sexta-feira, novembro 23, 2012

Plínio e Zé Barbosa

José Mário Rodrigues

Uma saudade sem tempo, mas como todos os motivos para ter ressonância. Saudade do nada e de tudo. Dessas que chegam e paralisam as ideias e só enxergam o horizonte. Saudade de coisa perdida e que não vamos encontrar nunca. Do que foi e do que não será.

Para amenizar esse momento fui à mostra de Plínio Palhano, sua retrospectiva de quarenta anos de pintura. Gosto do trabalho dele e queria ver sem ninguém por perto. As vernissages acabam deixando as pinturas em segundo plano, pois é uma oportunidade de ver gente que não encontramos muito.

A série de Olinda, dos nus abstratos e dos retratos me tocaram muito. Tem poesia, tem harmonia e cores que passam pela sensibilidade da alma do pintor que escreve versos com o pincel. Tudo carregado de mistérios que não se desligam do eterno e, por mais que se queira a sua revelação, guardam um segredo, um intocável segredo.

O quadro Retrato de Piedade, pintora que resolveu terminar o seu tempo de vida ainda jovem, traz uma tristeza infinita. O retrato de Sandra, sua mulher, consegue captar a expressão de quem passa pela vida carregando o "sentimento do mundo" e que me fez lembrar o verso de Drummond: "A sombra de um mundo errado murmuraste um protesto tímido."

Mas antes de ver a exposição de Plínio estive com Maria Eduarda e Gustavo Lima no ateliê de José Barbosa. Que talento impressionante na arte da madeira e da pintura. A impressão que tenho é que ele passeia pela antiguidade da história pernambucana, da história brasileira, e suaviza com as cores esse tempo que hoje só temos na fotografia ou na imaginação. Gente, bichos, flores e paisagem. Mas há sempre um ancoradouro onde algum pássaro sobrevoa sem rumo certo. E salta algo de encantamento. Um limite de inconsciência vagando no ar, onde tudo se dispersa e se harmoniza. O momento presente em José Barbosa é um caminho para o retorno ao passado, para uma arquitetura de sonhos. Em minha cabeça veio um verso que escrevi há tanto tempo: "Conheci raízes antigas e perseguido pela chuva te imagino em desenhos de nuvens."

Para diluir a saudade, terminei o meu passeio à porta da Igreja da Boa Vista onde fui deixar o poeta Ângelo Monteiro, que lançou pela imprensa da Universidade Federal de Pernambuco o livro Outras vozes (ensaios). Ele não perde missa de domingo e necessita de ouvir o sino, padre cantando e fiéis lutando pela salvação ou por um lugar no paraíso onde descansarão na órbita da estrela da manhã. Amém.

José Mário Rodrigues é escritor
Jmrrodrigues@yahoo.com.br

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