terça-feira, agosto 31, 2010

VIDEO DO DIA

VALE A PENA A REFLEXÃO!

Declaração do Dia

"Tem gente que fica falando aqui como se eu já tivesse ido embora, mas ainda tenho quatro meses e alguns dias de governo. Alguns falam como se eu já tivesse ido. Tem gente que se mata para ser presidente por um dia e ainda tenho quatro meses e alguns dias. Ainda tenho a caneta para fazer muita miséria nesse país." HIC

segunda-feira, agosto 30, 2010

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA

W. J. Solha

Este é o leve, irônico, profundo escritor judeu porto-alegrense Moacyr Scliar, 73 anos, 60 livros, Prêmio Casa de Las Americas, Prêmio da APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte –, detentor de três Jabutis, e que tem “O Centauro no Jardim” na lista dos cem melhores livros de temática judaica dos últimos duzentos anos, feita pelo National Yiddish Book Center: E este é um de seus romances, o que acabo de ler com um prazer enorme:










Freud atribuía a existência da expressiva quantidade de judeus brilhantes – Einsten, Kafka, Trotsky, Gershwin, Sarah Bernhard, etc – à cultura repressiva de que são vítimas, demasiado teocêntrica. Não por acaso, Moacyr Scliar é primo de outro grande artista, o pintor Carlos Scliar, também gaúcho (de Santa Maria), de cujas naturezas-mortas gosto muitíssimo:
Mas não sei se Freud estava certo, nessa observação, pois se Marx era judeu, os Irmãos Marx – Groucho, Arpo, Chico e Zeppo – também eram. E eu vivia às gargalhadas com o maestro José Alberto Kaplan, para quem escrevi os muito sérios versos da “Cantata pra Alagamar”...
... além do que assisti – quando trabalhava em publicidade – a um excelente documentário sobre o fino humor judeu na propaganda européia e americana, e agora me diverti – e muito – com este “A Mulher que Escreveu a Bíblia”, do Moacyr Scliar. Não sei como ainda não fizeram um filme baseado nele, pois – à frente de uma narrativa grandiosa como pano de fundo, a do Pentateuco - sua inesperada narradora – a tal escriba – é tão genial quão sensual e... feíssima. Gozadíssima. Pensem na Zezé Macedo, a grande parceira de Oscarito...
... com um corpo assim...
... e a cabeça a mil, pois é o único ser humano com vagina, na bíblica Israel, que sabe ler... e escrever! Por sinal, muitíssimo bem.

O autor, judeu, não respeita o centro vital de seu povo – a Bíblia? Sim, respeita, como todo escritor respeita um grande texto. No mais, domina-o a vontade de brincar em cima do Livro, centralizando sua estória na paixão dessa mulher horrorosa pelo belo rei Salomão (de quem se torna uma das setecentas esposas, fora as trezentas concubinas que ele tinha... e de que já não dava conta). Apaixona-se pelo belo rei... que – depois de avaliar o corpão da recém-chegada – pede que ela retire o véu do rosto... e toma um puta de um susto. A coitada está subindo pelas paredes, com um tesão sem tamanho, mas seu obscuro objeto de desejo, quando ela o tem à sua disposição (depois de uma revolta que levantara no harém pelo direito de pelo menos uma trepada)... broxa.

É de rolar de rir a versão que a escritora – ao ser obrigada por Sua Majestade a escrever o Gênesis – faz da história de Adão e Eva, criando um casal entusiasmadíssimo pela descoberta do sexo. Mais ainda quando o chefe dos anciãos que o rei nomeara como seus censores, abre a roupa ante a autora e lhe mostra o efeito brutal do texto que ela criara, efeito notável, depois de anos de impotência.

Caramba, a vontade é a de contar a história toda, mas fico por aqui, com uma comparação: esse romance tem muito do estilo Monty Python, o grupo inglês que produziu – entre outros grandes sucessos - o filme
... que começa com os reis magos entregando o ouro, incenso e mirra ao recém-nascido da manjedoura vizinha à de Jesus, engano de que resulta grossa pancadaria para que se repassem os presentes pra seu verdadeiro destinatário.

“A Mulher que Escreveu a Bíblia” é ótimo pra quem conhece as Escrituras. Melhor ainda para quem nunca as leu e nem lê porra nenhuma. (30-08-2010)

W. J. Solha Escritor, dramaturgo, ator e poeta paulista, radicado na Paraíba. wjsolha@superig.com.br

Um Mundo de Vantagens


Recebi & repasso!

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Tudo isto e o céu (da boca de uma onça) também...

domingo, agosto 29, 2010

Tiririca

MARCUS ARANHA

Enfiar na cabeça dos alunos Filosofia e Sociologia.

Francisco Everaldo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, é candidato a deputado federal por São Paulo.

Na propaganda eleitoral na TV ele diz: “Você sabe o que faz um deputado federal? Eu também não. Mas vota em mim que quando for eleito eu te conto.”

“Vote em Tiririca, pior do que tá não fica.”

Se Tiririca não sabe um deputado federal eu posso lembrar aqui. Ele ganha mais de cento e trinta mil reais por mês além de outras vantagens financeiras que-só-Deus-sabe-porque. Além disso, tem direito a passagens aéreas semanalmente de Brasília para o Estado que representa. Faz viagens ao exterior representando a Câmara nos mais diversos eventos. Sai do seu Estado para Brasília na terça e volta na quinta; ou seja, trabalha dois dias e meio por semana.

Nesses dois dias e meio ele faz coisas como aprovar projetos que criam o Dia do Sanfoneiro, O Dia do Despachante Legal, o Dia do Carteiro e outros “dias” destinados a homenagear a categoria distinguida e proporcionar-lhe feriado no dia da homenagem.

Mas, vejamos que outras coisas fazem os deputados. Incharam o currículo escolar dos alunos do ensino básico incluindo novos conteúdos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação; assim sendo, as escolas de todo país se viram obrigadas a ensinar Filosofia, Sociologia, Artes, Música, Cultura Afro-Brasileira, Cultura Indígena, Direitos das Crianças e Adolescentes.

Ora, em especial na rede pública onde a maioria dos alunos não consegue aprender satisfatoriamente português e matemática, como vai absorver ensinamentos sobre as Culturas Afro-Brasileira e Indígena?

E o que acham de, no ensino básico, enfiar na cabeça dos alunos Filosofia e Sociologia.

Hilária são as justificativas para as emendas feitas pelos deputados. Segundo eles, a cultura afro-brasileira deve ser lecionada com o objetivo de resgatar a dívida histórica com a escravidão e a cultura indígena para o resgate da dívida social com os povos da floresta.

As emendas dos senhores deputados só trouxeram problemas que perpetuam a má qualidade da nossa educação básica. Isso está claro com o desempenho dos estudantes brasileiros nas provas e testes internacionais de avaliação do conhecimento.

Tendo uma alfabetização e uma formação básica deficientes nossos estudantes estão sempre nas últimas colocações.

Danado é que outras dezenas de projetos com novas inclusões no currículo escolar tramitam no Congresso, incluindo coisas como meio ambiente, regras de trânsito e direitos dos idosos.

São tantas as “novidades curriculares” que se torna impossível montar um currículo.

Tai... São coisas como essas que andam fazendo os nossos deputados federais.

Em três de outubro não quebre a cabeça para escolher o deputado em quem votar, pois Tiririca é quem tá certo: pior do que tá não fica

Brasileiro ao natural

Ipojuca Pontes

Anos atrás, dois diplomatas brasileiros entraram num bar da Rua da Palma, em Assunção, capital do Paraguai, paraíso do contrabando oficializado. Os funcionários do Itamaraty, bem vestidos e escovados, uma vez no bar, dirigiram-se ao balconista e pediram água mineral. Enquanto esperavam atendimento, iniciaram uma animada prosa na língua mater.
Ao lado dos diplomatas, dois paraguaios típicos, caras ensebadas, olhos repuxados, pegaram copos e garrafas (de “cerveza”) e se afastaram do balcão. Antes, encararam os brasileiros e um deles, mais insolente, arrancando catarro do peito, cuspiu de lado e, em tom de desprezo, soltou a voz:
- Brasileños...
O diplomata mais jovem, que era faixa-preta, quis revidar. O mais velho, no entanto, encarando-o firmemente, segurou-o pelos ombros e ciciou:
- Deixa pra lá... Deixa pra lá... No fundo, eles têm razão.
O diplomata mais jovem arrefeceu o ímpeto de revide, o mais velho pagou a conta e ambos deram no pé. Mas o que de fato queria expressar o paraguaio ensebado com aquela desdenhosa expressão... “brasileños”?
Para muita gente boa o brasileiro, depois de cinco séculos de existência, continua sendo um enigma em aberto. Para uns, mais generosos, ele seria um ser essencialmente lúdico, na verdade uma eterna criança grande para quem a vida não passa de uma simples brincadeira. Para outros, tidos como fatalistas, o brasileiro seria uma figura volúvel degradada pela natureza, marcada pelo sol abrasador dos trópicos.
O sociólogo de Pernambuco Gilberto Freyre desnudou em minucioso strip-tease a natureza mais profunda do caráter preponderantemente erótico e emocional da nossa sociedade, que leva o brasileiro a sentir mais do que pensar ou, mais precisamente, a pensar intuitivamente.
Já para o escritor paulista Paulo Prado, conforme registro no decantado “Retrato do Brasil”, o brasileiro se definiria como um ser triste, levado à melancolia pelo fastio da luxúria e da cobiça, querendo dizer com isso que somos um povo de moral ambígua, ou mesmo sombria.
Outro escritor paulista, Mário de Andrade, nos anos 30 do século passado, querendo ir ao centro da questão, avançou a teoria de que esse homem brasileiro é um ser sem caráter. O arguto Mário, como peça de ficção, para representar o brasileiro, distinguiu a figura de Macunaíma, herói sem nenhum caráter, malandro metido em eternas trapalhadas sob o manto de incontáveis metamorfoses.
Para ampliar o espaço de citações, lembro a tirada de um dolorido cronista dos anos 80 do século passado, José Carlos Oliveira. Para o ele, o brasileiro não passaria de um ser-no-vazio, tipo inacabado que, por qualquer razão primitiva, não percorreu o caminho evolutivo da espécie: “O brasileiro não é: ele se faz, mas não se faz em definitivo: ele se experimenta; troca de idéias como as cobras trocam de casca”. O brasileiro seria, assim, em princípio, um eterno agente do improviso.
Outro sociólogo paulista, por sua vez, qualifica o brasileiro como o “homem cordial”, sujeito que pensa com o coração, para confundir, pela manha herdada dos ancestrais ibéricos, o espaço público com o espaço privado, ou seja: impor o clientelismo cupincha como principal atribuição da vida política.
Eis aqui o âmago da questão: a cultura política do brasileiro, que mescla o interesse privado com a coisa pública, ultrapassa os limites da decência humana. Como exemplo emblemático, enfrentamos no momento o caso sobejamente conhecido da guerrilheira Dilma Rousseff, tida como uma das responsáveis, nos anos de chumbo, por ações beligerantes, contrabando de armas, roubos à mão armada e o assalto (no montante de 2.800 milhões de dólares) ao cofre de Ana Benchimol Capriglione, a amante do ex-governador (paulista) Ademar de Barros.
Vejam só: no pleito eleitoral em andamento, fala-se muito na deflagração da campanha “Ficha Limpa”, movimento de combate à corrupção na política, em especifico contra a candidatura de políticos em débito com a justiça.
Assim seja. Mas à frente nas pesquisas eleitorais ao cargo de presidente da República, Dilma Rousseff, a companheira preferida de Lula da Silva, jamais explicou onde foi parar tanto dinheiro saqueado por ela (entre outros) de um ser privado. E aqui vem o pior: a mesma gente que se diz ansiosa pela instauração de uma sociedade mais digna e justa, sequer exige da candidata oficial uma explicação compatível para o caso escabroso ou simplesmente aceita o fato como consumado: o que não tem remédio, remediado está.
Ver a coisa pública como patrimônio privado não é, de resto, uma postura exclusiva dos políticos. Ela campeia, como um ferrete infamante, entre as chamadas elites intelectuais. Abram-se, por exemplo, os jornais ou vejam-se as entrevistas repassadas nas televisões: não haverá um dia sem que representantes desta ativa confraria de ladinos não estejam, por vias postas e interpostas, a reclamar dinheiro público em troca de pretensão, água e vento.
Em nome da “cultura”, e da pretensa busca de uma abstrata “identidade nacional” – esta, uma espécie de peru sem cabeça, pois ninguém sabe ao certo o que é ou o que representa -, ensandecidas hordas de cineastas, músicos, pintores, escritores, produtores culturais os mais diversos, demandam furiosos pela grana fácil dos contribuintes acumulada nos cofres públicos gerenciados por políticos matreiros. “Um direito adquirido”, dizem eles, visto que ela, a cultura, não é só “um momento de recreação, ornamento social ou cortina rendada que se abre a papos mais sérios”.
Tudo isso acima exposto configura o quadro da miséria moral que contamina o ser nacional: as elites intelectuais, a pretexto de “defender o povo brasileiro”, terminam por sacar do estômago das massas ignorantes o alimento farto de que se nutrem.
Não é por acaso que o país naufragou em trauma profundo, alheio a uma moral compartilhada, mergulhado no horror da guerra civil, da exploração e da segregação social. Com um ser brasileiro assim ao natural, como não soçobrar?

sábado, agosto 28, 2010


Sömmerda é um distrito (kreis ou landkreis) da Alemanha localizado no estado da Turíngia. Cidade irmã de Brasília!

quinta-feira, agosto 26, 2010

MODUS VIVENDI – Uma quase autobiografia

José Virgolino de Alencar

Minha postura na vida é sólida,
tenho arraigado sentimento ético,
na justiça, sinceramente, sou crédulo,
não me abala do destino o pêndulo
que me empurra para o lado cético.

A verdade pra mim é um tônico,
não dizê-la só me deixa em dívida,
inverdade pra mim é uma lástima,
mentir pra mim é a etapa última,
assim sou, sem nenhuma dúvida.

A paz pra mim é um santo bálsamo,
viver é bom no hoje como no póstero,
sobra-me bondade, nela tenho crédito,
nesse conta-corrente resulta-me bom rédito,
minha produção do bem é um negócio próspero.

Não temo a proximidade do óbito,
a efêmera glória não me causa êxtase,
tanto faz a planície como a alta cúpula,
debacle não me causa qualquer mácula,
só à vida saudável é que dedico ênfase.

À procura do saber corro lépido,
quero ver o conhecimento no seu íntimo,
tenho a leitura como um prazer lúdico,
o aprender é algo singular, ímpar, único,
que dá à vida afinação e ritmo.

Não me apraz o poder dos títeres,
porquanto abusam da força física,
levam o arbítrio ao nível máximo,
não respeitam e não amam o próximo,
e sempre mostram uma carranca cínica.

Repugna-me a vaidade, sentimento mísero;
o vaidoso é um ser de semblante cômico,
esquece que o orgulho vai com ele ao túmulo,
e tal alcoólatra, que tem seu corpo trêmulo,
ele faz da vaidade um vício crônico.

Sou e serei um cidadão íntegro,
sempre e não só na fase crítica,
entendo como estratégia péssima,
aguardar os ventos da hora décima,
e fazer do caráter uma coisa mítica.

Idealismo vejo como difusa ótica,
meu ideal resulta de objetivo tático,
não é produto de sentimento místico,
cravado na mente como um dístico,
é, na realidade, racional e prático.

Não vivo em sintonia com o mundo frívolo,
discrição é marca da minha têmpera,
no combate ao mal prefiro ser drástico,
com burrice sou profundamente cáustico,
numa atitude ranzinza e duramente áspera.

Meus deveres são cumpridos com êxito,
obrigação faço com dedicação rígida,
não cumpro a lei apenas de forma cênica,
tenho respeito e zelo pela coisa pública,
minha ação profissional é pura, límpida.

Vejo a vida e o mundo por esse ângulo,
embora não os resuma num limite métrico,
fragilmente compondo um corpo pálido
que ao primeiro sopro desmorona rápido,
em ruínas que formam um cenário tétrico.

Foto do Dia


Pode ser uma foto-montagem. E pode não ser. É no mínimo curioso ver a candidata com um cabelão da época do desbunde total, à la Caetano Veloso, saindo por ai, cara ao sol sem lenço e sem documentos. Será que ela tomou parte no Movimento Tropicalista? HC.

quarta-feira, agosto 25, 2010

DESALENTO


Manuel Bandeira

Uma pesada, rude canseira
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara... De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim...

É bem verdade que me tortura
Mais que as dores que já conheço.
E em tais momentos se afigura
Que estou morrendo... que desfaleço...

Lembrança amarga do meu passado...
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi...

Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora... contam-me a história
Do que a minh'ama quis e não teve...

O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar...
Pesar doentio... Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular...

Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio...

Às vezes volvo, por esquecê-la,
A vista súplice em derredor.
Mas tenha medo do que sem ela
A desventura seja maior...

Sem pensamentos e sem cuidados,
Minh'alma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida...

Teresópolis, 1912

A tarde, no futuro



Celso Japiassu



A tarde redescobriu a sombra

alimentada pela noite

como faz todos os dias.



As gaivotas, no espaço

obstruido pelo vento,

voam no deserto.



Bicam o ar e a travessia

se faz sobre o naufragio

de arcabouços antigos.



Nesta moldura,

um vulto cai sobre o vazio

e paraliza o instante.



Na memória,

cresce a bruma

e um canto agudo,



envolto em teias,

escorre sobre o mar

a sua trama.



Uma pétala se move

na encosta de um monte

escalado pelo vento.



O frio envolve as palavras

e o futuro

cai no esquecimento.

VOTO NULO

Amigos:

Recebi e retransmito para vocês. Interessa? A mim interessou! HC.

Você sabe como eliminar 90% dos políticos corruptos em uma única vez ?
Isso mesmo, em uma única vez....Preste muita atenção:
Você sabe para que serve o VOTO NULO ? Não sabe, não é mesmo ?!
Não se preocupe, eu acredito que menos de 1% da população saiba algo sobre isso...

Agora, você sabe porque você não sabe para que serve o VOTO NULO?

Então, vamos a um exemplo:
Imagine uma eleição qualquer, onde os candidatos sejam: Lula, Paulo Maluf, José Dirceu, Marcos Valério, Delúbio Soares, Roberto Jefferson, Fernando Henrique, ACM... Entre outros.

Campanha vai e campanha vem, você se acha na obrigação de escolher uma dessas figuras (o tal do "menos ruim") e com isso acaba afundando mais o país !!!

Mas, aí você diz: "Nesse caso, não temos saída!" Engano seu !

O QUE VOCÊ NÃO SABE É QUE SE UMA ELEIÇÃO FOR GANHA POR "VOTOS NULOS" É OBRIGATÓRIO HAVER NOVA ELEIÇÃO COM CANDIDATOS DIFERENTES DAQUELES QUE PARTICIPARAM DA PRIMEIRA !!!

Ainda não entendeu ?

Se, no exemplo de eleição acima, você e todo mundo votasse nulo, seria obrigatório haver uma NOVA ELEIÇÃO e esses pilantras não poderiam concorrer ao mesmo cargo político pelo menos por mais 4 anos! Isso, imagino que (como eu) você ainda não sabia, né ?!

Agora você entendeu por que isso nunca foi divulgado?

Acha que é mentira? Ligue para o Superior Tribunal Eleitoral... Ligue para OAB... Aproveite e ligue também para a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, O Diário Catarinense, O Estado do Paraná, A Gazeta do Povo... e todas as revistas e jornais importantes desse país, e então lhes pergunte por que isso nunca foi divulgado.

Segundo a legislação brasileira, se a eleição tiver 51% de votos nulos, o pleito é ANULADO e novas eleições têm que ser convocadas imediatamente; e os candidatos concorrentes ficarão IMPOSSIBILITADOS DE CONCORRER NESTA NOVA ELEIÇÃO !!!


É disso que o Brasil precisa: um susto nessa gente!

Esta campanha vale a pena!


É assim que se vota NULO!

Digite 000 +
TECLA VERDE.


Pronto! Está salva a Pátria!

La Otra Cuba - Parte 2

terça-feira, agosto 24, 2010

Charge do Dia

O Que É a Natureza!!!

PASTOR QUER CASAR COM HOMEM

O reverendo Colin Coward, que era responsável pela paróquia da igreja de St. John, em Devizes (Inglaterra), revelou que planeja se casar com o namorado dele, Bobby Ikekhuame Egbele. O religioso anglicano tem 65 anos e o parceiro nigeriano, que é modelo e estilista, tem 40 anos a menos, segundo reportagem publicada na sexta-feira pelo "Daily Mail".

O anúncio provocou grande polêmica entre cristãos. Coward disse que pretende trocar alianças em cerimônia na igreja nas próximas semanas. O casal se conheceu em um encontro religioso três anos atrás.

Egbele é dono de uma loja de roupas online e está no Reino Unido com um visto de turista. Após o casamento, o nigeriano poderá se tornar cidadão britânico.

"Estou animado com o casamento e com o fato de as pessoas estarem interessadas nele", disse o modelo. "Queremos tornar isso público para inspirar outras pessoas", acrescentou.

Coward não está locado em nenhuma paróquia, mas ainda tem permissão de comandar cerimônias religiosas.

Peguei emprestado no blog do Pedro Marinho. HC

O Antiacaso

Ferreira Gullar

"No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade."

Nada escapa desse binômio?

Nada. O homem luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.

AO REDOR (e dentro) DO SOM

W. J. Solha

Tenho vivido uma experiência única. Depois de escrever, de enfiada, o poema longo Trigal com Corvos; a coletânea de 126 contos, um roteiro de longa e dois romances que formam minha História Universal da Angústia; além do romance inédito Dricas, do último trabalho publicado - Relato de Prócula -, e de estar, agora, em pleno parto doloroso de novo poema longo, veio-me – quando me sentia já saturado - a resposta daquilo que Mozart lindamente musicou no Réquiem, quando o coro, súplice, pede ao Ser Supremo:

- “Voca me, voca me”.

Daniel Aragão, que trabalhava na formação do elenco do filme O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, disse que me vira subir ao palco do Teatro de Santa Isabel, no Recife, no final do ano passado – para ser apresentado à plateia como o libretista da ópera Dulcineia e Trancoso, de Eli-Eri Moura, que acabara de ser apresentada - e decidira:

- É Seu Francisco!

Finalmente achara – contou-me – o ator com o “physique du rôle” (físico para o papel) para esse personagem. Avalisava-me, também, segundo ele, minha participação no curta A Canga, do Marcus Vilar. Como lhe respondi que decidira não mais me meter nessa, de ator, insistiu tanto, que lhe pedi para ver o roteiro. E... vi, no que li, minha derradeira oportunidade de participar de algo realmente grande, como nos velhos tempos de Fellini, Ford ou Bergman.

- OK, Daniel.

Ele veio, então, à minha casa, fazer um teste, que constou de um improviso. Kléber, ao ver o material, e sem me vincular ao brutal camponês de A Canga, achou-me “simpático demais” para seu personagem. Chamou-me para novo teste, agora no Recife, ao tempo em que provava, também, a performance do Sebastião Formiga, que – chamado para contracenar comigo - me propôs um ensaio no Thomas Mindello. Quando terminamos a cena, em Recife, no dia seguinte, Kléber disse a seus assistentes Leo Lacca e Juliano Dornelles:

- Arrepiante...

Já no meio das filmagens, bem depois, chegou para mim e, generosamente, me revelou:

- Foi naquele momento que passei a acreditar – realmente – no filme.

Bem, não tenho um papel extenso em O Som ao Redor. Mas eu o comparo ao de Pilatos, que fiz por três anos no Auto de Deus – espetáculo ao ar livre da Semana Santa, do Everaldo Vasconcelos - no qual eu não ficava muito tempo em cena, mas ciente de que, sem minha participação, Cristo não iria pra cruz! Trata-se de uma vantajosa troca do extenso pelo bem denso. Há especialmente dois diálogos de que participo, no filme, que são magistralmente construídos, numa tessitura complexa de ironia, crueldade, medo, violência... e graça. Uma delícia pra qualquer ator. Os ensaios intensos que tivemos antes e durante as filmagens, acrescentaram nuances incríveis ao roteiro, que já era muito bom. Kléber trabalhou nossa interpretação como um Rembrandt: através da sobreposição de várias camadas, das quais sempre surgiam luzes nas trevas e sombras nas luzes. Isso tudo com uma suavidade, segurança e uma fleuma que sua esposa – Emilie Lesclaux – considera, não sem razão, “britânica”.

A razão disso talvez esteja – também – no fato de que ele viveu seus anos de formação – dos 13 aos 18 – em Londres. Mas não é apenas isso. Embora O Som ao Redor seja seu primeiro longa-metragem, Kléber vem de uma série de curtas excepcionais. Sobre Vinil Verde, você pode ver em http://www.youtube.com/watch?v=750ywyKLCs8 o destaque especialíssimo que lhe dá o apresentador do BBC Culture Show ao cobrir o festival de filmes fantásticos de Bristol, Inglaterra, de que o curta fez parte. E eu mesmo vi, durante o último Fenart, no Cine Banguê, a consagração de outra criação sua: Recife Frio. Excepcional, também, é seu “Crítico”, de 65 minutos, em que temos a oportunidade única de ver o que dizem sobre os analistas da sétima arte cineastas como Gus Van Sant, Walter Salles, Carlos Saura, Eduardo Coutinho e muitos outros, além das colocações – várias delas geniais – dos próprios críticos. Por outro lado, Kléber é – ele mesmo – soberbo crítico de cinema – como nossos João Batista de Britto e o finado Antonio Barreto Neto – com a vantagem de ser, visceralmente... cineasta.

Mas o que é O Som ao Redor? Não estou autorizado a dizer. Mas adianto – generalizando – que tem algo da suíte Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky. Ou mais. Tem qualquer coisa de Robert Kushner...
Não. Acho que pende mais para... Martin Kippenberger...
Não, não. Acho que lembra mais... David Salle, ... sendo bem mais claro... e, paradoxalmente, sei lá...
Na verdade eu me sinto como... esse personagem aí, na horizontal. (23-08-2009)

segunda-feira, agosto 23, 2010

CONVERSA DE VELHOS

Carlos Mello

No dia 9 de outubro de 1944, o então presidente da Academia Brasileira de Letras, Múcio Leão, dirigia ao escritor Monteiro Lobato uma carta comunicando que seu nome havia sido apresentado para concorrer à vaga deixada pela morte de Alcides Maia. Subscreviam a apresentação os acadêmicos Olegário Mariano, Menotti del Picchia, Viriato Correia, Cassiano Ricardo, Múcio Leão, Oliveira Viana, Barbosa Lima Sobrinho, Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Clementino Fraga. Dois dias depois, Lobato enviava uma carta em que declinava do convite. Eis seu texto, na íntegra:

Sr. Múcio Leão
D. D. Presidente da Academia Brasileira de Letras

Acuso o recebimento da carta de 9 do corrente, na qual me comunica que em documento apresentado à Academia Brasileira, subscrito por dez acadêmicos, foi meu nome indicado para substituição de Alcides Maia; e que, nos termos do Regimento, devo declarar que aceito a indicação e desejo concorrer à vaga.

Esse gesto de dez acadêmicos do mais alto valor intelectual comoveu-me intensamente e a eles me escravizou. Vale-me por aclamação – honra com que jamais sonhei e está acima de qualquer merecimento que por acaso me atribuam. Mas o Regimento impõe a declaração do meu desejo de concorrer à vaga, e isso me embaraça. Já concorri às eleições acadêmicas no bom tempo em que alguma vaidade subsistia dentro de mim. O perpassar dos anos curou-me e hoje só desejo o esquecimento de minha insignificante pessoa. Submeter-me, pois, ao Regimento, seria infidelidade comigo mesmo – duplicidade a que não me atrevo.

De forma nenhuma esta recusa significa desapreço à Academia, pequenino demais que sou para menosprezar tão alta instituição. No ânimo dos dez signatários não paire a menor suspeita de que qualquer motivo subalterno me leva a esse passo. Insisto no ponto para que ninguém veja duplo sentido nas razões do meu gesto. Não é modéstia, pois não sou modesto; não é menosprezo, pois na Academia tenho grandes amigos e nela vejo a fina flor de nossa intelectualidade.

É apenas coerência; lealdade para comigo mesmo e para com os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples idéia de me ter feito acadêmico por agenda minha me desassossegaria, me perturbaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade.

Do fundo do coração agradeço a generosa iniciativa; e em especial agradeço a Cassiano Ricardo e Menotti o sincero empenho demonstrado em me darem tamanha prova de estima. Faço-me escravo de ambos. E a tudo atendendo, considero-me eleito – mas numa nova situação de academicismo: o acadêmico de fora, sentadinho na porta do Petit Trianon com os olhos reverentes pousados no busto do fundador da casa, e os nomes dos dez signatários gravados indelevelmente em meu imo. Fico-me na soleira do vestíbulo. Mal comportado que sou, reconheço o meu lugar. O bom comportamento acadêmico lá de dentro me dá aflição...

Peço, senhor presidente, que transmita aos dez signatários os protestos de minha mais profunda gratidão e aceite um afetuoso abraço deste seu admirador e amigo
MONTEIRO LOBATO.

Os velhos que hoje lerem esta carta, hão de lembrar do nosso tempo, um tempo em que a sociedade brasileira ainda não havia descido tão baixo, e havia homens capazes de um gesto de nobre coerência como esse. Bem, é verdade que naquela época a Academia também era outra.

Os moços dirão que tudo isso é conversa de velho, que os tempos mudaram, que isso não tem importância etc. e tal. De fato, quem, no Brasil de hoje, nesse formidável carnaval de desonestidade e ausência de caráter, dá pela falta de senso moral? Dignidade, moralidade, escrúpulo, são palavras em desuso, nada mais significam. Cultura, educação, polidez, civilidade, são outros tantos termos sem importância. Este é, como dizia o velho Lalau, “o estado a que chegamos”. Miserere nobis! CM.

O artista e o mercado de arte 1

Plínio Palhano

O ateliê do artista-artesão do Quattrocento florentino era uma verdadeira oficina coletiva e, ao mesmo tempo, loja, bottega, aberta para o público consumidor que circulava pelas vias e lá encontrava não somente a excelente pintura ou a obra-prima escultórica do mestre que estava em evidência, mas tudo o que se realizava naquela “fábrica” de engenho e genialidade: um serviço de arquitetura, de ourivesaria, de fundição; ornamentos para cofres e cavalos; candelabros; desenhos para tapeceiros e bordadores; louças de noivado; peças de armadura; sinos; e outros utensílios. No testemunho de Giorgio Vasari (1511–1574) — pintor e historiador que escreveu Vidas (dos grandes arquitetos, pintores e escultores italianos) —, artistas como Botticelli, Ghirlandaio e Donatello não se envergonhavam de realizar essas “pequenas” obras artesanais e, para concretizá-las, envolviam todos os componentes da oficina, formados com severa hierarquia. Entravam, inicialmente, como aprendizes e realizavam as atividades mais humildes; após um bom período, adquiriam o aprendizado dos métodos tradicionais e repetitivos, que eram ensinados pelos mais velhos. Já os discípulos exerciam, com o artista do ateliê, atividades simultâneas em pintura, escultura e outros ofícios até serem considerados mestres.

Durante o Renascimento, os ateliês permaneceram com essas características, e todos os grandes artistas representativos desse período passaram pelo mesmo processo e continuaram formando os seus estúdios com esse espírito coletivo de produção. A possibilidade de comercialização de suas obras mais importantes e de custo maior direcionava, essencialmente, para o mecenato, em que a Igreja exercia a primazia, com as encomendas de projetos para catedrais, outros templos importantes, túmulos de papas, representações em esculturas e pinturas e mais o reforço do interesse de refinados cardeais colecionadores que adquiriam obras das mais variadas técnicas e autorias. A outra forma de mecenato encontrava-se no contrato do artista pelos tiranos para expandir as suas ambições como príncipes e honrar os antepassados ilustres e até, servindo-se da genialidade desse criador, para as mais destacadas festas, ornamentando-as com engenhosidades como, por exemplo, os trabalhos que Leonardo da Vinci realizou para o duque de Milão, Ludovico Sforza, o Mouro (1452–1508): além de pinturas, um projeto inacabado de escultura, em bronze — O Grande Cavalo (c.1483–1499), em homenagem ao pai do duque, Francisco Sforza —, estudos de engenharia militar e arquitetura urbanística. Da Vinci ainda tinha tempo para cooperar, como mestre de cerimônias, desenhando e concretizando projetos para a diversão da corte nas comemorações promovidas pelo Mouro.

Rubens (1577–1640) e Rembrandt (1606–1669), incluídos entre os artistas barrocos do norte europeu, formaram verdadeiras equipes em seus ateliês com o detalhamento e a especialidade para cada discípulo e aprendiz. Alguns pintavam mãos; outros, cenas de paisagens, retratos, detalhes de coloração, envernizamento e funções diversificadas para a produção de pinturas e de gravuras. O mestre seguia os trabalhos e realizava a última etapa com os retoques finais. Segundo informações históricas, Rubens conseguiu um alto padrão técnico e quantidades de obras pictóricas nunca alcançadas e espalhadas em toda a Europa, até então, por um artista. Hoje, há dificuldades de se saber a autoria de algumas obras, isto é, se foram criadas diretamente pelas mãos do artista ou pelos discípulos — discussão que alguns teóricos acham dispensáveis. Em Rembrandt, a visão da crítica especializada destaca os projetos e as ações que encontrou para difundir a sua obra e o paralelo da mesma questão quanto à autoria de pinturas realizadas com a colaboração dos discípulos. O artista criou uma técnica rugosa, com camadas espessas de tinta, através de toques com o pincel empastado e uma luz interna que emana dessa matéria, propagando, assim, com perfeição, uma pintura das mais expressivas e geniais, própria do estilo do pintor, que contrastava com a da moda, lisa, esbatida — maneira natural que conquistou o mercado direcionado mais para os aficionados da arte, diferenciando-se do tradicional, que era exclusivo para o mecenato. Os discípulos seguiam criteriosamente o seu estilo, e alguns, depois de sua morte, continuaram os trabalhos individuais sob a permanente influência do mestre holandês. Um precursor do mercado especializado para o público consumidor, como entendemos na contemporaneidade e processado na era moderna.

Plínio Palhano é Artista Plástico ppalhano@hotlink.com.br

domingo, agosto 22, 2010

Plano de Morte

Marcus Aranha

A classe média vai ter que fazer e pagar um plano de morte

Há tempos, fui à Cuiabá.

Na volta, a VASP foi a empresa aérea que me serviu. O vôo de Porto Velho à João Pessoa, só não parava em Bom Jesus da Lapa. Em cada escala, distribuíam o jornal local. Durante a viagem li o Diário da Amazônia, o Diário de Cuiabá, o Popular (Goiânia), o Correio Braziliense, o Bahia Hoje, o Jornal da Cidade (Aracaju) e o Diário de Pernambuco.

Do jornal de Aracaju caiu um folheto que me chamou a atenção: VIDA ETERNA - Serviços Póstumos Ltda. Vida Eterna também é uma empresa de viagens, só que sem escalas, sem aeromoças e sem jornais. Seus clientes só viajam pra um lugar: o infinito. Os “serviços póstumos” que Vida Eterna oferece são serviços funerários.

Na propaganda, Vida Eterna dizia francamente que “quando se perde um ente querido, além da dor do sentimento de perda, existem outras questões como gastos materiais e aspectos burocráticos que acabam desgastando ainda mais”. Em outras palavras, ela adverte que você pode chorar mais o preço do enterro que a perda do finado. Num lance de marketing espetacular, Vida Eterna alardeia: “A dor nós compartilhamos, os problemas nós resolvemos!” E continua, “Menos mal! Vida Eterna garante a você e a toda sua família, carro funerário para sepultamento, velas, desembaraço de papéis, paramentação de metais, taxa de sepultamento e um salário mínimo como auxilio funerário”.

Aí vi que a exemplo das empresas de saúde, Vida Eterna criou planos de morte. Associado deles, você garantia desencarnar através de quatro planos: Simples, Luxo, Super Luxo e Super Luxo Especial. As mensalidades iam de R$15 a R$40,00.

Pela propaganda a coisa era válida. Vida Eterna garantia trazer o falecido do necrotério do hospital até o local do velório, deixando-o rodeado de velas e “paramentado” com metais. Desembaraçar os papéis e pagar a taxa de sepultamento. E um auxílio funerário de um salário mínimo, que serve para você comprar óculos escuros no camelô, umas flores pr’o extinto e botar gasolina no carro pra acompanhar o enterro dele.

Hoje, pra enterrar decentemente seus defuntos, a classe média vai ter que fazer e pagar um plano de morte. Está aí aonde a globalização e a competitividade nos levou.

Como temos pouco dinheiro, as funerárias devem bolar um crediário para morte e começam a lançar planos. Vamos te-los os mais diversificados, assim como os de saúde.

O plano Morte Bronze, mais barato, onde o enterro é feito em velório coletivo, sala pr’a dois caixões, banco para 6 visitantes, crucifixo de madeira, 2 velas de cabeceira e com permanência de 12 horas, a família chorando o finado às pressas, sem esperar os parentes que moram longe. O plano Morte Prata, custo médio, daria direito a velório individual, sala com um caixão, crucifixo de metal, bancos para 12 visitantes, 2 coroas, 4 velas cabeceira e pés, livro para registro de presença com 8 folhas, água gelada e permanência de 24 horas, tempo suficiente pra chorar o distinto a vontade. E para classe alta, teríamos o plano Morte Ouro, muito mais caro, com direito a velório individual, sala para um caixão, com toalete e bancos para 24 visitantes, 4 coroas, crucifixo e castiçais de prata, 6 velas cabeceira, médio e pés, Livro Negro para registro de presença de 24 folhas, distribuição de lenços descartáveis, água gelada e cafezinho, serviço de enfermagem para atender desmaios e chiliques, permanência até 36 horas, com tempo de chegarem os parentes de outros Estados e até do Exterior.

Tai... Fica a idéia da “Vida Eterna” de Aracaju, pra’s funerárias daqui da terra. Cuidem e lancem no mercado os seus planos de morte.

ISOLA, PÉ DE PATO, MANGALÔ, TRÊS VEZES ... (ou cultura inútil...)

Vejam Vocês como a postagem do meu "Desalento" surtiu um efeito inesperado. A Musa Tialine achou o Blog muito idéia fixa e enviou o texto abaixo. Grato, Titia HC.

HUGÃO

Acabo de receber o blog desta semana e notei que está tipo samba de uma nota só, com exceção da postagem de Celso Japiassu. Só pra diversificar um pouquinho, estou mandando abaixo uma postagem de cultura inútil, mas interessante, para aqueles que apreciam uma boa comida. Da Tia.

Aline Alexandrino

Conversando com uma colega da Botânica (fui professora da UFPE por 30 anos), não sei a propósito de que soltei aquela velha expressão: Isola, pé de pato, mangalô, 3 vezes. Ela riu e perguntou se eu sabia o que era mangalô. Eu disse que achava que era algum vocábulo nagô, ou coisa que o valha, e ela riu mais ainda e disse:

- Não, é uma Faseolácea...
- O que? Disse a ignara aqui. Que diabo é isso?

Ela aí me explicou que era uma espécie de feijão, com o qual se preparavam comidas deliciosas. Pensei que ela estava tirando onda com minha ignorância e resolvi pesquisar. Pois não é que ela tinha razão!

Mangalô é um tipo de feijão, conhecido pelos entendidos como Phaseolus lunatus L., e chamado pelo povão de feijão-de-lima, fava-belém, feijão-farinha e mangalô-amargo. É originário das Américas (se ainda me lembro bem, da Guatemala), cultivado principalmente nos estados do Nordeste brasileiro e os grãos, geralmente achatados, são de forma, tamanho e padronagem bem variados. Os grãos têm um certo grau de amargor, mas se preparados corretamente são cremosos, saborosos e fazem deliciosos ensopados e saladas. Precisam apenas ser reidratados em água, escorridos, aferventados em água limpa, jogada fora posteriormente, e colocado em água quente nova, para tirar o amargor.

Quanto à frase que originou esta estória, deve-se ao falar jogar para o ar 3 grãos de mangalô, para espantar mau olhado. Suponho que como nem sempre o feijão está à mão, bate-se na madeira para substituir os grãos. Mas não tenho certeza.

Para não deixar os leitores do blog sem o tratamento completo, seguem abaixo as fotos do mangalô, sempre com o feijão comum correspondente, à direita, para facilitar a comparação, acompanhadas de uma receita que parece ser deliciosa...Feijão de Lima, RoxinhoFeijão de Lima rajado, preto
Feijão de Lima rajado, vermelhoFeijão de Lima, manteiga
Feijão de Lima, branco

Feijão de Lima, Beige

RECEITA DE MANGALÔ/QUITANDÊ
- 01 kg de mangalô
- 01 cebola pequena picada
- 01 dente de alho picado
- 01 colher de sopa de cebolinha picada
- 01 colher de sopa de extrato de tomate
- 01 colher de sopa de coentro picado
- sal a gosto
- 02 colheres de óleo de soja

Modo de preparar:

Refogam-se todos os temperos e por último acrescenta-se o mangalô. Cozinhe o mangalô com todos os temperos até que o mesmo fique com pouco caldo depois de cozido.
Obs: É opcional a retirada da casca do mangalô. Caso se queira tirar a casca, basta dar uma pequena fervura.

Ingredientes da moqueca de camarão:

Obs: A moqueca será misturada ao mangalô pra virar o quitandê.
- 01 kg de camarão fresco sem casca
- 01 tablete de caldo de camarão
- 02 colheres de sopa de azeite doce extra virgem (opcional)
- 02 colheres de sopa de azeite de dendê
- 02 colheres de sopa de leite de coco
- 01 colher de sopa de cebola picada
- 01 colher de sopa de coentro picado
- 01 colher de sopa de cebolinha picada
- 01 dente de alho picado ou amassado
- 01 colher de sopa de extrato de tomate
- sal a gosto

Modo de preparar:

Refogar os temperos, depois acrescenta-se o camarão até cozinhar. Quando estiver quase cozido, coloca o dendê, o leite de coco, o extrato de tomate e, se quiser, o azeite doce.

Depois de feita a moqueca de camarão, misture com o mangalô, deixando um pouco de caldo, e sirva com arroz branco.

sábado, agosto 21, 2010

Desalento

Hugo Caldas

Estou me sentindo esses últimos dias engolindo sapos, rãs, jias, caranguejeiras, tarântulas, escorpiões e tudo de ruim que se imagina possa existir neste país infeliz. Eleições livres, ledo engano! Com esses candidatos que nos impuseram! Garanto que não é implicância da minha parte. É só dar uma vista-d'olhos, uma olhadela sem maiores conseqüências nos programas ditos eleitorais na Tv. Verdadeira babaquice de quinta categoria do tipo "me engana que eu gosto". Aliás, sempre foi assim.

Vejam a lista de candidatos respeitáveis em São Paulo, por exemplo;

Ronaldo Esper, aquele costureiro que sonha em ser Clodovil quando crescer, Tiririca, o palhaço (perdão palhaços), Netinho, que andou dando uns corretivos na esposa, Marcelinho Carioca, ex-jogador de futebol, e outros lídimos representantes da classe dita trabalhadora, cantores de música sertaneja, Mara Maravilha pede votos para o seu (dela) marido, mulheres-fruta, estão a pretender um cargo de deputado federal a fim de salvar o Brasil e encher as suas próprias burras do vil metal que continua a correr solto neste mundo de meu Deus. Todo mundo rouba, por que eles não? Em Alagoas, uma eleitora do Collor bradou aos quatro ventos: "mesmo roubando eu voto nele". Resumindo, como muito bem dizia o Simonal, "vai começar a pilantragem".

Mas eu disse acima que não é absolutamente implicância da minha parte. Além dos supra citados candidatos vejam vocês o que nos empurram goela abaixo:

José Serra, do PSDB. Com aquela cara de bezerro desmamado, em vez de acabar com mais da metade, já está inventando um novo ministério. Achou pouco? E com essa foto ridícula?Marina Silva, do PV. É contra a extradição do criminoso Cesare Battisti a fim de que o Brasil continue sendo o paraíso dos bandidos. Deu pra falar apenas do Meio Ambiente. Ora, nem só de meio ambiente se ocupará o novo presidente. Vejam na foto como ela continua muito bem acompanhada.

Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Incitador da luta de classes, coisa que dava certo no século dezenove. Hoje é tema considerado já caquético no tempo de Nabucodonosor. Apóia a invasão de terras e conseqüentemente a rapinagem feita nas fazendas invadidas. Lembram da imagem do trator destruindo laranjais? Pois, é. Dinossauros, só os dos filmes de Steven Spielberg.
Dilma Rousseff, do PT. A queridinha do papai. Dizem ter sido guerrilheira e participado da luta armada contra a ditadura para substituí-la por outra nos moldes de Cuba, a ilha cárcere. Sobre ela tenho umas perguntinhas que não querem calar: Quem será o "Primeiro Damo?" "Câncer se cura em alguns meses?" Lembrai-vos do Ministro Funaro! Seguindo a tradição o Brasil abre os trabalhos das Nações Unidas. "Quem irá aos States se provavelmente ela está proibida de pisar em solo americano?" A foto denota que o ridículo continua solto!
É isso, acho que já falei muito mais do que devia. Uma pena que o Tiririca não seja candidato aqui em Pernambuco. Contaria certamente com o meu voto. Isso se eu ainda votasse. Sou dos antigamente. Já vi muita coisa acontecer nesta terra. Ví muita água passar por debaixo da ponte. Contudo, nunca presenciei a baderna, a casa da Mãe Joana em que se transformou o meu país. Estou fora dessa desprezível pilantragem. Idade é luxo!

"La Otra Cuba"

No ensejo e no rastro do artigo do meu amigo Ipojuca Pontes postado logo abaixo, o Blog decidiu mostrar em capítulos, o citado documentário "La Otra Cuba" de Orlando Jimenez-Leal. A cena da invasão, por cidadãos desesperados em busca de asilo, à Embaixada do Peru, é simplesmente antológica. Assista e informe-se. HC


sexta-feira, agosto 20, 2010

A Outra Cuba

Ipojuca Pontes

Durante cinco dias desta semana, reuniram-se em Buenos Aires, Argentina, representantes do 16º Encontro do Foro de São Paulo, somando delegações de 21 países do continente, com o objetivo de debater e colocar em prática propostas e resoluções para se implantar, na próxima década, o Socialismo do Século XXI no espaço latino-americano (e em particular no Brasil, seu carro-chefe, com a eleição da guerrilheira Dilma Rousseff ao cargo de presidente da República).

Para quem não sabe, o Foro de São Paulo é a recriação, nos tempos atuais, da antiga OLAS (Organização Latino-americana de Solidariedade), entidade (subversiva) internacional fundada por Fidel Castro e Salvador Allende, em Havana, na metade dos anos 1960, inspirada na idéia criminosa de se abrir várias frentes de luta para libertar a América Latina da influência do “imperialismo ianque e seus comparsas opressores”, no fundo, trocado em miúdos, a velha tentativa de materializar a fórmula preconizada pelo “Che” Guevara de se instalar “um, dois, três, mil Vietnãs na América Latina”.

De fato, os anos 1960 foram decisivos para a propagação do modelo revolucionário cubano no espaço continental. Na prática, no entanto, embora Fidel Castro ainda permaneça à frente do poder na ilha-cárcere, a expansão do seu socialismo por meio da luta armada, conforme previsto, fracassou feio. Ou melhor, fracassou miseravelmente.

É justamente do fracasso da Revolução de Fidel que trata o bem estruturado “La Otra Cuba”, documentário dirigido por Orlando Jiménez-Leal e Jorge Ulla, tendo como âncoras os jornalistas exilados Valério Riva e Carlos Franqui - este último autor do livro “Retrato de Família com Fidel” e um dos homens-chave dos primeiros anos da revolução, com poderes para convocar e dispensar ministros.

O documentário em pauta, de 2 horas de duração, com formato para exibição em capítulos televisivos, representa a soma de dois anos de trabalhos empreendidos pelas produtoras SPA, SACI, R.A.I. e Guede Films.

O documentário, agora disponível no Youtube, é um painel abrangente, dividido em onze partes, evoluindo numa montagem célere, convergente e divergente, a confrontar fatos e versões que nos dão conta da ruinosa presença da revolução cubana dentro e fora da ilha-cárcere.

O relato cinematográfico começa por citar a frase de Cristóvão Colombo que distingue Cuba como “a terra mais formosa já vista pelos olhos humanos”, para depois, por antagonismo, em corte seco, mostrar levas de cubanos (dez mil, de início) invadindo a Embaixada do Peru para pedir asilo.

Neste enrodilhado concêntrico, dividido em temas e subtemas, o documentário evoluí de forma objetiva e envolve plenamente o espectador. Na sua primeira parte, o rico acervo de imagens nos mostra a Cuba do ditador Fulgêncio Batista que, ao contrário do que se imagina, não era apenas a república “bananena” decantada por Fidel, mas, sim, uma nação catalogada entre as cinco potências do continente.

(De fato, em que pesem os tentáculos da violência política e da corrupção praticadas durante o governo do ex-sargento telegrafista, Cuba apresentava um padrão de vida qualificado, nele incluídos elevados índices de educação e saúde, longe de se definir apenas como o “prostíbulo da América” vulgarizado por Castro - ou pelo menos não tanto quanto a imagem projetada hoje pela ilha caribenha, transformada num “paraíso sexual” para o regozijo da ávida burguesia peninsular ibérica.

No histórico, passados os primeiros dias de entusiasmo com a vitória de “la revolución”, logo o povo cubano se deu conta das mentiras de Fidel. Fuzilamentos em massa, desapropriações de terras e de empresas nacionais e estrangeiras, perseguições, prisões, falta de liberdade e de democracia são, nesta fase, os ingredientes mais corriqueiros a nutrir o revolucionário cardápio do novo ditador.

O povo, neste caldeirão efervescente, representa muito pouco. Com o passar dos tempos, sucessivas crises se instalam no seio da revolução e o “paraíso” caribenho se transforma num autêntico inferno. Os alimentos são racionados e repassados em cotas à população. Pela total incompetência dos seus dirigentes, fracassam os projetados aumentos de produção nas safras de açúcar e café. E a solução encontrada por Fidel para sair do atoleiro não poderia ser pior: transformar Cuba, localizada no quintal dos Estados Unidos, num satélite de Moscou.

Mas se o povo não tem direito a nada, os integrantes da nova classe dirigente têm todos os direitos. Como informa um dos irados depoentes do filme, “Eles (os dirigentes) navegam em limousines, bebem exaustivamente, se apropriam dos melhores palacetes, viajam, se hospedam nos bons hotéis e freqüentam os melhores restaurantes” – reproduzindo, em tudo, o esquema da famigerada nomenklatura soviética, que curtia a vida na base do vinho e da lagosta.

Vinte anos após a revolução redentora de Fidel, para fugir das filas, fome, prisões e trabalhos forçados, cerca de meio milhão de cubanos procuraram a todo custo sair do paraíso caribenho transformado em inferno. Destino: Miami, Florida, o antigo feudo dos Irmãos Moreno. Objetivo: começar vida nova.

Em menos de uma década já não se fala mais na Miami das praias e dos cassinos, mas, sim, na Miami dos cubanos, a “Little Havana” ocupada por advogados, comerciantes, artistas, operários, políticos e camponeses. No novo mundo livre, eles, os exilados de Fidel, se transformaram em presidentes de empresas, gerentes de companhias aéreas, laureados fotógrafos de Hollywood, prósperos homens de negócios, diligentes industriais. Enriquecidos pelo trabalho com dignidade, carregam nas costas a “velha Cuba”, a ilha revolucionária e miserável, onde sobrevivem, às duas penas, sob o tacão dos irmãos Castro, os velhos e inesquecíveis parentes, familiares e amigos.

Em suma: no momento em que o Foro de São Paulo, a vertente da criminosa OLAS, de Fidel, trama o nosso futuro em encontros internacionais furtivos, com o objetivo de nos transformar em sub-homens, é mais do que oportuno se tomar conhecimento, pelo milagre da Internet, de filmes do porte de “La Otra Cuba”. Ele funciona, no mínimo, como um necessário e vigoroso grito de alerta.

quinta-feira, agosto 19, 2010

VIDEO DO DIA


Segunda ameaça

Míriam Leitão

Alvaro Gribel
- 18.08.2010

COLUNA NO GLOBO

O Brasil perderá esta eleição, independentemente de quem vença, se ficarem consagrados comportamentos desviantes assustadoramente presentes na política brasileira. Uso de um fundo de pensão para construir falsas acusações contra adversários, funcionários da Receita acessando dados protegidos por sigilo, centrais de dossiês montados por pessoas próximas ao presidente.

A cada eleição, fatos estarrecedores têm sido aceitos como normais na paisagem política, e eles não são aceitáveis. Quando a Polícia Federal entrou no Hotel Ibis, em São Paulo, em 2006, e encontrou um grupo com a extravagante quantia de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo tentando comprar um dossiê falso, havia duas notícias. Uma boa: a PF continuava trabalhando de forma independente. A ruim: pessoas da copa, cozinha, churrasqueira e campanha do presidente da República e do candidato a governador pelo PT em São Paulo estavam com dinheiro sem origem comprovada e se preparando para um ato condenável. A pior notícia veio depois: eles ficaram impunes.

Nesta eleição, depoimentos e fatos mostram que estão virando parte da prática política, principalmente do PT, a construção de falsas acusações contra adversários, o trabalho de espionagem a partir da máquina pública, o uso político de locais que não pertencem aos partidos.

As notícias têm se repetido com assustadora frequência. O verdadeiro perigo é que se consagre esse tipo de método da luta política. A democracia não é ameaçada apenas quando militares saem dos quartéis e editam atos institucionais. Ela corre o risco de “avacalhação”, para usar palavra recente do presidente Lula, quando pediu respeito às leis criminosas do Irã.

Sobre o desrespeito às leis democráticas brasileiras, Lula não teme processo de “avacalhação”, pelo visto. A Receita Federal não presta as informações que tem o dever de prestar sobre os motivos que levaram seus funcionários a acessarem, sem qualquer justificativa funcional, os dados da declaração de imposto de renda do secretário-geral do PSDB, Eduardo Jorge. Nem mesmo explica como os dados foram vazados de lá. Se a Receita não divulgar o que foi que aconteceu, com transparência, ela faz dois desserviços: sonega ao país informações que têm o dever de prestar antes das eleições; mina a confiança que o país tem na instituição, porque sua direção está adiando, por cumplicidade eleitoral, a explicação sobre o que houve naquela repartição.

Nas últimas duas semanas, a “Veja” trouxe entrevistas de pessoas diretamente ligadas ao governo e que trabalham em múltiplos porões de campanha. O que eles demonstram é que aquele grupo de aloprados do Ibis não foi um fato isolado. Virou prática, hábito, rotina no Partido dos Trabalhadores. Geraldo Xavier Santiago, ex-diretor da Previ, contou à revista que o fundo de pensão, uma instituição de poupança de direito privado cuja função é garantir a aposentadoria dos funcionários do Banco do Brasil, era usada para interesses partidários. Com objetivos e métodos escusos. Virou uma central de espionagem de adversários políticos. Agora, é o sindicalista Wagner Cinchetto que fala de uma central de produção de espionagem e disparos contra adversários; não apenas tucanos, mas qualquer um que subisse nas pesquisas.

Esse submundo é um caso de polícia, mas há outros comportamentos de autoridades que passaram a ser considerados normais nas atuais eleições. E são distorções. Não é normal que todos os órgãos passem a funcionar como ecos do debate eleitoral, usando funcionários pagos com os salários de todos nós, estruturas mantidas pelos contribuintes. Todos os ministérios se mobilizam para consolidar as versões fantasiosas da candidata do governo ou atacar adversários, agindo como extensões do comitê de campanha. Isso é totalmente irregular. Na semana passada, até o Ministério da Fazenda fez isso. Um relatório que é divulgado de forma rotineira, virou palanque e peça de propaganda, com o ministro indo pessoalmente bater bumbo sobre gráficos manipulados para ampliar os feitos do atual governo e deprimir os do anterior. O que deveria ser técnico virou politiqueiro; o que deveria ser prestação de contas e análise de conjuntura virou peça de propaganda.

Um governo não pode usar dessa forma a máquina pública para se perpetuar; órgãos públicos não são subsedes de comitês de campanha; fundos de pensão não são central de fabricação de acusações falsas; o governo não pode usar os acessos que tem a dados dos cidadãos para espionar. Isso mina, desqualifica e põe em perigo a democracia. Ela pressupõe a neutralidade da máquina mesmo em momentos de paixão política. Nenhuma democracia consolidada aceitaria o que acontece aqui.

A Inglaterra acabou de passar por uma eleição cheia de paixões em que o governo trabalhista perdeu por pouco, mas não se viu lá nada do que aqui está sendo apresentado aos brasileiros com naturalidade, como parte da disputa política. Crime é crime. Luta política é um embate de propostas, estilos e visões. O perigoso é essa mistura. Como a História já cansou de demonstrar, democracia não significa apenas eleições periódicas. A manipulação da vontade do eleitor, o uso de meios ilícitos, o abuso do governante ameaçam a liberdade, tanto quanto um ato institucional.

Frase Lapidar do Dia

"Aprovamos o Plano Real e, mais do que isso, levamos à frente e o utilizamos de forma adequada.”

Dilma Rousseff (passando Óleo de Peroba no rosto)

terça-feira, agosto 17, 2010

Metidos a Ricos

Girley Brazileiro

Esta semana ouvi um interessante comentário do jornalista Carlos Alberto Sardemberg chamando a atenção dos brasileiros para um fato no mínimo curioso: a novíssima seleção brasileira jogou contra a dos Estados Unidos num estádio de futebol, ainda não inaugurado, na cidade de Nova Jersey, numa partida amistosa. O Brasil ganhou e começou assim a Era Mano Menezes. Mas, o mais interessante foi o comentário sobre a moderna praça de esportes, com os mais sofisticados recursos de que se tem conhecimento, construído pela iniciativa privada, numa parceria entre dois times de futebol importantes e tidos como ferrenhos rivais. Vejam que coisa mais civilizada e lógica: dois “inimigos” nos gramados unem-se para, com inteligência empresarial, construir um novo estádio, necessário à prática esportiva. Coisa do tipo: inimigos, inimigos... mas, negócios à parte! Quando isso aconteceria no Brasil?

Nesta mesma semana, assisti, numa entrevista pela televisão, um dirigente do Sport Clube do Recife anunciar, para breve, a implosão do atual estádio da Ilha do Retiro para dar lugar a uma arena esportiva moderna e à altura do torcedor exigente destes atuais tempos.

Com perplexidade vejo, pela imprensa, o Governo do Estado divulgando o inicio da construção do que chama de Cidade da Copa. Fico espantando com tanta irracionalidade governamental. Um investimento que, no final das contas, não vai sair por menos de Um Bilhão de Reais, deixando os que gozam de sã consciência, neste velho Pernambuco, abismados com tamanho absurdo. Ora, meus caros leitores e leitoras, como se admite que um estado, pobre como o nosso, venha dispender tão vultosa soma de escassos recursos financeiros numa obra fadada ao abandono?

Já falei disso, neste mesmo espaço, ano passado quando o projeto foi bombasticamente anunciado (vide foto da maquete, a seguir) dando meu palpite que o tal estádio vai se transformar num campinho de peladas inexpressívas, à medida que nossos clubes têm seus próprios estádios e não pretendem aposentá-los. Ao contrário, querem modernizá-los ou construir novos.

Em Manaus, no ano passado, ouvi o protesto de um motorista de taxi com o anúncio da implosão de um estádio, creio que municipal, inaugurado há poucos anos e com todos os pré-requisitos para uma rápida reforma ou mesmo uma “maquiagem”. Em Salvador a Fonte Nova já está sendo derrubada, para dar lugar a uma Nova Fonte Nova, esta justificável porque não tinha jeito, a Fonte Nova estava velha e caindo aos pedaços, provocando acidentes fatais. O Maracanã vai passar por uma reforma esperta e muito cara. Quanto dinheiro publico, meu Deus... No meio disso tudo, temos um bom exemplo, apenas, em São Paulo, onde o governo estadual “bateu o martelo” e disse não à gastança em estádios com verbas públicas.

Diante disso tudo, fico assustado com o desperdício de dinheiro que vai rolar neste país. Impossível não concluir que muito nego vai encher os bolsos, para se sustentar o resto da vida e as dos seus descendentes. No prejuízo fica a sociedade passiva e alienada, que não vai ter dinheiro para assistir nem uma partida de jogos da Copa e contemplará, anos depois, um “elefante branco” nas brenhas suburbanas do Recife. Ao mesmo tempo, claro, continuará sem segurança, educação, transporte público digno, saúde publica e outras coisinhas mais prioritárias, necessárias à construção de uma sociedade sadia e feliz.

Sem querer correr o risco de pensar pequeno, acho que o povo brasileiro não pode ficar alheio e engessado diante dessa farra financeira e das roubalheiras que se projetam sob a égide de Copa e Olímpiadas.

Em Pernambuco caberia, isto sim, uma parceria do tipo PPP (Parceria Publico Privada) com algum clube local para a reforma de um dos estádios existentes na cidade e não esse absurdo que começam construir. Ganharia o Clube parceiro, os torcedores, a sociedade e o Governo, que pouparia um bom dinheiro redirecionando-o para outras áreas carentes, incluindo, por exemplo, a infraestrutura viária da capital e de circulação intermunicipal necessária para o sucesso da Copa.

Segundo Sardemberg os americanos são uns "pobres coitados" e nós é que somos os ricos. Para mim, somos Metidos a Ricos.

Nota: Peguei emprestado no Blog do GB

E LÁ VOU EU MORRER DE NOVO

W.J. Solha

Quando saímos da sessão de O Salário da Morte, no antediluviano Cine Santo Antonio, na periferia de João Pessoa, meu filho – ainda bem menino – me disse, revoltado:

- Mas tu é mole, mesmo!

- O que houve?

- Deixou te matarem no filme!

Não adiantou explicar que eu não tinha nada a ver com meu personagem. Para Dmitri eu era pistoleiro, estava armado, e caíra bobamente numa tocaia. Guardo na memória minha imagem com o rigor mortis – a rigidez cadavérica – sendo levado por dois milicos, numa padiola, no meio da caatinga.

Isso foi em 69. Em 75 morri de novo em Soledade, filme de Paulo Thiago baseado nA Bagaceira. Zé Américo ficou furioso, pois seu romance fora tratado como um western spaghetti – um faroeste italiano. Tinha razão: eu, por sinal, usava um cinturão com dois revólveres, tinha um chapelão e vestia aqueles casacos longos típicos dessas produções que na verdade – segundo o nosso diretor – Sérgio Leone e os outros gringos haviam “sugado” do Antonio das Mortes, personagem do Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Eu estava bastante nervoso em meu primeiro dia de filmagem, numa fazenda antiga, lá em Pilar. Era eu da Paraíba, o resto do elenco todo global. Repetia e repetia minhas falas e nada de decorá-las. Pra minha sorte, começa a chover e Paulo Thiago decidiu:

- Vamos rodar a seqüência da morte do delegado, que é dentro do casarão.

Foi um alívio: nessa não havia falas. Eu atirava muito para fora da janela, contra um bando que depois, na montagem, apareceria lá, a cavalo, de repente levava um tiro dos cangaceiros de Pirunga – Nelson Xavier - e... pimba: capotava. Recomendação que recebi:

- Olha, não solte as armas quando morrer, porque o piso é original e não poderemos correr o risco de trincá-lo.

Prenderam-me um quadrado de couro no peito, com uma bolsa de sangue ligada a um explosivo de onde desciam dois fios de eletricidade pela calça e por uma das botas , atravessava a sala e o efeitista ficava noutro cômodo da casa, pronto para juntar positivo e negativo e provocar o estouro. Camisa colocada, paletó, chapéu, os dois revólveres, Paulo Thiago disse:

- Vamos rodar sem ensaio: você fica atirando nos hipotéticos cavaleiros que passam lá fora, dou um tiro no alpendre como sinal, sua bolsa de sangue explode, você cai pra trás, rasteja um pouco, agonizando, e morre.

- OK.

- Atenção... Luz! Câmera! Ação!

Avancei para a janela sacando as armas, fiz mira em alguém que passava à toda, puxei o gatilho, repeti o mesmo com o outro 38, e de novo, de novo, de novo, de repente o tiro no terraço, senti um murro no peito, um botão da camisa voou com um espirro de sangue, cai pra trás, numa curva louca, meti a cabeça no chão, o diretor de fotografia veio até perto de mim, com a câmera sobre os trilhos, reabri os olhos, gemi, arrastei-me... morri.

- Corta!

Aplausos, o homem da câmera saltou do carrinho de travelling para me cumprimentar, entusiasmado, senti uma dor de cabeça muito forte e... meses depois, vi o filme em estreia no hoje também extinto Cine Municipal. Tudo muito ruim, minha participação idem, mas permanecia, sempre, a certeza de que me redimiria na cena final. De repente estávamos nela e eu – que me imaginava num forte primeiro plano com direito a close e tudo – vi apenas aquele barbudinho de chapéu atirando lá longe, pau, pau, pau – de repente ele deu um saltinho pra trás e... c´est finis.

- Puta merda!

Nova morte, agora em A Canga. Tudo muito climb. Persigo um filho com o chicote, enfrento o outro, que se revolta por arar na caatinga seca, embora eu insista que estamos no dia de São José, chuto o ventre da nora grávida que me difama e, conflito armado, Everaldo Pontes grita “Pai!”, eu me volto, há o detalhe de um dedo dele pressionando o gatilho, Zezita Matos – “minha velha”, na história - aguarda o desfecho, tensa, estremece com o estrondo... e começa a chover.

Mais uma morte: essa no Ceará, setenta quilômetros ao sul de Fortaleza. Sou um latifundiário no final do Império, que não quer saber da abolição dos escravos. Meu irmão me odeia, sabe que estou muito doente e está seco pra ficar com meus bens... que resolvo deixar pra filha – Dira Paes - que tive como resultado do estupro numa escrava. No leito de morte, na Casa Grande, rodeado de velas acesas, muito mais velho do realmente sou, agonizo. Não sem passar todo o ódio que dedico ao irmão para a minha filha, que me ouve tão atenta quanto imóvel. Filmou-se toda a minha longa fala de um ângulo, pausa para a mudança da posição dos refletores e da câmera, repetimos a coisa toda de novo e, na nova pausa, comecei a me sentir mal. Senti quando Dira pegou na minha mão direita e ouvi quando sussurrou: “Rosemberg, o Solha não está nada bem”. Rosemberg me puxou pelas mãos, senti que ia cair, segurei-me nas hastes de dois spots, ouvi alguém dizer “Tragam sal, a pressão dele caiu!”, e foi quando entrou em cena a enfermeira que cuidava de um bebê que iria ser filmado em seguida (o nascimento da Lua Cambará, Dira Paes). Tirou-me a pressão, perguntou-me se eu sabia que era hipertenso.

- Não sou.

- É. Está com 16 por 14.

Tomado o remédio, comecei a me sentir melhor, mas a memória do texto... voou.

Essa hipertensão denunciou-se mais firmemente na minha morte seguinte, quando o Eliézer Rolim me chamou para uma pontinha no média-metragem Eu Sou o Servo. Eu seria o pai do Padre Ibiapina e me vi no meio de um juremal, todo emperequetado em roupas de época, mais “minha mulher” – Rosa Ângela Cagliani – e cinco filhos. E lá vem o padre num leito carregado por vários negros, seguido pela comitiva de beatas rezando. Aí ele passa por mim, ergue-se um pouco e diz “Meu pai!...”

- Corta!

Eliézer, então, me propõe:

- O pai do padre foi um revolucionário que acabou fuzilado no Rio de Janeiro. Estou ali com o pelotão de fuzilamento e iria filmar apenas o disparo, sem a vítima. Não quer fazer o personagem sendo morto?

- Tudo bem.

Assim, manietado, vendado, ouvi Eliézer dizer o queria de mim, antes da cena:

- Quando eu gritar “Pelotão, preparar...” faça o sinal da cruz, arranque a venda e encare os soldados.

- Hãham.

Concentrei-me, ouvi o “Câmera, Ação!”, fiz o sinal da cruz sentindo um músculo do rosto se contrair várias vezes, ouvi o comando “Atenção, pelotão!” Fiz o sinal da cruz com a mão direita tremendo, baixei o trapo pra fora de meus olhos, encarei a morte – na verdade Dib Luft filmando – Eliézer gritou “Fogo!!!”

- Corta!

Dib Luft:

- Vamos ter que refazer o take: perdi o enquadramento no que Solha ergueu a cabeça!

A insuportável tensão de novo, “Corta!”, não aguentei mais: tive uma crise de choro. Choro forte, sem pejo, diante de todo mundo.

Algum tempo depois, Durval Leal – produtor do filme – diz que a cena fora cortada.

- Por que?

- Porque você está muito ruim.

Bem, agora em julho parto pra nova morte, agora no longa O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, no Recife. Sou dono de um engenho no interior de Pernambuco e de mais da metade dos imóveis de uma rua do bairro de Setúbal. Mas Sebastião Formiga e Irandir Santos me apunhalam em meu apartamento de cobertura, pra vingar o pai que eu teria mandado matar quando eles eram meninos. Estivemos uma tarde toda ensaiando o momento terrível, mas a coisa não aconteceu. Ontem passei o dia vendo no youtube todas as versões disponíveis – e são muitas – da morte de Júlio César, que é apunhalado pela curriola de senadores, no Capitólio.

Mas vai sair. Agora: como já contei aqui em eltheatro, na noite anterior ao teste que fiz pra entrar ou não no filme, sonhei com meu pai – que morreu há quase vinte anos – dizendo-me que minha hora chegara. E eu:

- Quer dizer que não vou participar do filme?

- Vai. Mas não vai assisti-lo. (05-07-2010)