
Edival Toscano Varandas
… Seis…, sete…, oito.
Nove horas da noite. Eu sabia das horas pelos toques do relógio do Liceu Paraibano. O sobrado em que morávamos ficava a um quarteirão do colégio. Nessa hora, já na cama, sabia também que era hora de dormir. Sempre fui de acordar cedinho. Descia a escada, com meu saco de bolas de gude, e tinha o quintal a meus pés. A manhã avançava e, aos poucos, a vida retomava seu curso.
Primeiro, era a Júlia, a cozinheira. Passava por mim e, num gesto de rebola a saia, dizia:- Já acordado, menino?
Nada respondia. Olhava-a de cima abaixo, e lá ia ela para aquele mundo de onde saiam as coisas gostosas. Continuava com minhas bolinhas. O relógio do Liceu tocava sete horas e minha mãe gritava:
- Broto! Tomar café!
As bolinhas voltavam para o saquinho. E meu “toddy” (assim chamavam o copo de leite com “Toddy”) e um pão com manteiga estavam a minha espera. Às vezes, aquilo me intrigava: se era para tomar “toddy”, por que mamãe me chamava para tomar café?
Depois, meus irmãos iam acordando. Novas brincadeiras eram inventadas quase todas as manhãs. Academia, pega-pega, esconde-esconde, circo e futebol. Com a manhã alta, apareciam os amigos da vizinhança. Chegava Roberto, meu amigo mais chegado e vizinho da casa ao lado, filho de seu Pereira, dono de um carro Studybaker. Tinha os irmãos Valdir, Dado e Afrânio, e com esses brincávamos mais na rua que no quintal. Tinha Idebaldo, filho de dona Zezita, amiga de mamãe, dona de um caderno de receitas de doces, que mamãe copiava e, depois, ficava horas na cozinha, ensinando Júlia a deixar a calda no ponto. Ela era mãe de Ialmita, amiga de minha irmã. Tinha também Marcel Paiva. Já não me lembro se ele vinha a minha casa; mas, eu sempre ia à casa dele. Ele gostava de usar o porão de sua casa para as brincadeiras. Dizia que era um porão mal-assombrado e tínhamos muito medo.
À tarde, era hora de ir à escola. Estudava no Externato Diocesano São José, vizinho à Igreja São Francisco. Ia a pé, sempre chutando uma pedra pela calçada e que guardava junto a um poste, para, no final da aula, voltar chutando ela de novo.
Mudamos de casa, mudei de colégio e o sobrado ficou para trás, como também a experiência da delícia refrescante da primeira Coca-Cola, que tomei na mercearia de Seu Baldo pela primeira vez. Cresci. Dos amigos de minha rua da infância, reencontrei Marcel no ginásio, mas não tínhamos ainda a idade das recordações e acho que nem cheguei a pedir notícias do sobrado.
Fomos para outro endereço e eu entrei para a Faculdade. E o sobrado estava cada vez mais longe.
Casado, passei a morar na mesma casa do início do casamento de meus pais. Vizinha ao sobrado de minha meninice. Era quase como juntar as pontas do fio de minha vida. Mais outra mudança. Mas, dessa vez, o sobrado não iria ficar longe. Como coloquei a casa vizinha à venda, deixei dois cachorros como segurança e, todas as tardes, lhes levava ração, aproveitando para ver se tudo estava em ordem, dava uma olhada no sobrado. Ele passara a abrigar a sede da Justiça Federal, e os velhos quartos e salas tinham outra serventia. Conheci um advogado que trabalhava na Justiça Federal. Contei-lhe que ali nasci e pedi-lhe para visitar o sobrado. Pisando aquele chão e envolto por aquelas paredes, senti uma saudade danada.
Na escadaria que dava para o primeiro andar, ainda existia o santuário, mas sem a imagem da Imaculada Conceição, de quem meu pai era devoto.
Pude ouvir falas, risos, o barulho de nossas correrias e a voz de mamãe, nas ordens da lida doméstica.
De meu quintal, restava pouca coisa. Senti o gosto de Toddy do café da manhã. Não entrei na cozinha, pois as divisórias indicavam área restrita aos funcionários. Não quis rever os banheiros, em que deixávamos a poeira dos dias.
No antigo quarto de hóspedes, agora escritório, uma moça, ao saber que eu cresci naquela casa, interrompeu o que estava fazendo e perguntou:
- Me diz o que é que tem neste cofre?
Ela se referia a um cofre que ainda estava na parede. E como nunca soube o que tinha lá dentro, por mais que tivesse tentado abrir quando criança, respondi apenas:
- Segredos.
Em um dia de dezembro do ano passado, quando cheguei à casa vizinha com o saco de ração, parei, estupefato. O velho sobrado estava no chão. Tratores derrubavam suas últimas paredes. Não tive tempo de pegar um azulejo para guardar de lembrança.
Foi com ele minha infância. Guardada e sepultada, para sempre, junto com o cofre da parede do quarto de hóspedes.
Colhido no Blog do Pedro Marinho - http://www.blogdopedromarinho.com/
5 comentários:
É sempre muito emocionante um relato assim.O tempo passa e deixa tantas marcas,tantas recordações que são como alfinetadas que acabam por nos ferir.É uma saudade que não tem fim...De tudo, de todos, do amigo, do inimigo, do simpático, do antipático, de tanta coisa importante ou não... Aí percebemos como o tempo passou. Parabéns sr. Edival! O texto é envolvente, emocionante, bonito. Abraço.
Márcia
Ao texto, acrescentar o quê?
Lindíssimo. Parabéns.
Eu me emocionei com o seu texto até porque esse Liceu, esse relógio também me trazem recordações da minha infância e adolescência. Afinal, eu também morei bem próximo ao Colégio Liceu Paraibano, na Camilo de Holanda.
Saudosismo gostoso esse!
Parabéns pelo texto e pela viagem que acabei de fazer !
Léa Lins
Oi,obrigado por dividir comigo algo tão lindo e marcante,fico feliz em ser considerada assim uma amiga para dividir lembranças de alguém tão especial.Espero ser merecedora de tanto carinho.Um grande bj fica com DEUS hoje e sempre!!!!Ju.rema
Broto vc falou que não ficou com nenhum pedaço de azuleijo mas, eu me lembro muito bem que vc resgatou uma imagem de N.S. de Fátima que tinha na frente da Varanda da sua casa, e era de origem portuguesa. Media mais ou menos uns 80cms X 50cms. Hoje ele se encontra na varanda da minha casa de Bananeiras, enfeitando o meu lar e fazendo com que os que vão lar, da família, se recordem daquela imagem.
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