terça-feira, setembro 07, 2010

Brasil 2010 - Primavera de Espinhos

José Virgolino de Alencar

As eleições brasileiras de 2010 estão se aproximando, com o 3 de outubro prometendo um dia primaveril cheio de espinhos e nada de flores.

Amante do cordel popular, do poema rimado, metrificado e ritmado, estou fazendo em versos a análise nada alvissareira do que vem sendo pintado nos céus do país, um panorama sombrio, penumbral, e, ao contrário do que diz Tiririca, um candidato bem representativo do Brasil que o lulo/petismo está desconstruindo, pior do que está ainda pode ficar. Curtam, ou esculachem, mas reflitam. JVA


Ah primavera, onde estão as flores

Que costumavam contigo desabrochar?

Uma tempestade de espinhos é o que

Se desenha no céu do Brasil, poluindo o ar

Com a sujeira moral soprada pelos ventos

Redemoinhados por uma súcia de elementos

Que abrasam a estação primaveril, antes florida,

E abrem no coração do país maligna ferida.

Em plena outubrina primavera, serão dores

Que o Brasil, nesta quadra insólita, enfrentará;

A tramóia, a farsa, criminosos atos, são o que

Vislumbramos e, irresignados, deveremos tragar

À força, no funeral de nossos nobres sentimentos,

Na imposição de indigestos e únicos pensamentos,

Dissipando-se nos ares a construção de uma vida

Em que tanto se lutou por essa pátria querida.

Nessa primavera não falaremos de amores,

Porque o mal encontrou seara fértil para se fincar;

Tristeza, angústia, impotência, tudo isso é o que

Faz a nação anestesiada, acomodada, se anular,

Renunciar aos direitos, fugir dos enfrentamentos,

Calar-se, emudecer-se, não reagir; e os momentos

De oportunidade para recuperar a dura lida

Esvaem-se esterilizados, a nação queda-se rendida.

Ah primavera, secaste, não terás mais flores,

Ao domínio da ignomínia estás a te entregar;

Perdeste a paciência, a esperança; e resta o que

Os meliantes decidiram que aqui deve reinar

E, inda por cima, pagaremos caros emolumentos

Com gravames em que, se não quitados os pagamentos,

A dívida, entre todos nós, cidadãos, deverá ser dividida,

Se negarmos, cairemos sob o risco de perder a própria vida.

Ah primavera, estás chegando como um filme de horrores

Que uma corja encena numa peça para nos assombrar;

Os dráculas, os vampiros, sanguessugas, são os que

Protagonizam a fita, levando o país/espectador a se assustar,

A remexer-se nas cadeiras, sentir pavor nos assentos

Dessa casa tenebrosa, vendo na tela estremecimentos

Que acuam e deixam a platéia naquela sala escurecida

Como cego em tiroteio, com medo de uma bala perdida.

Que primavera triste, folhas secas e sem cores

Espalhadas pelo chão, fazendo a nação chorar;

Enterro da ética, da moral, da vergonha, são o que

Com certeza representa o patrimônio a herdar

Pelas gerações pósteras, nossos prosseguimentos,

Nosso sangue, nossa cria, nossos amados rebentos,

De cujo orgulho, se frustrado, nos dará uma caída,

Porém é a nação que ficará na miséria estendida.

segunda-feira, setembro 06, 2010

SE

W. J. Solha

Fiz uma última visita a meu pai quinze dias antes de sua morte, lá em Sorocaba, São Paulo. Passamos uma semana conversando, ele deitado, eu sentado na beira da sua cama. Em certo momento pediu-me que pegasse um dos volumes azuis (com letras douradas) do Tesouro da Juventude, que estava na sala. Minha mãe me presenteara a coleção ( não imagino com quanto sacrifício) quando eu tinha onze, doze anos, mas eu não tivera coragem de incluí-la na minha bagagem, quando viera trabalhar no Nordeste, pois via que o velho, como eu já o fizera anos antes, devorava aqueles livros com fervor. Ouvi-o me dizer:

- Abra na página marcada.

Todo tomo da série tinha estas seções: A Terra, Belas-Artes, Poesias, Belas Ações, Contos, Homens e Mulheres Célebres, Os Livros Famosos, o Livro dos Porquês, etc, etc.
A marca estava em “Poesias”, especificamente sobre o poema “Se” ( “If”) de Rudyard Kipling, tradução de Guilherme de Almeida.

- Leia em voz alta.

Somente fui entender que aquela era a parte que me cabia no testamento de seu Fortunato anos depois, ao constatar que sempre me lembrava daqueles versos em momentos decisivos de minha vida, como quando vendi tudo que tinha pra integralizar o capital da Cactus Produções Cinematográficas Ltda (que iria à falência, arrastando-me consigo, depois de produzir o primeiro longa-metragem paraibano de ficção em 35 mm, “O Salário da Morte”); como quando minha mulher chorou ao ver e sentir pó de cupim caindo sobre nós, do madeiramento da casa que eu alugara em João Pessoa, depois de perder a nossa no filme, e eu lhe disse: “Não se preocupe: do jeito que comprei a que tínhamos em Pombal, comprarei outra”; como quando o gerente do BB em Pombal quis me transferir imediatamente de lá, ao saber que o matador Antonio Letreiro fora pago pra matar, e lhe respondi “Não saio daqui assim”, e não saí; como quando fui à casa de José Américo de Almeida, discutir com ele meu livro “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, que o deixara furioso, pois o acusava da morte de João Pessoa; como quando publiquei meu romance “A Verdadeira Estória de Jesus”, sabendo que receberia “pauladas” de todo lado, sentindo-me preparado para o que desse e viesse; como quando fui atuar numa cena que me provocava pavor – agora, em “O Som ao Redor”, no Recife – e a assistente do filme, Clara Linhart – visivelmente atormentada – me disse “Você não é obrigado a levar isso em frente, se não quiser. Como está se sentindo?” “Desconfortável, mas me arrependerei pelo resto da vida se não viver isso como está no roteiro”.

Foi sempre o “Se” de Kipling que fez de minhas tripas coração, em horas como essas. O que é incrível, pois sou, por natureza, retraído. Eis a tradução e, abaixo, o original desse poema tão marcante:

SE Rudyard Kipling

Se és capaz de manter tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

Original Inglês

IF


If you can keep your head when all about you

Are losing theirs and blaming it on you,

If you can trust yourself when all men doubt you

But make allowance for their doubting too,

If you can wait and not be tired by waiting,

Or being lied about, don't deal in lies,

Or being hated, don't give way to hating,

And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,

If you can think--and not make thoughts your aim;

If you can meet with Triumph and Disaster

And treat those two impostors just the same;

If you can bear to hear the truth you've spoken

Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,

And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,

And lose, and start again at your beginnings

And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you;

If all men count with you, but none too much,

If you can fill the unforgiving minute

With sixty seconds' worth of distance run,

Yours is the Earth and everything that's in it,

And--which is more--you'll be a Man, my son!


Rudyard Kipling

domingo, setembro 05, 2010

O FOGO NO NOSSO PATRIMÔNIO NATURAL E A VALORAÇÃO AMBIENTAL

Breno Grisi

Com as notícias diárias vistas em diversos “sites” na “internet” (nalguns dos “links” constantes neste “blog”) (Pôxa! Quanto anglicismo!!!), fui rever alguns dados disponíveis sobre a questão da valoração ambiental. Vejamos inicialmente o que é dito no Glossário de Ecologia e Ciências Ambientais, do autor deste “ecologiaemfoco”, sobre:
VALORAÇÃO AMBIENTAL
Trata-se, em economia ambiental, da atribuição de um valor econômico a um recurso ambiental. Parte-se do princípio de que todo recurso natural tem um valor intrínseco que lhe é atribuído pelo ser humano, na expectativa de que tal recurso contribua para o bem estar social. Na verdade, segundo afirma ORTIZ (2003), esse “valor” atribuído a um recurso natural qualquer reflete as “preferências das pessoas”. Assim sendo, são também incluídos nessa valoração os valores morais e éticos. Entre os diversos valores econômicos de recursos ambientais, citam-se como exemplos: valor de uso direto: aquele que deriva da utilização ou consumo direto do recurso (ex.: recursos hídricos); valor de uso indireto: aquele advindo das funções ecológicas do recurso ambiental ou derivado de uso ex-situ ao ambiente do recurso em consideração (ex.: qualidade da água, ar puro, conservação do solo, preservação de água subterrânea...); valor de opção: refere-se à quantia que as pessoas numa sociedade estariam dispostas a pagar para manter o recurso ambiental para uso futuro (ex.: manutenção de água em aquífero); valor de existência ou de não uso: implica em manter certo recurso sem usá-lo, guardando-o para o futuro (ex.: reserva florestal).
Os valores de uso indireto, acima mencionados, configuram-se em:
SERVIÇOS AMBIENTAIS
Atividades ou funções executadas pela Natureza e que têm sido vistas recentemente, como de benefícios imprescindíveis à vida e que podem ser submetidas a avaliações econômicas. Como sejam: o ar que todos respiram, a regulação hídrica (o ciclo da água), o ciclo de nutrientes, produção de alimentos, recursos genéticos (e recursos naturais em geral), regulação da temperatura atmosférica e das águas, absorção e degradação natural de poluentes gerados pela humanidade etc. Este é um dos importantes aspectos tratados em economia ambiental ou da Natureza. A valoração ou estimativa econômica desses “serviços” pode ser vista em ODUM (1996), que denominou esta área de estudo como contabilidade ambiental.

No Quadro acima são destacadas as quatro categorias de serviços ambientais que influenciam na manutenção dos ecossistemas e na economia de uma região (poderia ser uma Unidade de Conservação)(reproduzido de documento da FAO, 2007).

Em estudo feito sobre a “Valoração Ambiental como Ferramenta de Gestão em Unidade de Conservação”, os pesquisadores Ana Lucia CANPHORA e Peter Herman MAY (MEGADIVERSIDADE | Volume 2 | Nº 1-2 | Dezembro 2006) divulgaram os seguintes resultados de estudo realizado por MILKHAILOVA & BARBOSA (citados por eles), com turistas, no Parque Estadual Rio Doce (36.000 ha; o maior remanescente de Mata Atlântica de Minas Gerais):
DAP-Disposição a Pagar,pelos turistas, por SERVIÇOS REGULADORES [a coluna do meio, no Quadro 1] = U$261 mil/ano e por SERVIÇOS RECREATIVOS - TURISMO E LAZER [a coluna da direita, no Quadro 1] = U$938 mil/ano.
Portanto, a percepção do ser humano pela importância que exerce os ecossistemas na qualidade de vida ambiental (incluindo a própria sociedade humana, é claro!), é ÍNFIMA.
Os dados divulgados pelo INPE (ver “link” neste “blog”) de que em agosto/2010 foram registrados 26.968 focos de incêndio, um aumento de 260% em relação a agosto/2009, não parece que causarão muita comoção entre nosso povo!!!
Dados recentes, divulgados sobre as queimadas: 1) O Ibama aplicou em um só dia R$ 14,5 milhões em multas no município de Extrema (a 340 km de Porto Velho) por causa de queimadas [multas aplicadas pelo Ibama, em área de pastagem R$1.000,00 por ha e em área de conservação R$5.000,00]. 2) As queimadas autorizadas, não podem ser feitas quando a umidade estiver abaixo de 20% [estima-se que o ar seco se prolongará até no mínimo setembro/2010]. 3) Uma estimativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mostra que os incêndios já consumiram cerca de 500 mil ha (= 5.000 km2) de vegetação de reservas e que no Parque Nacional das Emas (sudoeste de Goiás) o fogo destruiu 80% dos seus 136 mil ha.
Finalizando, estima-se que seria necessário INVESTIR APENAS U$4 bilhões por ano na conservação de ampla rede mundial de áreas protegidas. Eu destaquei o APENAS, por que: 1) Orçamento do Depto. de Defesa dos Estados Unidos em 2010: U$636 bilhões. 2) Custo da corrupção no Brasil: U$23 bilhões anuais (= R$41,5 bilhões de nossos reais. 3) Custo do nosso Congresso Nacional (Senado e Câmara Federal): R$6,1 bilhões (exatamente a mesma quantia destinada ao Ministério da Ciência e Tecnologia).
E vamos nós “repetir a dose” neste “novo” governo que se aproxima!!!
Postado por ECOLOGIA EM FOCO

Inaugurar esgoto


No meio disso crianças descalças brincando o dia inteiro.

MARCUS ARANHA

Tratando da saúde em São Paulo, confinado num quarto de hospital sou obrigado a ver televisão inclusive a Propaganda Eleitoral Gratuita.

A mesmice dos candidatos é entediante. Todos prometem que, se eleitos, irão proporcionar a população brasileira educação, segurança e saúde.

Essa coisa virou quase um bordão. Candidato a presidente, senador, governador, deputado federal e deputado estadual, todos, vão tornar o país uma ilha de excelência onde educação, segurança e saúde vão superar os níveis do primeiro mundo.

E ao falar em saúde todos prometem construir novos hospitais, ambulatórios, serviços de atendimento de emergência, mais leitos de UTI e uma infinidade de unidades de atendimento médico.

Não vi nenhum candidato prometer obras de saneamento embora ele seja uma peça primordial na elevação e manutenção dos níveis de saúde.

Os dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico divulgados em agosto pelo IBGE mostram que o Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto. Essa situação é bem mais precária no norte e nordeste que são as regiões mais deficientes nesse ponto de vista.

As conseqüências da falta de saneamento são preocupantes. A Organização Mundial de Saúde estipula que cada real gasto em saneamento provoca uma economia de quatro reais em despesas com saúde.

É que o saneamento básico é essencial em termos de qualidade de vida; a ausência dele provoca poluição dos recursos hídricos com prejuízos consideráveis a saúde da população, notadamente o aumento da mortalidade infantil.

Nos serviços médicos que atendem crianças, os casos de gastrenterites e diarréias são incontáveis e muitos desses casos terminam com o óbito da criança.

Na Paraíba, mais de sessenta por cento da população não é servida com rede de esgoto.

Na capital do Estado é comum ver, em bairros mais pobres e em favelas, a água já servida correndo entre casas e barracos, e por fim tomando o leito das ruas. No meio disso crianças seminuas e descalças brincando o dia inteiro.

A contaminação dessas águas é evidente e as doenças que podem provocar nas crianças que nelas se divertem são inúmeras.

Apesar disso, com a receita de impostos e contribuições fiscais crescendo em todos os níveis de governo nada se faz para instalar saneamento básico para a população.

Os políticos e autoridades governamentais continuam alheios aos problemas da falta de saneamento básico.

Há quem diga que construir esgotos não dá votos. E os mais jocosos insistem em descrever com gozação a inauguração de um trecho de saneamento: uma tampa de esgoto de ferro e em redor dela o prefeito, alguns auxiliares diretos e populares curiosos. Uma fala rápida da autoridade maior e pronto. Nada de banda de música, fogos de artifício ou festejos semelhante

Tai... Realmente o ato político mais sem futuro que se conhece é inaugurar esgoto.

Mundo-cão na Internet

Ipojuca Pontes

1 - O mundo digital, vertiginoso, avança como um maremoto incontrolável. Acabo de receber pela Internet um vídeo que se presume da ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt sendo estuprada num cativeiro por supostos integrantes do exército das FARCs, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Seja ela quem for, são imagens de barbárie explícita, captadas por um cérebro doentio - digo, possuído pelo rancor e animalidade.
No desenrolar das cenas, por vezes opacas, vemos doze homens abrutalhados, arquejantes, violentando a mulher indefesa. Os guerrilheiros estão encapuzados ou usam máscaras, mas o rosto da vítima expressa impressionante mescla de angústia, sofrimento e dor. Seus gritos são aflitivos, capazes de levar qualquer espectador à comoção. Para rever, eliminei o som.
Os homens estão vestidos com uniformes verde-oliva, calças arriadas. Vez por outra a câmera pontua o bacanal macabro flagrando a imagem de um prato de frutas tropicais, num contraponto de puro nonsense.
Pode-se desconfiar da autenticidade do vídeo? Ele não seria obra, por exemplo, de encenadores? Sem dúvida, mas acho pouco provável, pois o vídeo se apresenta como uma prova elaborada por quem tem certeza do que faz e projeta, ou seja: atingir um alvo específico (familiares) e traumatizar adversários vacilantes. De todo modo, falso ou não, nele não há nenhum traço de erotismo ou pornografia.
Como se sabe, Ingrid Betancourt, ex-senadora “politicamente correta”, filha de diplomata formada em Ciências Políticas, em Paris, foi seqüestrada em 2002, sendo resgatada em 2008 numa operação planejada pelo exército colombiano, que tinha como ministro da Defesa, à época, o recém eleito presidente Juan Manuel Santos.
A boa pergunta: como teria chegada tal monstruosidade à Internet? Um vazamento da área de segurança do próprio governo colombiano? Tudo é possível, menos a hipótese da distribuição do vídeo pela ex-senadora Ingrid Betancourt, que, intempestiva, depois do extraordinário resgate, voltou-se contra o governo colombiano.
O certo é que esse vídeo vai perturbar o mundo, tal a sua violência. De minha parte penso que, mesmo de origem duvidosa. se faz urgente o envio de copias aos editores da mídia, bem como aos “nossos” representantes no Congresso Nacional.
2 – Uma outra notícia fulminante, a circular na Internet, diz respeito a morte imprevista de Yves Hublet, escritor de livros infantis que, à época do escândalo do mensalão, acertou algumas bengaladas na cabeça do ex-Chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu, hoje mentor da candidata à presidência da República Dilma Rousseff.
A notícia dá conta de que em maio passado, Yves Hublet, que estava residindo na Bélgica (tinha dupla nacionalidade), veio ao Brasil tratar da publicação de um livro. Ao regressar, fazendo escala em Brasília, o homem das bengaladas foi preso e mantido incomunicável. Mas logo adoeceu e, dizem, morreu de câncer no dia 26 de julho último, sendo o seu corpo cremado em Brasília.
Segundo o informe, depois da cena das bengaladas, transmitida ao vivo pelos noticiários televisivos, o escritor curitibano enfrentou alguns problemas e resolveu sair do país.
É estranho que a grande imprensa não tenha se reportado ao fato. Afinal, Yves Hublet foi transformado em celebridade da noite para o dia. De fato, ele foi louvado por boa margem da população ao punir com bengaladas o ex-Chefe da Casa Civil .
Pergunta final: por qual motivo os jornalões não noticiaram sua morte, pelo menos como retranca do Obituário?
3 - Ainda na Internet dou de cara com uma entrevista do falso ator Sérgio Brito, um canastrão sem voz e sem alma, que há décadas vem parasitando em cima (e por baixo) do teatro tupiniquim. Numa entrevista concedida a fofoqueira Globo News, ele diz:
- “O Ipojuca sempre procurou me prejudicar. Quando o Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB, estreou em 1981, ele conseguiu fazer com que eu não ficasse lá. Inventou tudo que pôde. Inventou, até, que eu tinha falado mal da mulher do presidente do Banco do Brasil. Eu não conhecia o presidente do Banco do Brasil – nem o nome da mulher. Criou-se uma situação impossível. Tive de sair”.
Além de canastrão, Sérgio Brito é um mentiroso compulsivo. Se ele, que trabalhava no CCBB, não conhecia o presidente do Banco do Brasil, muito menos eu, que tenho horror a banqueiros. O que de fato ocorreu foi o seguinte: em 1989 (e não em 1981), fazendo uma análise da cultura brasileira na era Sarney, para o jornal O Estado de São Paulo, escrevi o seguinte:
- “A idéia de fazer arte a partir do usufruto das benesses oficiais é uma constante para certa camada da vida artística brasileira. Periodicamente, a cada oportunidade, durante congressos, encontros, festivais ou entrevistas, os ativos membros da fauna proclamam aos quatro ventos a necessidade de maior participação (no fundo, intervenção) do Estado na área da cultura. Em tais ocasiões, como num canto coral, os membros da fauna reclamam por maiores verbas públicas, sem as quais – bradam com fúria – o Brasil perderia, como nação, sua própria identidade”.
- “Mais do que simples fauna – continuava eu –, trata-se de verdadeira “casta de serviço”, particularmente empenhada no desfrute do mecenato estatal para consecução de projetos pessoais desde a chegada, no Brasil Colônia, do fugitivo D. João VI com seu entourage de 15 mil cortesãos”.
- “A violência das relações estatizantes na atividade teatral é confirmada pela forma como foi concebido o funcionamento do Centro Cultural Banco do Brasil - o mesmo banco cuja folha de pagamento anual dos funcionários eleva-se acima de US$ 15 bilhões, isto é, mais de uma vez e meia o valor do pagamento do serviço da dívida externa em 1988, considerada por todos uma carga insuportável para os ombros da nação”.
No caso específico da demissão do falso ator Sérgio Brito, ela deu-se a partir das seguintes linhas:
- “Pois bem: o CCBB, instalado numa área cuja reforma ultrapassou a casa de US$ 3 milhões, sem consultar associações, entidades, empresariado da área ou criar conselho temporário, e amparado em tributos provenientes de todo território nacional, concentrou nas mãos de uma só pessoa – o ator Sérgio Brito – o orçamento anual de milhões de dólares, o que o torna um ser todo poderoso, embora represente apenas uma tendência do teatro carioca. A fórmula de atuação cultural (que é a de financiar a fundo perdido e sem aprovação de um conselho pluralista, espetáculos cujo orçamento médio varia em torno de US$ 100 mil), coonestando a ação monopolista e evidenciando a prática do dumping econômico, fatalmente levara à marginalidade o empresário que não contar com tais benesses”.
- “O privilégio torna-se mais acintoso quando o próprio Sérgio Brito, entronizado como o novo czar que detém as chaves do tesouro informa ao jornal “O Globo” (4/10/89) que pretende montar com o dinheiro público “um texto do auge do surrealismo capaz de espantar qualquer patrocinador com sua associação de imagens inspirados em órgãos sexuais, cogumelos e outras formas”.
Como por milagre, em plena era Sarney, ao ler tais linhas, o presidente do Banco do Banco do Brasil (ou talvez do próprio CCBB), que nunca vi mais gordo, demitiu o mentiroso canastrão.
E a partir daí o Centro Cultural Banco do Brasil passou a funcionar de modo democrático, como recomenda a boa ética.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A "mexicanização" em marcha

Está tão evidente o rumo da desgraça que se abate sobre o país que as análises políticas estão coincidindo em detalhes. No editorial do Estadão, Bolívar Lamounier, com a sobriedade e brilhantismo de sempre, escreve sobre o tema.
Que ninguém tenha ilusões: vai ser um inferno. Agora me lembrei da frase do profeta cubano quando Fidel entrou em Havana: “Só se salvarão os que souberem nadar”. E aqui, como é que vamos fazer? Qual será a nossa Miami?

Bolívar Lamounier - O Estado de S.Paulo

O processo sucessório presidencial em curso comporta dois cenários marcadamente assimétricos, conforme o vencedor seja José Serra ou Dilma Rousseff. Se for José Serra, não é difícil prever a cerrada oposição que ele sofrerá por parte do PT e dos “movimentos sociais”, entidades estudantis e sindicatos controlados por ele – e, provavelmente, do próprio Lula. Se for Dilma Rousseff – como as pesquisas estão indicando, o cenário provável é a ausência, e não o excesso, de oposição.

Para bem entender esta hipótese convém levar em conta dois fatos adicionais.

Primeiro, o cenário Dilma não se esgota na figura da ex-ministra. Ele inclui, entre os elementos mais relevantes, o controle de ambas as Casas do Congresso Nacional pela dupla PT e PMDB. Inclui também uma entidade institucional inédita, personificada por Lula. Semelhante, neste aspecto, a um aiatolá, atuando de fora para dentro do governo, Lula tentará, como é óbvio, influenciar o conjunto do sistema político no sentido que lhe parecer conveniente ao governo de sua pupila ou a seus próprios interesses. Emitirá juízos positivos ou negativos, em graus variáveis de sutileza, sobre medidas tomadas pelo governo e regulará não só o comportamento da base governista no Congresso, mas também os movimentos de sístole e diástole da “sociedade civil organizada” – entendendo-se por tal os sindicatos, segmentos corporativos e demais organizações sensíveis à sua orientação.

O segundo fato a considerar é a extensão da derrota que Lula terá conseguido impor à oposição. Claro, a eventual derrota será também consequência das ambiguidades, das divisões e dos equívocos da própria oposição, mas o fator determinante será, evidentemente, a ação de Lula e do esquema de forças sob seu comando. Deixo de lado, por óbvio, as condições econômicas extremamente favoráveis, o Bolsa-Família, a popularidade do presidente, etc.
José Serra ficará sem mandato até 2012, pelo menos. No Senado – a menos que sobrevenha alguma reorganização das forças políticas -, Aécio Neves fará parte de uma pequena minoria parlamentar, situação em que ele dificilmente exercerá com desenvoltura as suas habilidades políticas.

Nos Estados, os governadores eventualmente eleitos pelo PSDB, sujeitos ao torniquete financeiro do governo federal, estarão igualmente vulneráveis ao rolo compressor governista. Longe de mim subestimar lideranças novas, como a de Beto Richa, no Paraná, e a de Geraldo Alckmin, em São Paulo. Mas não é por acaso que Lula já se apresta a batalha por São Paulo, indicando claramente a sua disposição de empregar todo o arsenal necessário a fim de reverter o favoritismo tucano neste Estado.

Resumo da ópera: no cenário Dilma, o conjunto de engrenagens que Lula montou ao longo dos últimos sete anos e meio entrará em pleno funcionamento, liquidando por certo período as chances de uma oposição eficaz. A prevalecer tal cenário, parece-me fora de dúvida que a democracia brasileira adentrará uma quadra histórica não isenta de riscos.

É oportuno lembrar que o esquema de poder ora dominante abriga setores não inteiramente devotados à democracia representativa, adeptos seja do populismo que grassa em países vizinhos, seja de uma nebulosa “democracia direta”, que de direta não teria nada, pois seus atores seriam, evidentemente, movimentos radicais e organizações corporativas. Claro indício da presença de tais setores é a famigerada tese do “controle social da mídia”, eufemismo para intervenção em empresas jornalísticas e imposição de censura prévia.

Na Primeira República (1889-1930), a “situação” – ou seja, os governantes e seus aliados nos planos federal e estadual – esmagava a oposição. Foram poucas e parciais as exceções a essa regra. Mas a estratégia levada a cabo por Lula está indo muito além. É abrangente, notavelmente sagaz e tem um objetivo bem definido: alvejar em cheio a oposição tucana. Para bem compreendê-la seria mister voltar ao primeiro mandato, ao discurso da “herança maldita”, sem precedente em nossa História republicana no que se refere ao envenenamento da imagem do antecessor; à anistia, retoricamente construída, a diversos corruptos e até a indivíduos que se aprestavam a cometer um crime – os “aloprados”; e aos primórdios da estratégia especificamente eleitoral, ao chamado confronto plebiscitário, em nome do qual ele liquidou no nascedouro toda veleidade de autonomia por parte de quantos se dispusessem a concorrer paralelamente a Dilma Rousseff. A Ciro Gomes, Lula não concedeu sequer a graça de uma “sublegenda”, para evocar um termo do período militar.

Para o bem ou para o mal, a única oposição político-eleitoral potencialmente capaz de fazer frente ao rolo compressor lulista é a aliança PSDB-DEM-PPS. No horizonte de tempo em que estou pensando – digamos, os próximos quatro anos -, não há alternativa. Portanto, a operação a que estamos assistindo, com seu claro intento de esterilizar ou virtualmente aniquilar essa aliança, coloca-nos nas cercanias de um regime autoritário.

Sem a esterilização ou o aniquilamento político-eleitoral da mencionada coalizão, não há como cogitar de um projeto de poder hegemônico, de longo prazo e sem real alternância de poder. A esterilização pode resultar de uma estratégia deliberada por parte do comando político existente em dado momento, de uma conjunção de erros, derrotas e até fraquezas das próprias forças oposicionistas – ou de ambas as coisas.

Sociologicamente falando, não há funcionamento efetivo da democracia, quaisquer que sejam os arranjos constitucionais vigentes, num país onde não exista uma oposição eleitoralmente viável. Haverá, na melhor das hipóteses, um autoritarismo disfarçado, um “chavismo branco” ou, se preferem, um regime mexican style – aquele dominado durante seis décadas pelo PRI, o velho Partido Revolucionário Institucional mexicano.

CONTAGEM REGRESSIVA

FALTAM 121 DIAS