quarta-feira, novembro 30, 2011

Amor, ventos e nuvens

José Virgolino de Alencar

Poema falando de amor, nada melhor do que ilustrar com a foto conjunta com a companheira de 33 anos de união, selada com as bençãos do Criador.


O vento tangendo as nuvens
Pinta no céu um quadro multicor;
Como as nuvens, tu para mim vens
Tangida pelos ventos do amor.

Ouço o forte soprar dos ventos,
Vejo as nuvens se acomodando,
Assim como nossos sentimentos
Ao amor vão se ajustando.

A sintonia é perfeita
Entre as nuvens e o vento;
Nossa paixão também é feita
Na perfeição do firmamento.

No movimentar dos ventos, tanger
Nuvens não é ato de rejeição;
O açoite de nosso amor vem a ser
Redemoinho de coração a coração.

As nuvens são levadas pelos ventos,
No céu o cenário é redesenhado;
Porém, o sopro de nossos sentimentos
Faz o amor cada vez mais ficar selado.

Estranhas Maravilhas


Raul Córdula




A arte de Jairo Arcoverde me interessa desde quando descobri um quadro seu pendurado na parede de num banco da parte antiga de João Pessoa, no início da década de 1970. Já tinha ouvido falar dele, pois na cidade existiam alguns parentes seus, e na época tudo lá era ainda menor. Mas meu encontro com sua pintura, embora apenas com aquela tela, foi marcante. Eu era um artista com poucos diálogos além dos limites cotidianos e ingênuos de qualquer província, e nada além dos deslumbramentos que me provocavam os pouco e raros livros de arte que me chegavam às mãos, ou as conversas e instigações com os meus pares jovens artistas. A pintura de Jairo então me revigorou, e revigorou as atitudes de alguns amigos pintores. Não que nós não tivéssemos informações sobre uma arte livre de cânones acadêmicos, e eivada pelo inconsciente com símbolos ancestrais, como era e continua sendo a pintura de Jairo, eu mesmo sempre me aninhei nesta vertente dos sonhos onde Jairo coexiste, mas também porque aqueles tempos tenham sido especiais.



A década de 1970 foi especial e estranha, vista de longe se perde num emaranhado de interfaces como se fosse um filme sem roteiro, mas se analisamos em detalhes encontramos encalhados naquelas tramas enferrujadas algumas ilhas de pensamentos organizados e lembranças de acontecimentos racionais resultantes da procura do sentido perdido na absurda realidade política e social em que vivíamos. O artista da época lutava em duas frentes: para suportar a frustração do seu ego político ferido e para sobreviver na dura realidade do dia-a-dia. Muitos de nós nos dispersamos, alguns por opção, outros por desencanto, mas outros resolveram enfrentar o poder abusivo usando sua arte como suporte para a ideologia política. Não só a arte, mas as próprias atitudes se modificaram. Assolou-nos a idéia do ‘viver perigosamente até o fim’ inspirada por Godard da década passada em “Acossados”. Ele foi um dos ícones da época cujos filmes mediavam com o mundo a atmosfera de uma Paris que se rebelava, um misto de existencialista e maoísta. Para muitos de nós, que vivíamos ecos beatniks, o álcool e a maconha falavam ao pé do ouvido como pequenos demônios de desenho animado, prometendo-nos infernos e paraísos. Vivíamos a utopia do heroísmo e desobedecemos à ordem instituída.

Daí o meu diálogo com a arte de Jairo. De início foi uma fala solitária e distante, mas com a esperança de encontrá-lo, conhecê-lo, trocar idéias, negociar territórios de linguagens que nos eram comuns. Nossa conversa começou ali, naquele banco, bem antes de eu encontrar sua figura batava nas ladeiras de Olinda e saturar minhas retinas com seus quadros iluminados pelo sol. Na casa de Humberto Magno o encontrei um dia bebendo rum na roda de amigos. Na parede um quadro seu com figuras saídas de uma fantasia branca, azul e laranja, figurinhas bizarras pintadas por um homem que trazia consigo o sentido do maravilhoso. Maravilha, eis a palavra que traduz a obra de Jairo, “maravilha” no sentido de algo que pertence a uma dimensão onde as coisas, os objetos comuns que circulam naturalmente, os animais, os insetos, os viventes grandes e pequenos estão carregadas de uma beleza incomum e assustadora, algo que só pode ser concebido num estado de consciência avançado.

Muitas coisas me identificam com isso, uma delas é meu interesse pela garatuja, pelas anotações nos cadernos de recados ao lado dos telefones, pelos símbolos rabiscados nos muros como vaginas, falos e corações, pelos insetos, peixes, tartarugas, centopéias. Um grande poeta paraibano chamado Luis Correia escreveu nos anos 60: “No lugar onde mora Amélia Reis / o tempo é tão imoto e sem aragem / que sobre o corpo dela as unhas crescem / como crescem nas árvores asa bagens. / No lugar onde mora esta menina / o tempo tem raízes tão mortais / que pra frutificar eu estrumei-o / com os mansos e dejetos animais.” Este clima surrealista, onírico, esquizóide, é para mim uma das traduções de “maravilhoso”.

Os artistas irmãos Aprígio e Frederico, aliás, também são ligados a significados das garatujas, como na arte de Jairo. Por exemplo, nos anos 1980 eles fizeram flotagens das marcas deixadas nas calçadas por pedreiros ou pelo povo enquanto o cimentado da calçada estava secando. Com isto Aprígio editou na Oficina Guaianases um álbum de litogravuras intitulado “Das Calçadas de Olinda”. Estas marcas humanas são minha obsessão há muito tempo, em 1965 Antonio Dias escreveu no folheto de uma exposição que fiz na Galeria Verseau, em Copacabana, estas palavras: “Procura no muro a indicação para o registro: não estará escrito ali “abaixo a ditadura”? não estará desenhado ali um coração atravessado por uma flecha?, e principalmente aquelas manchas, não serão elas semelhantes aos personagens desse drama, deformadas marcas de abandono?”

Os sinais que Jairo dispõe judiciosamente em suas telas são certamente memórias da infância que ele desenfreadamente marca nas telas e papéis e, ao mesmo tempo, com isto é levado a uma sabedoria madura. Faz-me lembrar uma famosa anedota sobre Lacan: contam que o grande psicanalista, num jantar em sua homenagem em Beirute, foi assediado por uma bela mulher que se dizia totalmente seduzida por ele. Ele então lhe disse: “Senhora, vou contar-lhe um segredo, eu só tenho cinco anos.” Às vezes Jairo tem cinco, mas outras vezes ele tem cem.

Uma arte assim, que evoca o inconsciente, segue uma vertente que, no período modernista, se alinhava com o surrealismo, embora a história nos aponte Boch, Breugel, Arcimboldo e Goya muito antes dele, entre o século XIV e XVII. O crítico de arte mineiro Frederico Morais, que também atuou na área da educação artísitca, desenvolveu um esquema para classificar as correntes da arte moderna, e para isto ele usou o cartaz como meio. Ele dividiu as correntes artísticas em três: Construção, Caos e Inconsciente. Na Construção ele colocou toda arte de tendência cerebral, desde Da Vinci e outros renascentistas, passando por Cezanne, e o cubismo, e pelas escolas construtivistas como o neoplasticismo de Mondrian, o suprematismo de Malevitch e o concretismo e neo-concretismo brasileiro. Na corrente do Caos ele vem com Goya e passa por Van Gogh, Munch, os expressionistas, e depois as correntes da arte abstrata como a Action Peinting de Polok e Kooning, o taxismo, a nouvelle figuration e a pop art. Entre uma corrente e outra estava os Inconscientes como os naïfes, o surrealismo, o dadaismo e movimentos como o grupo COBRA – Copenhague, Bruxelas e Amsterdam –, e artistas como Paul Klee e Joan Miró. Muitos artistas de nossa geração tiveram forte influência de Klee e Miró, e Jairo é um deles, apesar do fato de não ter tido contato direto com as obras deles. Nosso olhar para este tipo de arte nasceu mesmo dos livros que víamos. Mas, por exemplo, Karel Appel, Cornelle e Alexisnky, do Grupo COBRA, ainda hoje influenciam jovem artistas.

Começamos a pintar adolescentes, na fase da vida em que tudo é importante, tudo é crítico, tudo marca para sempre. Jairo escolheu seu caminho na adolescência, quando ainda estava no curso livre da Escola de Belas Artes. Suas paisagens urbanas retratando sobrados da cidade antiga eram vendáveis, e com isto ele se profissionalizou precocemente, vivendo cedo de vender pintura.

A Escola mantinha um currículo básico que os alunos, jovens artistas que não quiseram se submeter ao curso superior que eram, curiosamente, os que mais cresceram como artistas tinham que acompanhar. Jairo, porém se recusou às regras curriculares. Destacando-se desde o início aos olhos de Lula Cardoso Ayres, ele trabalhava na Escola livremente, e conseguiu com Laerte Baldini, pintor gravador e diretor da Escola, um espaço só para ele.

Passaram pelos cursos livre e superior da Escola artistas como Ismael Caldas, Roberto Lúcio, José Tavares, João Câmara, Roberto Amorim, José de Barros, Arlinda Maciel, Isabel de Albuquerque, Marisa Lacerda, Silvia Pontual e Silvia Barreto. A Escola funcionava na Rua do Benfica. E nela ensinava um time de professores luminares da arte da época, como Reynaldo Fonseca, Vicente do Rego Monteiro, Fernando Barreto e Murilo La Greca, que somente ministravam aulas no curso superior, e ainda Reginaldo Esteves, Laerte Baldini, Roberto Correia, Raquel de Lima e Lula Cardoso Ayres, que também cuidavam do curso livre.

As paisagens pintadas por Jairo nessa época já anunciavam o artista maduro, já se via nelas resolução de problemas pictóricos maduros, como a composição espacial e a textura em harmonia com a cor.

Tive a oportunidade de escrever sobre sua arte, e para tanto enfoquei aspectos de sua vida no seio de sua família, a família de artistas que ele formou ao lado de Betty Gates, sua mulher ceramista e os filhos Marisa, Joana e Leonardo, os três filhos que se dedicam à arte na prole de cinco.

A marca do talento de Jairo ficou gravada nas casas onde viveu com a família no Recife, em Caruaru, e em Olinda, territórios marcados por crônicas de famílias de artistas. Nossa cidade dupla Recife-Olinda é pródiga em famílias de artistas como a dele – mais Recife do que Olinda –, onde a arte é ofício familiar há gerações, desde os ofícios artesanais até os criativos que chamamos arte, especialmente, muito especialmente a arte da pintura. Em Olinda, por exemplo, estão José Cláudio com seu filho Cláudio Manuel (Mané Tatú), ambos pintores; Gilvan Samico com seu filho pintor Marcelo Peregrino, sua mulher Célida e sua filha Luciana, ambas dançarinas; as pintoras Tereza Costa Rego e Laura Gondim, mãe e filha; o pintor Roberto Lúcio e sua filha escultora Marina Mendonça; Maria Carmem e a filha Vera Bastos; Thiago Amorim e seu irmão Marcos; os irmãos Aprígio e Frederico Fonseca; Giuseppe Baccaro e seus filhos, o pintor Matheus e o fotógrafo Francisco; o pintor Humberto Magno, sua ex-mulher Isa do Amparo e seus filhos Paulinho do Amparo, pintor e músico, e Catarina Aragão, artista visual e DJ; Liliane Dardot e Marilah Dardot, sua filha. Eu mesmo sou casado com Amélia Couto, designer, ceramista e fotógrafa, e venho de uma família de artesãos e artistas.

No Recife, Ariano Suassuna é um desenhista importante, exprime graficamente seu universo armorial, e sua esposa Zélia é gravadora e pintora, eles são pais do pintor e ceramista Dantas Suassuna, sogro do pintor e gravador Alexandre Nóbrega e tios do pintor Romero Andrade Lima; temos também Wellington Virgolino com seu irmão Wilton de Souza e os irmãos Vicente, Fedra e Joaquim do Rego Monteiro, da geração do moderna de 22.

Isto é também uma característica no meio dos artesãos, e Jairo viveu entre ceramistas em Caruaru, onde construiu uma casa no Alto do Mouro, o lugar dos artesãos do barro, onde viveu e trabalhou Mestre Vitalino, artista e músico, ele tocava pífano r toda sua família faz os seus bonecos até hoje. No Alto do Moura Betty Gates, mulher de Jairo, desenvolveu cerâmicas com delicados desenhos tirados do imaginário popular e com uma qualidade material sem par. Lá Jairo também sentiu a força do desenho puro, sintético, lacônico, que dão formas às imagens criadas pelos artistas e reproduzidas pelos artesãos, que às vezes os mesmos artistas, como foi o caso de Vitalino, Manoel Eudóxio, Zé Caboclo e Galdino e suas famílias, todos praticantes de uma maneira econômica de criar, algo neolítico em sua simplicidade técnica, e complexo no sentido sociológico do Agreste que trazem estes objetos simbólicos.

O encontro de Jairo e Betty com a cerâmica se deu por influência do mestre artesão Jeter Peixoto. Inicialmente ele construiu um forno à lenha e passou a trabalhar em todas as etapas do processo, cerâmico, desde a preparação do barro até a queima. Os dois se envolveram totalmente com a cerâmica, portanto sua presença em Caruaru, um artista moderno entre naïfes, teve todo o sentido e resultou em circunstâncias importantes para sua obra.

No alto do Moura o casal criou seus filhos vendo arte todo dia e aprendendo com eles e os amigos artesãos que ocupam inteiramente o lugar. Marisa diz sobre seu aprendizado: “Tivemos a iniciação artística em casa sob a batuta de papai e mamãe, nossos pais-mestres. Eles não deixavam por menos, nada de coisa feia ou mal feita, pois o domínio da técnica só se adquire através do treino, do trabalho repetitivo, o exercício nunca termina. Com essas palavras papai nos incentivava. Se o resultado de seu trabalho for bonito, cuide para sempre melhorar, se não, comece tudo de novo. Com eles freqüentamos exposições, ateliês de artistas amigos, museus e galerias. Tivemos de conviver com outros artistas e outros tipos de trabalhos, e ler, ler muito. Desenvolvemos nosso gosto artístico, mas conhecendo e respeitando o gosto dos outros.”

Nos anos 1960, quando Olinda estava sendo descoberta pelos artistas, ele teve ateliê com o pintor Ismael Caldas. É importante esta referência, Ismael sempre foi um artista possuidor de um espírito independente e crítico, assim como Rodolfo Mesquita. Fecho o firo com Humberto Magno, tão independente quanto os dois. De forma alguma quero fazer uma crítica comparativa, até porque este texto para mim é uma crônica, não crítica, mas considero os quatro artistas ligados em suas criações. Eles parecem olhar o mundo do mesmo ângulo, com os mesmos símbolos e sinais, embora suas pinturas sejam tão diferentes. O auto-retrato de Jairo em que com uma mão ele abre um olho e com a outra aponta para este olho aberto é enigma, de um certo ponto ele parece dizer que “não brinquem comigo, eu tenho os olhos abertos”, mas de outro ele estaria dizendo “ponha aqui uma gota de colírio”. Esta forma de ironia plástico-gráfica se exacerba em Rodolfo Mesquita, seu livro “Crítica do Horror Puro” é um exemplo fantástico de contestação. Já Humberto Magno, mais sereno do que Rodolfo e Ismael, esteve na vanguarda nos anos sessenta e transgrediu a ordem do belo e do barroco com uma geometria gritante nas ruas tortuosas de Olinda. Eis um recorte da criação de artistas da mesma geração que passaram pela ditadura eivados de paixão pela liberdade.

Mas como seria uma vida de artista? Uma fogueira de vaidades? Um frenesi de compromissos sociais? Ou se pautaria por uma disciplina monástica, sacerdotal, ascética? Nada disso: a vida dos artistas é como a vida de qualquer cidadão, uma constante mistura de trabalho e reflexão. O artista estuda, cresce, se casa, tem filhos, educa os filhos, faz feira, adoece, paga imposto, se desloca na cidade e conhece a felicidade e o sofrimento, como todo mundo. A vida de Jairo é exatamente assim: acorda e vai pintar; ouve música erudita e jazz, e vai pintar; rega o jardim, arruma qualquer coisa, e vai pintar... Na verdade nós vivemos num eterno agora e num infinito aqui.

Câmara gasta R$ 12 mi com novos micros

Maria Clara Cabral, Folha de S.Paulo

Além da renovação de computadores nos gabinetes, deputados terão tablets e aparelhos nas bancadas das comissões. Casa afirma que iniciativa visa economizar o papel usado para imprimir projetos e documentos relativos às votações

Sob o argumento de que é preciso economizar papel, a Câmara dos Deputados irá instalar 800 computadores fixos nas bancadas de seus 16 plenários, além de adquirir 4.000 micros para renovar o estoque dos gabinetes e das dependências da Casa.Ao custo de R$ 12,2 milhões, a medida será tomada apesar de cada um dos 513 deputados já possuir quatro computadores de mesa nos gabinetes, além de um laptop com acesso à rede sem fio da Câmara.

Os parlamentares, que normalmente são vistos com aparelhos próprios de última geração, também deverão ganhar tablets para uso no plenário principal.

A ideia é instalá-los em todas as bancadas para que o sistema de votações seja acompanhado online. Hoje a votação já pode ser acompanhada em dois grandes painéis e em monitores menores.

A licitação para a compra dos tablets deve acontecer no ano que vem. Apesar de conhecidos pela portabilidade, a ideia é que eles não possam ser retirados do plenário.

NR - Enquanto nos Hospitais... HC

terça-feira, novembro 29, 2011

Mistificação para Mitificar Verdades e Mentiras...


Delmar Fontoura



O que está por trás dessa página de nossa história?...



Infelizmente não permitem que as “feridas” da "Ditadura Militar" cicatrizem; que haja luz sobre as verdades e mentiras e muito menos querem saber em que contextos ocorreram suas causas e consequências... Só estimulam o extremismo de paixões e sentimentos de revanchismo, pela “derrota” ou pela “conquista” que não houve... ...pois sabemos que só houve perdas...

Por que não buscam respostas para as seguintes indagações:

- Em nome do que os militares tomaram o poder em 64?

- Se foram tão maus, como muitos afirmam, o foram por quê?

- Comparados aos “supostos agentes do mal”, contra os quais afirmam terem se insurgido, quem cometeu mais erros de gestão ou roubou mais dos Cofres Públicos?

- Se têm notícia de que algum militar, presidente ou não, tenha aumentado seu patrimônio desproporcionalmente ao seu “Soldo” durante os 24 anos que estiveram no poder?

- E Lula, Dilma, Dirceu, Palocci, Sarney, Collor, Renan e outros tantos, exemplos de dignidade e ética ilibada, em 8 anos quanto aumentaram seus patrimônios?

E não me venham com a “estória das torturas”, que, embora descabidas, ocorreram em tempos de exceção, pois eu argumentarei indagando: em nome do que, uma e somente uma tortura, a de Celso Daniel, praticada em tempo de paz, foi tão covarde e cruel comparada a todas, que alegam terem sido praticadas pelos militares em tempos de exceção...

Que senso de justiça é esse através do qual querem punir “aqueles” e isentarem “esses”?

Se “aqueles” maus ensarilharam suas armas nos quartéis,
por que “estes” não ensarilham seus espíritos nos cordéis?

Por que o personalismo maniqueísta de um lado enuncia “heróis e vilões” quando sabemos que não houve... ...colocam o real na nebulosidade da dúvida ao continuarem avivando essas “feridas” e negando luz sobre as verdades e mentiras, que se confundem na covardia do anonimato, mas por quê? Porque, nesse caso, nem as supostas “verdades e mentiras são nobres”, pois, entre elas, existem falsos sentimentos tanto de júbilo quanto de dor, “rescaldo” de uma batalha entre irmãos da qual não resultaram vencedores, muito menos vencidos, mas que já está gravada como uma mácula em nossa história...

Ora gente! Chega de mistificação com essa tentativa de mitificar verdades e mentiras de nossa história tão recente...

Do: http://jpfontoura.blogspot.com/

Um Novo Padim Ciço

Anderson Scardoelli

"Câncer vai fazer Lula se tornar o padre Cícero", diz articulista do Estadão

Autor do livro O que sei de Lula, o editorialista do Jornal da Tarde e articulista do Estadão, José Nêumanne Pinto, revela que fará uma segunda edição da obra, originalmente lançada em agosto deste ano. O motivo é a doença enfrentada pelo ex-presidente da República. "O câncer vai fazer Lula se tornar o padre Cícero”, disse ao participar do evento “Liberdade de Imprensa X Politicamente Correto, realizado nesta última segunda-feira, 28, em São Paulo.

Ao citar a doença de Lula – que já faz sessões de quimioterapia para eliminar um tumor na laringe -, o jornalista referiu-se ao religioso cearense Cícero Romão Batista (1884 - 1934), primeiro prefeito de Juazeiro do Norte (CE). Além da vida dedicada à política e ao sacerdotismo, Padre Cícero é considerado santo por muitos fiéis da Igreja Católica. Na cidade em que foi prefeito, há uma estátua de 27 metros de altura em sua homenagem.

Nêumanne acredita que a doença de Lula vai comover a maioria dos brasileiros, tornando-o um mito, não apenas por razões políticas, mas pelo fato de ser um cidadão comum que passa a protagonizar uma verdadeira jornada de herói. “O povo ama o Lula porque tem nele a figura exata do que é um brasileiro”. Esse grau de devoção fará o poder do líder petista crescer até mesmo dentro de seu partido, avalia Nêumanne. “Ele vai fazer o que quiser com o PT e com o Brasil”.

Nêumane não poupou críticas a Lula

De acordo com o jornalista do Grupo Estado e comentarista do SBT e da rádio Jovem Pan, a ascensão progressiva da imagem de Lula coincide com a fragilidade da oposição. Segundo o analista, PSDB e DEM são “coniventes” com a corrupção e a má gestão lideradas pelos governos do PT. Nêumanne Pinto afirma que os tucanos não venceram as duas últimas eleições presidenciais porque não quiseram. “Conseguiram fazer um ex-ministro da Saúde perder para uma mulher que mal consegue falar a Língua Portuguesa”, lembrou.

Amizade
Sobre as afirmações contidas no livro, Nêumanne explicou que realmente sabe muitas histórias de Lula. Em sua fala no evento, as palavras “amizade” e “convívio” sobressaíram como forma de fundamentar as análises acerca das atitudes do petista, principalmente antes do engajamento no campo político-partidário.

Apesar das diversas críticas, o jornalista garante que sua amizade com o ex-presidente não acabou. Perguntado pela reportagem do Comunique-se a respeito de seu relacionamento com o petista, Nêumanne esclareceu. "Quando ele (Lula) decidiu entrar para a política, disse que era um erro e acabamos nos afastando. Minha opinião se mostrou equivocada, pois ele não só ingressou na política como se tornou o maior político da história do País”. O jornalista, porém, crê na simpatia de Lula. “Ele ainda fala bem de mim, até porque não gosta de ler nenhum artigo e não sabe o que escrevo sobre ele”, completou, provocando risos na plateia.

A história do dedo
Aberta ao público para perguntas, a apresentação de Nêumanne não escapou à polêmica sobre a perda do mindinho da mão esquerda de Lula. “É a mesma história das outras contadas pelo Lula: ele sempre é o herói e sempre tem um filho da p... para atrapalhar”, explicou. Segundo o jornalista, Lula lhe contou a versão do acidente somente dez anos depois do ocorrido.

O ex-presidente estaria trabalhando no torno quando um colega bêbado chegou e prensou seu dedo; que ficou trabalhando porque o patrão não o deixou ir ao médico; que depois do expediente foi levado por alguns amigos para o pronto-socorro, mas que o médico amputou o dedo por comodismo. “Aí, eu pergunto: quem era esse bêbado? Quem era o patrão? Quem eram esses amigos? Quem era o médico?”, indagou, respondendo em seguida: “Ninguém sabe!”

A verdade: eu menti.


Mírian Macedo





A JORNALISTA MIRIAN MACEDO REVELA QUE FOI TERRORISTA NA JUVENTUDE, FOI PRESA E MENTIU DURANTE 30 ANOS QUE FOI TORTURADA. A JORNALISTA AFIRMA QUE O ATOR MÁRIO LAGO ORDENAVA QUE TODOS MENTISSEM AO SAIR DA CADEIA E DECLARASSEM QUE QUE FORAM BARBARAMENTE TORTURADOS.

Eu, de minha parte, vou dar uma contribuição à Comissão da Verdade, e contar tudo: eu era uma subversivazinha medíocre e, tão logo fui aliciada, já 'caí' (jargão entre militantes para quem foi preso), com as mãos cheias de material comprometedor.

Despreparada e 'festiva', eu não tivera nem o cuidado de esconder os exemplares d'A Classe Operária, o jornal da organização clandestina a que eu pertencia (a AP-ML, ala vermelha maoísta do PC do B, a mesma que fazia a Guerrilha do Araguaia, no Pará).

Os jornais estavam enfiados no meio dos meus livros numa estante, daquelas improvisadas, de tijolos e tábuas, que existiam em todas as repúblicas de estudantes, em Brasília naquele ano de 1973.

Já relatei o que eu fazia como militante*. Quase nada. A minha verdadeira ação revolucionária foi outra, esta sim, competente, profícua, sistemática: MENTI DESCARADAMENTE DURANTE QUASE 40 ANOS!* (O primeiro texto fala em 30 anos. Eu fui fazer as contas, são quase 40 anos, desde que comecei a mentir sobre os 'maus tratos'. Façam as contas, fui presa em 20 de junho de 73. Em 2013, terão se passado 40 anos.)

Repeti e escrevi a mentira de que eu tinha tomado choques elétricos (por pudor, limitei-me a dizer que foram poucos, é verdade), que me deram socos e empurrões, interrogaram-me com luzes fortes, que me ameaçaram de estupro quando voltava à noite dos interrogatórios no DOI-CODI para o PIC e que eu passava noites ouvindo "gritos assombrosos" de outros presos sendo torturados (aconteceu uma única vez, por um curto período de tempo: ouvi gritos e alguém me disse que era minha irmã sendo torturada. Os gritos cessaram - achei, depois, que fosse gravação - e minha irmã, que também tinha sido presa, não teve um único fio de cabelo tocado).

Eu também menti dizendo que meus algozes, diversas vezes, se divertiam jogando-me escada abaixo, e, quando eu achava que ia rolar pelos degraus, alguém me amparava (inventei um 'trauma de escadas", imagina). A verdade: certa vez, ao descer as escadas até a garagem no subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, onde éramos interrogados, alguém me desequilibrou e outro me segurou, antes que eu caísse.

Quanto aos 'socos e empurrões' de que eu dizia ter sido alvo durante os dias de prisão, não houve violência que chegasse a machucar; nada mais que um gesto irritado de qualquer dos inquisidores; afinal, eu os levava à loucura, com meu enrolation. Eu sou rápida no raciocínio, sei manipular as palavras, domino a arte de florear o discurso. Um deles repetia sempre: "Você é muito inteligente. Já contou o pré-primário. Agora, senta e escreve o resto".

Quem, durante todos estes anos, tenha me ouvido relatar aqueles 10 dias em que estive presa, tinha o dever de carimbar a minha testa com a marca de "vítima da repressão". A impressão, pelo relato, é de que aquilo deve ter sido um calvário tão doloroso que valeria uma nota preta hoje, os beneficiados com as indenizações da Comissão da Anistia sabem do que eu estou falando. Havia, sim, ameaças, gritos, interrogatórios intermináveis e, principalmente, muito medo (meu, claro).

Torturada?! Eu?! Ma va! As palmadas que dei em meus filhos podem ser consideradas 'tortura inumana' se comparadas ao que (não) sofri nas mãos dos agentes do DOI-CODI.
Que teve gente que padeceu, é claro que teve. Mas alguém acha que todos nós que saíamos da cadeia contando que tínhamos sido 'barbaramente torturados' falávamos a verdade?

Não, não é verdade. A maioria destas 'barbaridades e torturas' era pura mentira! Por Deus, nós sabemos disto! Ninguém apresentava a marca de um beliscão no corpo. Éramos 'barbaramente torturados' e ninguém tinha uma única mancha roxa para mostrar! Sei, técnica de torturadores. Não, técnica de 'torturado', ou seja, mentira. Mário Lago, comunista até a morte, ensinava: "quando sair da cadeia, diga que foi torturado. Sempre."

Na verdade, a pior coisa que podia nos acontecer naqueles "anos de chumbo" era não ser preso(sic). Como assim todo mundo ia preso e nós não? Ser preso dava currículo, demonstrava que éramos da pesada, revolucionários perigosos, ameaça ao regime, comunistas de verdade! Sair dizendo que tínhamos apanhado, então! Mártires, heróis, cabras bons.

Vaidade e mau-caratismo puros, só isto. Nós saíamos com a aura de hérois e a ditadura com a marca da violência e arbítrio. Era mentira? Era, mas, para um revolucionário comunista, a verdade é um conceito burguês, Lênin já tinha nos ensinado o que fazer.

E o que era melhor: dizer que tínhamos sido torturados escondia as patifarias e 'amarelões' que nos acometiam quando ficávamos cara a cara com os "ômi". Com esta raia miúda que nós éramos, não precisava bater. Era só ameaçar, a gente abria o bico rapidinho.

Quando um dia, durante um interrogatório, perguntaram-me se eu queria conhecer a 'marieta', pensei que fosse uma torturadora braba. Mas era choque elétrico (parece que 'marieta' era uma corruptela de 'maritaca', nome que se dava à maquininha usada para dar choque elétrico). Eu não a quis conhecer. Abri o bico, de novo.

Relembrar estes fatos está sendo frutífero. Criei coragem e comecei a ler um livro que tenho desde 2009 (é mais um que eu ainda não tinha lido): "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça", escrito pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Editora Ser, publicado em 2007. Serão quase 600 páginas de 'verdade sufocada"? Vou conferir.

http://blogdemirianmacedo.blogspot.com

Via Láctea!

Téta Barbosa

Via Láctea (que sempre me lembra farinha láctea) é um dos poucos poemas que sei decorado. Uma parte só, pra ser sincera, porque o poema, de tão longo, parece aquele crédito inicial de Star Wars, que vai subindo a história do universo e não acaba nunca.

Não sei exatamente porque decorei justamente um poema de Olavo Bilac, por quem não tenho nenhum laço afetivo particular. Acho até ele meio chato. Meio exagerado. Drama Queen total.

Mas, sempre que preciso passar por intelectual, normalmente para impressionar alguém, lá estou eu recitando Via Láctea como se Olavo fosse meu best friend de infância e me seguisse no twitter.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” (…)
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Acho bonito. Só essa parte. E, costumava olhar para o céu (aqui em Aldeia dá para ver estrelas) e pensar nessa parte do poema. Até que um dia, uma amiga disse que céu estrelado lembra um rosto cheio de espinhas.

Odeio gente realista.

Lá se foi todo romantismo literário do firmamento. Isso porque da Lua eu nunca gostei. Não sei, acho ela meio prepotente. Meio amostrada demais. Acho caído esse negócio de São Jorge morar lá num cavalo branco. Se fosse verdade, ele já teria tentado suicídio de tanto tédio. E, como li no livro de Lula Falcão uma frase de Maiakovoski : “prefiro morrer de vodka do que de tédio”, São Jorge deve ter enchido a cara pra não cortar os pulsos.

A lua é um tédio só. É por isso que os americanos foram lá, fincaram a bandeira gringa e deram meia volta na mesma hora.

- Oxe, e a gente ia ficar fazendo o que lá? Disse Neil Armstrong quando desceu do Apollo 11.

Hoje a noite não tem estrelas. Não tem lua. Deve tá rolando uma greve celestial encabeçada pela estrela cadente que tá puta com tanto pedido!

Você já viu uma estrela cadente? Se viu, já fez um pedido? Se fez, ele foi atendido?

A resposta é não, porque a estrela cadente é, na verdade, um corpo celeste formado por plasma. E, desculpem a sinceridade, mas plasmas não costumam atender pedidos!

Moral da história: estrelas são espinhas de plasma e São Jorge, que morava na lua, morreu de cirrose hepática.

Melhor dar um unfollow em Olavo Bilac e seguir com a vida.

No mais, uma ótima semana para você!

*Oficialmente no meu inferno astral! (porque, como diria Nietzsche “É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.”)

Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. Ela também tem um blog - http://www.batidasalvetodos.com.br/

Video Clipe do Dia

O que nos anestesiou?

Do leitor do Blog do Ricardo Noblat que se assina Luiz Alberto

Em que estação da história deixamos a ética, a vergonha na cara, a coragem e a verdade? Por que defendemos com unhas e dentes o lixo ideológico como se fosse um primado político? O que nos anestesiou, ou nocauteou nossas virtudes mais básicas, para aceitarmos as imposições de uma ralé moral que acabou dominando o cenário? Por que gente desprovida de limites nos domina, nos explora e nos engana? Qual a diferença que existe entre os exploradores externos sem escrúpulos que colonizaram nosso passado e os medíocres colonizadores internos que escravizam nossas mentes e nossa dignidade? Laços fora Brasil. Libertas e seras tamen.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Montpellier Part 2



Será preciso dizer que a virtuose é a minha linda netinha Naomi Caldas, Bibi para os íntimos? Pois é, avô de artista é assim, babão todo! HC

Cadê o doce mundo prometido?

José Virgolino de Alencar


Cadê aquele doce mundo que me prometeram, quando ainda criança me ensinaram e quiseram me convencer de que eu estava entrando no caminho da felicidade e me foi assegurado o jardim do Éden? Eu entrei nesse mundo cheio de esperanças, aprendi que a fé me levaria a uma vida sadia e à salvação, depois de cumprir todas as jornadas na terra.


Realmente tive, quando criança, direito a todas as brincadeiras, umas sadias, outras nem tanto, mas perfeitamente justificáveis para aquela fase da vida. Vadiava, pulava, jogava peladas, traquinava nadando pelos rios de minha aldeia, comia frutas, às escondidas, nas propriedades ribeirinhas, fazia muitas travessuras inocentes, enquanto aguardava com animada expectativa o doce mundo que me prometeram.

Adolescente, já sonhava com o mundo perfeito que profeticamente viria, cantava as canções e hinos que me ensinaram, prometendo que aquelas lições eram a base da cidadania, da construção de uma vida vitoriosa, gloriosa, bastando ser um cidadão aplicado, devidamente ajustado às normas da convencionalidade que ditava seguros caminhos para o futuro.

Entre os sonhos e utopias que ia aprendendo, curioso me perguntava em que bases as lições me garantiam que eu iria encontrar um mundo imaculado, perfeito, porque afinal também me ensinaram que ele tinha sido feito pelo Criador, onipotente, onipresente e onisciente, infalível enfim.

Ao entrar na escola formal, a mente evoluindo e já tendo capacidade de pensar, cada vez mais aguçava a curiosidade sobre a verdade das lições, porque começava também a assistir as contradições do mundo, as guerras, as violências, as desigualdades, as grandes riquezas, as imensas pobrezas, as doenças que matavam crianças, adultos e idosos.

Um ponto de dúvida me assaltava, muita coisa na minha cabeça não via compatibilidade entre as lições ensinadas e a realidade observada. Os questionamentos bateram forte, sacudiram os neurônios do raciocínio e da inteligência, para formar uma visão crítica do mundo.

Vivendo na corrente e sob os ventos que sopram nossa vida, levando para caminhos que nem sempre a gente deseja, o tempo passou como um relâmpago e aqui me encontro, já na terceira idade, consciente de que muito fiz, muito construí, muito colaborei para um mundo melhor, venci na vida, se considerarmos as conceituações vigentes, mas o doce mundo que me prometeram quando criança, decididamente, não vi, não creio que veja mais.

Mesmo achando que vale a pena sonhar, não seguro mais os sonhos com o ânimo e a fé dos primeiros anos de vida. E continua na cabeça a indagação: cadê o doce mundo que me prometeram quando criança?

domingo, novembro 27, 2011

Video Clipe do Dia - Montpellier Part 1



Espetacular performance de Trajano (filho) e Trio Alegria (netos Bibi, Tatá e Gabriel) em recital na cidade de Montpellier França, onde moram. O Vô aqui está como todo avô que se preza, estupefato, pasmado e aturdido, mas absolutamente feliz, apesar da saudade. Amanhã tem mais! HC

FALSO RECUERDO - O meu amigo Graça


Hugo Caldas

Em 30/11/2007


Conheci Graciliano de Almeida Chacon ainda na década de 60. Revolução saindo do ovo da serpente. Éramos professores de matemática e história em um cursinho na Conde da Boa Vista e de onde estávamos instalados no quinto andar do Edifício Santa Inês, nos favorecia uma ampla visão das passeatas quase que diárias na avenida, bem como a repressão da policia montada do Esquadrão Luis Cardoso.

Atravessamos incólumes os anos de chumbo. De súbito o Graça desapareceu. Pensei no pior. À época era comum alguém sumir no oco do mundo. Às vezes por vontade própria. Às vezes forçado. Às vezes as pessoas iam embora para não mais voltar. Não sei o que motivou o seu desaparecimento.

Nos reencontramos, quase ao final da década de setenta, já deixando de lado o magistério, em uma firma de exportação. "Fateixa, Comércio & Exportação Ltda". Nome pomposo para tentar vender no exterior umas bugigangas da OA (Ocean Atlantic) uma grife do maior sucesso à época.

O Graça se dizia muito mal amado, sem sorte mesmo. Havia casado e não era feliz. Nem tivera filhos. Por força do ofício, passávamos grande parte do tempo viajando. Adorava quando saia de viagem. Quinze ou trinta dias fora de casa eram um bálsamo para ele. A mulher, dizia, lhe arranjava mil e umas. Ele, pelo seu lado dava o troco. Certa noite solitária e fria em Chicago, estávamos bebericando, jogando conversa fora, no piano bar do hotel quando, feito andorinhas, um bando de garotas se aproximou de nós dois. Constatei que o tipo de abordagem é universal.

- Alguém aí tem fogo? Que horas são?

Havia um imenso relógio na parede bem em frente. Uma lourona interessante, de nome Cindy logo se bandeou para o Graça. Eu me contentei em bater papo com uma india Apache bem simpática de nome "Pink Cloud". Por incrível que pareça conversamos boa parte da noite sobre o cinema de Glauber Rocha. A admiradora tinha visto recentemente, "Terra em Transe" pela enésima vez. Podem vocês muito bem avaliar o tanto de volúpia e sensualismo da minha noite.

Lá pelas tantas decidi ir dormir, sem a índia, evidentemente, pois só o sacrifício de tirar toda a roupa já seria demais. Um frio do bute. Mas o Graça, não. Ele não estava nem aí. Faria o que estivesse ao seu alcance para dar uma corneada na mulher. Ah, disso não abriria mão. Não voltou para o quarto, só reaparecendo quando o sol já ia alto. Disse-me depois que foi uma noite de loucuras. Acredito. Pelo riso cretino estampado na cara.

A respeito da sua jovem esposa, ainda hoje tudo é motivo de aborrecimento para o Graça. Diz, por exemplo, em tom professoral, que a sua mulher simplesmente despreza, não faz caso de uma das maiores invenções do engenho humano. A rosca. Parece brincadeira mas nunca que ela fecha qualquer rosca. Seja de garrafa térmica, ou frasco de adoçante dietético. Teve rosca, ela não usa. Ou melhor, não fecha. O pobre do Graça sempre na maior aflição para que o café não esfrie e o dietético não esparrame pela mesa. Agora deu de roncar à noite e dormir a seu lado tornou-se absolutamente insuportável. Suas abluções matinais, quando inicia o seu ritual particular de lavagens, são impertinentes. De uns tempos para cá se deu ela ao temerário desplante de freqüentar uma seita, aquela mesma que tentou salvar o Tim Maia. Virou praticante empedernida. Para ela, tudo na vida agora tem uma razão de ser e de viver, mercê os grandes ensinamentos dos espíritos de luz e do Mestre Tashiro Yamamoto. Uma chatice monumental.

Voltamos eu e o Graça, à Chicago um ano e meio depois e soubemos que a Cindy havia morrido. Vítima de aids. Foi um choque. Muito mais para o meu amigo e vocês lembram da noite de loucuras que resultou naquele riso cretino estampado na sua cara lavada.

Pois bem, arquitetou o Graça maléfico plano contra sua dadivosa esposa. Havia lido em alguma revista velha encontrada em algum consultório médico que às vezes pessoas que tiveram contato direto com o vírus não apresentam sintomas nem estão devidamente contaminadas. Mas carregam consigo o funesto vírus e podem inocular outras pessoas. Sua vingança seria maligna.

Voltou da viagem mais amoroso do que nunca. Não tinha noite que o fizesse esquecer as suas obrigações matrimoniais. Era muito amor.

Mas os chatos não morrem...

O tempo passou, a empresa fechou, mudei de profissão. Os nossos caminhos se separaram. Certo dia encontrei em um café muito do chic no Shopping Center ela, a esposa do Graça. Disse-me quando por ele perguntei que o meu amigo havia passado dessa para uma melhor. Havia morrido de uma moléstia misteriosa. Foi definhando, definhando, ficou só pele e osso e finalmente bateu as botas. Deixou-a porém, em boa situação financeira pois ela, prevenida como sempre, havia feito um seguro de vida no nome dele cuja beneficiária era ela própria. Já até havia comprado um carro. Agora ninguém mais a segurava. É os chatos não morrem mesmo. Ao final da conversa pagou com cartão e saiu toda serelepe. Foi quando eu percebi que havia deixado a garrafa térmica e o adoçante abertos. Deixara as roscas sem fechar.

Pobre Graça.

sábado, novembro 26, 2011

A Foto do Dia


Tirem as crianças da sala.....

O Millôr Nosso de Cada Dia

"Além de transformarem o Brasil num cassino, viciaram a roleta"!

Este País só seria rico e sem pobreza:


Delmar Fontora





- Se fosse um País com soberania autêntica;
- Se fosse um País sem desonestidade na política;
- Se fosse um País com Poderes “autônomos”;
- Se fosse um País sem “dependência” de Poderes;
- Se fosse um País com Imprensa independente (sic) (livre);
- Se fosse um País sem “freio na verdade”;
- Se fosse um País de eleitores conscientes;
- Se fosse um País sem políticos inconscientes;
- Se fosse um País com “oposição” autêntica;
- Se fosse um País sem “posição” autocrata...

...Mas para que fosse tudo isso teria que ser um País sem o Neolulopetismo...

Pois é, mas quem permitiu, colaborou e colabora para que o Neolulopetismo tenha amealhado tanto poder?

Ninguém sabe?
Sabe, mas não quer falar?
Sabe, mas não pode falar?
Sabe, mas se falar vai perder com isso?
Sabe, mas se falar pode, até, “morrer”?...

Ora! Mas por que digo o que digo? Porque a Lógica nos induz a concluir que os “casos de corrupção” de nosso conhecimento correspondem, somente, a parte do “iceberg” que esta acima da linha... ...os outros 90% estão na Fossa Abissal do mar de lama que grassa pelos corredores e porões das três Casas do Governo... ...todo esse aparelhamento foi estabelecido para manter o “status” do egocentrismo de Lula enquanto no Poder de direito, agora, no “poder de fato”, o “statu quo” se mantém para apagar as pegadas” que deixaram da governança e da campanha do Neolulopetismo para eleger Dilma?...

Eles foram tão “longe” que, agora, se vêm na contingência de se colocar acima do bem e do mal... ...convictos, de que ninguém os impedirá de continuarem tudo isso, agindo como uma “máfia”, para encobrir a “terrível e ameaçadora verdade” que está por trás das ações de seus “crimes políticos”, e “nem tão políticos”!...

Caímos e ficamos, inertes, na vala comum que o Neolulopetismo cavou para nos cobrir... ...pois querem que fiquemos comentando os “crimes políticos e nem tão políticos” que cometem diuturnamente... ...Precisamos analisar os “fatos” para concluirmos que dispositivos nossa Soberania Democrática contem para que, postos em prática, possam alijar, da política convencional brasileira, este monstro e sua gosma, que é o Neolulopetismo...

Video Clipe do Dia



E Viva o Brasil!

A Pausa Que Refresca


Eduardo Almeida Reis






Tiro&Queda 26.11.11 sábado

Bengalas – Ortopedista e traumatologista, o Dr. Eduardo Amaral Gomes deu-nos bela matéria sobre como e quando usar bengala, na edição de 7 de novembro aqui do Estado de Minas. Informa o ilustre xará que as pessoas são resistentes ao uso de bengalas, dizendo ao médico: “Não sou tão velho assim”, ou “Não tenho idade para usar bengala”, ou “O que os meus amigos vão pensar?”.

É assunto que manjo bem, porque usava bengala quando me mudei para Belo Horizonte há 15 anos. Não sei por que usava, mas me lembro que usava e o bastão de madeira, com a extremidade superior em forma de meio-círculo, fazia um sucesso danado. Na festa de inauguração de um museu próximo da Praça da Liberdade, onde havia uma só cadeira, adivinhem o galã que nela se assentou? Senhoras e senhoritas, quando me traziam drinques e salgadinhos, perguntavam: “O senhor está bem?”. Estava ótimo, até porque adoro ser paparicado.

Bengalas são incompatíveis com certas situações. Um exemplo: bufê de comida a quilo. Não dá para empurrar a bandeja, segurar a bengala e apanhar com a colher imensa uma pouca da farofa de bacon, que fica sempre “do lado de lá” da platibanda que prefiro.

Há bengalas ótimas em tempos bicudos como os atuais. Algumas têm embutido imenso punhal, que mais parece um florete para trespassar o bandido que ataca o homem de bem; outras se transformam em revólveres com meia dúzia de projéteis para mandar o bandido desta para a pior.

A minha, que continua guardadinha no armário, não tem revólver ou florete: é de madeira e tem a extremidade superior em semi-circulo; o xará diz que o tipo em forma de T é melhor. Releva notar que houve tempo, não muito distante, em que a esmagadora maioria dos homens sérios usava bengala. Não por necessidade, mas pelo chiquê do bastão de madeira, às vezes encastoado em ouro.

Epa!, que o verbo encastoar pegou bem à beça. Significa “aplicar castão a” e castão é ornato na parte superior de bengalas, bastões etc. Gosto de encastoar o texto com essas tolices, que não fazem mal a ninguém.

IDH – Em que país vivem dona Dilma e o doutor honoris causa? É a pergunta que me ocorre depois de comprar uma quentinha. O Taj Mahal é vizinho do restaurante de comida a quilo, onde almoça Cristina, a mais doce das morenas belo-horizontinas. São 10 metros de calçada. Pois muito bem: não raras vezes, para não dizer quase todo dia, nos 10 metros aparecem patrícios pedindo que lhes pague os almoços. É constrangedor dizer que não tenho o dinheiro, porque tenho e está no bolso. De outra parte, se sair pagando almoços por aí, não me sobra um ceitil, moeda portuguesa do tempo de D. João I (1385-1433).

Ministério – No jargão das donas de casa de antigamente, ministério era o conjunto de empregados domésticos. Se madame tinha cozinheira, copeiro, babá e jardineiro, agradecia quando lhe ofereciam novo empregado: “Merci, mas o meu ministério está completo”.

Merci corria por conta do francês que todas falavam e muitas sobreviventes ainda falam. Carmelo Bonet (“A Técnica Literária”) ensina: “ministro é hoje um personagem de alta hierarquia. Antigamente, era da menor categoria: o criado, o servo (minister,tri)”.

Argentino, Bonet viu o peronismo transformar os ministros em personagens da mais baixa extração. Os brasileiros temos visto, nos últimos anos, ministérios compostos por gente inqualificável. E o leitor de Tiro&Queda, perplexo, vem de constatar que já andei lendo sobre técnica literária. Mais grave que isso: fiz palestra numa Universidade Federal para mestres e universitários de letras. Alfim e ao cabo, de pretensão e água benta cada um toma a que quer.

O mundo é uma bola – 26 de novembro de 1764: proibida na França a Companhia de Jesus. Que diabo haverá com os jesuítas, que, de vez em quando, são proibidos num país? Para conhecê-los, nada melhor do que a leitura de “Os Jesuítas”, de Malachi Martin, S.J. É de cair o queixo.

Em 1801, Charles Hatchett anuncia a descoberta de um novo elemento, a que deu o nome de colombium, redescoberto no final do século, quando recebeu o nome de nióbio. A partir daí, tudo que envolve nióbio é meio misterioso, pelo menos para um sujeito que só estudou pecuária leiteira.

Em 1930, criação do nosso Ministério do Trabalho, hoje do Trabalho e Emprego, que anda ou andou às voltas com a administração do inacreditável Carlos Roberto Lupi.

Ruminanças – “Não aguento mais as notícias de que fuzis e bazucas são privativos das forças armadas. É óbvio que não devem ser manejados por adolescentes” (R. Manso Neto).


sexta-feira, novembro 25, 2011

A Charge do Dia

A Frase do Dia

O deputado Paulo Pereira da Silva, o tal Paulinho da Força, acaba de mostrar quantos neurônios tem, ao pronunciar a seguinte frase: "Não dá para aceitar que a imprensa fique derrubando ministro de 15 em 15 dias." Uma frase histórica, digna de placas a serem fixadas na CUT e na Câmara. Nobre deputado, quem derruba ministro não é a imprensa, não lhe informaram isso? Eles estão caindo porque são ladrões do erário e foram denunciados por uma imprensa não comprometida com esse governo corrupto. E mais, um rato decapitado há cada 15 dias é pouco. Se o Judiciário fosse independente, se o Legislativo não tivesse sido comprado e o Executivo perdesse a chave do cofre, todo o governo seria derrubado em um só dia. E as quadrilhas (inclusive a sua), eufemisticamente chamadas de partidos políticos, seriam imediatamente extintas para o bem do Brasil e em respeito ao cidadão.

Humberto de Luna Freire Filho hlffilho@gmail.com para O Estado de São Paulo





Os trilhos da Copa

Sandro Vaia

Quando você começa a se acostumar com a idéia de que, apesar das evidências de que mentiu, o ministro Carlos Lupi continuará no cargo até a reforma ministerial, eis que surge na avenida um novo samba enredo.

Enquanto o ministro que ama a presidenta está garantido por mais alguns meses, o outro, Mario Negromonte, das Cidades, (na foto) que já andava na berlinda há alguns meses, é acusado agora de facilitar uma fraude que aumenta em 700 milhões os gastos previstos para um projeto de mobilidade urbana a ser realizado em Cuiabá (MT), para a Copa do Mundo de 2014.



O truque foi relativamente simples: havia no ministério um processo para a construção de uma linha rápida de ônibus em Cuiabá, ao custo de 500 milhões de reais. O governo de Mato Grosso alterou o projeto para a construção de um VLT ( Veículo Leve Sobre Trilhos) que custaria 1,2 bi, 700 milhões a mais do que o projeto original.

NR - Em verdade vos digo: Virou rotina e a bola da vez agora é Ministério das Cidades (existe isso?) vamos pagar pra ver no bode que não vai dar. HC

Será!?

Não seria fantástico?

Já que colocam fotos de gente morta nos maços de cigarros, por que não colocar também:

de gente obesa em pacotes de batata frita,
de animais torturados nos cosméticos,
de acidentes de trânsito nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas,
de gente sem teto nas contas de água e luz, e
de políticos corruptos nas guias de recolhimento de impostos?










Video Clipe do Dia



O clipe já tem um tempinho. Por onde anda o Negão simpático, cantor das verdades que continuam atualíssimas? HC

quinta-feira, novembro 24, 2011

Ziraldo Condenado


Criador do Menino Maluquinho, cartunista Ziraldo é condenado a mais de dois anos de reclusão

Caneta pesada – Diz a lenda que a justiça divina tarda mas não falha, mas em alguns casos a justiça terrena também segue o mesmo caminho. Pelo menos é o que se depreende de uma decisão da Justiça Federal no Paraná, que na quarta-feira (23) proferiu sentença contra os integrantes do grupo que fraudou o 1º Festival de Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu, realizado em 2003.

O juiz federal Mateus de Freitas Cavalcanti Costa condenou os envolvidos na fraude a penas diversas, como pode ser conferido na íntegra da sentença condenatória. Entre os sentenciados está o cartunista Ziraldo Alves Pinto, criador do “Menino Maluquinho”, e seu irmão Zélio. De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal, o Festival de Humor das Cataratas do Iguaçu arrecadou R$ 525 mil através de convênios com diversos órgãos oficiais, como Embratur, Governo do Estado do Paraná e Prefeitura de Foz do Iguaçu. Ainda segundo o MPF, “o Festival do Humor proporcionou aos denunciados o benefício consistente em contratar diretamente suas empresas gráficas e publicitárias”.

Polêmico desde o início, o escândalo foi revelado em primeira mão, à época, pelo jornalista Hélio Lucas, que nesta quinta-feira (24) voltou a noticiar o caso. Por decisão do juiz Freitas Cavalcanti, o cartunista Ziraldo foi condenado a mais de dois anos e dois meses de reclusão, enquanto seu irmão, Zélio, a um ano e quatro meses, além de pagamento de multa.

NR - Quanto quer apostar que ele não chega nem na calçada da cadeia? Nunca antes neste país aconteceu de ladrão ser preso! HC

CORRUPTO BOM É CORRUPTO PRESO


Sônia van Dijck

Reprise da perigosa chanchada do governo petista-aliados

Nesse 26 de outubro de 2011, caiu o quinto ministro do governo petista-aliados de Dilma Rousseff. Revoltante reprise de outros episódios dos governos petistas-aliados. Tudo começou com o mensalão. Não. Tudo começou com a tal reforma da Previdência, em 2003, quando Lula loteou o estado brasileiro para poder alcançar seu projeto de arrecadar mais muitos milhões para os cofres dos porões do exército encarregado de ocupar o poder. Não. Tudo começou quando Lula fingiu ser decente e civilizado para, por um lado, se aliar ao capital e conseguir apoio, e, por outro lado, travestido de eterno proletário, enganar as massas. Sei lá quando tudo começou a virar esse Brasil em um país sem ética e sem princípios. Pode ser que tenha começado em 1980, quando o PT apareceu como movimento ético, por um Brasil melhor, e vendeu essa imagem para as instituições fundamentais da sociedade brasileira, entre elas o voto do eleitor.

Porém, só em 2005, a sociedade brasileira ficou sabendo do mensalão e de outros escândalos mais. Todos os escândalos são resultantes de roubo dos impostos pagos pelos contribuintes. Desde então, a corrupção tornou-se instituição do estado brasileiro. No processo, aprimorando-se os métodos, todos os ministérios, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, os Correios, todas as instituições federais e até aquele posto do INSS esquecido naquela cidadezinha poeirenta perdida no mapa desses 513 mil e mais qualquer coisa quilômetros quadrados, adotaram a corrupção como forma de atuação política.

Nos últimos 9 anos, a corrupção criou milionários, engordou o cofre dos partidos aliados ao PT, trouxe alegria a empresários safados, inventou obras superfaturadas e outras tantas que não passaram do dia do comício de inauguração com Lula ao lado de Dilma Rousseff, a “mãe do PAC”.

Em 2011, 9 anos depois de inventada a nova metodologia de governabilidade, a corrupção transformou-se em comportamento habitual até do vereador e do prefeito daquele município daquela cidadezinha poeirenta, cujo posto do INSS está entregue a algum analfabeto petista ou militante de partido aliado. Ficou no passado a malandragem da contravenção do jogo do bicho e aquela do “conto do vigário”.

Chegamos a magistrados, delegados, políticos, ministros, empresários, churrasqueiros, marqueteiros, advogados, compadres, policiais, crime organizado, traficantes, estupradores, sequestradores, arrombadores de caixas eletrônicos, pedófilos, agressores de mulheres, em um sistema em que as celebridades dos noticiários estão fora da Lei. Esse sistema tem irmão “lambari” que virou ricaço e primeiro filho que virou milionário.

E, nesse 26 de outubro do ano graça 2011, vimos o quinto ministro do governo petista-aliados cair por acusações de corrupção. E o que aconteceu com os quatro defenestrados anteriores? – o mesmo que vai acontecer com esse quinto? E por onde andam os quatro derrubados anteriores? – por onde começa a andar esse quinto? Ou seja: a classe política vai ao paraíso da boa vida com a fortuna amealhada sem suar a camisa.

A coisa que socialista e comunista mais odeia é trabalho; basta verificar entre os socialistas do governo petista (todos politicamente corretos) quantos ficaram milionários com a colaboração dos impostos dos cidadãos, sem ter trabalhado para isso; apenas sentados nos gabinetes de figurões do governo, assinado papeis e ou tendo encontros na garagem... – começar por Palocci é uma boa ideia.

Orlando Silva seguiu o roteiro já tão exaustivamente experimentado: tudo é mentira; sou inocente. Como seus companheiros de performance calhorda, desfilou como fantasma assombrando a moralidade, e esteve em depoimento no Congresso Nacional, entrando e saindo do Planalto, sendo secundado pela declaração de confiança da governanta.

Espetáculo midiático de péssimo gosto: o calhorda prepotente que acredita na impunidade. Pouco adianta exigir a saída de mais um corrupto denunciado pela imprensa livre. A imoralidade não é pontual, desse ou daquele ministro, desse ou daquele prefeito ou vereador. A imoralidade está no sistema.

Desde que Lula instaurou o estado brasileiro em capitanias doadas aos partidos políticos, abriu-se a porta para o crime de alto escalão, dentro do princípio socialista de que o fim justifica os meios. A nova governanta Dilma Rousseff, nesse episódio do Orlandinho, ilustra sobejamente o esquemão montado e em pleno funcionamento: a capitania do esporte pertence ao descarado PCdoB, e não importa o que seus militantes sejam capazes de fazer pelo desporto no Brasil ou o quanto sejam capazes de roubar – o melhor é poder roubar o quanto der (a Copa está na hora da vez).

Dilma Rousseff não tem autonomia para escolher novo ministro. Dilma Rousseff, no momento, refém do PCdoB, nomeará ministro o escolhido pelo partido. Pode ser uma deputada que nada entende nem de pular corda; mas pode ser Aldo Rebelo, o xerife do intercâmbio linguístico: aí ele vai mudar futebol para ludopédio (resta saber se a FIFA vai aceitar tal paixão etimológica militante de coisa nenhuma).

Na verdade, o que se vai acompanhar é a troca de seis por meia dúzia, tal como se tem visto nos últimos anos e como tem feito Dilma Rousseff nos quatro defenestrados anteriores.

Dilma Rousseff não tem perfil de inovadora, e nem tem liderança, a ponto de evitar a reprise dentro de alguns meses. De qualquer forma, o roteiro de seu governo já está bastante conhecido: sou inocente – são calúnias – vou entrar com processo por difamação – vou exigir investigação da Polícia Federal - abro meu sigilo bancário (como se grana ilícita fosse depositada no Banco do Brasil) –“ vou defender minha honra” (aqui é citação de Orlando Silva, que não tem nada para defender).

Os bons tempos do cinema brasileiro tiveram chanchadas bem melhores e mais criativas. Agora, é só esperar a imprensa livre abrir novas portas de acesso aos porões do governo Dilma Rousseff – vai sair lama por todas as janelas do próximo ministério.

No Brasil do governo petista-aliados corruptos, a imprensa governa melhor do que Dilma Rousseff, refém dos safados partidos aliados e militantes do PT– quem criou esse sistema do “toma lá, dá cá” foi seu guru, para quem ela deverá ceder o lugar em 2014: LULA.

Desde que os corruptos partam rumo ao paraíso da boa vida de milionários, precisamos exigir apuração rigorosa (difícil vai ser encontrar magistrados isentos...) e punição na forma da Lei (é aí que fica mais difícil de encontrar magistrados isentos – basta lembrar que o processo do mensalão dorme em berço esplêndido até que todos os crimes prescrevam). É aí que a coisa fica difícil. Como diria minha avó: é aí que a porca torce o rabo...

Apesar de serem marajás, os magistrados são a última esperança do contribuinte, para ver a apuração dos crimes e a punição dos arrombadores dos cofres públicos, na forma da Lei. Esperança vã, talvez... A corrupção foi imposta como instituição nacional: do magistrado ao síndico de condomínio residencial.

Constatação

Dores nas costas?


Recentemente o presidente da Câmara dos Deputados recebeu várias queixas de Deputados com problemas sérios na coluna e, após uma pesquisa detalhada sobre quais os motivos, o médico do posto médico da Camara dos Deputados descobriu que o problema era o colchão, que não estava na posição adequada!

A Frase do Dia


"Sou obrigado a reconhecer que, com toda a corrupção que teve de um tempo para cá, o que encontramos no governo Collor deveríamos ter enviado para o juizado de pequenas causas". Senador Pedro Simon


Video Clipe do Dia



Sobrou...!

quarta-feira, novembro 23, 2011

Direto ao Ponto


Augusto Nunes



Depois do doutor que não lê, o Brasil inventa a faxineira que gosta de lixo


Além do brasileiro, o Brasil já inventou o analista de juiz de futebol, o jurado de escola de samba, o despachante, o senador biônico, o flanelinha, o comunista capitalista, o cabo eleitoral de ofício, o guerrilheiro que não sabe atirar e a família Sarney, fora o resto. Deve achar pouco, sugerem as duas singularidades incorporadas em 2011 ao vastíssimo acervo de assombros. No começo do ano, o País do Carnaval pariu o único doutor do mundo que nunca leu um livro e não sabe escrever. Em seguida, decidiu que Dilma Rousseff seria a primeira faxineira da história que odeia vassoura e gosta de lixo.

Promovida a ministra de Minas e Energia em 2003, Dilma fez mais que conviver anos a fio, sem qualquer vestígio de desconforto, com o lixo amontoado por Lula no primeiro escalão federal. Como atestam três itens no prontuário, a chefe da Casa Civil fez o que pôde para piorar o que já estava péssimo. Com o dossiê forjado contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Dilma aumentou o lixo. Com a conversa em que tentou induzir Lina Vieira a indultar a Famiglia Sarney, escondeu o lixo. E intensificou extraordinariamente a produção de lixo ao transformar em sucessora a melhor amiga Erenice Guerra.

“A corrupção será combatida permanentemente”, mentiu no discurso de posse. Se pensasse assim, seriam outros os ministros na plateia. Ao chamar de volta Antonio Palocci e Alfredo Nascimento, por exemplo, trouxe para dentro de casa o entulho já depositado na caçamba. Ao nomear Pedro Novais e manter no emprego Wagner Rossi e Orlando Silva, afastou do aterro sanitário algumas pilhas de detritos. Ao prorrogar o prazo de validade de Carlos Lupi, revelou que já existe até o lixo de estimação.

Como atestam as fotos feitas no dia da posse, Dilma ficou muito feliz com a escolha dos seis ministros localizados pela imprensa no pântano das maracutaias. Lamentou a partida de cinco e faz o que pode para não se desfazer do sexto. A permanência de Carlos Lupi no Ministério do Trabalho transforma a antiga suspeita em certeza: a faxineira do Brasil Maravilha não consegue viver sem lixo por perto.

terça-feira, novembro 22, 2011

Testosterona Feelings!


by Téta Barbosa




Nenhum lugar no mundo tem tanta concentração de hormônios femininos como numa sala de espera de um consultório ginecológico.

Ontem passei quase duas horas nesta anti-sala do inferno esperando ser atendida pelo médico queridinho de todas as grávidas do norte/nordeste.

Sim, todas estavam grávidas. E eram muitas. Algumas, inclusive, levaram suas crias da barriga anterior para o consultório, além do barrigão de 7 meses.

Ou seja, grávidas e crianças pequenas correndo e gritando numa minúscula e minimalista sala de espera.

Eu, ali, me sentindo a alien da situação, tentava me concentrar na leitura das revistas de oito meses atrás. Até porque no dia que você encontrar um consultório com revistas do mês, me avisa que eu mudo de médico na hora!

Tentei, durante a primeira meia hora, ficar alheia àquela conversa sobre fraldas, amamentação e doenças infantis até que, a mulher sentada do meu lado, que carregava Sofia no colo, soltou esta pérola:

“Sofia adora ar condicionado. Ela ama o frio”.

Certo. Todos nós, moradores no Nordeste, amamos ar condicionado. O ar condicionado deveria, inclusive, fazer parte do pacote dos direitos humanos. Mas como, eu me pergunto, em nome da ciência, Sofia, que tem apenas 22 dias de nascida, conseguiu demonstrar que prefere o frio ao calor? Como, minha gente?

Observei Sofia durante algum tempo. Ele nem consegue levantar a cabeça e durante as duas horas de espera, ela passou 20 minutos mamando e o resto do tempo dormindo. Claro, é isso que os recém nascidos fazem! Eles mamam e dormem, dormem e mamam.

A não ser que Sofia seja super-dotada ou a mãe em questão tenha poderes de ler pensamentos, Sofia NÃO prefere frio ao calor. E,se prefere, NÃO conseguiu demonstrar.

O fato em questão só demonstra a teoria, amplamente difundida no meio científico: as mães são loucas. Fato absolutamente plausível considerando que as mães de recém nascidos tem pouquíssimas horas de sono.

A mãe de Sofia tinha olheiras de Nosferatu e aquele jeitinho de quem dormiu 8 horas na última semana inteira. Perdoada.

Mas, a mãe/louca continuou a descrever, para a amiga grávida ao lado, as peripécias da pequena Sofia. Com ares de “aqui fala a voz da experiência”, já que a colega de sala de espera ainda espera o primeiro filho, ela ficou ali enumerando as heróicas ações da super poderosa Sofia.

Eu já estava preparada para pedir uma gilete para a secretária, com o intuito de cortar os pulsos publicamente, quando o médico me chamou.

Ele não entendeu quando, ao entrar no consultório, eu dei uma abraço forte nele e disse:

- Eu amo testosterona!

Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. Ela também tem um blog - http://www.batidasalvetodos.com.br/

Video Clipe do Dia



Pra que ponte?

segunda-feira, novembro 21, 2011

O Brasil falante




Olavo de Carvalho




Quanto mais de longe se olha o Brasil, mais se vê que não é um país: é um hospício. Um hospício sem médicos, administrado pelos próprios loucos que se imaginam médicos.

Nada aí funciona segundo os preceitos normais do cérebro humano. É o perfeito “mundo às avessas” do Dr. Emir Sader – chefe do conselho médico desde que o Dr. Simão Bacamarte deixou este baixo mundo.

A loucura não vem de hoje. Certo dia, após uma das minhas aulas na PUC do Paraná, reuniu-se um grupo de alunos para ouvir e apoiar o protesto de um deles, que, entre lágrimas – sim, entre lágrimas –, clamava contra o que lhe parecia uma depreciação infamante da cultura nacional. “Onde já se viu – soluçava o rapaz – chamar de decadente e miserável um país que tem intelectuais da envergadura de Chico Buarque de Holanda?”

Eu soube do caso por terceiros, mas se ali estivesse teria gravado o episódio em vídeo, para ilustrar as aulas subseqüentes, quando voltasse ao tema da patologia mental brasileira. A destruição da cultura superior evidencia-se não somente na desaparição dos espíritos criadores, mas na inversão da escala de julgamentos: na ausência de qualquer grandeza à vista, a pequenez torna-se a medida da máxima grandeza concebível. Pois um professor gaúcho não chegou a proclamar o referido Chico um artista universal da envergadura de Michelangelo? Seria preciso anos de exercícios de percepção para fazer ver a essas criaturas que numa só pincelada de Michelangelo há mais riqueza de intenções, mais informação essencial, mais intensidade de consciência do que em tudo o que se publicou no Brasil sob o rótulo de “literatura” desde a década de 80, da autoria de não sei quantos Chicos. Mas a mera sugestão de que deveriam submeter-se a esse aprendizado lhes soaria brutalmente ofensiva – uma prova de autoritarismo fascista. A idéia mesma de que a literatura deva refletir uma intensidade de consciência, uma riqueza de experiência humana, acabou por se tornar incompreensível quando tudo o que se espera é, na mais ambiciosa das hipóteses, que o artista invente variações engraçadinhas para os slogans de praxe (isso é a definição de Chico Buarque de Holanda, com a diferença de que ele já não é mais tão engraçadinho).

Nos anos mais recentes, porém, a situação agravou-se para além da possibilidade de uma descrição de conjunto. O máximo que se pode fazer é chamar a atenção para detalhes significativos, na esperança de que o interlocutor vislumbre a gravidade da doença pelo sintoma isolado. Um desses sintomas é a decomposição do idioma. Dou graças aos céus por não ser escritor de ficção nos dias que correm, quando se tornou impossível conciliar linguagem coloquial e correção da gramática. Leiam Marques Rebelo ou Graciliano Ramos e entenderão o que estou dizendo. Os personagens deles falavam com extrema naturalidade sem incorrer em solecismos. Hoje em dia, tudo o que se pode fazer é escrever como gente nos trechos narrativos e descritivos, deixando que nos diálogos os personagens falem como macacos nerds. É a literatura exemplificando o abismo entre a linguagem culta e a fala cotidiana. Mas a existência desse abismo prova, ao mesmo tempo, a inutilidade social de uma literatura que já não poderia ser compreendida pelos seus próprios personagens.

Antigamente esse dualismo extremo de linguagem culta e vulgar só aparecia quando o autor queria documentar a fala das classes muito pobres, afastadas da civilização por circunstâncias econômicas ou geográficas insanáveis. Na era Lula tornou-se necessário usá-lo para reproduzir a fala de um presidente da República – e, depois, a de senadores, deputados, líderes empresariais e tutti quanti. Um jornalista decente já não pode escrever na linguagem de seus entrevistados. Não há mais medida comum entre a consciência e os dados que ela apreende. Isso é o mesmo que dizer que já não é mais possível elaborar intelectualmente a realidade, ao menos sem improvisar arranjos lingüísticos que estão acima do alcance da maioria.

Alguns ouvintes já entenderam que a linguagem paradoxal do meu programa True Outspeak – explicações eruditas entremeadas de palavrões grosseiros – é um esforço barroco, talvez falhado, de sintetizar o insintetizável, de resgatar para a esfera da alta cultura a fala disforme e quase animal do novo Brasil. Muitos nem percebem a diferença entre a linguagem tosca e sua imitação caricatural.

domingo, novembro 20, 2011

Video Clipe do Dia

Temos aqui o Osmar Prado para fazer companhia ao Wagner Moura em tecer loas ao MST. Dentro da mesma filosofia de citar fulano, sicrano e beltrano a fim de culpar a colonização bem como a distribuição de terras... Alguém poderia explicar "o que têm as Capitanias Hereditárias a ver com as calças"?. E que coisa mais antiga meu Deus esse, "Hasta la vitoria siempre". Deve estar se achando o cão chupando manga! HC


Meu Tipo Inesquecível - Ney Quadros


Hugo Caldas




Escandaloso, espalhafatoso, tonitruante. Eis os adjetivos mais oportunos colhidos no Aurélio para definir e qualificar devidamente o meu amigo Ney Quadros. Figura singularíssima, ótimo sujeito, amigo fiel, incapaz de uma maldade sequer. Coração maior do mundo. Tinha, no entanto um senão. Bebia muito e sempre. E quando bebia tornava-se inconveniente. O conheci ainda em João Pessoa para onde ele ia com certa regularidade. Era primo de Celso e Moacir Japiassu que ainda não haviam pegado o rumo do sul maravilha.

Por ter que assumir o meu primeiro emprego no Recife, e considerando o isolamento a que seria relegado na cidade desconhecida, logo Ney se ofereceu para ser o meu cicerone, abrindo umas tantas e quantas portas para mim. Mal poderia supor as venturas e travessuras que me esperavam. Egresso do mundo intelectual que incluía uma passagem significativa pelo Teatro do Estudante da Paraíba achava eu, na minha santa ingenuidade, que as coisas na "vizinha capital do sul" seriam uma mera continuação do que tinha vivido até então em João Pessoa.

Ledo engano. Achei por bem aceitar o oferecimento de Ney e logo iniciamos o nosso périplo por lugares interessantíssimos. Para começar me ambientei no "Chateau d'If", prédio antigo na Rua do Rangel que ostentava umas ameias à semelhança da prisão onde ficaram Edmond Dantès e o Abade Faria, personagens de "O Conde de Monte-Cristo", de Alexandre Dumas. Era um atelier de pintura. Conheci e passei a frequentar o Bar Savoy - "trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustados" - onde bebíamos um chope honesto na companhia da melhor intelectualidade do Recife.

Logo aconteceu uma exposição de artistas plásticos da Paraíba no Mercado da Ribeira em Olinda. Claro que enchemos a cara, eu e Ney, em um bar perto do evento e terminamos a noitada no chão da sala da casa de Adão Pinheiro, no Carmo em Olinda. Acordo às 10 da manhã amargando uma terrível ressaca e o que vejo? Ney fazendo gargarejo com uma garrafa de Ron Montilla. "Pra rebater", disse.

O Recife à época era uma cidade risonha e franca. E não fedia.

Nos primeiros tempos eu e Ney saíamos à farra quase que noite sim e outra também. Freqüentávamos lugares como O Flutuante, restaurante construído em uma balsa que ficava ancorada quase em frente à Livraria Ramiro Costa, de saudosa memória: ainda hoje lá estão as escadarias que usávamos para descer até o convés. O Maxim's na Praia do Pina com suas peixadas memoráveis e muita cerveja. A Torre de Londres de cardápio respeitável, em pleno Parque Treze de Maio. Festa da Mocidade aonde íamos paquerar as vedetinhas... Era um custo segurar o Ney que a toda hora ameaçava subir ao palco e agarrar uma delas. Teatro Marrocos de propriedade do grande comediante Barreto Junior, já nosso velho conhecido desde as suas célebres temporadas de João Pessoa.

Na zona, o Bar Chanteclair. Bar do Grego onde íamos quebrar pratos muito antes de Zorba/Quinn nos encantar nas telas do Cine São Luís. Texas Bar, Silver Star, todos lugares agradabilíssimos do baixo meretrício. Mister se faz ressaltar que em todos os bares acima relacionados, o Ney sempre bêbado e sempre inconveniente dava um vexame. Nunca vi uma admoestação sequer. Todos os proprietários e garções o conheciam e gostavam dele. Passavam-lhe a mão pela cabeça.

O lado cultural era geralmente preenchido aos sábados pela manhã no Cinema de Arte de Casa Amarela, (Coliseu) de onde saíamos ao meio-dia já prontos para novas aventuras.

Apesar das nossas sortidas serem geralmente à noite lembro de Ney no Recife Velho, em plena luz do dia, envergando imaculado macacão branco, empunhando um caderno de desenho, lápis, régua, crayons multicoloridos, qual um Toulouse Lautrec dos Trópicos a registrar prédios antigos e tipos exóticos. Uma figura o Ney Quadros.

Por causa do meu horário de trabalho terminamos indo cada um para o seu lado. À essas alturas eu já estava bem mais enfronhado nos mistérios da Veneza Americana.

Cismou de ir para o Rio de Janeiro. Consta que no Rio, em Copacabana para ser mais exato, um grupo de recifenses saiu a passeio pela orla, Silvio Pinangé, Montez Magno e mais outros, e quem puxava o cordão? Ney, de berimbau em punho tocando e cantando aboios. Certa tarde, ele chega de surpresa na casa de Moacir Japiassu. Bebeu tudo o que encontrou na despensa e, quando enxugou a última garrafa, bebeu o azeite.

Reencontrei-o mais tarde já casado com Marta Teodósio, irmã de Mano ambos pertencentes a uma família respeitadíssima, da mais alta nomenclatura do PCB. No auge da "redentora" toda a família foi presa e Ney entrou de gaiato na história. Foi de cambulhada para a cadeia. Deve ter levado uns catiripapos na prisão, mas terminou por conquistar a amizade dos carcereiros. Assim era o Ney Quadros. Eu mesmo ouvi uma gravação preparada em fita K-7 no cativeiro e que por artes do capeta ele fez escamotear para que chegasse até nós, seus amigos. Ao som das suas risadas espalhafatosas ele nos apresentava...

- "Com vocês o Sgt. Gonçalves meu carcereiro, diz alguma coisa aí, sargento. O sgt. Gonçalves muito a contragosto diz":

- "Olha aqui, gente boa! Mexam com os pauzinhos para tirar esse camarada daqui que eu já não agüento mais!" Somente o Ney Quadros conseguiria tal façanha.

Quando saiu, foi respirar outros ares em São Paulo, creio que trabalhou na USP, como físico nuclear, imaginem o perigo.

De volta ao Recife perdi-o totalmente de vista, quando certa madrugada - duas da manhã - o telefone toca na minha casa. Tomei o maior susto. Era Ney às gargalhadas, embriagadíssimo: me convidava para comer um tatu assado com ele. Pespeguei-lhe o maior esculacho. Onde já se viu telefonar para a casa dos outros às 2 da manhã com semelhante convocação?! Tentei voltar aos braços de Morfeu, mas debalde todo o meu esforço. Terminei por me arrepender de ter sido tão rude com o meu amigo. Ficou o eco das suas palavras:

- “Mas é um tatu, meu caro, coisa rara...”.

E assim se passaram quase 10 anos. Ney parecia ter sumido no oco do mundo. Uma bela tarde quente de dezembro um táxi risca a minha calçada. Quem seria? Quem poderia ser... ? Ele mesmo, o Ney com toda a pompa e circunstância, que por artes do cão descobrira o meu endereço. Ao mesmo tempo em que despachava o táxi aos gritos ia entrando embriagadíssimo com uma garrafa de conhaque debaixo do sovaco. Grande abraço apertado, de quebrar as costelas, gritos e risadas escandalosas. Os vizinhos vieram temerosos saber do que se tratava aquela algazarra na casa do professor.

Aboletou-se no terraço, passou o resto da tarde a beber até que cismou de entrar na piscina. De roupa e tudo. Ameaçou e o fez, evidentemente. Não deu para agüentar mais. Com extrema dificuldade conseguimos colocar aquele homenzarrão no carro. Dirigi para as bandas da Cidade Universitária onde ele sob protestos, dizia estar morando em companhia de sua filha. Pediu, que eu o deixasse em uma pequena praça das redondezas. Foi a última vez que nos vimos - já faz uma pá de tempo.

Perdi-o de vista e de notícias, até que, não muito tempo atrás, soube por amiga comum que ele estaria hospitalizado em fase terminal - Alzheimer. Gelei. Imediatamente liguei para o hospital indicado, mas a resposta foi negativa. Liguei para outro. Nada. E mais outro e mais outro e a resposta era sempre: "Não temos nenhum paciente com esse nome!”

Pergunto: onde está o Ney Quadros? Por onde anda a sua filha? Sei que ele tinha um outro filho. Onde estão? Quem internou o Ney e em qual hospital?

A única certeza é que o meu amigo Ney Quadros está em lugar incerto e não sabido. Provavelmente em algum leito de hospital. Só. Apenas ele e a sua singularíssima pessoa.

O Millôr Nosso de Cada Dia

Video Clipe do Dia

Quando da postagem do clipe sobre a construção de Belo Monte, aquele com os artistas da Globo, o senhor "dono desse bloguinho" recebeu resposta irada de um mequetrefe que se dizendo fã do Wagner Moura, a propósito de uma citação minha sobre o apoio da estrela global ao MST, exigia a comprovação. Não seja por isso, meu caro tiete. O clipe de hoje é exatamente o que Vossa Mercê pediu. Sirva-se e bom proveito. Hugo Caldas, Coordenador do Bloguinho.


sábado, novembro 19, 2011

SETENT´INSTANTES DE SETENT´ANOS





W. J. Solha




1) Quatro de junho de 62: chego à Paraíba, com 21 anos, a fim de tomar posse no Banco do Brasil. Na manhã seguinte ao desembarque no Castro Pinto, tomo um ônibus e me mando pro sertão. Depois de terminado o asfalto, logo depois de Campina Grande, o poeirão sobe. Aí vejo a caatinga, e, quando menos espero, os primeiros vaqueiros encourados, a pleno galope ao lado do ônibus. Sinto que estou vivendo, ali, um grande momento.

2) Eu tinha 11 anos quando meu pai, que mal falava comigo, mas impressionado com alguns desenhos meus, deu-me um livro chamado Primeiro Encontro com a Arte, da Melhoramentos. Entre reproduções de quadros famosos em museus de toda parte do mundo, vi, de repente, a do Autorretrato do Artista com a Barba Nascente, de Rembrandt, que pertencia ao acervo do MASP – Museu de Arte de São Paulo, a somente duas horas, portanto, de mim. Pedi para vê-lo. “Você já não tem o retrato, aí?” “Mas não é a mesma coisa, pai!” Chorei, bati os pés, insisti. O velho mandou minha irmã Wilma me levar. Chegamos ao edifício em mármore branco, na 7 de Abril (somente anos depois o museu iria pra Av. Paulista), vi a série de Flagelados de Portinari logo no saguão, pegamos um elevador e... de repente, lá estava eu, cara a cara com o gênio holandês. Senti que estava vivendo, ali, outro grande momento.

3) Em 94, com o real equiparado ao dólar, fui a Madri, realizar o sonho infantil de ver ao vivo o Las Meninas de Velázquez. Entrei no Museu do Prado, enveredei pelo seus corredores até o salão circular central, dedicado ao grande sevilhano e, logo da porta, vi o quadro. Meu deus! Aproximar-me dele ( fiz isso durante oito dias), sentir o miraculoso espaço que há em seu interior, fez-me ver que vivia mais um grande momento meu.

4) Em 63, atravessei a nado o açude do sítio Córrego, lá em Pombal, escalei uma pedra grande pra de lá dar novo mergulho, deparei-me com Ione - a que seria minha mulher - com a mesma intenção, ouvi uma tia dela, Corrinha, que na época era freira, gritar, com sua voz rouca e frágil: Façam uma pose, pra eu tirar uma foto! Foi quando, sem dizer palavra, aproximei-me da bela moça e botei a mão direita no seu ombro, vendo-a sorrir. Senti que vivia, ali, mais um momento decisivo na vida.

5) Em 86, eu estava sozinho na penumbra da plateia do Teatro Paulo Pontes, João Pessoa, esperando pela chegada de meu elenco, preocupado em como fazer descer, no palco enorme, a nave espacial de que precisava e para a qual não tinha um tostão, quando vi a coreógrafa Rosa Ângela Cagliani - que preparava cenário e iluminação de um espetáculo seu - dar uma ordem: Ô Fulano, desça as varas de luz! – e, de repente, motor acionado, vi aquele mundo de aço, carregado de refletores, começar a... aterrissar na boca de cena. “Minha nave!” – ouvi meu grito, dentro de mim. Senti que vivia, ali, mais um grande momento.

6) A cena se repete dois anos depois, no Teatro Santa Roza: estava sozinho na plateia, esperando o elenco, preocupado em como fazer Moisés abrir o Mar Vermelho em cena, quando me perguntei: “O que eu poderia fazer abrir-se aqui dentro?” E, extasiado, preguei os olhos nas vastas cortinas encarnadas do palco!

7) Marcelo Gomes viu que estava tudo pronto, fez sinal para a assistente de direção, ela disse, pelo rádio, que o guarda do Detran fechasse o trânsito da Avenida Conselheiro Aguiar (como já fizera numas vinte outras cenas nossas), ouvimos o tráfego intenso de Boa Viagem, no Recife, silenciar, a assistente gritou Luz! – e houve luz - Câmara! Ação!, e , num silêncio absoluto, eu – sentado numa cadeira de balanço de terraço, na sacada do apartamento decadente, com Hermila Guedes deitada nele, cabeça no meu colo, comecei a lhe dizer uma de minhas falas, carregadas de emoção, como se não existissem aqueles vinte, trinta técnicos à nossa volta! “Corta!”, ouviu-se quando terminamos. E “Solta o trânsito!”

8) Ensaiei essa mesma cena no assento traseiro do táxi do amigo Gilmar Nóbrega, com a atriz Suzy Lopes, enquanto viajávamos pro Recife ( a fim de fazermos o teste a que fôramos convidados, para compor o elenco de Era uma Vez Verônica) . Repetimos a cena várias vezes, já na produtora do filme, diante do Marcelo Gomes e de uma câmera. “Solha – ele me disse, depois da primeira apresentação – a mesma coisa, mas agora sem chorar”. Depois: “Solha, repita, agora, meio bêbado”. “Mau humorado, desta vez.” “Amoroso”. Senti, ao fim de tudo, que não agradara. Alguns dias depois, recebi ligação do produtor João Vieira Jr: “Marcelo – depois de testes em Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza – escolheu você pro papel do José Maria, pai de Verônica”. Desligado o telefone, olhei pra minha mulher, pra minha filha, pro meu neto: “Caramba, Marcelo Gomes me escolheu pro filme dele!”

9) Minha filha – fotógrafa Andréia Solha - perguntou-me se tinha alguma sugestão sobre o que fotografar, de especial, no vazio da noite de sábado. Considerei que reproduzir a cena à luz de uma única vela, do quadro Sonho de São José, de La Tour, seria um bom desafio. Localizamos uma reprodução dele no Google, fiquei na posição do santo dormindo sentado, meu neto Israel fez o anjo que se aproxima com a vela acesa na mão esquerda, a chama protegida pela direita, que se mostra rósea e translúcida, e, logo depois, víamos o resultado da sessão na tela do computador. “Uau!”

10) Ante a multidão de percevejos coloridos marcando cidades nos sertões nordestinos onde havia vagas pros novos concursados do BB, na Direção Geral do Rio, procurei o lugar em que iria trabalhar. Não conhecia nada. Aí vi o nome Pombal, no interior profundo da Paraíba, lembrei-me da música Maringá – “Antigamente, uma alegria sem igual, dominava aquela gente da cidade de Pombal”, e disse – controladamente excitado - ao encarregado da documentação: “Esta aqui!”

11) Tinha ideia de propor - a um dos jornais de João Pessoa - capas semanais de segundo caderno, como as que Norman Rockwell fez durante décadas para o Saturday Evening Post, ele com cenas típicas do american way of life, eu com equivalentes paraibanas. Aí o “animal” Edmundo brigou com o juiz, numa partida, insultou-o gritando “Paraíba!”, isso revoltou nosso estado e me fez mudar de ideia. Peguei o retrato de Ariano Suassuna, que acabara de fazer e que integraria o painel Homenagem a Shakespeare (reitoria da UFPB) como o personagem Touchstone de Como Gostais, e fui à redação de O Norte. Proposta: capa com retrato de página inteiro, todo domingo, de um paraibano de nome nacional. Por exemplo – tirei o Ariano da sacola – Pense grande como o paraibano Ariano Suassuna, autor da maior comédia nacional – O Auto da Compadecida – e do grande romance A Pedra do Reino. Isso prosseguiria com Pense grande como o paraibano Augusto dos Anjos, tido por muitos como o maior poeta brasileiro; Celso Furtado, nosso maior economista; Assis Chateaubriand, fundador do MASP, dos Diários Associados e da TV brasileira; Walter Carvalho, considerado o melhor diretor de fotografia do cinema nacional; Vladimir, um de nossos maiores documentaristas; Marcélia Cartaxo, detentora do Urso de Ouro de Berlim; Pedro Américo, o maior pintor acadêmico do país. Luiz Carlos de Souza, o Lula, foi – entusiasmado - levar a ideia a seu chefe, e entusiasmado voltou. Quantas capas dessas você acha que dá pra fazer? Disse-lhe que tinha uma lista, ali: setenta. Negócio fechado! Quando, no sábado seguinte, vi os primeiros testes de cor, junto às máquinas, para a impressão que sairia no jornal do dia seguinte, senti que vivia um grande momento.

12) Quando vi que já tinham saído quarenta ensaios ilustrados, meus, semanais, no site www.eltheatro.com do amigo Elpídio Navarro, que se esmerava no laboriosíssimo acabamento de minhas extensas apresentações, que tinham, em média, quarenta páginas, resolvi mudar de tema e passei a fazer relatos, igualmente ilustrados, de eventos de minha vida, a partir de objetos significativos, a maioria coisa de museu, daí o título Pequena Arqueologia de Minha Vida Pregressa. Ao ver, reunidas, fotos de antigos carros de funerária (cheios de anjos dourados e cortinas negras); brindes do sabonete Eucalol com fotos coloridas de atores de Hollywood dos anos 40 e 50; fotos de Verônicas de Semana Santa, que tantas vi quando menino; cachos de flores bocas-de-leão, de que o jardim de minha casa era cheio; e de buchas, que meu pai plantava nas cercas do quintal, e que nos servia para os banhos, etc, etc, senti que vivia outro grande momento.

13) A guia nos levou ao centro do teatro Globe e – finalmente – entrei com minha mulher – absolutamente emocionado - no espaço do próprio Shakespeare! A pequena multidão de turistas como nós se aglomerou em pé na plateia a céu aberto do pequeno Ó de madeira, onde o ingresso – na era elisabetana - custava apenas o equivalente a um copo de cerveja, fiquei olhando para o palco intensamente colorido, para o balcão em que Julieta aparecia em Verona, até que a guia indicou-nos a escadinha de poucos degraus pela qual acabara de subir para o tablado, e disse-nos: “Imaginem o que é ver o ator, carregando o cadáver ensanguentado de César, descer até vocês – e ela desceu - , os figurantes gritando ao redor Que ele não fale mal de Brutus, Que não elogie César, Marco Antonio berrando, pra se fazer ouvir: “Friends!” – Nada – “Countrymen” – nada – “Romans!” e, insistindo: “Lend me your ears!” – até que todos o vêem dizer: “I come to burry Caesar, not to praise him!” ( Vim pra enterrar César, não pra elogiá-lo!).Senti que, mais uma vez na vida, arrepiado, vivia um grande momento.

14) A propósito: depois de nove meses trabalhando intensamente nas 36 telas em que fazia alusões a cada uma das 36 peças do Bardo, chegou o momento em que, pela primeira vez, no auditório da reitoria da UFPB, 1997, eu as vi montadas na moldura de vinte e tantos metros quadrados, na parede, seguindo meu propósito de seguir a composição fragmentada e aleatória do teto da Sistina. Foi, sem dúvida, um grande momento, meu.

15) De repente, em maio de 1989, lanchando no então restaurante do Sindicato dos Bancários, olhei para a grande parede vazia à minha frente e me lembrei de que Leonardo pintara a Última Ceia em espaço igual no refeitório do convento da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, lembrei-me – também - do que acabara de ler na História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell, a comparação Marx/Cristo, marxismo/cristianismo, paraíso do proletariado, etc, e imaginei – para ali – nova Ceia, em que Marx, ao centro, diria, num balão de Histórias em Quadrinhos: Um de vós me trairá!, provocando a convulsão leonardesca dos discípulos Mao, Lênin, Fidel e Chê, Stálin e Allende, Ho-Chi-Minh, Trotsky... Gorbachev com a mão na cabeça. Caramba, vou pintar isso e colocar o painel nessa parede!

16) Não esperávamos muita coisa do concurso da Prefeitura de João Pessoa para instalação de seis esculturas em rotatórias da cidade, apesar de se apresentarem quarenta e quatro concorrentes. E veio a primeira surpresa: o projeto do grupo de totens Saudação ao Sol, de Erickson de Britto, paraibano radicado em Fortaleza. Apenas uma ressalva: previa a obra com somente dois metros e meio de altura! Isso deveria ter pelo menos o dobro do tamanho, opinei, como presidente da comissão. Lu Maia, que nos dava assessoria pela Funjope, pegou o telefone e ligou pro artista, perguntando-lhe se poderia implantar a obra com as dimensões que eu sugeria. Ele quis saber, evidentemente: Receberei algum acréscimo por isso? “Infelizmente, não!” É, vou ter prejuízo, mas aceito. É muito importante para mim, a visibilidade que isso vai me dar. Foi uma vitória.

17) Estava numa mostra de fotos de Gustavo Moura, quando o então prefeito Ricardo Coutinho aproximou-se de mim, disse ao meu lado: Já soube que vou lançar um concurso para esculturas a serem instaladas em seis rotatórias da cidade? Eu lhe disse: Ótimo. Mas já que você vai pra Europa agora, dê uma olhada nas chamadas esculturas monumentais de que ela está cheia. Aceite como crítica construtiva meu comentário de que as estátuas que você está botando na cidade são pequenas demais. A de Mané Caixa D´Água ficaria ótima numa sala, mas lá na praça, desaparece. Um problema de relatividade. Olhei para ele e vi que a semente caíra em solo fértil.

18) Quando recebi a notícia de que já era avô, pintei um quadro em que uma caveira se volta, feliz, e dá as mãos ossudas pro bebê escanchado em seus ombros, ele também muito alegre, o em breve descartado demonstrando uma aceitação expressiva de sua substituição. C ´est la vie.

19) E lá vem outro neto, esse filho de minha filha. Quando a Doutora Cristiane o trouxe nos braços, da sala de parto, ele – surpreendentemente – me sorriu. Multipliquei isso numa tela grande, chamada Brasil, do acervo de Sandoval Nóbrega, cheia de querubins de Aleijadinho, na verdade todos réplicas de Israel –rindo, alado, em várias poses.

20) Perdera tudo com o filme O Salário da Morte, feito lá em Pombal, e vi que a única atividade artística que me seria possível agora, em João Pessoa, na bancarrota, seria... a literatura. Passei a escrever a lápis meu primeiro romance – Israel Rêmora – no verso de papeis já utilizados que trazia do banco. Dois anos e meio depois, mandei esse livro para o Prêmio Fernando Chinaglia. Um belo dia, em 74, estava dando meu expediente, quando me chamaram pra atender um interurbano. A voz me disse de longe: Você ganhou o primeiro lugar do concurso. E uma menção especial por outro livro, A Canga. Aquilo de certo modo me redimia do fracasso do longa-metragem.

21) Acabara de escrever o romance A Batalha de Oliveiros extremamente desanimado, dera entrevista a um dos jornais daqui, dizendo isso e, quando viro a página do Jornal da Paraíba, no dia seguinte, dou com o regulamento de um concurso literário do INL – Instituto Nacional do Livro – dividido em duas etapas: você concorria, na primeira, apenas com autores da região, o vencedor já com direito à edição do romance e, na segunda, os cinco vencedores regionais concorreriam entre si, o grande prêmio ficando com o escolhido. Ganhei a etapa regional, fui convidado a assistir à decisão final em Brasília, com direito a passagem, etc, vi a comissão sair para se reunir em sala fechada, como num tribunal, eu - no auditório cheio, esperando o resultado – até que foi anunciado que A Batalha vencera.

22) Terminei meu poema longo Trigal com Corvos e resolvi submetê-lo àquele que considero nosso maior poeta vivo - talvez morto, também. Affonso Romano de Sant´Anna me mandou e-mail em que considerava o livro notável.

23) Aí o Eli-Eri Moura recebeu encomenda de uma primeira ópera armorial, e me ligou, convidando-me pra fazer o libreto. A palavra armorial me remeteu ao Ariano, que me remeteu a seu ídolo, Cervantes. Veio-me à mente, também, que ao Romance da Pedra do Reino faltara a prometidíssima abertura do megálito, de onde emergiria el-rey don Sebastião. Vi logo a cena em que ela se abriria pela primeira vez, com uma catedral surgindo lá de dentro, e, de dentro dela, a Compadecida com um coro de anjos. Como é do gênero, eu teria de ter profetas anunciando isso, e me deliciei na hora em que imaginei Ariano e Cervantes fazendo dueto num martelo agalopado, Ariano em português, o outro em espanhol.

24) Saímos – eu e Ione – do hotel, em Londres, descemos a rua que havia em frente, cruzamos uma praça, enveredamos por uma ruazinha de contos de fadas – cheia, cheia de flores – demos a volta ao muro do Museu Britânicos e, em pouco, lá dentro dele, entramos numa sala - longa como nave de catedral - a dedicada ao friso de cavaleiros do Pártenon. Os altos-relevos de mármore, que eu tanto já vira em fotos, ali estavam, com sua enorme vitalidade - de dois mil e quinhentos anos. Foi um grande momento.

25) Com a praia de Boa Viagem interditada às duas da manhã, para que pegássemos a maré bem baixa, vi o caminhão do corpo de bombeiros, com três salva-vidas parrudos à minha disposição, ouvi a assistente de direção de Kléber Mendonça Filho gritar Ação! e comecei a caminhar na travessa que me levava à avenida beira-mar. Ao chegar à esquina, olhei para a direita, a fim de ver se não vinha nenhum carro, eliminei da mente a câmera sobre uma grua e cercada de enorme equipe, na outra calçada, cruzei a pista, aproximei-me do banco de concreto tirando a camisa, que botei no assento, sob o peso de minhas sandálias, fiz o sinal da cruz descendo a escada estreita que me levava à praia, passei por trás da placa onde se lia, em vermelho, Área sujeita a ataques de tubarões, meu pavor pela cena sumiu, encaminhei-me pro mar, entrei na rebentação andando de lado, vi a onda enorme que se avolumava lá adiante e que vinha em minha direção, avancei para ela e, no ponto exato pra não perdê-la, saltei ao seu encontro, pro mergulho. Nadei dentro dela, sentindo-me numa vasta vitrina com areia ocre, o mar todo verde claro, esmeraldino, nadei, nadei como um homem-rã, atento ao vulto de alguma coisa que surgisse não sabia de onde, mas não aconteceu nada, a onda passou, baixou, emergi ouvindo o aplauso vibrante de toda a equipe, lá no alto da amurada. “Esse mama em onça!” Não mamo. O medo fora imenso.

26) Quando lia a primeira demão de meu primeiro romance – Israel Rêmora – lembrei-me dos poemas que havia escrito um ou dois anos antes, imaginei que alguns poderiam se casar com aquele texto, enriquecê-lo, e ... arrisquei uma montagem cinematográfica: coloquei a prosa do primeiro capítulo, narrado na terceira pessoa, seguida de uma daquelas poesias, e vi que, como previa, ela pareceu, de repente, monólogo de meu personagem, um comentário a partir da ação que acabara de viver. Perfeito! Parti para o capítulo seguinte. Para o terceiro. Achara o tchã do livro. Vi Stella Leonardos enaltecendo isso, numa entrevista que demos pra TV.

27) 1980. A capela da ordem terceira da igreja de São Francisco estava lotada. No teto, a tosca pintura barroca mostrando Elias subindo ao céu num carro de fogo. Sob a cena, no corredor central, o alçapão que descia pra catacumba dos frades. No espaço junto do altar, o coral da UFPB, regido pelo maestro Kaplan, três de nossos melhores atores formando um jogral, enquanto Dom José Maria Pires, Dom Hélder, Dom Fragoso e Dom Ivo Loscheider aplaudiam de pé, com a multidão, a Cantata pra Alagamar, versos meus, música do maestro, ali apresentada como parte da liturgia da Igreja, pra passar sem a censura. Na reprise em Itabaiana, os personagens da cantata aplaudiram com o mesmo entusiasmo, vi um deles erguer um chaveiro com Cristo sob a expressão Se Busca, o homem gritando Olhem quem fez a cantata!, a polícia no adro, lá fora, cercando a matriz.

28) Subi ao palco, no Festival de Cinema Brasileiro, em Miami, e recebi, por Marcus Vilar, seu prêmio de melhor direção pelo curta A Canga. Ao mesmo tempo, o próprio recebia, em Goiânia, o prêmio de melhor filme no FICA – Festival Internacional do Cinema de Meio Ambiente. A consagração da história que eu criara em forma de conto, nos anos 60, transformada, depois, em peça que eu mesmo dirigira, em Pombal, depois num curta em Super-8, também meu, com que convencera Marcus de que ali estava uma estória poderosa, foi um grande momento meu, sim.

29) Quando montava essa peça, em Pombal, 1969, um garoto comparecia a todos os ensaios. Acabou me conseguindo um tocador de pífano (pife) e assumindo a iluminação do espetáculo. Anos depois, eu já trabalhando na agência dentro do BB em João Pessoa, fui procurado por um grupo de jovens que se dizia da faculdade de agronomia de Areia e colegas daquele menino. Disseram-me: Verneck viu que queríamos fazer um espetáculo ligado à terra e nos indicou seu texto. Eu lhes disse que da peça fizera roteiro de um longa-metragem e, como o filme não saiu, dele fiz o livro publicado em 78 pela Editora Moderna, de São Paulo. O texto teatral não existe mai, lamentei. Mas no dia seguinte eles voltaram: O Verneck reescreveu a peça, que ainda tem decorada. Peguei o texto, incrédulo, e vi que, realmente, fora escrito de memória, pois continha palavras que eu jamais usaria, colocadas certamente em lugar de coisas de que ele não conseguira se lembrar. Algum tempo depois, Fernando Teixeira e Altimar Pimentel – dois grandes nomes de nosso teatro - me disseram ter visto o trabalho do grupo no festival de Cajazeiras. Foi um grande sucesso. Bisado, inclusive.

30) Um dia meu filho Dmitri me informou – lá de Fortaleza, onde mora com a família - que, pelo segundo ano consecutivo, trabalhos seus tinham saído num anuário australiano com as melhores fotomanipulações do mundo. A confirmação da alta qualidade que eu via em suas criações ( ele fez, por indicação minha, várias capas de CDs de Eli-Eri, Didier Guigue e Marcílio Onofre) constituiu-se num outro grande momento meu.

31) Passei uma fase crítica, na juventude. Descrente de minha pintura, abandonei o curso que fazia, passei a fazer análise e fui estudar contabilidade. Magro, abatido, com olheiras fundas, vi o psicanalista me dizer Ou você para de estudar por um ano ou arranja um emprego de meio expediente: isso que você tem é estafa. Abandonei a loja de eletrodomésticos em que trabalhava, e já estava no Banco do Commercio e Indústria de São Paulo, quando passei no concurso de auxiliar de escrita do BB e vim pra Paraíba. Tinha um metro e oitenta e dois (estou com um e setenta e oito) e pesava 60 kg (giro em torno de 85). Logo que tomei posse, fui informado de que haveria concurso interno pra escriturário dentro de três meses. Como meu expediente na agência de Patos era de 7 às 13, às 14 eu começava a estudar – por exemplo – matemática. Cinquenta e cinco minutos depois parava, e – mãos no chão, pés na mesinha em que estudava – fazia flexões de braços e tomava um copo de leite gelado. Partia, em seguida, pro estudo de contabilidade, exercício, leite; partia pro estudo de inglês, exercício, leite; português, exercício, leite, etc, etc, acabei sendo o único a passar, do pessoal que fez as provas em Cajazeiras. Com isso me senti um pouco mais postado na vida. Um dia, já em Pombal, (eu nadava de 17 às 18 ou 18,30 todos os dias no rio Piancó) eu corria, de calção, descalço, do hotel para o mergulho diário, numa trilha junto a uma cerca, quando ouvi um grito atrás de mim: Olha o boi! Voltei-me e lá vinha um touro desembestado, a carroça com o tambor (para servir água na cidade) aos trambolhões, atrás dele. Foi o tempo de saltar para o lado, ver o animal passar, flagrar a corda a passar lépida no chão, baixar-me, segurá-la, erguer-me, travá-la no corpo... e ver o animal, quando ela se estirou, repentinamente saltar pra vertical. Esse foi, realmente, um grande momento na minha vida.

32) Ainda em Pombal, entrei num consórcio de automóveis, promovido por colegas de outra cidade, e coincidiu de que, quando o fuscão saiu para mim, um tio de Ione ofereceu-me a própria casa para venda, pelo preço do carro. Foi assim que, pela primeira vez, me vi dono de um imóvel. Logo depois, com as economias de que dispunha, dei entrada num caminhão-caçamba e o coloquei a serviço do asfaltamento da BR 230 – Cajazeiras-Pombal – feita pelo exército. Mas uma dupla, composta do capitão encarregado da obra e de um civil, infernizou minha vida e a de mais cinquenta caminhoneiros, aproveitando-se do terror que as forças armadas exerciam em todo mundo. Fui ao militar, porém, protestar contra a ausência de pagamentos e a exploração feita pelo companheiro dele, que era nosso fornecedor exclusivo de combustível. Como fui ameaçado, apelei pra instâncias mais altas. Resultado: quando saía, um dia, do Pombal Ideal Clube, onde ensaiava A Canga, um rapaz se aproximou pra me avisar que ouvira – no almoxarifado da BR - a dupla de meliantes dizer que o matador Antonio Letreiro – pago por eles - fora preso em Icó, no Ceará, quando vinha pra Pombal, me matar. Bem, então escapei, eu disse. E ele: Quem paga um pistoleiro, paga outro. O gerente de minha agência soube disso e viu, ali, uma boa oportunidade de se livrar de mim: quis me transferir imediatamente. Isso era uma coisa que eu já vinha tentando, mas – na circunstância – não aceitei. Não vou sair daqui fugido. Na verdade eu, como subgerente, já transferira três colegas, com urgência, por situações semelhantes. Mas fiquei. Ao meter o 38 na cintura, sob a camisa, entendi que tão cedo não morreria, pois tinha muito, ainda, a fazer. Era como se tivesse o corpo fechado. Coisa de doido, mas que me sentir bem. E nada me aconteceu. Com eles, sim.

33) Estava no primeiro ano do ginásio, Colégio Municipal Getúlio Vargas, em Sorocaba, 1952, onze anos de idade, quando vi que o colega Ênio Angheben, o eterno primeiro da classe, estava lendo – surpreendentemente - um gibi, no intervalo. Aproximei-me por trás e vi que se tratava de uma revista em quadrinhos de porte grande, com desenhos muito bons. Entrevi o título da narrativa: A Lenda de Sir Parsifal: um menino, proibido pela mãe de sair de seu castelo sempre fechado ante a violência do mundo, pergunta ao escudeiro Lupus, do alto das ameias, se havia outros castelos como aquele na Escócia e, depois, se neles todo mundo também vivia preso. Resposta: Sua mãe não quer que se fale nessas coisas. Aquilo me pegou. Ênio, posso ver a capa? Ele a mostrou: O Mago da Vinci. “Parsifal” era uma estória secundária! Empolgado, passei a deixar de lanchar pra comprar os números atrasados de Epopeia da EBAL – Editora Brasil-América Ltda. Recebia, diariamente, uma moeda de dois cruzeiros para o lanche. Como cada exemplar da coleção custava cinco, passei a adquirir, a cada três dias, um daqueles delírios, que me abriram a mente para o mundo que me motivaria pelo resto da vida. As quartas capas eram sempre reproduções de quadros famosos. As terceiras, sinopses de libretos de ópera igualmente célebres. Aquela mesma lenda de Parsifal e, outra, a do Jovem Rei Davi, acabaram por gerar duas das estórias que eu recontaria em minha História Universal da Angústia, décadas depois: A Angústia do rei Saul e A Angústia de Parsifal Menino. Aquele momento atrás do Ênio foi, indubitavelmente, outro instante importantíssimo na minha vida.

34) 1968. Chega um colega novo na agência de Pombal: Ariosvaldo Coqueijo, que fora, até então, iluminador do Teatro Santa Roza, em João Pessoa. Vinha com um calhamaço de recortes de jornais e revistas contendo reportagens recentes sobre a morte do estudante Édson Luís no restaurante do Calabouço, no Rio, fato de tão graves repercussões que acabaria gerando o repressor AI-5 – Ato Institucional no. 5 - da Ditadura. Ariosvaldo soubera que eu e Zé Bezerra escrevíamos e pediu-nos um texto pra montar a peça de seus sonhos. Bezerra disse que iria escrever e montar Canudos, sobre Antonio Conselheiro, e disse Solha faz a sua peça. Como Ariosvaldo recomendou que não me estendesse muito nos diálogos, porque a censura estava feroz, fiz o que ele queria na mesma noite. Dias depois, disse-me que o espetáculo estava curto demais e me perguntou se não poderia criar algumas músicas para ele. Consegui um gravador, fiz uns versos, gravei cinco peças que foram utilizadas no palco. Aí o Bezerra chega e me diz que era melhor eu ir ver um ensaio, porque o ator que fazia o líder estudantil estava muito ruim. Mas não tenho nada com isso, eu disse. Ele, no entanto, insistiu e fui ao colégio Diocesano, onde a coisa estava sendo armada. Coincidiu que o tal ator não apareceu. Solha – disse Ariosvaldo – quebra o galho pra gente, fazendo o papel dele, hoje! Foi assim que, de repente, bandeira na mão, corri berrando pela plateia do teatrinho estudantil, seguido de trinta figurantes, saltei para o palco, e – pela primeira vez na vida – me vi ator.

35) Quando terminei a primeira versão de Israel Rêmora, levei-o pra Jurandy Moura ler. Doente, no hospital, aquele que fora assistente de direção de O Salário da Morte, poeta, pediu-me uma semana de prazo para a leitura. Quando voltei lá, ouvi o veredicto: Está muito ruim, Solha. Muito ruim?!!! Uma merda. Mas por que? Olha, não vamos discutir. Todo aquele que escreve, quando termina o que fez está tão envolvido no texto, que não vê as próprias falhas. Faça o seguinte: ponha a data de hoje aí na capa, vá escrever outra coisa e, daqui a seis meses, releia o Israel. O papo não foi mais adiante. Saí do hospital revoltado. Mas fui escrever A Canga e, quando terminei esse meu segundo livro – que é bem magrinho – peguei o Israel... e morri de vergonha. Retrabalhei o romance intensamente e, quando achei, mais uma vez, que o calhamaço estava pronto pra ser lido, levei-o a outro bom leitor: o jornalista Antonio Barreto Neto. Quando cheguei à casa dele, pra saber o resultado, recebeu-me na porta, convidou-me para entrar e sentar, disse que ia buscar os originais e saiu, deixando-me com a dedução terrível: Não gostou. Quando, de volta, sentou-se à minha frente, disse-me: Olhe, tem um concurso novo, no Rio, o Prêmio Fernando Chinaglia que, além de dinheiro, vai inovar: dará a edição do romance pela maior editora do país, a Récord. Mande o Israel Rêmora. Se ele não ganhar, não acredito mais em concurso nenhum no Brasil. Algum tempo depois eu o procurei na redação de seu jornal para cumprimentá-lo. Você realmente entende de literatura, Barreto. O que houve? Ganhei o Fernando Chinaglia.

36) Em 76 trabalhei no filme Soledade, de Paulo Thiago, baseado no romance A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Como delegado capacho de Dagoberto Marçau (vivido pelo Jofre Soares), todos os dias em que era convocado para as filmagens, ausentava-me do banco, viajava pra Pilar, vestia a roupa dos anos 30, era maquiado, e passava a conviver com os personagens do livro que estava relendo. Foi aí que, trabalhando no subsolo da agência centro do BB, num dos dias sem cenas minhas, parei de carimbar... e atinei que todos os personagens do Zé Américo tinham equivalentes no Hamlet. Que loucura!, assombrei-me: logo o livro que rompeu com a influência inglesa na literatura brasileira! Tudo começara quando associei o Lúcio - angustiado filho do Dagoberto e que se faz de doido pra viver melhor - a Lucius Junius Brutus, modelo evidente da saga dinamarquesa de Shakespeare: morto seu pai, Rei Tarquinius, o jovem se fizera de doido (daí o apelido Brutus) pra escapar com vida e vingar-se. Ora, o nome Hamlet provém do irlandês Amlodhe, que provém do islandês Amloii: “doido”. O resto foi fácil.

37) Dois anos depois, fui convidado por Vladimir Carvalho para ser um dos entrevistadores de José Américo no documentário O Homem de Areia. Ao reler, na noite anterior, O Ano do Nego, em que o romancista conta como foi sua participação na Revolução de 30, conclui que o escritor fora ainda mais hamletiano ainda do que Lúcio, vivendo sua conspiração literalmente dentro de um palácio, o da Redenção. Desse momento derivou meu livro Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia (Codecri, 1984).

38) Em 82, eu estudava propostas de gigantescos financiamentos para usinas de açúcar da Paraíba, no terceiro andar da agência centro do BB, quando recebi ligação do Fernando Teixeira, pedindo-me o avesso disso: uma adaptação do Fogo Morto de Zé Lins para teatro. Pra quando você quer? , perguntei. Pra semana que vem. Na mesma noite comecei a reler o romance, lápis na mão, demarcando as cenas com diálogos. Como a pisada do livro é bastante lenta, servi-me da técnica de trechos curtos e contrastantes, do Shakespeare. Percebendo que seriam complicados para mudanças de cenários, mais uma vez segui o Bardo, sugerindo palco limpo à montagem, os ambientes indicados pelas falas dos personagens e por alguns objetos. Pensando numa trilha sonora que fosse como um poema sinfônico, pedi que fosse convidado o Carlos Galvão, baixista da sinfônica e então recente vencedor de um concurso internacional de composição, cujo segundo lugar ficara para o Ligeti, autor da trilha de 2001. Foi, imagino, o melhor trabalho do Fernando como encenador, muito à altura da liberdade que lhe dei. Quando botei Papa Rabo indo tomar um trem, por exemplo, ele “construiu” a locomotiva com um ator segurando um círculo com tinta fosforescente ante o rosto, de frente pro público, tendo – em cada lado – uma moça de costas pra ele, soprando talco pras laterais, o som da música sugerindo o da liberação de vapor da maria-fumaça. Genial! A peça viajou pro Rio, São Paulo e Brasília, classificada pelo Mambembão.

39) Quando investigava a figura de Cristo para escrever A Verdadeira Estória de Jesus, que sairia pela Ática em 79, vi, numa foto do portal norte da igreja de Notre Dame de Paris, que os relevos de pedra, em volta da entrada do templo, representavam onze dos doze signos do zodíaco, sendo o de Virgo substituído pela Madonna. Isso porque, dizia a legenda em francês, essa constelação presidia a noite de 24 para 25 de dezembro, no Oriente, de modo que o sol, ao nascer, parecia estar sendo dado à luz por ela. A isso se seguia que esse grupo de estrelas avançava para uma área sem outras constelações, no céu, que passava a ser o deserto de várias mitologias, no qual a Mãe se refugiava ao ser perseguida pela constelação de Serpente ou Dragão (ambos Drakkon, em grego), no evangelho representada por Herodes. Não encontrando estudo algum que desenvolvesse o que seria a viagem do Sol ( a Luz do Mundo ) pelo Zodíaco, passei a frequentar o observatório que havia atrás da agência centro do BB em João Pessoa. O João Batista, por exemplo, revelou-se, de cara, provir do Homem de Aquário. O ponto alto dessa pesquisa foi o momento em que me fiz a pergunta O que têm a ver as cenas de Jesus e da Samaritana no poço e a de Moisés e Séfora no poço, com o signo de Touro, que a narrativa me pede? A resposta me veio, a princípio, pela leitura de uma tradução diferente, da Bíblia, conhecida como Texto Massorético, que me foi apresentada por um velho amigo, dono de uma coleção fabulosa de livros raros. Nela, Moisés é Phoibon – o Febo Apolo, o Sol, foi o que deduzi. E Séfora é Plêion. Aí vi, no grande mapa do céu, do citado observatório, que as primeiras estrelas de Touro, que aparecem anunciando a primavera, são as Plêiades – ninfas dos poços e águas – sete estrelas cuja principal é... Plêion, ou Séfora, moça que, segundo o Antigo Testamento pertencia a um grupo de sete irmãs.

40) Vivia bem, no melhor dos mundos possíveis, progredindo no BB, sem qualquer atividade artística, família crescendo, quando comecei a ter uma série de enigmáticos sonhos com Cristo, figura que a vida toda me perseguiu, exatamente como ele teria perseguido Saulo. Numa dessas vezes, acordando impactado, peguei lápis e papel, anotei tudo a que assistira. Na manhã seguinte datilografei a narrativa no banco e mostrei o resultado ao Bezerra. Quando ele terminou, disse: Conto arretado! “Conto, não: sonho!” Mas ele despachou a história pra um amigo dele, da capital, Prof. Antonio Serafim do Rego, e este, que preparava uma antologia à base de mimeógrafo, incluiu nela a minha estória. Surpreso, entusiasticamente incentivado pelo colega, passei a querer escrever... mas descobri que não conhecia nada de literatura. Pelo menos, a ponto de também produzi-la. Passei, então, a dormir à meia-noite, com despertador me acordando às 3. Uma dessas leituras foi a da República de Platão. Lá pelas tantas, levei um susto: 400 anos antes de Cristo, o livro põe Adimanto dizendo a Sócrates - pra defender seu ponto de vista de que leva mais vantagem quem é injusto do que quem é justo -, que se colocarmos os dois – que se colocarmos um homem extremamente justo, com outro, extremamente injusto – para serem julgados juntos, este comprará os juízes e se livrará da prisão, enquanto o justo será escarrado, surrado e, por fim, pendurado numa cruz. Cristo e Barrabás!, compreendi. Cauteloso, li o mesmo trecho noutra tradução. “O justo será empalado”. O impasse foi resolvido pela leitura de A Paixão de Cristo segundo o Cirurgião, de Pierre Barbet, em que fiquei sabendo que empalação e crucifixão têm, no grego, uma mesma palavra: anaskolopizein. Claro que li tudo de Platão, depois disso.

41) Com o sucesso da Cantata pra Alagamar, Kaplan me encomendou novo texto, agora sobre Lampião. No embalo do cordel A Chegada de Lampião no Inferno, clássico do José Pacheco, parti pro libreto de uma ópera em que Virgulino - guerrilheiro nato, mas sem consciência política - morre e, pra se orientar no inferno, recebe, como guia, Antonio Conselheiro – êmulo do Virgilio de Dante, claro. Trabalhava intensamente na versificação disso, quando Kaplan me ligou, pedindo-me para ir à casa dele, ler meu texto para um compositor paulista famoso – não me lembro quem – ao que eu lhe disse “Mas ainda estou trabalhando no libreto!”, “Venha assim mesmo”. “Kaplan...” “Venha, Solha. Por favor!”. Pois bem: quando parei a leitura do que fizera, o cara disse ao maestro: “Vai fazer a Cantata pra Alagamar de novo?” Não consegui convencer Kaplan de que acabáramos de ouvir uma besteira. Perdi meu trabalho. Em termos. Porque, ao pesquisar sobre Lampião e o cangaço, Lera uns versos impressionantes de Nertan Macedo sobre o bandido: Não era ele rebento de Maria e de José? Não foi criança inocente nos campos de Nazaré? Referia-se a Nazaré da Mata, Pernambuco. Liguei a comparação, imediatamente, aos cordéis “A Chegada de Lampião no Céu” e “A Chegada de Lampião no Inferno”, de José Pacheco, o que me lembrou a oração: Desceu aos infernos no terceiro dia, subiu ao céu, etc , aí soube que Virgulino lera, com devoção, A História de Cristo, de Giovanni Papini, livro que consegui do mesmo amigo Plácido, o velho comunista. Essa leitura dramática – ficção pura – colocada em transparência sobre os fatos que fazem da Grota dos Angicos – em que o rei do cangaço foi morto – réplica do Horto de Getsêmani, encontram para o injustificado sono dos apóstolos a informação de que o coiteiro do bandido, Pedro de Cândido, injetara, com agulha de injeção, através das cortiças das garrafas de cana, um sonífero poderoso que derrubou todo mundo. E, mais: a volante vinha com o caminho clareado por uma lanterna vermelha... que estava, também, com Judas – tesoureiro, coiteiro? - e com os soldados que ele trazia pra traição. Criei, ali mesmo, um ensaio chamado Se Jesus era a Luz do Mundo, Virgulino foi Lampião.

42) Kaplan – hipoteticamente – me fez perder tempo enorme, de novo, ao me encomendar nova ópera, desta vez sobre os irmãos Tibério e Caio Graco, que tentaram implantar a Reforma Agrária em Roma, mais de um século antes de Cristo. Esquivei-me, alegando que acabara de escrever e publicar A Verdadeira Estória de Jesus e não queria, de repente, me tornar recontador de histórias antigas. Insistiu, pesquisei, me empolguei, Kaplan recebeu meu texto e jamais me deu qualquer satisfação sobre ele. Aproveitei-o como um filme dentro do romance Arkáditch, filme cujo roteiro está – de cabo a rabo – em minha História Universal da Angústia. Do mesmo modo, os versos originais da travessia orientada de meu Virgulino pelo inferno acabaram por rechear meu romance A Batalha de Oliveiros, prêmio INL 1988, publicado pela Itatiaia de Belo Horizonte em 89... e jamais distribuído. Nesse estágio de minha relação com Kaplito – como Márcia, sua mulher, o chamava – el gringo me liga, humilde e capciosamente, um dia, dizendo-me que a universidade metera-o numa fria sem limite: queria que seu coral saísse pela periferia de João Pessoa cantando músicas natalinas, no fim do ano. Já pensou “Jingle Bels” em Marés, “O Christmas tree” no Bairro dos Novais? Queria dar um golpe de mestre, Solha. Cantar essas música lindas, sim, nesses ambientes terríveis, mas com versos na linha de Brecht. O que acha? “OK – rendi-me. Escrever algo maior, para ele, nunca mais. Aquilo, porém... – O que você quer ensaiar amanhã?”, perguntei. “Noite Feliz”. “Pois você amanhã terá Noite Infeliz”. Satisfeito, no dia seguinte encomendou nova versão para “O Christmas tree”, que reduzi a O triste mais triste, o triste mais triste, é o brinde e o riso, se a fome existe. Doze músicas refeitas, o danado me disse que estava com problemas na transição de uma canção natalina para outra. “Você não poderia enxertar uns sketches sobre a nossa realidade aí, não?” Disso resultou que, sob a direção de Ubiratan de Assis, o espetáculo a que chamei de Burgueses ou Meliantes? passou a existir e decolou.

43) Quando fui lançar Israel Rêmora em Pombal, 1975, dei com Bráulio Tavares lançando, lá, um livro sobre os cordéis de Leandro Gomes de Barros. Comprei um exemplar, deixei-o na cabeceira de minha cama e, certo dia, peguei o volume, abri-o ao acaso e dei com A Batalha de Oliveiros contra o Gigante Ferrabrás. Incrivelmente, aquilo foi um reencontro com minha infância: meu pai, além das histórias da Bíblia, adorava as lendas dos Doze Pares de França! Ao rever Oliveiros ferido, o turco enorme insultando nossos guerreiros lá fora e, surpreendentemente, nenhum deles reagindo, Roldão ficando calado, Oliveiros se erguendo e aceitando o desafio, transformei aquilo num conto, que foi classificado entre os melhores, dos mais de mil enviados à revista Playboy. Disso – depois - fiz um texto teatral e, em Brasília, vivi um grande momento vendo a enorme montagem apresentada por Ricardo Torres em 1991.

44) Em seguida, fui procurado pelo grupo que levara o Burgueses ou Meliantes? ao palco, dizendo-me que queria uma ficção científica, agora, pelo que transportei A Batalha de Oliveiros – medieva - a um futuro em que todos falariam a mesma língua, nivelada por paroxítonas, principalmente proparoxítonas. Eu achava uma loucura que os diferentes idiomas dissessem Democracia, Democrácia, Democracy, Democracie, Polícia, Policia, Police. Daí minha Bátalha. Daí meu Gígante. Foi fascinante ver o elenco se exercitando naquilo e, depois, as plateias sairem do teatro tentando fazer o mesmo.

45) Em 1994, durante a campanha de Betinho contra a fome e pela cidadania, resolvi doar todos os quadros de que dispunha. Para isso, fiz uma exposição – não numa galeria, mas no saguão da agência centro do Banco do Brasil, em que trabalhara. Surpreendi-me vendo Rosely Garcia, da galeria Gamela, preparando a mostra, ao tempo em que me dizia: “Você não vai alcançar o que quer, aqui. As pessoas vêm ao banco sem o devido recolhimento, preocupadas com dívidas, contas, juros”. Realmente. Depois de trinta dias, apenas duas telas – e as menores – tinham sido vendidas. Novamente Rosely: “Vamos levar a mostra pra Gamela”. Vi quando ela – ainda montando a exposição – vendeu meus quatro maiores quadros a clientes que chamara por telefone. Ainda se pode ter fé no ser humano, como se vê.

46) Escrevendo novo livro, mas com nova multidão de quadros novos ao meu redor, apelei pra Rosely. Ela veio com o marido, Altemir, os dois aprovaram o que viram, agendamos a mostra. No dia seguinte, liguei para ela: “Nada feito”. “Por que?” “Porque nenhum desses quadros me convence”. Claro que, no dias seguintes, continuei escrevendo, mas angustiado. Até que, em certo momento, percebi que o problema era que nenhuma daquelas criações tinha densidade suficiente, mas – juntas – ganhavam... certa importância. Liguei pro Fernando Abath, da Coex, na Universidade, oferecendo-lhe o conjunto. Daí que lá se foi, pro seu setor, na reitoria, a mostra, “permanente” enquanto ele esteve lá, chamada “Ando muito confuso”, em que, acima de um autorretrato, coloquei aquele mundo de coisas estranhas, doideiras de minha cabeça.

47) Um dia vi bela foto das ruínas de um pequeno templo grego. Não sei por qual razão, girei-a e, vendo-a de cabeça para baixo, senti... certa magia no chão grego pregado em cima, as velhas colunas penduradas no vazio, os restos de um frontão a ligá-las, senti que aquele céu azul se tornava de um vazio tridimensional enorme. Reproduzi essa visão numa tela e, nesse frontão, pintei um alpinista a escalá-lo, vindo não se sabe de onde. Título que coloquei, ao inserir o trabalho no http://wjsolha.deviantart.com/gallery/?offset=144#/d97u6t - t´s so hard!

48) Todo mundo sente a semelhança entre Cristo e Che. De repente vi a Pietà de Miguelângelo com a Mater Dolorosa como se fosse a estátua da Liberdade, Che morto no seu colo, as mãos dela, de mármore, sujas de sangue. Mandei preparar a tela e pintei o que vi.

49) Vi um alto relevo romano com o perfil de uma quadriga, a Fama coroando o grande guerreiro com louros, a multidão a saudá-lo, mas todos com as faces esfaceladas, braços manetas, cavalos com ímpeto mas sem pernas. Reproduzi a cena numa tela larga, mas tornei as pessoas e corcéis de carne e osso, apesar de incompletos. Título: Sic Transit Gloria Mundi.

50) A leitura seguida de uma série de revistas noticiosas e jornais me lembrou que toda reportagem é uma boa história, como um conto. A diferença é de que contos não respondem as questões quem, o que, onde, como e por que? E reportagens estão sempre, necessariamente, no passado, pois narram eventos passados. Conto pode estar no presente. Até no futuro. E pode, também, dizer tudo, às vezes, em três, quatro, cinco linhas. Comecei a colecionar os recortes de matérias que me impressionavam e a trabalhá-las. Foi assim que publiquei a série Contos Reais, no jornal O Norte, durante um bom tempo. Mil deles. Quando montava minha História Universal da Angústia, vi que ali eu falava de Parsifal, de Édipo, Hamlet, dos Gracos, do Rei Saul – faltava-me o presente. Novo filtro, e reduzi minha coletânea real a cento e vinte e seis histórias violentas. Resultou na parte chamada A Gigantesca Morgue, que, novamente filtrada – desta vez por Eli-Eri Moura e os outros cinco compositores – resultou na Cantata Bruta, que teve estreia em 29 de outubro p.p.

51) A compositora Ilza Nogueira me pediu versos para o Oratório Via-Sacra, a ser apresentado na Semana Santa de 2005, na igreja de São Francisco, com coro, orquestra, corpo de dança e dois narradores. Surpreendi-me ao ver meus versos de cordel com música de Mahler, Stravinsky, De Falla, Alban Berg, Vivaldi, Charles Ives, etc, etc. A sensação que eu teria, certamente, se visse uma mostra minha na Tate Gallery Modern, de Londres, ou no Louvre.

52) Jovem fascinado por megaproduções tipo Ben-Hur, Spartacus e Quo Vadis, senti-me feito menino ao me ver – já grisalho - com os cabelos penteados à romana, usando uma couraça com baixos-relevos de bronze, imenso manto púrpura, fazendo o Pilatos no Auto de Deus do Everaldo Vasconcelos. No escuro, sentado no trono – dezesseis degraus acima do tablado - com Caifás de um lado, Prócula do outro, vi a cena anterior à nossa, em que Cristo era flagelado. Aí os refletores do meu palco, montado ante o Teatro Santa Roza, se acendem, dois soldados atiram o nazareno ao chão, lá embaixo, eu digo ao sumo sacerdote: “Eis o homem!”, e ele: “Pilatos, esse... homem... anda dizendo que é o filho de Deus”. Levanto-me, cada gesto valorizado pela imponente trilha sonora, desço a escadaria coberta de tapete vermelho, aproximo-me de Jesus, por trás, vejo-lhe as costas tremendo, ele em estado de choque, devido às chicotadas. Pergunto-lhe “Tu és o rei dos judeus?” E ele, “Tu o dizes!”, ao que o diálogo nos levam à minha frase “E o que é a Verdade?”, com o que ele se volta e me encara de um modo que lhe compreendo todos os segredos e recuo, apavorado.

53) Relato de Prócula ( A Girafa, 2009) teve esse ponto de partida. Os romances – ao contrário dos contos, que são simples – se lançam, como aranhas, de vários pontos de partida, armando sua teia. Quando me preparava pra fazer o Pilatos, revi todos os filmes em que ele aparece: de Jesus Superstar ao Rei dos Reis, da Maior História de Todos os Tempos ao Jesus de Nazaré, do Zefirelli, etc, etc, caindo em campo, também, na pesquisa pra saber de onde ele vinha, pra onde foi, como chegou ao cargo em Jerusalém, etc, etc. Pra facilitar as coisas, fiz meu personagem principal ser padre. De onde?: Pombal. O que vem fazer em João Pessoa?: receber um esporro de D. Aldo. Por que? Por que está dizendo o que não deve à estudantada do seu Colégio Diocesano. Aí, quando ele vai descrer da existência histórica de Jesus, o que lhe acontece? Suas três empregadas falam das semelhanças entre Cristo e Lampião (do meu ensaio mencionado acima) – que existiu, claro. E daí? Daí que isso incomoda o Padre, pois passa a vê-lo como agente dos invasores, cabendo a ele, o Padre, como Pilatos, fazer com que o público odeie Caifás e todo o Sinédrio e o encare – a ele, Pilatos - como um homem poderoso, mas muito bom, que faz tudo que pode pra salvar o messias mas não consegue, devido à maldade judia. E surge a pergunta: o que estaria por trás disso tudo? Por que esse messias (que ninguém sabe onde esteve dos doze aos trinta anos) aparece, de repente, com a conversa de que se deve amar os inimigos e dar a César o que é de César? Esse meu padre tem como ídolo o arcebispo Dom José Maria Pires e participa do movimento dele pela reforma agrária em Alagamar. Mas, no momento em que começa a discutir uma possível cidadania romana de Jesus – pois Herodes, Paulo de Tarso, o filósofo judeu Filon de Alexandria e o historiador judeu Flávio Josefo, eram todos cidadãos romanos – ele vê o Papa João Paulo II tirando o poder de Dom José, de Dom Hélder, de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Pedro Casaldáliga, reprimindo Leonardo Boff. Que resta ao meu Padre Martinho Lutero, depois disso?: deixar a Igreja. E ele a deixa, no Programa do Jô.

54) Rinaldo de Fernandes me convidou pra participar de sua coletânea de contos feitos a partir de Guimarães Rosa, o Quartas Histórias, que publicou pela Garamond em 2006. Por conta da peça Vau do Sarapalha, criada pelo Luiz Carlos Vasconcelos, que melhorara a história original, resolvi “brincar” em cima da insatisfação do grande mineiro com essa sua criação, integrante de seu livro Sagarana. Isso fez com que me lembrasse de um conto de Cortázar – Queremos tanto a Glenda – em que um grupo de fanáticos por uma atriz, resolve alterar a montagem do último filme em que ela trabalhara antes de morrer, para manter o nível de sua carreira brilhante. Criei, por isso, um grupo de fanáticos pela obra de Guimarães Rosa com a mesma proposta, que alicia um grande professor de literatura brasileira da UFPB para esse fim. Foi uma delícia criar dezenas de e-mails e remessas postais feitas por gente com codinomes como Titão Passos, Hermógenes, Quelemém, Fulorêncio, Milinácio, Guirigó, etc, etc. além de vasculhar nos originais datilografados do mestre, constatando sua insistente ânsia de aperfeiçoá-los.

55) Fiz, às pressas, uma série de cortes no elenco necessário pra montar A Batalha de Oliveiros contra o Gigante Ferrabrás, para que a peça “coubesse” no grupo disponível, transferi a estória para o futuro, mudei-lhe o título, que passou a ser A Bátalha de OL contra o Gigante FERR, tornei o turco desafiante num alienígena enorme, vindo numa grande nave, etc,e tc e, quando os atores chegaram à minha casa, para nossa primeira reunião, fui encaixando os papéis a cada um, à medida em que lhe via rosto, tipo, ouvia-lhe a voz, mas, de repente, quando eu não tinha mais personagem algum, me chega o Elton Veloso. Cumprimentei-o, levei-o até os outros, ele feliz da vida por se aninhar mais uma vez em sua turma, eu com a cabeça a mil: O que fazer? No que me sentei, veio-me a solução. Distribui o texto a cada um, atribuindo-lhe, logo, o personagem que lhe cabia e, quando me restavam Elton e Soraya, disse: “Vocês dois serão o mesmo personagem, ROL, falarão sempre juntos, um uma terça ou uma oitava acima da voz do outro, em dueto constante, porque se trata de alguém que ainda não assumiu sua sexualidade – se será masculina ou feminina”. O improviso estabeleceu - depois do achado que foi a gigantesca descida da nave, cena intensamente aplaudida por toda parte - o maior sucesso do espetáculo, sempre. Quando Elton e Soraya, ele alto, bonachão, ela lindamente mignon, os dois maravilhosamente vestidos (couraças de motocross, capas translúcidas, fabulosas maquiagens de Pepe) quando eles partiam um ao encontro do outro, dizendo juntos, afinadíssimos, no que se abraçavam com entusiasmo: “Eu gosto tanto de mim!....”, o público ria adoidamente.

56) Quando meus pais vieram com minha irmã Wilma, para a única visita que recebi deles, em João Pessoa, aproveitei, ao caminharmos na calçada da praia de Tambaú, para perguntar ao velho se houvera alguma coisa dele contra mim, quando nasci, pois jamais conversava comigo, evitando-me ao máximo, até meus 18 anos, quando tivemos um choque e ele se chegou. E ele, simplão como sempre, com aquele pesado sotaque do interior paulista, me disse : Houve, sim. O problema é que nasceu a Wandyr, depois a Wilma, só cinco anos depois veio o Ney. Pronto, já tava tudo completo, eu tinha meu reizinho lá em casa. Mais cinco anos, em plena crise provocada pela guerra, a gente passando um aperto terrível... lá vem você. Não foi bem recebido. Aquilo doeu, mas finalmente eu tinha a “causa” – pelo menos aparente - de meu deslocamento na família.

57) O gerente da agência do BB em Pombal não topava comigo. Principalmente depois que, pra fazer o papel de líder estudantil de minha peça O Vermelho e o Branco – logo proibida pela Censura – eu, à revelia dele, que não admitia um subgerente fora do figurino, comecei a deixar a barba crescer. “Mas não pode!”, zangou-se. “Não pode por quê? Não há nenhuma instrução na C.I.C dizendo isso. A barba é natural no homem!” O problema era a vinculação de minha peça “de esquerda” com os barbudos cubanos, visadíssimos na época. Pois bem. Ganhei um eterno oponente. “Só pensa em teatro! – resmungava - Só pensa em literatura!” Aí, um belo dia, ele se foi pro Rio, pra um curso de dois meses na Direção Geral do BB, que na época, ficava lá, e tive de substituí-lo. Primeira coisa que fiz: fui falar com o único cliente que poderia tirar a agência de sua crônica condição de deficitária, o industrial Paulo Pereira, que jurara não mais pisar ali, desde que o gerente anterior dissera, na casa dele, tomando seu uísque, que toda mulher era imbecil – e, nesse momento, a esposa do homem passou – inclusive a senhora!” “Não, Solha: jurei não mais pisar na agência e não sou homem de voltar atrás”. “Pois o senhor continua não indo lá, eu é que virei aqui.” Ele, então, abriu o cofre e tirou dele um calhamaço de títulos que estava para descontar em Campina Grande. O montante era assustador e eu não podia fazer operação de tal porte sem o consentimento do Rio. “É pegar ou largar!”, impôs. Peguei. Fiz uma carta para a Sede, contando a situação, minha iniciativa foi aprovada. Aí coloquei música no ambiente, vi que os colegas gostaram, e fui ao comércio, perguntar por que a maioria não fazia depósitos. Resposta: o expediente é pela manhã e nós ficamos, sempre, com a tarde a descoberto, sem o banco. E, pior: nos sábados, com a feira, movimento gigante, vocês estão fechados. “Pois a partir de amanhã – eu disse - virei toda tarde recolher os depósitos de vocês, e estarei na agência, nos sábados, pra quem quiser aparecer por lá”. Foi assim que, quando voltou, o gerente encarou o balancete diário, viu o total de operações e de depósitos, voltou-se alarmado: “Que foi que houve aqui?” “Fui conversar com o Paulo Pereira e ele voltou a trabalhar conosco. Passei, também, a receber depósitos à tarde e a abrir aos sábados”. “Mas as instruções não permitem!” “Em terra de sapos, de cócoras com eles”. Ele deu última forma em tudo, o que foi mal recebido na cidade, mas, no final do semestre, nosso balanço foi, pela primeira vez, superavitário.

58) A carreira no banco jamais me seduziu. Trabalhava seriamente, fazia o máximo que podia, mas ficava assistindo às brigas de foice dos colegas a cada cargo que vagava, sem me meter nunca. Por um tremendo mal-entendido, um dia me vi na Direção Geral, em Brasília, num setor que cuidava do aprimoramento técnico dos supervisores das agências, eu encarregado de criar um curso de aperfeiçoamento para eles. Eu fora pra lá certo de que seria aproveitado na revista do Banco – a DESED – cujo chefe, entretanto, nem imaginava que estava destinada ao fechamento... e tive de me virar. O último número dela publicou meu ensaio sobre as semelhanças de Cristo e Jesus, com o que quebrei o galho do chefe – um grande cara – sem pessoal suficiente para a criação de matérias. Certa noite tomei um porre e decidi: “Vou-me embora!” Fui chamado pelo chefão, na cobertura do edifício. “Por que quer nos deixar?” “Porque não me dei com Brasília. Além do mais, não me sinto competente pro trabalho a que fui designado”. “Não se sente competente?! Mas você me chega da Paraíba, dá à revista DESED o melhor texto que ela já publicou, faz o curso de aperfeiçoamento dos supervisores com apoio de um laudo de inspeção dos problemas de supervisão da agência central de Brasília – coisa que ninguém jamais conseguiria – traz a contribuição de texto semelhante da Sudene e da Petrobrás e acha que é incompetente? Eu sei qual é o seu problema!” Pegou o telefone: “O fulana: em lugar do apartamento que está sendo destinado a Waldemar José Solha, daqui do DESED, quero, para ele, um dos novos, etc, etc”. Mas nem o apartamento – que era coisa de cinema – me convenceu. Quanto ao trabalho que fizera, fora favorecido por uma série de coincidências: minha cunhada, na casa de quem eu estava, era da Sudene. Meu cunhado, da Petrobrás. Quando almocei com um cara que fora meu colega por quatro anos, no ginásio lá de Sorocaba, soube que ele era simplesmente o chefe do DIMPLA, que coordenava as inspeções de todas as agências do país, cedendo-me – com a condição do sigilo da fonte – o documento cuja posse impressionara o chefão. Respirei aliviado quando, de volta a João Pessoa, recebi uma ligação do Zé Bezerra: “Quer fazer o texto da Cantata pra Alagamar?”

59) Quando rapaz, duas coisas me faziam abrir as revistas O Cruzeiro: o Pif-Paf do Millôr e – não sei por quê - os truques de Hélio Gracie, criador do Jiu-Jitsu brasileiro - apresentados como numa fotonovela, nas duas páginas centrais da publicação. Jamais me exercitei naquilo. Nunca briguei com ninguém, nem pretendi. Olhava aquilo não sei por qual curiosidade. Mas Hélio Gracie me valeu duas vezes. Na primeira, lá mesmo, em Sorocaba, quando, certa vez, apesar da camisa alva (trabalhava no escritório da loja de eletrodomésticos ) , tive de ajudar a descarregar um caminhão com botijões de gás. Eu na carroceria, o motorista parrudo no chão. Quando menos eu esperava, o cara pegou um dos bujões que eu lhe passara, colocou-o, rápido, no chão e, antes que eu me voltasse pra buscar outro, agarrou-me pelas pernas e me puxou. Despenquei pros braços do sacana, que me prendeu firme pela cintura e (reflexo com que jamais contara antes) servi-me de um dos truques dO Cruzeiro: ergui de vez a mão direita - palma voltada pro rosto do filho de uma égua e estirada firme – batendo-a na base do nariz dele e a forcei, com ímpeto, pra cima. O homem deu um berro e me largou. Mãos na venta dolorida, arregalou os olhos pra mim, no que lhe avisei: “Outra dessa e você se fode comigo, filho da puta!”

60) Doutra feita, entrei no quarto do Grande Hotel, de Pombal, que dividia com o frágil Lessa e com o halterofilista Josmar, e dei com o grandão aporrinhando o outro que, distônico neurovegetativo, tossia, recuando, acuado. “Josmar! – eu disse - Por que não procura alguém do seu tamanho pra encher o saco?” Ele se voltou, nu da cintura pra cima, todo músculos: “Você serve?”, perguntou. E eu, chamando-o com um aceno de mão: “Venha”. Ele esqueceu o Lessa, avançou, e eu, sem pensar absolutamente nada, assisti-me no que baixava meu lado esquerdo, metendo, rápido, o braço entre as pernas dele, enquanto minha mão direita abocanhava o pulso esquerdo dele e eu alavancava o ombro esquerdo e o erguia, passando a girar no quarto, dizendo: “Diga que se rende ou meto-lhe o quengo na parede!” E ele: “Pare-pare-pare!” Não sei como esse tipo de coisa me acontecia. Alguma coisa sempre me pôs tranquilo nas crises.

61) 2004. De repente me vi sozinho em minha exposição no Casarão dos Arquitetos, prédio antigo que fica na frente do Hotel Globo, entre minhas cento e poucas, cento e muitas pinturas... e senti que não iria mais pintar. Parece que pra me animar, o cara que permanecia ali me disse que, pouco antes de eu chegar, um grupo de garotos cheira-colas se deitara no chão, durante bom tempo, diante do Jardim das Delícias, tela grande que pertence ao acervo do político Hervásio Bezerra. Mas nem isso me sensibilizou. Parei, mesmo.

62) O mesmo senti, em 1990, na estreia de minha peça A Verdadeira Estória de Jesus, com direção minha: que não faria, mais, teatro. O grupo insistiu – projetávamos montar, em seguida, O Menino Parsifal, com a estória que acabei incluindo em minha História Universal da Angústia – leu o texto, reuniu-se em minha casa, mas eu disse “Não.” E nunca mais fiz teatro.

63) Um dia, não me lembro a troco de quê, meu pai repetiu seu slogan preferido, no nosso pesado sotaque interiorano paulista : É preciso ser humirde, meu filho! E minha mãe, inesperadamente grossa: Nada disso! Quanto mais você se abaixa, mais o cu lhe aparece! Repetiu a palavrinha escrota noutra ocasião, ainda mais envenenada: Nunca tenha medo de enfrentar nada nem ninguém, viu? Encontrou alguém que PARECE melhor, superior a você?! Saiba que está procurando chifres em cabeça de cavalo! Ninguém é melhor que ninguém! Estava danada: Lembre-se sempre disso: em qualquer briga, disputa, competição, os outros têm tanto medo de você quanto você tem medo deles, porque quem tem cu, tem medo! A diferença é que eles não sabem disso. Você, agora, sabe!

64) Dificilmente detecto que estou a caminho de novo trabalho. Palavras não interferem no processo. Assim, de repente “vejo” o teto da Sistina, composto de grandes afrescos cercados de outros menores – flagrantes do Gênesis emoldurados por sibilas, etc, vem-me à mente que vou fazer algo semelhante sobre as trinta e seis peças de Shakespeare e, de repente, estou com telas maiores separadas pros textos mais importantes, mais outras, com a metade do tamanho, para os demais, depois do que percebo que isso forma um retângulo de sete metros e vinte de largura, começo a pintar a primeira figura shakespeariana que me ocorre, e pronto: estou no processo. Quanto tempo isso vai levar, quanto vai me custar? Não sei e nem quero saber. Ao ver o painel Homenagem a Shakespeare já montado no auditório da reitoria da UFPB, diagnostico: sou doido. Como me detive em tal trabalheira miúda de compor roupa e jóias de Cleópatra, o corpete de Henrique VIII, o colar de Ricardo III, a armadura de Joana D Árc? Nove meses relendo tudo, do Bardo, nove meses sem domingos e feriados, começando às cinco da manhã e parando às cinco da tarde, sem qualquer encomenda, sem, pelo menos, uma ideia de – onde botar isso?

65) De repente “vejo” o Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch, admiro, venero a imaginação excepcionalmente fértil do pintor flamengo, a precisão do seu traço, a beleza de suas cores, de repente estou há três meses pintando a tela de dois metros e vinte de alto, atualizando a sua obra-prima, sofrendo em cada uma das cento e trinta figuras humanas que ali estão, além de um trem, rinoceronte, helicóptero, asa delta, automóveis, cavalo, bicicleta, elefantes, e aí viajo pra Madri pra ver o original, desencanto-me ao lhe ver as cores fanadas ( restauradas algum tempo depois de minha visita), e aí me chega o Ednaldo do Egipto pedindo-me dinheiro pra terminar seu teatro, digo-lhe que não tenho, a menos que você venda ou rife essa tela que acabo de pintar, e ele a leva, rifa-a, Hervásio Bezerra fica com ela por cinquenta reais, e fico pensando naqueles seis meses de trabalho insano durante um ou dois minutos, a cabeça, em seguida, já voltada pra outra coisa.

66) De repente me lembro de quanto trabalho meu deu em nada, como o libreto de uma ópera sobre Os Gracos, encomendada pelo maestro Kaplan, que jamais fez a composição nem me disse porque não a fez, sequer se aprovara meu texto. E vem Fernando Teixeira e me pede o libreto de outra ópera – essa sobre os anos 30 – passo trinta dias em pesquisas e versos, um dia ele me chega apressado, devolve-me o calhamaço, dizendo, às carreiras, que não gostara dele, depois do que saiu e fiquei – como diz o povo – com a cara mexendo. E lá estão, perdidos, um texto teatral sobre Frida Kahlo, um balé em cima de A Bagaceira, que Carlos Anísio e Rosa Angela Cagliani me pediram mas consideraram pouco louco, um roteiro sobre Zé Lins, que Vladimir Carvalho, depois de elogiar, descartou, um roteiro de longa-metragem feito em cima de A Canga, encomendado por Durval Leal e também descartado... etc, etc, etc.

67) De criador tenho pouco. Sou, apenas prolífero e prolixo. Um dia o mesmo Fernando me liga, dizendo-me que está pensando em montar uma adaptação de A Bagaceira para teatro, com texto meu, e eu o interrompo, dizendo “Estou sem tempo, agora, Fernando”, e ele: “Sem tempo pra que?” “Pra fazer a peça.” “Oxente, cara: estou com seu texto na minha mão. Só estou comunicando que vou montá-lo.” “Você está com uma adaptação de A Bagaceira, minha, na sua mão? Não acredito. Leia... o começo pra mim”. Mal ele começou a ler, vi, que, realmente, havia escrito aquilo.

68) Do mesmo modo, visito minha família, em Sorocaba, minha irmã Wilma me pergunta se eu não gostaria de levar pra Paraíba meu autorretrato de smoking, que ela mantém guardado há anos. “Autorretrato de smoking?! Nunca fiz nada disso!”, ao que ela vai a seu quarto e volta com o quadro na mão. “Caramba!”

69) Quando vi meu filho Dmitri fazendo, com facilidade enorme, suas fotomanipulações, percebi quanto tempo joguei fora juntando obras diferentes pra obter um novo conceito, nova ideia, muita coisa que não passou de... pura brincadeirinha. Lembro-me de que, ao perceber que o dândi do Almoço na Relva, de Manet, está na exata posição do Adão da Sistina, só que inversa, reproduzi-o com todos os detalhes – gravata, bengala, boina – e o coloquei face a face com o Adão nuzão, o dedo de um tocando no dedo do outro, título, embaixo: A Criação do Gay.

70) Às vezes você pensa uma coisa, escreve, compõe ou pinta outra. Participei de uma passeata pelo impeachment de Collor, tinha horror a ele, mas o carro-chefe de minha mostra Caras Pintadas, de 94, foi uma tela com esse nome, de grande porte, estranha, porque fiz uma multidão de jovens aparentemente em marcha, na verdade uma infinidade de reproduções – em perspectiva - de capas de revistas femininas burguesonas, tipo ELLE, Jóia, Marie Claire, etc, com closes – todos – de caras pintadas com palavras de ordem tipo Fora Collor!, ou Chega!, tendo em cima, em ponto grande, as logomarcas NIKE de um lado, COKE do outro. E?