sexta-feira, maio 18, 2012

Tiro&Queda 18.5.12 sexta-feira

    



 Eduardo Almeida Reis

Mas vai escrever... – Gordo, bons dentes, simpático, o professor de português brilhou na tevê outro dia. Sabe tudo sobre o Acordo Ortográfico, que no Brasil é irreversível, mas pode não ser adotado em Portugal. Até aí, tudo bem: o rechonchudo conhece a matéria que ensina, mas vai escrever...

Aí é que está: conhecer o idioma e escrever  texto palatável parece incompatível. Para pilotar é desejável que o profissional saiba tudo de aviação. Assim também com os médicos, os advogados, os dentistas, os cientistas da computação. Quanto melhor o médico, melhor o resultado do seu trabalho. Com os professores de português, ressalvadas as exceções que devem existir e ainda não conheço, saber muito significa textos impalatáveis, isto é, desagradáveis ao paladar do leitor normal.

Sempre me lembro de uma história contada pelo bom amigo Lauriston Pousa Bicudo. Recém-formado em agronomia, foi plantar milho na fazenda de seu sogro. Fez a lavoura pelo melhor figurino, enquanto o administrador do sogrão plantava área do mesmo tamanho em solos do mesmo tipo.

Na colheita, a lavoura do excelente Bicudo rendeu a terça parte da lavoura do administrador. E o agrônomo, desolado, foi consultar o velho empregado. Explicação simples: “É que o senhor, doutor, botou muita ciência naquela roça”.

Aí é que está o busílis: quanto melhor o professor de português, mais ciência bota no seu texto com os resultados que se veem por aí.

Advogados – O Brasil tem 1.240 cursos de direito. No resto do planeta, isto é, em todos os demais países, somados, são 1.100 universidades. Copio esses números do Blog Exame de Ordem, editado pelo advogado Maurício Gieseler. O número de advogados brasileiros orça pelos 800 mil, um para 237 habitantes. Mas há 3 milhões de “advogados” filtrados nos exames da OAB. Se estivessem no mercado, seriam 3.800.000, um advogado para 50 brasileiros, na hipótese pouco provável do meu acerto aqui com a calculadora chinesa de nove reais.

Fiquemos nos 800 mil autorizados a advogar, sem que todos advoguem. Raros, raríssimos são aqueles que se destacam, têm nome na praça, clientela de peso e cobram honorários expressivos. Aí é que vem o melhor da festa.

O Art. 13 da Constituição de 1988 dispõe: “A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. E aparece na tevê um dos advogados mais famosos e mais requisitados do Piscinão de Ramos errando no idioma oficial da imensa piscina. Pelo menos dois erros crassos em três frases.

O pacientíssimo leitor de Tiro&Queda há de entender que não posso dar o nome do boi, mas atesto que é um dos 30, possivelmente um dos 20 advogados mais famosos deste país grande e bobo. Isso em vista, uma conclusão se impõe: o profissional é “esquematizado” no meio em que atua, sabe onde, quando e como comprar as pessoas que se vendem.

Coletâneas – Bons e maus cronistas, quando inteiram 120 matérias publicadas, tratam de publicar uma coletânea das 100 melhores ou das menos ruins, conforme sejam ou não do ramo. Sim, porque não há lei que impeça o artista de se intitular cronista e de publicar suas “crônicas” nos jornais, nas revistas, nos blogs, nas p. que os p. Todas entupidas, refertas, ingurgitadas do abominável pronome sujeito eu.

O leitor de Tiro&Queda sabe que Celso Cunha, tio desta menina Andréa, que vai ser governadora de Minas, ensina que os pronomes sujeitos eu, tu, ele (ela), nós, vós, eles (elas) são normalmente omitidos em português, porque as desinências verbais bastam, de regra, para indicar a pessoa a que se refere o predicado, bem como o número gramatical, singular ou plural, dessa pessoa.

Se escrevo "ando a cavalo", "acho Zé Bento memorialista supimpa", "penso que Lauro Diniz deve marcar o almoço prometido", é claro e é óbvio, como também é evidente, que não é minha avó que anda a cavalo, curte o livro de José Bento Teixeira de Salles ou sonha com o almoço prometido pelo doutor Lauro José Diniz Silva.

Penitencio-me de já ter editado três coletâneas de crônicas. Se for parar no inferno terá sido por causa delas, coletâneas, e não pelo meu ateísmo cada vez mais praticante. Ainda assim, fico espiando a coleção de três metros de crônicas encadernadas, e as milhares que tenho nos arquivos do computador (com becape guardado no armário), e me pergunto: será que vale a pena publicar mais uma ou duas coletâneas? Dos crimes que temos visto por aí, esse é o menos grave.

O mundo é uma bola – 18 de maio de 1804: Bonaparte é coroado imperador da França adotando o nome de Napoleão I. Em 1793, portanto 11 anos antes, Luís XVI tinha sido guilhotinado na mesma França. Em 1857, emancipação da cidade de Caruaru, Pernambuco, Brasil, 88 quilômetros em linha reta de Caetés, que produziria um analfaboquirroto adorado por muita gente. Em 1910 a Terra passou pela cauda do Cometa de Halley.

Hoje é o Dia Internacional dos Museus.

Ruminanças – “Sou contra o aborto de anencéfalos. Dariam ótimos políticos” (R. Manso Neto).

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