segunda-feira, outubro 31, 2011

O navio de Troia

Marcelo Alcoforado - A Propósito -

“Foi bonita a festa, pá”, como disse Chico Buarque na música “Tanto mar”. Em Suape, um mundo de gente, a claque pronta e ativa. Naquele ensolarado 7 de maio do ano passado, antevéspera das últimas eleições presidenciais¸ o petroleiro “João Cândido” seria, como foi, lançado ao mar. Não é sabido se no batismo o presidente da República quebrou uma garrafa de champanhe no casco (do navio). Ele não havia prometido ressuscitar a indústria naval brasileira? Ali estava a prova. O povo delirava.

Acabada a festa, como sempre acontece após toda festa, era hora da arrumação da casa. O navio voltou para o estaleiro, já que aquele “Titanic” de alpercatas e gibão fazia água.

Desde então sua singradura é a imobilidade do estaleiro em que parece encalhado. Com a entrega repetidamente adiada, zarpará, como prometido, em dezembro?

Pode parecer um despropósito, mas o “João Cândido” traz à lembrança a Guerra de Troia, aquela em que os gregos teriam mobilizado mais de mil navios.

De antemão, entenda-se que o “João Cândido” não serve de paralelo com as embarcações gregas, já que aquelas navegavam. Serve, contudo, à lembrança do rapto por Páris da bela Helena, esposa do rei Menelau, embora, como é fácil inferir, a comparação também não seja pela formosura.

A causa é, sim, um cavalo. Não um cavalo-marinho — já que se trata de mar —, mas um imenso cavalo de madeira com o ventre empanturrado de soldados, que os gregos usaram para entrar em Troia.

No caso do “João Cândido”, seu bojo estava vazio, mas, como o abdome do cavalo de madeira, trazia nos seus 280 metros de comprimento e 25 mil toneladas de peso, soldados em forma de luta pela manutenção do poder, de proselitismo, de embuste.

A Guerra de Troia, que teria acontecido entre 1.300 e 1.200 antes de Cristo, durou cerca de dez anos.

A guerra pela zarpagem do petroleiro “João Cândido” completa, no primeiro semestre de 2012, dois anos.


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Video Clipe do Dia


Capturando o vento...


video

A Frase do Dia


"Ninguém se conforma de já ter sido".
Sergio Porto, a Flor dos Ponte Preta

domingo, outubro 30, 2011

A LUTA DOS CONTRASTES NA CAÇA VIRTUAL DE IVO BARROSO



W. J. Solha




Veja este meu quadro:




Foi ele (e outras inversões minhas) que me aguçaram o espírito no que li os versos iniciais do poema O MURO, de Ivo Barroso, na edição de 2001 de A Caça Virtual (Record):


Este muro começa
de cima para baixo:
a prumada mais alta
é o seu encaixe.

Seu limite na altura
é o seu alicerce.

Voltei à epígrafe do livro, retirada (sem crédito) de East Coker, o segundo dos Four Quartets de Eliot:

in my end is my beginning

Tem a ver.

De repente dou com um trecho de poema longo (PAPEL & CHÃO), em que, em poucos e lindos versos, leio o que me custou um romance inteiro pra dizer:


Resumo meu livro, pra que você veja o relato poético abaixo com o mesmo relevo com que o vejo: há dois irmãos nos anos de chumbo: Roldão, que parte pra guerrilha do Araguaia, Oliveiros, que fica, cheio de remorsos por não encontrar base teórica pra fazer o mesmo, enquanto escreve o roteiro de A Batalha dos Guararapes.

No entanto / não tivemos exílio / antes uma ausência permitida.

Não fugimos de noite / o passaporte era de nossa própria / senhoria.

Não nos tiraram dentes unhas pênis / antes nos deram passes mordomias/

Mas quanto mais deitavas e rolavas / mais na mente de noite mal dormias

Porque uma coisa (ao menos) bem sabias/ Estavas em Sião/ Babel ardia.

Meu deus! Faltara-me, e – se poeta finge a dor que deveras sente – faltaram também ao Ivo aquela luta dos contrastes tão bem resolvida por Che, no que apregoava:

- Hay Que Endurecerse, Pero Sin Perder La Ternura!

Veja como o Poeta começa seu poema É PRECISO:

É preciso ser duro

como a pedra

como a pedra que parte

como a parte da pedra

que penetra a parede

e a parte.

(...)

E é preciso ser fraco

É preciso ter siso

E simulacro. É preciso

Todos os dias vencer

Os deuses pigmeus/golias

Nessas alturas já me era possível perceber que eu estava diante de um grande poeta, com poética firmada nos tais contrastes – Babel/ Sião, pigmeus/golias, É preciso ser duro, É preciso ser fraco. Tudo com as devidas inversões, como em a pedra que parte/ como a parte da pedra / que penetra a parede / e a parte. Como no muro, cujo limite na altura... é seu alicerce. Como na dura percepção de que quanto mais deitavas e rolavas / mais na mente de noite mal dormias.

Não por acaso, deparo-me com esta expressão, na última estrofe de O MURO:

- Inverte-se.

Em LE TOMBEAU DE COUPERIN:

- o inverso.

Em SONETO EM VESPERAL:

- Inverso Chantecler.

Pistas. Como a do verso de Eliot!

LITANIA

Mística rosa.

Rubi. Diamante.

Um pouco de esposa.

Um pouco de amante.

Criada sua chave-mestra, o contraste, ele brinca, produzindo vários deles com outras obras de arte. Referindo-se à Divina Comédia, por exemplo, de clássico início...

Nel mezzo del cammin di mostra vita

mi ritrovai per uma selva oscura

ché la diritta via era smarrita.

... Ivo, em NOVA PROFISSÃO DE FÉ...

... declara

ser bom poeta

na tela clara,

já não procura

a via reta

na selva escura.

Novo tema a ser contraditado, ele o encontra em João Cabral de Melo Neto, com seu famoso começo:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Como se aperfeiçoasse o ovo (o que ele demonstra ser possível), Ivo diz, por contraste, em A FÁBULA DO GALO:

Acontece, entretanto, que o meu galo

Não fazia a manhã nascer do canto.

Sabia muito bem que

Se cantasse

Ou se deixasse de cantar

- o dia

Rompendo as cercas do quintal

Viria empoçar-se em seus olhos de suspeita.

Mas... o desfecho é altamente poético:

(...)

Era quando lhe vinha da garganta

Aquele anseio de ajudar o dia,

E na sofreguidão que o exasperava

- sabendo embora que cantasse

Ou que deixasse de cantar –

Cantava.

Do mesmo modo, o poema OS CAMPOS FLORESCERAM me remete ao Trigal com Corvos, do Van Gogh, do qual Ivo tira os corvos de cima do campo, inverte o campo do ataque, e me faz lembrar – em versos extremamente bem concebidos - o início do Veludo Azul, de David Lynch:

Mas por baixo do trigo, mas por baixo

do verde ora perene das espigas,

como o fio escorrente de um riacho

Passa um conluio rubro de formigas.

Nada lhe escapa ao gênio. O bíblico Filho Pródigo é um problema resolvido? O dele, não:

(...)

notou nos olhares da chegada

o já pressentimento da partida.

Na primeira tocata de VISITAÇÕES DE ALCIPE, quem ele contraria é Poe em O Corvo , assim como contrariou o galo de João Cabral

Busquei no estudo um bálsamo: no fausto

de meu estúdio à morta luz da vela

lia doutrinas de outros tempos e chamava

na mente por um nome, mas nada. nem um corvo,

um mocho respondia.

Dante, Vincent, Poe, Cabral, os Evangelhos. Mas nem pensar num basta na ousadia dos contrastes. Poeta, Ivo Barroso poderia ter abordado o tema do Laocoonte como ele está na Ilíada de Homero e Eneida de Virgílio, mas – mestre da imagem poética – vai direto a esta vigorosa escultura, atribuída a três artistas de Rodes – Polidoro, Agesandro e Atenodoro ( daí a desproporção dos personagens):




A mão direita afasta o ser em círculos

fechados contra o centro de si mesma.

Outros anéis — imóvel,

mantêm o pé na véspera do passo.

Do lado

onde o ofídio (mais olhos do que boca) ofende,


freia-o trêmula
a outra mão
— serpente do homem



E leia o final... devagar:

Equilíbrio de forças sobre o nada

momento de estática — vida?

…esse braço que vai ceder

e

teima.

Poética da contramão, da inversão, do contraste!

Alumbro-me / de sombras (A UNGARETTI).
Como a um fruto / te decepo ao meio / o que gosto em ti / o que não gosto /metades sem sentido / ansiando pelo todo. (LÂMINA).

E uma obra-prima:

FINADOS

Os mortos nos visitam no seu dia
e deixam flores na portaria.
Depois em paz
vão almoçar na trattoria.
De nossos cimos
ainda ouvimos
sua alegria.

Mas já não rimos.

Dizer, porém, que a grande arte de Ivo Barroso consiste nessa... indústria, seria obscurecer versos que eu gostaria de ver isolados como jóias...em estojos com veludo azul:

(...) dos versos em que os sons têm cores de aquarelas

(...) via os peixes azuis de rimas e assonâncias

(Isto é de OS POETAS DE SETENTA ANOS)

Este poste que fura um túmulo de luz

na noite sem mistérios

(ACALANTO)

Encerro:

In my beginning is my end.

Mas vou deixar você, agora, à sua própria sorte, no universo de A CAÇA VIRTUAL. Veja – mas veja MESMO, veja cada um dos versos soltos, de-cu-pa-da-men-te – desta pequena jóia:

VIDA

Crianças tagarelam no playground
uma formiga escala o himalaia de um vaso
a espinheira espalha a perplexidade de suas folhas bífidas
o mármore da janela espera outro milhão de anos

eu escrevo.

sábado, outubro 29, 2011

Vale a Pena Ler de Novo...?



Estes últimos dias tenho andado às voltas com médicos, consultas e exames. Sem cabeça fria para novas postagens, aproveito-me então do velho e bom expediente de republicar antigos recuerdos. Espero contar com a compreensão dos meus parcos leitores. Se não tinham lido antes, leiam agora. Meu abraço. HC

Falso Recuerdo - Uma Viagem Ao Imponderável

Hugo Caldas

A igreja do Rosário em Jaguaribe, João Pessoa, foi um marco na minha infância. Não tinha um estilo definido mas era imponente. Convento de frades franciscanos, na maioria de nacionalidade alemã, que vinham para cá nos catequisar e nos arrancar das garras do pecado. Durante a 2ª Guerra Mundial os frades se tornaram potencialmente nossos inimigos. Soldados do 15 RI, armados, ficavam postados junto ao altar durante a celebração da missa. Nunca entendi o que existia de tão importante no proletário bairro de Jaguaribe que pudesse ser do interesse do Eixo Roma-Tóquio-Berlim.

Foi lá, na Paróquia do Rosário, que tomei lições de catecismo, com Dona Hermengarda para a primeira comunhão. Certa vez um colega, meio desavisado perguntou se a Hóstia Consagrada era igual a rodinha do desenho do mosaico da sala. Foi devidamente admoestado com uma descompostura em regra. Foi lá, no campinho de futebol dos frades que pela primeira e última vez joguei uma partida de futebol, envergando o uniforme de goleiro do segundo quadro da Cruzada Eucarística. Fizeram um complô para que eu viesse a jogar contra os trangolões da Congregação Mariana. Por artes do tinhoso me apareceu um penalty. Decidi que iria ficar no gol apesar da minha proverbial incapacidade para o nobre esporte bretão e tem mais, recusei de pronto um novo complô para me substituirem. O cobrador mandou um chute certeiro que atingiu minha barriga e me jogou ao chão, desacordado. Mas a bola não entrou. A maior glória. Acordei com Frei Serafim passando um chumaço de algodão com arnica nas minhas ventas, a fim de ressucitar o heroi daquela tarde. Lá, também eu ia com a minha mãe, assistir às Santas Missões...

" - eles têm a foice e o martelo mas nós temos a cruz"...

...era nesse clima de sagrada beligerância que aconteciam os sermões pronunciados no português canhestro dos piedosos frades. Aos domingos me vestia de coroinha e de posse de um pequeno cofre de madeira ia fazendo a coleta para as Santas Missões. Minha Tia Aurinha adorava me ver desempenhando esse papel, e muito séria, fingindo não me conhecer, às vezes, segurando o riso, depositava a sua contribuição. Mais tarde à mesa do almoço o assunto só podia ser eu, e o meu piedoso ofício de coroinha.

Frei Serafim era irmão leigo. Pintava bem e ainda podem ser vistos alguns trabalhos seus adornando o pequeno púlpito ao lado esquerdo da nave central. Lembro que o ajudei nesse trabalho. Limpava os pincéis. O porteiro do convento era Seu Inácio que se considerava frade sem nunca ter sido. Usava batina, cordão branco, terço de contas de madeira escura e pesada, corte de cabelo igual, e às vezes até inventava de falar engrolado que nem os alemães. Só que o resultado era um alemão baixinho, atarracado, meio amarelo e cara de lua cheia. Uma figura curiosa. No subterrâneo ficava o túmulo de Frei Martinho, que diziam ser milagreiro, o que se poderia perfeitamente constatar à visão de inúmeros ex-votos, muletas, e uma infinidade de fotografias. Mas deveríamos ter a autorização de Seu Inácio para qualquer visita. Ele adorava exercer essa prerrogativa.

O tempo passou... Ipuarana.

De repente me vejo em meio a um bosque de eucaliptos onde ficava o convento/escola dos frades franciscanos. Ainda hoje o perfume da planta me traz recordações. Passei alí tres profícuos anos estudando. A rotina diára era pesadona. Iniciava às 5 da manhã com banho coletivo de chuveiro com água fria. Todos de camisão que era para não ficar inventando bobagem. Às 6 horas, missa na capela. Às 7 hs deveríamos estar no final do café da manhã para logo após iniciarmos as aulas que iam até o meio dia. Tínhamos todas as matérias curriculares acrescidas de noções de teologia, grego e astronomia. À tarde, após o almoço, banca de estudos a fim de preparar as tarefas do dia seguinte, até às 4 horas - daí então até as 5hs, um joguinho de futebol ou, para os menos afeitos, um mastro com uma bola pendurada por uma tira de couro chamado de "Speedy Ball." Novamente banho, terço na capela e jantar às 7hs. Mais meia hora de estudos e recolhimento para tudo reiniciar novamente no dia seguinte.

Certo dia encontrei na sala destinada às visitas, um recorte de "O Diário de Pernambuco." Um dos artigos me chama particularmente a atenção pois dava conta de uma mãe de santo de Água Fria, bairro do Recife, que praticamente dominava toda a comunidade. Nada se fazia ou se deixava de fazer sem o consentimento dela. Ninguém casava/descasava ou fazia/desfazia qualquer negócio sem o "Nihil Obstat" dela. Um assombro esse tipo de acontecimento, esse domínio sobre as pessoas em plena segunda metade da década de 50 do século passado.

Corri a mostrar o achado ao frade monitor da minha sala, com quem adorava conversar fazendo mil e uma perguntas inconvenientes, Frei Boaventura, um holandês que gostava mais de esportes do que de religião. Após a leitura, olhando-me firmemente, disse-me ele:

- Veja você, hoje em pleno século vinte uma pessoa muito provavelmente ignorante exerce esse poder, imagine há quase dois mil anos um sujeito altamente inteligente como Jesus Cristo, com mania de ser Deus, o que não faria. E olha que Ele fez muita coisa. Mudou o mundo...

... e continuaria conjeturando sobre os feitos do Nazareno não o tivesse interrompido...

- Como assim, "mania de ser Deus"...
- Bom, na realidade Ele era o Filho de Deus Vivo...
- O senhor disse claramente..."mania de ser Deus"...Que significa isso?

Dessa vez ele me olha mais firmemente...

- Quando você vai entrar de férias?
- Em setembro próximo.
- Pois vá, aproveite bem suas férias e... não volte...!
- O que? Será que eu ouví bem? E a minha vocação?
- Que vocação coisa nenhuma meu caro. Você está aqui apenas para estudar. Vá tirar definitivamente a Prova dos Nove. Descubra se o seu lugar é aqui ou lá fora.

- Frei Boaventura, disse-lhe eu, reconheço que sou meio incômodo, meio abelhudo, fazendo as perguntas que costumo fazer, mas não será fácil. Terei que abdicar de muita coisa.
- Se você arranjar uma namorada as coisas simplificam. Viva a sua vida. Não se vive tudo de uma vez. A vida se vive por etapas. Aproveite, meu caro. Um dia você vai me agradecer.

E assim foi feito. Saí de férias e não mais voltei. E foi aí que Amelinha de Lourdes entrou na minha vida. Fui convidado para ser seu par no casamento de Celina, sua irmã mais velha. Foi o começo de tudo. Foi o inicio de um amor turbulento, com idas e vindas. Daqueles amores difíceis de serem esquecidos. Um belo dia eu prometo contar.

O tempo passa novamente...

Aeroporto dos Guararapes, Panair do Brasil, inicio dos anos sessenta. Chego para o trabalho meio ressabiado por ter que entrar no primeiro dos famosos pernoites. Verifico a lista de passageiros embarcando para a Europa. Tinha lá, logo o primeiro nome:

Frei Markus Boaventura ofm. Era ele, voltando para casa. Aposentadoria. Falei aos colegas em poucas palavras da importância que ele exerceu na minha vida. Pedi que todos ficassem comigo no balcão pois não sabia como iria reagir à presença de quem mudou praticamente tudo desde aquela conversa no campinho de futebol numa tarde morna da década de cinqüenta. Frei Boaventura chegou logo em seguida, acompanhado por alguém do Arcebispado. Um pouco mais envelhecido. Olhou para mim e logo me reconheceu.

- "E então, eu não tinha razão?" E como se a conversa que tivemos há 5 anos atrás tivesse acontecido há 5 minutos, emendou...

- "Você daria um bom sacerdote mas um péssimo frade."

A volta para a Europa foi a sua derradeira etapa. Frei Markus Boaventura ofm - uma grande influência na minha vida - morre seis meses depois.

O mercado de arte regional



Plínio Palhano

Ao se esmiuçar o mercado promissor de arte no Nordeste, constatam-se aqueles que estão na liderança ou no olho do furacão: uma elite financeira, os que giram em órbita e usufruem do potencial desse circuito, e os artistas envolvidos no sistema, em várias gradações. Apesar de percebermos aqui, no Recife, um movimento positivo em torno de galerias, marchands e artistas, há muitas perguntas que podem ser feitas. Por exemplo: existe, de fato, um mercado consolidado, a exemplo dos países desenvolvidos, onde os preços e as obras dos artistas são avaliados por um processo que inclui as referências históricas, a invenção do autor, a influência estética sobre o seu tempo, etc.?

Quando pensamos em mercado de arte no mundo, voltamos o olhar a personagens importantes do século XX, que o dinamizaram com suas iniciativas marcantes. A começar por Peggy Guggenheim (1898-1979), que se tornou uma das maiores colecionadoras das obras dos artistas de sua época e os colocou no topo do mercado, como Jackson Pollock, Max Ernst, Wasili Kandinsky, Paul Klee e muitos outros; a sua iniciativa foi precursora de toda essa força que está hoje nas grandes sucursais da fundação Salomon R. Guggenheim. Filha de milionários norte-americanos, Peggy se empenhou em gastar seus milhares de dólares, com inteligência, em artistas promissores.

Outra personalidade, Georges Wildenstein (1892–1963), marchand francês que herdou do pai, Nathan, a tradicional Galeria Wildenstein, tornou-se um dos veículos mais dinâmicos no mercado de arte para a circulação das obras impressionistas e pós-impressionistas entre os colecionadores, principalmente norte-americanos, e deixou um lastro como um marchand essencialmente consciente da cultura e dos valores espirituais da arte.

Essas são algumas das referências que nós, nordestinos, procuramos imitar mantendo as características próprias, claro, com uma história particular. Aqui, no Recife, os comerciantes tradicionais mantiveram-se desde a década de 1960 e, ao longo do tempo, foram se aperfeiçoando, criando formas novas de adaptar o mercado à atualidade. Hoje, praticamente só a elite econômica procura obra de arte com preços razoáveis nas galerias; essa é uma realidade concreta. Na década de 1970, predominava a classe média, formada por profissionais liberais ou funcionários públicos, que conseguia adquirir obras através de consórcios ou de bons parcelamentos. Os proprietários que permaneceram no mercado consolidaram seus nomes e os estabelecimentos com sacrifícios, partindo de um ponto a outro, a passos lentos. Mas quem pretende iniciar nessa atividade terá que ter segurança financeira para poder bancar os riscos e os investimentos naturais; geralmente, estes são também provenientes da elite econômica.

Plínio Palhano é Artista Plástico
ppalhano@hotlink.com.br

A Foto do Dia




"Antes só do que muito acompanhada". (Stanislaw Ponte Preta)

sexta-feira, outubro 28, 2011

Paraicubanidade



José Virgolino de Alencar

(Cidadão que só deseja ver a Paraíba em paz)




A badalada viagem do governador do Estado a Cuba causou um grande mal ao chefe do Executivo paraibano e à própria Paraíba. O governante tabajara já trazia em sua formação ideológica o vírus do marxismo/leninismo/estalinismo, que moldou o seu pensamento e as suas lutas políticas/sindicais.

Na época de sua atuação sindical, os ideais de esquerda faziam a cabeça das massas, porquanto recebiam o apoio e a colaboração dos formadores de opinião, que tendiam a aceitar o discurso dito socialista, com promessas de mudanças de costumes, de trato sério da coisa pública e de novos caminhos e métodos de gestão para os entes públicos.

Quando os países comunistas/socialistas do oriente foram flagrados na comprovação de que se tratavam apenas de ditaduras sanguinárias, de cúpulas que assaltaram o poder montados no cavalo selado da falsa revolução, instituindo Estados totalitários, onde foram suprimidas as liberdades e a livre expressão do pensamento e das idéias, começaram então a ser reveladas as farsas, ruíram pouco a pouco os títeres de esquerda que nada ficaram a dever a Franco, Salazar, Hitler, Pinochet, e foram caindo como dominós, uns empurrando os outros.

Foi abaixo, pelo povo alemão revoltado e com o apoio da opinião pública mundial, o Muro de Berlim, o Muro da Vergonha, enterrando de vez o falso ideal comunista e decepcionando os que tinham sinceros ideiais socialistas, ou seja, a defesa honesta das causas dos menos favorecidos, da justiça, da igualdade e da inclusão econômico-social.

Restou, do falso socialismo, Cuba e sua desimportância, comandada pelo insensato Fidel Castro, que, apesar de jogar a ilha do Caribe na miséria e na pobreza como filosofia de governo (todos devem ser igualmente pobres), gozava de certa tranquilidade para suas diatribes e inconsequências, porém, a essa altura, Castro é apenas um cadáver insepulto, um símbolo do que o mundo não deve ser.

Contudo, lamentavelmente, ainda há pelo mundo pessoas desligadas da realidade do século XXI, que não sentiram no socialismo/fidelismo o pior exemplo a ser seguido para o comando de uma nação. E mais trágico se torna quando o governador de uma província, dentro de um país democrático, pensa em aplicar os métodos superados do estatismo personalista, totalitário.

Numa atitude vesga, não consegue entender que estamos numa democracia, onde a imprensa é livre, as comunicações virtuais afloram e influem decisivamente na cena, o Judiciário é autônomo, o Ministério Público é independente do gestor-mor, restando um legislativo realmente dócil, mas bastante vigiado, fiscalizado e cobrado pela opinião pública e pela mídia.

Desse modo, se o condutor da máquina estatal paraibana insiste nos métodos que estão sendo abolidos no mundo inteiro (vide a chamada “Primavera Árabe”), é mais do que previsível de que seu destino é ficar falando sozinho, gritando com seu ar aparvalhado, tentando convencer de que é um administrador normal. Não é.

Deixando claro que em sua alma estão incorporados os espíritos de Marx, Lênin, Stalin, Fidel Castro, Hitler e Mussolini, por exemplo, faz ainda transparecer que também se aloja no âmago de sua personalidade o espírito desses vagantes assombradores noturnos, de almas penadas.

Mas, a Paraíba não tem medo de cara feia e na democracia não cabe o desejo de espalhar assombração em suas noites e perturbar seu tranquilo sono.

Paraicubanidade aqui, decisivamente, não encontra abrigo.

Ecologia em Foco



Breno Grisi






NO BRASIL MAIS VALEM OS DESEJOS DOS CONGRESSISTAS DO QUE OS RESULTADOS DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA [FOLHA.com - 27 DE OUTUBRO DE 2011 - CLAUDIO ANGELO e MÁRCIO FALCÃO - DE BRASÍLIA]

NOSSO PAÍS GASTA R$ 6 BILHÕES ANUAIS COM O CONGRESSO NACIONAL. E INVESTE ESSE MESMO VALOR EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA. INFELIZMENTE POUCOS BRASILEIROS SABEM DISSO!
SE AS SUMIDADES DO CONGRESSO NACIONAL ACHAM QUE PODEM TOMAR ATITUDES À REVELIA DAS REVELAÇÕES CIENTÍFICAS... PRA QUÊ “DESPERDIÇAR” RECURSOS COM CONHECIMENTO CIENTÍFICO E LEGISLAÇÃO AMBIENTAL???

Vejam essa notícia divulgada na FOLHA.com: “Senado aprova lei que enfraquece Ibama”

O Senado aprovou ontem por 49 votos a 7 um projeto de lei que, na prática, tira do Ibama o poder de multar desmatamentos ilegais.

O projeto regulamenta o artigo 23 da Constituição, que define as competências de União, Estados e Municípios na fiscalização de crimes ambientais.

O texto original, do deputado Sarney Filho (PV-MA), visava estabelecer atribuições dos entes federativos para melhorar o combate ao tráfico de animais. Porém, uma emenda de última hora inserida na Câmara alterou o texto, estabelecendo que a autuação só poderia ser feita pelo órgão licenciador. Como o licenciamento para desmatamentos é feito pelos Estados, o Ibama, na prática, ficaria sem poder de autuar.

No ano passado, a então senadora Marina Silva (PV-AC) tentou corrigir a distorção, apresentando três emendas ao projeto. Todas elas foram rejeitadas na Comissão de Constituição e Justiça pela senadora ruralista Kátia Abreu (PSD-TO), relatora na CCJ.

Tanto Marina quanto seus sucessores no Ministério do Meio Ambiente, Carlos Minc e Izabella Teixeira, tentaram barrar a proposta (batizada de PLC no. 1), por entenderem que os Estados e municípios são menos estruturados para fiscalizar e/ou mais sujeitos a pressões políticas do que o Ibama.

A bancada ruralista comemorou a aprovação.

"Vamos tirar essas prerrogativas ditatoriais do Ibama. O Ibama quer parar o Brasil, não vai parar, não!", vociferou Flexa Ribeiro (PSDB-PA).

"Habituou-se no Brasil a achar que os órgãos federais são mais honestos que os estaduais e municipais. Não podemos tratar a Federação desta forma. O Ibama não é a Santa Sé, ele não está acima de qualquer suspeita, não", disse Kátia Abreu.

Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, disse que a proposta é um retrocesso.
"Num momento em que nós estamos fazendo um grande esforço para votar um Código Florestal que reduza desmatamento no nosso país, reduzir as prerrogativas do Ibama me parece um erro grave."

ALGUMAS CONCLUSÕES (MINHAS):

1) Sabemos que em muitos Estados brasileiros uma prática predominante é “a negociação do técnico-científico pelo político-econômico”. Daí, não é difícil concluir que “moeda de troca” prevalecerá!.
2) Se pelo menos a excelentíssima senhora senadora Kátia Abreu lesse e pudesse compreender (!?) o que foi divulgado no site www.amazonia.org.br
“A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) divulgaram ... um documento com propostas e considerações sobre as alterações no Código Florestal Brasileiro. As instituições concordam que seja necessário modificar a legislação ambiental, mas defendem que as alterações devam ser feitas "à luz da ciência e tecnologia hoje disponível".
[Referência: Cientistas afirmam que não existe dilema entre conservar o meio ambiente e produzir alimentos - 13/10/2011
Local: São Paulo – SP
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br]

3) Ou que a digníssima senadora pudesse entender (!?) que “a dimensão ambiental impõe restrições às sociedades humanas”; ou como afirma de maneira bem simples Clóvis Cavalcanti (organizador de “Desenvolvimento e Natureza: estudos para uma sociedade sustentável; 5ª ed., 2009, São Paulo, Cortez Editora”): “A economia não pode ser vista como um sistema dissociado do mundo da Natureza, pois não existe atividade humana sem água, fotossíntese ou ação microbiana no solo”.

Por tudo isso e muito do que é dito em vários capítulos de outra respeitável publicação do autor supracitado: “Clóvis Cavalcanti (org.) Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Políticas Públicas; 4ª ed., 2002, São Paulo, Cortez Editora”, devemos ter a sensatez de que não se pode arbitrar ao “sabor, humores e interesses financeiros” de congressistas/lobistas as transformações dos nossos ambientes naturais, à revelia de um órgão fiscalizador federal, como o IBAMA.

Ah, Que Saudade Me Dá...


E não foram felizes para sempre...

Guia para a distorção


Noam Chomsky

Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo e ativista político norte-americano. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional, abordagem que revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. É também autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia Chomsky.

As 10 estratégias de manipulação midiática

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

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Grandessíssimo....

quinta-feira, outubro 27, 2011

Este É O Fato


Que os meus amigos do "Cordão Encarnado" me desculpem mas não pude resistir! Esta capa da "Época" sintetiza tudo o que eu penso desde priscas eras! HC

Quem é a favor da corrupção?


Percival Puggina

Alguns dias "de molho" com uma virose cívica que começou na Semana da Pátria e avançou pela Semana Farroupilha me deram tempo para pensar. Entre outros temas, para pensar nas tais passeatas contra a corrupção. Primeiro, imaginei a coisa pelo lado oposto: uma passeata a favor da corrupção. É claro que só apareceriam jornalistas na tentativa de capturar imagens e impressões de algo grotesco. Só a imprensa. Os corruptos estariam exercendo sua atividade alhures, longe dos flashes e dos olhares da mídia. Ou seja, leitor, ninguém é a favor da corrupção, exceto os corruptos, mas estes agem como moluscos, lenta e discretamente, dentro de suas conchas e tocas, imersos em águas turvas.

Façamos, então, uma grande marcha "contra a corrupção"! Como todos são contra, vai faltar espaço na avenida Paulista, na Cinelândia e, em Porto Alegre, haverá gente pendurada na chaminé do Gasômetro. Sucesso garantido. O quê? Não foi nem parecido com isso? Pouca gente em relação ao esperado? Faltou divulgação? Bobagem. Todo mundo estava sabendo. Não compareceram porque não quiseram.

Pois foi aí que me valeram estes dias de virose cívica. Pode ter sido efeito da febre ativando algum neurônio preguiçoso ou desativando algum outro defeituoso, mas tenho certeza de que matei a charada. As manifestações contra a corrupção contaram com público reduzido porque berrar contra a corrupção "sic et simpliciter" (até o latim me veio de volta com a febre) é mais ou menos como mobilizar-se em protesto contra o câncer ou contra a dengue hemorrágica. Todo mundo concorda, mas é completamente inútil.Perdoem-me os promotores, muitos dos quais fraternos amigos. Eventos anteriores, assemelhados, alcançaram sucesso muito maior por dois motivos: contavam com apoio de segmentos da sociedade civil aparelhada pelo PT (aquela turma que, ao simples estalo de um dedo petista, embarca num ônibus e vai para onde mandam); e eram eventos com foco, estavam direcionados contra alguém com nome e sobrenome, partidos com letrinhas conhecidas, governos inteiros e responsáveis por escândalos que não caíam das manchetes. Era sempre "Fora alguém!".

Marcha contra corrupção sem foco? Corrupção de governo nenhum? Sem culpados com nome próprio? Sem siglas políticas a acusar? Sem lançar em rosto do Congresso as responsabilidades por termos uma densa legislação de proteção aos corruptos? Sem atribuir a quem quer que seja culpas pela lentidão dos processos? Sem combater os votos secretos nos parlamentos? Sem denunciar até o último fio de voz a danação ética de um sistema político canalha, ficha-suja, que protege, estimula e vive da corrupção?

CNBB e OAB, para ficarmos com as instituições mais luzidias, que me relevem o menosprezo. Mas não consigo imaginar furo n'água mais raso e inútil do que os tais gestos de protesto contra uma corrupção que não têm coragem de apontar alguém, nem de pronunciar um nome sequer. Que não revela discernimento necessário para indicar as falhas institucionais e comprometer-se com uma correta reforma do modelo político nacional e dos nossos códigos. Estes códigos são um "pálio de luz desdobrado" a iluminar o caminho dos corruptos na sinuosa marcha republicana rumo à prescrição.

Sinceramente, até os corruptos agradecem a fidalguia com que foram tratados! Governos podres de raiz, assumidamente podres, ardorosos defensores de seus próprios corruptos, que os homenageiam e desagravam, igualmente se sentem reverenciados nestas festinhas setembrinas de titubeantes virtudes cívicas.

Publicado por Zero Hora em 25/09/2011 - Mídia@Mais

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Grandessíssimo!

quarta-feira, outubro 26, 2011

Jornal de ontem

Em meio a denúncias de irregularidades (novidade) caiu o ministro Orlando Silva, perfazendo o total de seis (6) ministros defenestrados em 10 meses da administração Dilma Rousseff. Cinco deles levando nas cacundas o opróbrio de ladrões juramentados. Apenas um, o Jobim das Selvas, dizem, não passou a mão nos cofres. Saiu por ser boquirroto. Próximo, por favor! HC

Cai, cai, cai, cai....




Sem comentários: Mas um passarinho me contou..., cala-te boca!

A Frase do Dia


"O sol nasceu para todos. A sombra, para os mais espertos." Stanislaw Ponte Preta

Pernambuco Infection Week!



Téta Barbosa




- Téta, que roupa linda! De onde é?

- Ah, é uma coprodução Pernambuco/Estados Unidos. Feita com material de lixo hospitalar!

Esse diálogo é fictício, mas bem que poderia ter sido verdadeiro.

Isso porque um Zé Mané da estrela, empresário do ramo de confecção do maior pólo têxtil do Estado, achou que iria ser bacana comprar lixo hospitalar dos americanos e transformar os lençóis e batas médicas (sujos de sangue) em forros para bolsos!

Veja bem, que ideia de jerico. #bandido

E não pense você, cidadão de Brasília, São Paulo ou Curitiba que só nós, nordestinos, estamos sujeitos às peripécias mal intencionadas do desonesto empresário (que atende pelo nome de Altair Teixeira).

Se você tem uma calça jeans, coisa bem provável, existe uma possibilidade grande do seu bolso ter sido feito com o resto de algum lençol de um enfermo terminal gringo.

É, caros, Seu Altair também vendia seu produto para outros Estados!

Num é mole não.

Dudu (leia-se, o Governador deste digníssimo Estado), está virado na moléstia (como se diz no interior, quando o cabra tá revoltado). E não é pra menos!

Um empresário só foi capaz de derrubar 60% das vendas de um dos negócios mais lucrativos e estáveis da região.

É sacanagem, pô.

Santa Cruz do Capibaribe, cidade a 180 km do Recife, onde fica a tratante empresa Império dos Forros, tem empresas sérias e pessoas honestas. Aí, chega esse larápio e mancha (de sangue hospitalar) a reputação de uma cidade inteira! De um Estado inteiro.

E Dona Maria, que tem uma maquininha de costura na sua garagem e vende pijamas na feira de Caruaru e de Santa Cruz, para sustentar honestamente seus 4 filhos, como fica nessa história toda? Ela nem sabe onde fica os Estados Unidos e está sem entender porque ninguém mais quer comprar seus pijamas.

Sim, este é um clássico exemplo de quando uma maçã podre estraga todo o cesto de maçãs.

E Obama? E a consulesa dos EUA no Nordeste que disse que, pelas leis americanas, é permitido exportar lixo?

Manda exportar lá pra casa da mãe dela. Aqui não, minha filha...

É muita falta de absurdo!

Por mim, era prisão perpétua pra Seu Altair e para os americanos “espertos” que, com essa maracutaia, atrasam o crescimento e desenvolvimento de uma região que luta, com todas as forças, para superar as dificuldades do Agreste castigado pelo sol e pela seca.

Dudu (Eduardo Campos), colega, antes de prender esse cabra, dá uns cascudos nele por mim, beleza?

Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. Ela também tem um blog - http://www.batidasalvetodos.com.br/ de onde pedimos emprestado este texto.

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terça-feira, outubro 25, 2011

A “precipitada” Presidente.

Delmar Fontoura

A propósito dessa dependência entre o preceptor Lula e a “precipitada” Dilma devo dizer que isso é resultado de uma metamorfose, que ainda não complementou sua forma e estrutura: na aparência, no estado, no caráter e na consolidação de objetivos, iniciados duzentos e setenta dias antes do “dia 10 de outubro de 1945...”.

“Lá” a concepção da natureza nos deu a aberração de um caráter político troglófilo (na acepção literal), que tomou forma nos “Portões das Metalúrgicas” e se apresenta, agora, como uma “imagem holográfica” projetada, pelos “leds” da Imprensa – que se vende ou se deixa comprar –, nessa nevoa nauseabunda que exala o pútrido dos porões do “Neolulopetismo” representado pela amorfa criatura que é Dilma Rousseff.


Mas por que citei Lula? Porque Dilma Rousseff é hospedeira do caráter dele e a metamorfose que só se complementará através dessa interdependência, que a maioria de seus incautos – ou nem tanto – analistas têm “percepção” para entender...

Bem!... Mas “ela” é o que atualmente? Ora! É uma “Corpse Flower” (Titan Arum) enxertada na cepa do “terrorismo" que foi e continua sendo sem ter perdido o cheiro horrorível em que resultou o enxerto... ...É um “ente” que não possui luz própria por isso se põe entre seu preceptor e a “holografia” deste... ...Sobrevive da côdea, que degusta mesmo que esta tenha caído sobre a lama nauseabunda onde chafurdam... ...”ele” e “ela”...

Moral da “estória”: a “(sur)realidade maquiavélica”, entre “preceptor” e "precipitada", confirma o princípio de que o “ser social aético” nunca vai agir como “ser político ético”, porque, a priori, esta virtude não consta na gênese do seu caráter como “ser humano”!

PS - Precipitada por dois motivos: primeiro por ter sido precipitada sobre a vontade do Povo, segundo porque é uma precipitada destrambelhada em tudo que diz e faz no exercício político...

Aviso aos navegantes:


Aderimos à luta anti-drogas. Portanto, este pequeno logotipo estará presente em todos os textos do Blog. Seja qual for o assunto. HC

A Crestomatia e a crise


Por Arlindo Montenegro

A Crestomatia chegou quando eu tinha 9 anos. Um livrão grosso, cheio de textos da melhor literatura. Contos, fábulas, sonetos. O nome do autor parecia com aqueles nomes que a gente só encontrava nos contos da carochinha: Radagasio Taborda! No terceiro e no quarto ano da iniciação escolar, aprendemos sobre sintaxe, fonética, análise gramatical, tempos verbais, interpretação de textos, decorar e declamar poemas, tudo com ajuda da Crestomatia.

Era mesmo um mundinho interiorano, mágico, telúrico, bem diferente dos dias em que este velho fica corado e indignado ao saber que, o Ministério da Educação despende carradas do dinheiro que este suado povo recolhe como imposto, para comprar milhares de livros, com desenhos coloridos que exemplificam e ensinam a linguagem e os comportamentos mais anárquicos e censuráveis.

A má educação e a violência, em contraposição à gentileza e o respeito que os mestres têm como dever de ofício incutir na mente da criançada, ferramentas para desenvolver o caráter. Os professores de hoje vivem tempos bicudos!

Parecem dispor de ferramentas auxiliares da pedagogia contaminada por uma ideologia perversa. Estão amarrados a um projeto político que, a partir do Ministério da Educação, escolhe os textos e dita como devem ser trabalhados. Um modelo de fazer inveja à cada dia mais viva União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Os planos de curso distribuídos pelo Ministério da Educação, subordinam os conteúdos específicos de cada disciplina, bem como os projetos pedagógicos de cada Instituição de Ensino Superior a uma concepção de sociedade, cultura e crença socialista fabiana.

Uma espécie de marxismo light! Cada curso superior segue um conjunto de normas baixadas pelo Ministério de Educação e Cultura, cujas Diretrizes Curriculares Nacionais servem de parâmetro para a elaboração e organização dos cursos, desde a escola básica até a escola superior.

O professor não pode mais planejar e trabalhar os conteúdos a partir do seu espaço vital, do seu bioma, de suas realidades. Nem mesmo pode mais ensinar a sonhar!

Já vem tudo pronto e acabado com a orientação dos “chefes” do Ministério e das secretarias: nos primeiros anos é só brincar! Não precisa alfabetizar. E depois tem que ensinar a usar camisinha, como fumar maconha e outras drogas, ter cuidado com as seringas, crack, colas, êxtase, bebidas...

Os livros indicados para os professores, na coleção PENSAMENTO E AÇÃO NO MAGISTÉRIO (Convite à leitura de Paulo Freire - Moacir Gadotti - EDITORA SCIPIONE – 1991), orientam: "A escola que desejamos para nossos filhos e netos, e que desejamos para todos, não é apenas uma escola alegre, mas uma escola pública popular, autônoma, socialista. Esta é a escola dos nossos sonhos.

Pode não se realizar totalmente, mas ela já está em construção, no interior da escola capitalista e elitista". Alguém duvida? É preciso lembrar os textos escolares distribuídos pelo MEC em todo o território nacional?

A rasteira que estes intelectuais marxistas fabianos passam na sociedade, inserindo a ideologia nas práticas educacionais em todos os níveis, materializa-se no desprezo à cultura científica universal em bases sólidas, limitam o pensamento a uma visão unilateral, impedindo o progresso evolutivo em liberdade.

A Fabian Society, foi fundada em Londres, em 1884. Diferente dos marxistas da “Democratic Federation”, os “fabianos” pregavam a tomada do poder sem violência. Antecederam Gramsci na forma de conduzir a propaganda e agitação. O Estado deveria realizar o interesse público. Sem a interferência da vontade pública, o poder do Estado devolveria ao povo a esmola conveniente para manter a gente na “santa paz”.

Na visão Fabiana, as Leis e a Justiça do Estado seriam a garantia suficiente para a manutenção desta variedade de paternalismo do poder. Hoje temos as Ongs fabianas, como o Greenpeace, atuando mundialmente na doutrinação ideológica da juventude através da Young Fabian, com financiamento dos controladores do mundo.

A autoridade do lar e da escola foi substituída paulatinamente. Os influxos da “lavagem cerebral” são percebidos em cada lar, em cada escola. A “novilíngua” inclui palavras que este velho só veio a conhecer na vida adulta e outras que, se ousasse falar na presença dos adultos, tipo “merda!”, era logo reprimido duramente.

A mídia fala de livros encontrados nas escolas. Omite que todos estes livros são escritos por intelectuais marxistas ou fabianos. São selecionados e adquiridos por acadêmicos e técnicos do Ministério da Educação e distribuídos para as escolas do país inteiro. Bobagem não é?

O palavrão, as drogas, a violência, as cenas de sexo, o noticiário com detalhes sobre a prostituição infantil, pedofilia envolvendo políticos, tudo está na televisão, na internet, nas revistas, sem possibilidade de controle dos pais.

As letras de certos compositores de forró, punk, funk, rock, sucesso das baladas são explicitas na apologia escancarada do sexo e das drogas. Por tudo isto, por ter visto e ouvido tudo isto, expressões como "porra", "me fodendo a troco de bosta" e "caralho”, “bocetinha”, “nunca ame ninguém: estupre!” podem figurar como texto exemplar na formação básica da criançada. Este é o entendimento e escolha perversa dos técnicos do Ministério da Cultura.

Nestes últimos anos, o governo socializante do PT impôs a desestruturação da cultura nacional, prestigiou a putaria e o roubo desde Brasília até o mais remoto povoado. Unificou os comportamentos mais descarados e corrosivos. Implantou os elementos da cultura globalizada e isolou cada minoria em currais específicos, dependente e obediente ao poder centralizado pelo partido do governo.

Toda a roubalheira, o cinismo e a libertinagem presentes, têm fundamento nesta nova cultura educacional e política. Esta quadrilha de poderosos falsários utiliza os mais sutis artifícios através da propaganda sistemática, para manipular os pensamentos, escolhas e comportamentos, invertendo todos os princípios e valores que aniquilam esta nação, colocando-nos a serviço das nações colonizadoras do hemisfério norte.

Falta-nos o líder com autoridade moral suficiente. O poder lulista, resultante da pobreza e ignorância imposta pela oligarquia tradicional, tem o reforço da perversidade de intelectuais fabianos que dominam, escolas, igrejas, jornais, revistas, televisão, associações, sindicatos e clubes, a falsidade arquitetada pela oligarquia dos criminosos obedientes aos controladores.

A “crise” é mero detalhe assimétrica desta guerra sem fronteiras.

A Frase do Dia


Coluna "Tiro&Queda" de Eduardo Almeida Reis

“Em defesa de Kadafi deve ser dito que jamais assinou um Acordo Ortográfico e não há notícia dos seus Horários de Verão” (R. Manso Neto).

segunda-feira, outubro 24, 2011

O MOMENTO PREGNANTE DA DEMOCRACIA


W. J. Solha

Momento pregnante, em artes plásticas, é aquele “fotograma” pelo qual se compreende ou subentendeos que lhe vêm antes e depois. Neste quadro de Caravaggio, por exemplo,vê-se que o anjo detém- com a destra - a mão de Abraão, na hora exata em que ele vai sacrificar o filho Isaque, enquanto com a esquerda aponta para o cordeiro que deverá ser imolado em lugar do rapaz.


Por que “da Democracia”? Lembro-me de que tomava lição de História Geral de meu filho ainda menino, quando ele aindaestudava no Pio X , tempo da Ditadura, e vi malícia, no livro dele, no ponto em que se ensinava que democracia plena somente fora possível em Atenas, porque, lá, todo mundo – sem terceirizar a opinião – opinava sobre todos os problemas e projetos da cidade-estado na praça pública – a famosa Ágora. Entretanto Agora – sem o acento – isso era impossível, pois a Pólis se transformara em Metrópole, que – por sua vez - pertencia a um estado, que – por sua vez - fazia parte de um país. Daí a série de “atravessadores”: vereadores, deputados estaduais, federais, senadores.

Mas eis que Marshall McLuhan, ante o futuro que vislumbrou nas inovações tecnológicas, principalmente nos meios de comunicação, cunhou, nos anos 60, a expressão que nos remeteria diretamente àquela Ágora de Atenas:


E o tempo confirmou que de fato surgia um fato novo – ou uma série deles – nesse sentido.





Resultado:



O MOMENTO PREGNANTE!

A coisa surgiu como um estouro da manada, meio louco, contra tudo que aí está, produzido pela classe dominante. A coisa surgiu fora do cânone que dizia Primeiro a Ideia – ou “No Princípio Era o Verbo” - , depois a luta para concretizá-la. Sem assemelhados aMarx, Lênin, Mao, Trotsky, Ho, Fidel, Guevara, Stálin, Allende -praticamente acéfalo - o movimento irrompe agora nos Estados Unidos, com o grito de “Ocupe Wall Street”,depois de se constatar que Barak Obama (ou qualquer outro político tradicional, mesmo que negro ou de saia ) não resolveu, não resolve, nem resolverá coisa alguma. E a História prossegue, no rastilho do facebook, alastrando-se por toda a Terra.


Dá vontade de declamar Brecht!

Sobre "ARKÁDITCH"

Astier Basílio

Solha,
terminei de ler o livro após as duas da manhã.
Há uma série de coisas a comentar. Uma delas: a cena de seu Né perdido na Lagoa é de uma beleza digna de Faulkner. O velho decrépito me lembrou dos idosos trágicos de Philip Roth - qdo Zé Medeiros limpa o velho, vc quase reencena um trecho de "Patrimônio", obra de não ficção de Roth, sobre os últimos dias do velho. Nem preciso esclarecer isso. Você já sabe tudo.
Belo romance.
Grande abraço

Arnold Sôlha

Meu caro primo Waldemar:
A conclusão não poderia ser outra: seu livro-romance é ótimo. Li-o numa arrancada só. Você, por sem dúvida, nasceu premiado. É um artista na acepção mais ampla do vocábulo.

Sérgio de Castro Pinto

Mas o melhor que eu posso dizer a respeito de Solha é que leio os seus romances. E isso, para mim, não é pouco, pois se fui um leitor voraz de ficção, tal gênero já não me atrai tanto quanto antes, pois falta aos atuais ficcionistas brasileiros, de um modo geral, o que Ribeiro Couto observou a propósito de Manuel Bandeira: “O morro do Curvelo, em seu devido tempo, trouxe-vos aquilo que a leitura dos grandes livros da humanidade não pode substituir: a rua”. E em Solha, como no recém-lançado “Arkáditch”, existem as ruas de João Pessoa, que ele as transforma, feericamente, em ruas do mundo, na medida em que as universaliza pelo poder da linguagem.

Carlos Cordeiro de Mello

Caro Solha,
Seu livro Arkáditch causou-me uma funda impressão. Tenho certeza de estar diante de um grande romancista brasileiro. Não estou ao corrente do que se edita hoje de literatura nacional, mas o pouco que conheço passa muito longe dos seus dois romances que li, inteiros, acabados, maduros e de ótima fatura. O engraçado é que, neste último, comecei achando que v. inventara uma espécie de super-Macondo, porque a João Pessoa em que nasci e vivi minha infância e adolescência está a alguns anos-luz da cidade trepidante que v. descreve. Na última vez que aí estive, há uns cinco anos, fiquei tonto, perdido numa cidade desconhecida, tentando desentranhar dela minha velha e bucólica cidade. Voltei combalido, com a sensação estranha de ter sido desterrado. Fosse eu um escritor, certamente tiraria daí um belo romance. Como não sou, vão aí essas ligeiras impressões, com meu abraço Carlos

Caio Porfírio Carneiro

Caro Solha,
Recebi o seu livro. O texto é de uma envolvência artística completa: da reportagem ao romance, da crônica ao teatro, da poesia ao cinema. É Arte totalizante. Tudo dela vem a relevo. O livro merece um ensaio, mais que um artigo. Parabéns e obrigado pelo presente.


IVO BARROSO

Meu caro Solha,
terminei (não sem percalços domésticos - a casa está parcialmente em obras) a leitura de seu livro. Pesou-me terminá-lo, pois estava gostando muito do enredo, embora te confesse que as últimas páginas me deixaram um tanto desnorteado. Tive que ler duas vezes a explicação final do Arkáditch, que me fez lembrar aqueles finais de filme em que o bandido está apontando a arma para o herói indefeso, mas, antes de matá-lo, esclarece os seus motivos... e dá ensejo à chegada da polícia. Impressão geral: você escreveu um belo romance policial cult, o que não é pouco pois se trata de gênero difícil, mormente considerando que vc introduziu nele a técnica do script cinematográfico, o que permite a visualização imediata das cenas e esconde, com o recurso dos cortes, o desenvolvimento linear da ação. Não é o seu melhor livro, reconheço; o Relato de Prócula continua alguns furos acima e muito próximo da obra-prima que todos nós seus amigos esperamos de você. Mas ele é certamente muito melhor do que o romance do José Castello, que acaba de ganhar o Jabuti. Gostei de sua explicitude na descrição de momentos escatológicos, como o vômito e a diarreia do velho Né. São chocantes, como penso que você quisesse que fossem. A onipresente Marion não me seduziu muito, talvez por eu me ter fixado na Drica (celista) para a qual eu esperava uma atuação mais destacada, embora sua promoção a mãe cinematográfica tenha restaurado, de certa forma, o segundo plano em que era mantida. Você disse que o Esdras aconselhou-o a cortar "parte dos seus excessos". Eu teria tirado duas coisas, dois trechos: a piada do bolo pin-up da p. 12 (que só funciona em filmes americanos) e todo o episódio do Alisando Cresce (112), que me parece de mau-gosto, mas confesso-lhe não se trata de falso puritanismo meu; simplesmente me parece que ele "destoa" do resto do livro. Por outro lado, cenas como a da praia (102) são dos melhores momentos que tenho visto na atual prosa brasileira: bem escrito, visual e virtual ao mesmo tempo, com palavras que parecerem pertencer a uma restrita coleção de sons inusitados embora familiares e diuturnos. Ao longo do livro, achei outros instantes semelhantes, o que prova seu domínio absoluto da arte de escrever, com as necessárias pinceladas do artista plático que vc é, conjugadas com os flashes cinematográficos do grande ator-diretor- roteirista que habita e atua em você.
No entanto, como conheço você de outros compêndios, é possível que, apesar de todas as coisas positivas que disse a respeito dele, você ache que eu não tenha gostado de seu livro, que não o tenha aprovado inteiramente. Seria falso; gostei sim, não amei-o, não o incensei, mas reconheço sinceramente que é um texto de grande alcance, repleto de ideias e discussões eruditas, coisa hoje rara ou em extinção na literatura brasileira.

Clemente Rosas

Solha:
Concordo com todas as observações do seu amigo Ivo Barroso, elogiosas ou restritivas, e acrescento algumas minhas, do último tipo: me pareceram fora de propósito as descrições detalhadas do Zé Medeiros urinando e da Drica examinando-se no banheiro, em posturas "ginecológicas". E o final me pareceu brusco e indefinido.
Desculpe-me se tomo com reserva a história de vida "independente dos personagens". Mas, se for assim mesmo, acho que caberia ao autor policiá-los, trazê-los para o leito principal do relato. Acho que o romance, como qualquer obra de arte, deve ser planejado. O pintor, quando pega o pincel, já sabe o que vai representar. Ou não?
Para encerrar: não sei se a concepção do livro como um "mix" de policial, conto farsesco, ficção intimista e romance social, resultou em seu favor. Endosso a observação dos seus colegas sobre os "excessos de pretensão". Talvez seja uma questão de gosto pessoal. Gosto de histórias mais simples, contadas diretamente, com um recado explícito. Dou-lhe dois exemplos de romances recentes que li e apreciei, nessa linha: "Leite Derramado" (o único de Chico Buarque que li, pois não valorizo a literatura intimista-pessimista de que desconfiei nos livros anteriores dele), uma comovente história de decadência, como "O Leopardo", de Lampedusa, e "Eu Vos Abraço, Milhões", de Moacyr Scliar, a saga de um esquerdista sonhador em confronto com a realidade, nos primeiros anos do século passado.
Vejo que o que agradou nosso amigo Sérgio de Castro Pinto foi também o aspecto que ressaltei: a inserção da história nas ruas da nossa cidade, fazendo-a mais viva e próxima de nós.
Enfim, já que o livro não vai ser exposto à venda, fique sabendo, pelo menos, que v. tem leitores diferenciados: daqueles que leem e analisam, para ilustrar-se e enriquecer-se. E que a leitura os prendeu, a todos, o que já é importante.