terça-feira, fevereiro 05, 2013

A Califórnia e a Paraíba


Pedro Nunes Filho

Durante palestra que o Prof. Luiz Carlos Molion, PhD em Meteorologia, proferiu por ocasião do lançamento da campanha SOS SECA, na capital da Paraíba, dia 15 de janeiro, ouvi uma informação que me impressionou.  A Califórnia, nos Estados Unidos, possui algumas áreas cuja precipitação pluviométrica gira em torno de 200mm, enquanto o município de Cabaceiras, no Cariri paraibano, talvez o mais seco do Brasil, apresenta um índice de 300mm. Apesar de as chuvas serem bastante inferiores naquele estado americano, lá os agricultores são ricos, enquanto os de Cabaceiras e de todo o resto do semiárido nordestino são bastante pobres.

Achei a comparação curiosa. Entrei numa ferramenta de mapas disponível na Internet para visualizar as áreas agricultáveis da Califórnia e buscar alguma explicação para tamanha discrepância, já que costumam atribuir a pobreza do Nordeste agrário às secas e isso não é verdade. Se fosse verdade a Califórnia seria mais pobre que a Paraíba, pois lá chove bem menos.

Em minha busca, além do clima, fiz outras constatações interessantes. A população da Califórnia é composta de 75% de cristãos. Quanto à etnia, 37% são latino-americanos, percentual predominante. Igual ao Nordeste brasileiro, há duas estações: inverno e verão. O Vale da Morte é uma área extremamente inóspita.
Lá, os termômetros chegam a registrar temperatura de até 50o C. Não muito distantes do vale, estendem-se imensas áreas de cultivo altamente produtivas, graças a canais de irrigação que parecem serpentes gigantes cobrindo terras antes quase desertificadas. Ao todo são 90 mil fazendas, espalhadas por uma extensão que corresponde a 30% do seu território. Como o clima é seco e os desertos quentes, as fazendas dependem de irrigação para o cultivo de plantações e alimentação de seus rebanhos. Apesar desses fatores aparentemente desfavoráveis, a Califórnia é líder nacional na produção de leite, carne bovina, tomate, morango, melão, pêssego e melancia. Produz a maior parte dos kiwis consumidos pelos norte-americanos e possui as maiores vinícolas do país. Além disso, é o segundo maior produtor de laranjas dos Estados Unidos. Se fosse um país independente ocuparia o 9o lugar no ranking das nações mais desenvolvidas.

A grande diferença mesmo é que lá, o governo fez investimentos utilizando tecnologias de ponta em irrigação, tornando a aridez e a baixa precipitação pluviométrica fatores aliados. Aqui, quando a chuva não vem, as populações atingidas pela estiagem, ao invés de se voltarem contra a inércia governamental, plantam os joelhos no chão e erguem as mãos para o céu, pedindo chuva a Deus. Acaso atendesse as orações dos suplicantes e mandasse chuva, com certeza, Deus seria um ser imperfeito porque estaria consertando algo errado em sua obra. Como Ele é perfeito e infinito, toda a obra da criação do cosmo ou dos cosmos está terminada e não há como atender pedidos de criaturas humanas por mais sofredoras que sejam. Deus nos fez seres inteligentes para dominarmos a natureza e podermos conviver com ela. Logo, a seca não é castigo, e sim, fator climático que, da mesma forma que fizeram os californianos, pode ser neutralizado e utilizado em favor do homem nordestino, tantas são as vantagens que o clima semiárido apresenta. 

No Nordeste brasileiro, há uma grande quantidade de açudes públicos que armazenam centenas de milhares de metros cúbicos de água. Mas o governo não dispõe de nenhum programa para utilizar de forma produtiva esse imenso manancial hídrico que se dispersa por evaporação. A polêmica obra de transposição das águas do São Francisco não seria solução definitiva para o semiárido, tampouco a redenção do Nordeste. Entretanto, diante da ausência de investimentos estruturadores para enfrentar o fenômeno das estiagens, não há dúvida de que o projeto em funcionamento traria bons resultados para a região. Orçada em 4 bi, de repente, a obra passou a custar 8 bi, um escândalo que clama por investigação rigorosa. O mais grave é que há diversos trechos  totalmente paralisados e as etapas concluídas encontram-se ruindo, dando sinais de abandono. O que não faltam são desculpas esfarrapadas das autoridades responsáveis, incapazes de assumir perante a nação os erros cometidos.

*Pedro Nunes é advogado e sócio do IAHGP.- pnunesfilho@yahoo.com.br

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