
Téta Barbosa
Ele pode ser platônico, físico, intenso, materno ou eterno. Pode ser líquido, como as relações mundanas e modernas. Pode ser de muito!
E de muito foi o amor deste casal! Namoro, casamento e 15 anos depois, a primeira filha: Maria Tereza. A menina já nasceu famosa e está nas manchetes dos principais jornais da cidade dos arrecifes.
Não é famosa porque nasceu com alguma anomalia. Não é super dotada, não foi o primeiro bebê do ano nem nasceu em berço esplêndido. É normal, chorona e dorme o dia todo, como convém a bebês recém-nascidos.
O que faz de Maria Tereza tão especial é que os pais dela são pais. Os dois!
A menina é a primeira criança, concebida in vitro, filha de uma relação homoafetiva, devidamente registrada e reconhecida pela Justiça.
“Ninguém tem o direito de reduzir o entendimento sobre a aplicabilidade de qualquer regra para ignorar aquilo que a vida já reconheceu. O seu nascimento trouxe a esperança de uma sociedade mais justa, feliz e menos preconceituosa” diz a carta escrita pelo promotor da primeira Vara da Família da Capital, Adalberto Vieria, endereçada à pequena.
Na carta o promotor ainda cita a lenda de Teseu, o herói grego que matou o Minotauro. Teseu tinha dupla paternidade; era filho do rei de Atenas, Egeu, e de Poseidon.
Ele finaliza parabenizando os pais pela coragem e pioneirismo.
Na seqüência, o juiz Clicério Bezerra e Silva assinou a sentença autorizando o registro de Maria Tereza com o nome dos seus dois pais.
"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;” João Cabral de Melo Neto.
E o amor pode ser assim mesmo: platônico, materno ou eterno. Pode ser com ou sem preconceito.
O Recife escolheu sem.
Deixando pra trás toneladas de coronelismo. Derramando sobre os mangues litros de machismo apadrinhados pela falta de amor. Deixando escorrer pelas veias rios de discriminação e mares de arrogância em oceanos de ideias pejorativas e superficiais.
Nos libertamos, já tarde, da nossa herança de crenças equivocadas e estereotipadas dos nossos senhores e senhoras de engenho.
Agora enfim concordamos: amor tem que ser de muito!
Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. http://www.batidasalvetodos.
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