarmino ficava inquieto, de pronto aparecia Maria e lhe matava a fome. Uma bela e fogosa potranca nos seus trinta e dois anos de idade. O tempo foi passando e os dois se amando até que, por um descuido natural das pessoas que se amam, deixaram uma pista. Um pequeno bilhete amoroso onde se tratavam carinhosamente por Seu Moço e Dona Moça. De posse do bilhete comprometedor, analisando e tirando suas próprias conclusões, Pedro Sacristão terminou por flagrar os amantes no bem-bom. Foi num desairoso domingo, após a missa das dez. Maria e o padre foram até a cozinha preparar o almoço e não se sabe como, nem porque, se por artes do Diabo ou do deus Eros, caíram nos braços um do outro quando inesperadamente surgiu Pedro Sacristão berrando porta adentro: "Te peguei, Maria Preá”.

"Maria Preá" era o apelido de infância da professora Gertrudes. Daquele dia em diante o casal perdeu a paz, o sossego. Era uma chantagem por dia. Uma intimidação atrás da outra. Ameaça de contar para toda a cidade o segredo tão bem guardado. Seria um escândalo. E ainda exigia pagamento. Grandes quantias. Um inferno. Se Belarmino reclamasse o sacristão gritava nervoso e cheio de impaciência: "E a Maria Preá, e a Maria Preá"?

Pedro Sacristão era um sujeito branquelo, atarracado, sempre ostentando uma barba de uns três dias, asqueroso odiento e sempre suado. Não era evidentemente uma figura agradável à vista. Dizia-se que quando jovem Pedro Sacristão emigrara para o sul, mais especificamente para o Rio de Janeiro, onde à falta de outra habilidade acabou sendo ajudante de missa na Igreja da Penha. Esgotados todos os esforços para a sua permanência, teve que voltar à "Pequenina e Heróica" não sem antes, como última tentativa para manter-se no Rio, arriscar um trabalho de garçom e cantor de tangos em um cabaré de segunda, na Lapa.

De volta aos pagos tabajarinos, Pedro Sacristão veio cheio de salamaleques, cheio de pabulagem, forçando um sotaque carioca, o que não agradou em nada, porque as pessoas continuaram a vê-lo como o Pedro Sacristão de sempre. Uma inutilidade ambulante. Mas, em cidade pequena quem não é parente é compadre e logo começaram a descobrir e espalhar aos quatro cantos, certos fatos digamos, desabonadores da conduta do sacristão, fatos que davam conta que ele perdera no Rio a sua virgindade e voltara adepto de certas práticas pecaminosas tais como "a do amor que não ousa dizer o seu nome". Diante de tanto disse-me-disse foi formada uma comissão de senhoras da alta sociedade local para falar com Pe Belarmino que a tudo ouviu em compenetrado silêncio e ficou de apurar a veracidade das acusações.

A tudo estava atento o Nêgo Pilão. Pilão era um tipo estranho e bastante conhecido na cidade por seus hábitos nada ortodoxos com referência a sexo. Negro retinto, parecia um autêntico zulu, apresentava várias falhas nos dentes da sua bocarra. Olhos eternamente injetados pelo vício da bebida. Falava-se em surdina que, em matéria de sexo Pilão gostava mesmo era de outra fruta e que dia seguinte ao seu casamento com a filha do barbeiro Silvino, a devolveu à seus pais, taxativo:

- b..... só tem cartaz, bom mesmo é um c......!

Certo dia Pe Belarmino deu com Bentinho Alvaiade, negrinho de recados do Engenho Jaçanã, batendo nervosamente na porta da igreja. Era chamado às pressas por Dona Ermengarda Teixeira para ir dar a extrema-unção ao Coronel Epaminondas que dava mostras de querer partir desta para outra melhor. Na pressa reuniu os paramentos e somente se deu conta de que havia esquecido os Santos Óleos quando na estrada. Parou deu meia volta na charrete e rumou direto à casa. Ao chegar, bela surpresa!

Padre Belarmino foi entrando apressado na casa paroquial. Logo notou que havia algo de errado. O silêncio sepucral só foi quebrado ao ouvir sussuros e vozes não devidamente articuladas, emitidas por quem sente dor ou prazer. De súbito divisou na penumbra o sacristão na posição em que Napoleão perdeu a guerra, com as calças arriadas e por trás dele ninguém menos que o Nêgo Pilão bem animadinho, resfolegando que nem locomotiva ameaçando sair da estação. Padre Belarmino ante a cena dantesca, envergonhado, perdeu a voz. Entretanto, conseguiu sair do torpor, se recompôs e imbuído do mais puro sentimento cristão encheu os pulmões e com o desabafo entalado na goela há tempos, gritou:

"Pedro Sacristão, seu filho da puta, você se oriente, pois pra nós, daqui pra frente, morreu Maria Preá."

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

"Se non è vero...

Anda circulando pela net mas não se sabe se é fato, boato, calúnia, ou verdade

Acudam! Aqui D'El Rei! Dizem as más línguas que:

Um motorista do Senado ganha mais para dirigir um automóvel do que um oficial da Marinha para comandar uma fragata!

Um ascensorista da Câmara Federal ganha mais para servir os elevadores da casa, do que um oficial da Força Aérea que pilota um Mirage.

Um diretor que é responsável pela garagem do Senado ganha mais que um coronel do Exército que comanda um regimento de blindados.

Um diretor sem diretoria do Senado, cujo título é só para justificar o salário, ganha o dobro de um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional.

Um assessor de 3º nível de um deputado, que também tem esse título para justificar seus ganhos, mas que não passa de um "aspone" ou um mero estafeta de correspondências, ganha mais que um cientista-pesquisador da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, com muitos anos de formado, que dedica o seu tempo buscando curas e vacinas para salvar vidas.

Se tudo isso listado acima for realmente verdade... parem o Brasil que eu quero descer!

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Palavras são palavras, nada mais do que palavras...

Hugo Caldas

"Assim
como as flores abrem as suas pétalas para receber o orvalho da manhã, abra também o seu coração"... para a leitura desse pequeno exercício.

"Dito Assim parece à toa". "Assim como era no princípio agora e sempre por todos os séculos dos séculos amém" que, aliás, significa "Assim Seja". Mas as coisas são "Assim mesmo". "Assim, ou Assado".

"Assim,
é a palavra da moda. Em Pindorama acontece de tudo. O vocábulo fica sendo usado por nove entre dez pessoas e dentro em pouco desaparece no oco do mundo. Não tem cristão nessa terra que o encontre. "Assim".

Mas vejamos: A palavra "Assim tem 5 letras, 2 vogais (a, i) e 3 consoantes (s, s, m). Vem do latim ad + sic. Pode ser advérbio ou conjunção. Para muitas pessoas a palavra "Assim" tem um significado especial sendo usada hoje, em substituição ao nosso velho e conhecido "Por exemplo". "Assim falou Zarathustra". Ponto final. A palavra escrita ao contrário é "Missa".

"Assim
caminha a humanidade" já foi título de filme e de música do Lulu Santos. "Assim na Terra como no Céu". "E Assim por diante". "Simples Assim", "Assim que possível" (galicismos?). "Como Assim?" "Eu sou Assim, quem quiser gostar de mim, eu sou "Assim", dizia o compadre Paulinho da Viola. O enigmático "Assim seria se Assim fosse". O constrangedor "continue Assim", (porque senão..). O determinista "Assim estava escrito". Mas, "foi Assim, a lâmpada apagou" cantava o grande Miltinho com sua bela voz fanhosa. "Assim como tu", cantava também o romântico Dick Farney. Sem esquecer o hodierno "Tipo Assim". Assim não dá.

O vocabulário dos jovens de hoje se resume à uma penca de expressões abomináveis que se constituem em um patoá desprezível. Simplesmente não sabem falar na língua de gente: qualquer hora vão ficar caladinhos que nem uma porta por absoluta incapacidade de articular uma palavra sequer.

Existe solução? Duvido muito. O que fazer ao constatarmos em programa de tv, com maioria absoluta de jovens na platéia, uma senhora por nome Márcia Tiburi, auto-intitulada filósofa e escritora, falar coisas como: então, (já foi a coqueluche do momento, hoje está fora de moda), Assim, tipo Assim...

Realmente, assim não dá.


Casamento: humor e seriedade na sacra instituição

José Virgolino de Alencar

Uma atriz de Hollywood, da velha guarda e não lembro o nome, disse a seguinte frase sobre a primeira noite do casamento: “Vamos dormir com o sonho e acordamos com a realidade”.

Millôr Fernandes, na sua genialidade e irreverência, sentenciou, dessa maneira, o casamento:
“Casamento são sete dias de prazer e o restante de problemas”.

Lembro também a conhecida frase: “A cara-metade é a metade mais cara”.

Atrevidamente, também formulei a minha frase sobre a relação conjugal: “O casamento é invenção de um ente maldoso para desunir duas pessoas que se amam”.

Claro que todas as frases acima são pensamentos brincantes dos autores, para lembrar aquele lado da união a dois, o lado da convivência do dia-a-dia de duas pessoas de sexo, mente, universo biopsíquico e personalidade diferentes, tornando inevitáveis os conflitos, desentendimentos e a singular egolatria de cada pessoa, na condição de seres humanos.

Contudo, não há dúvida de que o casamento abençoado por Deus, a lei dos homens não consegue separar, enquanto a união não sancionada pela benção do Pai nem se precisa das leis laicas para a separação de homem e mulher que se uniram sem base no amor firmemente racional.

O jovem sacerdote Reginaldo Manzotti, em sua obra “10 respostas que vão mudar sua vida”, disserta na introdução do tema:

“O casamento é uma ligação permanente de dedicação entre um homem e uma mulher, como revela a Palavra de Deus: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu(Mt 19,5-6).

Todos sabemos, no entanto, que a vida entre quatro paredes não é cor-de-rosa. É difícil encontrar um casal que nunca tenha enfrentado conflitos, mas isso não quer dizer que o casamento esteja fadado a não dar certo. Tudo vai depender da maneira como se lida com os conflitos: se existe comunhão com Deus, eles serão resolvidos, porque Nosso Pai é o mentor da família; Ele a planejou e quer ajudá-la a se manter.

Basicamente, o principal conflito entre marido e mulher advém do fato de um não conseguir compreender o outro, afinal, apesar de serem considerados uma só carne pela Palavra de Deus(MT 19,5-6), cada um tem seus próprios anseios e seu jeito de ser. Essas diferenças geram as brigas, que viciam e fazem perder o respeito, sendo necessário parar e refletir, procurando conectar cada atitude com a razão e o coração. O diálogo também é muito importante no casamento: é preciso conversar sobre os problemas, com maturidade e respeito, numa busca mútua por resolver a causa do conflito, e não simplesmente ‘colocar uma pedra sobre o assunto’, como se nada estivesse acontecendo. Não existe nada mais perigoso para uma relação do que acumular situações malresolvidas. Com o tempo, elas se transformam em mágoas.

Sei que muitas vezes, é mais fácil se abrir e expor seus sentimentos e dúvidas para uma pessoa de fora do que para alguém muito íntimo, que tende a ter uma visão parcial justamente por ser uma das partes envolvidas. Não é à toa que as linhas telefônicas do meu programa de rádio vivem congestionadas. As perguntas são muitas e vêm de toda parte, por isso selecionei aqui as mais recorrentes na esperança de que possam servir como diretriz para o seu caso”.

Em verdade, o tema é complexo, prefiro ficar alinhado com a posição do Pe. Reginaldo, desejar que o casamento seja eterno e, em um esforço possível, sem conflitos que desatem o nó da união sacramentada por Deus.

Eu, por exemplo, embora não queira apresentar-me como solução e verdade única para o casamento, tenho 32 anos de casado, um casal de filhos, enfrentando todas as circunstâncias citadas pelo sacerdote em sua obra, contornando os problemas com diálogo, renúncia, respeito à individualidade companheira e plena integração na fé cristã, mantenho a união com minha esposa na plena certeza de que só a morte nos separará.

Por fim, brincadeiras à parte, o casamento, como instituição sagrada, é coisa séria.

Não é uma Brastemp...

Meus Caros

Recebi este vídeo/denúncia com pedido de repasse. Como as coisas em Pindorama beiram ao surrealismo, tentei comprovar a veracidade da citada denúncia. Mas, como? E mais, seria mesmo necessário? O vídeo se encontra no YOUTUBE. Ou melhor, o cavalheiro denunciante se daria ao trabalho de armar o maior circo apenas por uma brincadeira inconseqüente? Enfim, decidi postar aqui no Blog. Até por uma questão de solidariedade com quem está sofrendo por conta da irresponsabilidade, para não dizer, a desonestidade, de certas empresas ditas de confiança. Bom, fiz a minha parte, cabe agora a você leitor, usar a força da Internet, e encaminhar da melhor maneira possível o vídeo. Agora, olha aqui BRASTEMP, que coisa feia, não? Vejam o clip. HC



segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Sacanagem

Celso Japiassu

O amigo Ricardo Soca, etimologista, manda essas considerações para a Palavra do Dia : Antenor Nascentes propunha uma origem pouco verossímil para esta palavra, baseada no vocábulo árabe acaccá, que significa aguadeiro. Na falta de outra mais consistente, essa etimologia foi recolhida por alguns dicionários, embora Antônio Geraldo Cunha advertisse que sacanagem e sacana são duas palavras de origem obscura.

No Novo Dicionário Banto do Brasil (2003), Nei Lopes afirma que o étimo encontra-se no quicongo sàkana, brincar, divertir-se, jogo, divertimento. Este autor crê que a raíz de sàkana é a mesma de disokana, copular e também de sakanesa , acariciar, esta já mencionada por Silva Maia.

Houaiss data sacana no século XVIII e aponta como sinônimos canalha, devasso e espertalhão, enquanto sacanagem teria aparecido só no século XX, mediante a aposição do sufixo -agem, uma vernaculização do francês -age, empregado em português, entre outras coisas, para dar sentido coletivo a alguns substantivos, como em ramagem, folhagem, etc.

sábado, fevereiro 05, 2011

A ARTE DA ESPERA OU À ESPERA DA ARTE

W. J. Solha

Para alguns autores novos que me trouxeram originais de seus romances, a fim de que lhes desse opinião a respeito, terminei – depois de analisar as obras - dizendo-lhes que deveriam ter paciência e trabalhar mais, nelas.
- Você não escreve pior do que eu. – doutrinei, igualmente, a cada um deles, com absoluta sinceridade - Mas normalmente passo mais uns dois anos em cima de um romance no estágio em que o seu está.
Diferente é o caso de um maduro Tarcísio Pereira e de uma sempre excelente Marília Arnaud, que me empolgaram recentemente com seus ainda inéditos “O Autor da Novela” e “Suite de Silêncios”, sinal de que a Paraíba vai arrebentar em 2011, na área.







Bem. Uma das características do novato é a pressa de publicação, ânsia de aplauso. Fui assim também, claro. Daí que quando Jurandy Moura me disse – em 1973 ( caramba: há... 38 anos!) - que achara minha primeira tentativa de chegar ao primeiro romance “Israel Rêmora” “uma merda”, levei um susto e me senti insultado, pois estava certo – como todos os que já me trouxeram seus livros - de que produzira uma obra-prima. Ele, calmamente, acrescentou:

- Quando a gente acaba de fazer um livro, está tão envolvido nele, que não lhe vê os defeitos. Faça uma coisa: ponha a data de hoje aí na capa, vá escrever outro romance e, daqui a exatos seis meses, releia o trabalho.

Revoltado, fiz o que sugeriu: fui escrever “A Canga” e, um semestre depois, morri de vergonha ao ver as mancadas de que o “Israel Rêmora” estava cheio. Passei mais de um ano enxugando o livro, até que o entreguei ao Barreto Neto, que me disse:

- Há um concurso novo no pedaço, que – além do prêmio em dinheiro – dá a publicação do romance pela Récord. Inscreva o seu. Se não ganhar, não acredito mais em concursos neste país.

Ganhei o Prêmio Chinaglia 1974... e a consciência de que toda arte exige muito, muito trabalho... e paciência. Cheguei ao exagero, no meu poema longo “Trigal com Corvos”, de reelaborá-lo durante catorze anos, enquanto produzia outras coisas. Nada de extraordinário: se Beethoven reelaborara a Quinta Sinfonia durante quatro anos, por que não? Se Joyce levara sete pra terminar “Ulisses”, assim como sete levara Cézanne pra ultimar “As Grandes Banhistas”, por que não?







Já a espera para o ator, na produção de um filme, é outra coisa. Kléber Mendonça Filho – era quase meia noite e ainda se preparavam as luzes, o som, os enquadramentos da grande cena de “O Som ao Redor” -, aproximou-se do elenco,e - atenciosíssimo como sempre - disse a mim, ao Irandhir Santos e ao Sebastião Formiga, que aguardávamos, tensos, o grito de “Ação!”:

- O cinema é a arte da espera...
E o pior é que não se pode, enquanto se espera, ler nada ou fazer qualquer outra coisa, pois a permanência da concentração é indispensável para que se consiga viver plenamente o que se vai representar. Daí que nós três ficamos repetindo o diálogo, corrigindo-o, aprimorando-o, voltamos a nos manter em transe - como médiuns em centro espírita -, até que, adrenalina disparando para o alto, pressão arterial idem, ouvimos a voz rascante da assistente Clara Linhart: - Atenção, silêncio, vamos rodar!!!

Já depois que o filme termina, a espera é outra. Ou, no meu caso, “são outras”, pois estou aguardando que sejam editados os longas “O Som ao Redor” e “Era uma vez Verônica” – esse do Marcelo Gomes – além do curta “Antoninha”, do Laércio Ferreira, todos feitos um em seguida ao outro.
Há perguntas que me atormentam: como terei me saído em todos esses trabalhos?, como terão se saído os colegas?, como terão se saído os diretores dos filmes e os diretores de fotografia?, como estarão se saindo os editores, os autores das trilhas sonoras?, quando os filmes serão lançados?, como reagirão as platéias?, como nos sairemos, todos, nos festivais?

Caramba.

Se tive de me superar na paciência em “O Som ao Redor”, a calma teve de ir pra estratosfera em “Era uma vez Verônica”, pois meu personagem, além de ocupar espaço maior no filme, era extremamente mais complexo. Sofri, primeiro, pra quebrar em mim o personagem anterior, o do filme de Kleber - rico, autoritário, sarcástico, seguro de si. Passava a ser um aposentado mal das finanças, doente, amoroso até dizer basta, tímido. Ponto quase em comum: seu Francisco adora os netos, que não o toleram, enquanto seu José Maria é doido pela filha ( a grande Hermila Guedes) , que é doída por ele. O laboratório, feito numa sala de balé, no mezanino do Paço Alfândega (ao lado da Livraria Cultura, no Recife), foi dificílimo. Se meu personagem saiu satisfatório, em “Era uma vez Verônica”, deverei isso ao PACIENTÍSSIMO Pedro Freire, que veio do Rio pra preparar o elenco, devo isso à magistral direção do Marcelo Gomes – tão gentleman quanto Kleber – que ( penso eu) soube tirar de mim o melhor que eu poderia fazer, ou até mais que isso.

E lá vem “Antoninha”, curta do Laércio Ferreira. Como no hotel da Consegueiro Aguiar, no Recife, em que passei noites e noites em claro, tomando cerveja, ensaiando sozinho e fumando – nada do que costumo fazer no dia a dia - tentando chegar a meu personagem seu José Maria, de “Era uma vez Verônica”, passo noites e noites em claro no hotel que me cabe em Souza, tomando cerveja e fumando – incapaz de dormir – ensaiando sozinho o meu Coronel João Bezerra Wanderley. Sinto um alívio enorme quando vejo clarear o dia, tomo um banho frio, vejo, pela janela, chegar o carro que me levará ao set de filmagem.

Mas no que dará isso tudo?

“Espere.”