
Hugo Caldas
Todos os anos é sempre a mesma coisa. O início do mês de março me deixa absolutamente desnorteado. É uma agonia, um sentimento de coisa não concluída, uma sensação de dormência no corpo. Tudo isso agravado pelo calor do bute reinante e pela minha notória dificuldade em respirar. Na cabeça e no coração uma cena se repete ad infinitum.
Dia 6, fez exatos 37 anos, que no final da manhã de uma quinta-feira, o meu pai nos deixava para sempre. Me encontrava juntamente com a minha mãe à sua cabeceira. Estava hospitalizado, convalescente de uma cirurgia quando de repente, franziu um pouco o cenho, começou a perder a respiração e se apagou mansamente, acredito sem maiores dores e sofrimento. Foi tudo muito rápido. Os enfermeiros ainda tentaram reanimá-lo à custa de choques elétricos, porém tudo em vão. Absolutamente atônito não sei bem o que senti naquela hora. Um misto de consternação ou desmedido alívio. Finalmente, os homens lá de cima se apiedaram de mim e tomaram em consideração o meu pedido. Pouparam o meu pai de grandes sofrimentos e dores, exatamente da maneira como eu havia implorado alguns dias antes na capela do Hospital Português.
Numa hora dessas corre um suor frio nas costas até você se conscientizar do que realmente acabara de acontecer. O meu pai se foi para sempre. Em meio à dormência que parecia invadir a minha percepção, na cabeça meio tonta, rodopiando, uma frase que a minha mãe costumava dizer quando perdía um ente querido. "O nunca mais ver, é muito doloroso". Em meio a desolação reinante você mecanicamente termina por encontrar forças que não sabia possuir. Era imperioso tomar as rédeas da situação e tratar dos preparativos para o funeral. Até hoje não sei exatamente como consegui cumprir essa extensa e lastimosa tarefa. Ontem, em meio ao meu descontrole e angústia, uma nova amiga, pessoa a quem muito prezo, sugeriu, "esqueça esse sofrimento, lembre apenas os bons momentos vividos com ele". Passados exatos 37 anos eu fecho os olhos e vejo o desenrolar de tudo. Ainda é muito forte e doloroso o nunca mais ver. Mas é isso, vou seguir o conselho da minha jovem amiga. Lembrar unicamente os bons momentos que tivemos, e não foram poucos, principalmente durante a minha infância.
Costumo dizer que eu passei a minha infância dentro de um avião. Ressalvados os devidos exageros, realmente era uma coisa sagrada. Todo fim de semana ele me levava para o Aero Clube de João Pessoa me colocava no banco dianteiro de um pequeno Paulistinha amarelo, PP-TKO, apertava meticulosamente os cintos de segurança e soltava a sisuda admoestação: "não mexe em nada", e então, em questão de minutos, alçávamos aos céus de Tambaú. Lá íamos nós, janela aberta, vento na cara, na maior felicidade, desfrutando o inigualável prazer de voar.
Certa tarde de sábado aconteceu entretanto, um fato intrigante. Imediatamente após a decolagem para mais um passeio aéreo ele inicia o problema da descida. Notei de imediato pois já estava acostumado a ser seu co-piloto. Estranhei mas nada disse. Quando aterrissamos, perguntei a razão: "me lembrei que havia tomado uma cerveja no almoço e você está comigo, em aviação o melhor é prevenir"... Era assim o meu pai. Não era nenhuma sumidade, mas aquela pessoa simples, responsável, era o meu Pai. Ele era tudo para mim, o meu herói. Gostava de vê-lo na costumeira inspeção da aeronave antes da decolagem. Verificava tudo. Pedais, ailerons, leme, os cabos de comando, nada absolutamente nada, escapava da sua cuidadosa vistoria.
Contudo, havia um senão, um porém, que há muito apertava o meu coração de menino. Morávamos na Rua 4 de Novembro em Tambiá, e sempre voltava do antigo Colégio Pio X, de ônibus. Foram tantas as viagens que terminei por prestar atenção na figura do motorista, um sujeito que usava umas camisas impecavelmente brancas. Dirigia muito bem e de tanto vê-lo acho até que aprendi também a dirigir. Era um ônibus de tamanho médio com uma só porta onde para se entrar ou sair o motorista teria que usar uma espécie de alavanca para abrir e fechar a porta. Achava aquilo tudo maravilhoso e nutria um sentimento de frustração pois o meu pai não sabia, pensava eu, dirigir um ônibus daqueles. Só sabia dirigir aviões. Que coisa! Mas essa tristeza não demorou muito a se desfazer...
Certa tarde estávamos os dois de carona com o Dr. João Soares, pediatra de metade da Paraíba quando, bons tempos, o médico toma a direção da casa de um paciente na Rua Tabajaras e estaciona o carro em cima dos trilhos do bonde. Ao sair deixou as chaves com o meu pai dizendo: "Se o bonde aparecer, você tira o carro". Dito e feito. O bonde chegou, meu pai foi para o lugar do motorista e tirou o carro de cima dos trilhos. Fiquei absolutamente maravilhado. Estupefato. Para a minha admiração ele também sabia dirigir automóveis. Era a glória! Vá entender cabeça de menino.
Cheguei até aqui tentando encobrir um dos episódios que diz muito da cumplicidade que havia entre nós dois. E tudo em relação à rigidez da minha mãe, que armava o maior circo quando porventura eu fazia alguma coisa errada. Menino é useiro e vezeiro em fazer coisas erradas. Era, porém o seu jeito de me educar. Desconfio que ela é que não tinha a coragem suficinte para me castigar e então repassava a nefanda tarefa para o meu pai, exigindo assim um corretivo à altura do mal feito. Meu pai a tudo ouvia e me levava para "o quartinho da pisa" nos fundos da casa, tirava o cinturão das calças e saia batendo nas pernas das cadeiras e do que mais tivesse ao redor. Me mandava gritar como se estivesse realmente levando uma surra. Às vezes até me dava umas lamboradas nas pernas que era para dar veracidade à clandestina operação. Nenhum de nós dois nunca disse uma palavra a ninguém: era o nosso segredo mais bem guardado.
Pouco falava de si mesmo. O que eu sabia sobre ele fora-me contado por minha mãe. Soube por exemplo, que o sonho de voar ele alimentava desde muito tempo. Queria entrar para Escola de Aviação Militar do Exército - não existia ainda a FAB - mas esse desejo lhe havia sido negado. Meu avô não só o proibiu, como o fez matricular-se numa escola para estudar contabilidade. Tudo a ver com aviação, não? Jamais desistiu do seu sonho. Após a morte do Velho Doutor Caldas em 1936, ele entrou para o Aero Clube e formou-se na primeira turma de pilotos em 1941. Tudo isso o fazia crescer perante o meu conceito e na minha admiração. No entanto, para seu desgosto, ele deixou de voar lá pelo início da década de 50 quando uma avaliação médica indicou possíveis problemas cardíacos. Estava beirando os 40 anos de idade.
O tempo foi passando e chega para mim a hora de deixar a casa dos pais para tentar uma vida sozinho. Fiz concurso para uma empresa aérea no Recife, passei e em 9 de abril de 1959 empreendi viagem em busca dessa nova vida. Ele e minha mãe que chorava que nem bezerro desmamado, foram me deixar na rodoviária. Como sempre a minha mãe me fez mil e uma recomendações: "educação cabe em todo o canto", dizia ela. Cuidado com a vida. Meu pai apenas me abraçou demoradamente e disse baixinho no meu ouvido: "se der errado você sabe que sempre tem a casa do seu pai".
No meu primeiro ano em Recife aconteceram certas coisas para as quais até hoje não encontro uma explicação convincente. A solidão na cidade grande, tudo diferente, até o linguajar das pessoas começaram a me perturbar e eu andei tomando umas canas mal tomadas. Dei para "ver" coisas estranhas e uma dessas "coisas" foi um acontecimento que os espiritistas chamam de "desdobramento".
De acordo com a minha mulher, espiritista juramentada, o "desdobramento acontece quando você se descola do seu corpo podendo, entretanto, voltar. São supostas experiências fora do corpo realizadas por qualquer um, em estado de vigília, acordado, via meditação ou técnicas de relaxamento."
Explico: estava eu deitado de bruços na minha Patente Faixa Azul, após o almoço, nem dormindo nem acordado, dormitava, olhando as colunetas do espelho da cama que em dado momento tornaram-se enormes como as colunas dos templos gregos. Ato contínuo, sinto que deixo o meu corpo, flutuo até o forro olho para baixo e me vejo deitado. Isso durou muito pouco tempo, mas o suficiente para sentir que algo estranho estava acontecendo. Voltei digamos, ao normal, e não falei com ninguém.
Telefonei apavorado para o meu pai. Expliquei rapidamente o episódio e ele perguntou se eu não estivera bebendo um pouco demais... Acertou em cheio. Mas se largou de João Pessoa e veio me dar o seu apoio. Até hoje lembro do quanto essa visita fora de hora me fez bem.
Quando se aposentou ele e minha mãe vieram morar perto de mim no Recife. À época eu era um respeitável executivo no ramo do ensino de línguas e podia me dar a certos desfrutes. Ele viveu relativamente bem, doença entretanto se agravando. Morava no oitavo andar de um belo prédio de frente ao Rio Capibaribe. No térreo existia uma agência de passagens de uma empresa de ônibus da Paraíba e ele descia religiosamente quando pressentia a chegada das viagens vindas de João Pessoa. Sempre encontrava um conhecido. Saía então perguntando por fulano sicrano e beltrano, quem havia morrido e quem estava ainda vivo. Foi durante esse tempo que aconteceu algo que deixei para contar agora.
Certa vez ele se desentendeu com um dos meus irmãos e como sempre, brabo feito um siri, desapareceu de casa pela manhã por volta das 9 horas. A minha mãe conhecendo a figura não se preocupou muito a não ser quando o relógio da sala bateu as 10 da noite e ele nada de voltar ou dar notícias. Telefonou aflita para mim que ainda me encontrava na escola. Pedi que ela se acalmasse pois intimamente eu sabia do seu paradeiro. Ela confiou em mim, eu peguei o carro e rumei direto para o Aeroporto dos Guararapes.
Era ainda o aeroporto antigo com jardim, muitas flores e banquinhos em frente ao pátio de manobras. Quem eu encontro sentadinho, assistindo ao pouso e decolagem das aeronaves? Ele mesmo. Seu Americo, meu pai. Foi um custo convencê-lo (charminho) a voltar pra casa, mas terminou por aceitar voltar aos braços da minha aflita mãe.
Naquela noite dormi pensando em tudo o que nos unia. Ainda hoje custo a acreditar que ele não esteja mais por aqui. Será?
16 comentários:
Maravilha, Hugo. Verdadeiro, emocionante. Caramba, como gosto de seu pai!
W. J. Solha
Obrigado, amigo. Eu é que fiquei emocionando com o seu carinhoso comentário.
Hugo
Excelente, Hugo. Adoro ler as suas memórias. Muito bem contadas, cheias de emoções e sentimentos com os quais me identifico. Não tenho aparecido mas continuo aqui bisbilhotando....abraços!
Huguíssimo
Sei exatamente o que voce está sentindo em relação a Memeco, pois tenho a mesma sensação em relação a "seu" Quinca, só que no dia 24 do corrente. Acrescido do fato de que como menina, naquela época, o pai era menos presente do que com meninos. Menas a verdade em relação ao meu pai. Assim que tive um pouco mais de idade, começou a me levar a campo pra assistir os jogos de futebol, numa época em que não ficava bem mulher fazê-lo (década de 50), muito menos meninas. Eu matava os meus colegas de escola de raiva, especialmente quando o jogo era à noite, e eu chegava contando tudo que tinha acontecido no dia anterior. Também me deu a chave da casa aos 15 anos, dizendo que não estava a fim de acordar no meio da noite pra abrir porta, mas que o que acontecesse, se eu não soubesse me comportar, ia ter consequências nada agradáveis (os castigos dele eram 500 vezes mais duros do que as surras de minha mãe). Também me ensinou a ter meus próprios critérios, quando me disse: faça o que sentir que é verdadeiro porque se voce fizer falam, se não fizer também falam... E a partir desse dia nunca mais me disse o que fazer. Quando eu pedia uma opinião ele dizia que se isso valesse de alguma coisa ele vendia e que além do mais a opinião era dele e não minha. Que cabeça era pra pensar e não pra separar as orelhas, portanto eu devia botar os neurônios pra trabalhar. "Seu" Quinca me faz uma falta danada, até hoje, quando já passei dos 40 há algumas décadas, e vai me fazer falta até o dia em que eu for encontrá-lo. É uma ausência sempre presente na minha vida...
Negaline
Hugo,
F-O-R-M-I-D-Á-V-E-L seu emocionante relato! Parabéns!!!Abraço. Márcia
Puxa vida Hugo! Adoro essas reminiscências. Sabe que a vida e feita desses momentos. Falo das lembranças do passado. E saber resgata-lãs e contar êh privilegio de poucos. Parabéns ! Haja emoções. Obrigado.
Girley Brazileiro
Uma das minha frustrações foi não ter conhecido meu avô paterno. Mas meu pai volta e meia desenhou na minha mente a imagem mais linda dele e da vivência deles juntos, como nesse belíssimo texto. Pai, ter você aqui pertinho de mim é como meu porto seguro. Te amo.
Obrigado, Negão
Com a licença da palavra e o devido respeito(sua mulher deve saber melhor que eu), este texto é a prova da presença de seu pai. Belíssima homenagem, parabéns e obrigada por partilhar...
Meu sogro, que texto magnífico!
É o saber escrever e o saber expressar em linhas a convivência entre pai e filho. E que pai! E que filho! Vejo através de Huguinho a família que ele tem, a excelente criação e a educação que não se vê mais nos homens de hoje.
Seu filho teve do senhor, que teve do seu pai e assim sempre deve ter sido. Homens maravilhosos e vividos. Sempre penso quando lembro dos (apenas) 20 e poucos que passei com minha saudosa avó materna: não importa se pouco ou muito vivi ao seu lado, mas sim se valeu a pena. E valeu! E muito! São dos pequenos momentos que nós, crianças desbravadoras de experiências, tiramos nossas maiores lições de vida.
Fico feliz que o senhor tenha vivido tão bem ao lado desse grande homem, seu pai. Vidas que foram e que estão valendo a pena serem vividas! E sou muito feliz em viver ao lado de seu filho, que carrega o nome de seu Américo e por fazer parte de uma família de raízes tão significativas.
Beijos!
Hugo - O edifício que seu pai morou no oitavo andar, onde existia no térreo, uma agência de passagens de ônibus de João Pessoa, fica na Rua da Aurora. É o famoso Edifício Caeté. Eu morei lá tambem, no décimo terceiro andar, de 1971 até 1978. Foi nesse período que fiz o curso de medicina e residencia médica. Passava a semana em Recife e os sábados e domingos em João Pessoa, na casa de meus pais, em Miramar, perto do antigo Aeroclube. Vim trabalhar em Cuiabá e aqui constitui família. Mas todo ano, no mês de janeiro, fico quinze dias, na Praia do Bessa, na minha querida cidade de João Pessoa. Valeu, grande Hugo !!!!!!!
Hugão: li o texto e achei superbacana! Acho que o retrato ficou fidelíssimo. Pelo que conheci de tio Américo, era assim mesmo, como você o descreveu. Lamento, a pouca sensibilidade das pessoas que quiseram lhe subtrair as suas duas grandes paixões: voar e fotografar. Com ele, aprendi a gostar de fotografia. Voar, nem tanto. A não ser na imaginação!
Não sei quem é o Edson, até porque vivia mais no Centro da Cidade (Teatro/Depto Cultural/Berta/Bambú/Fafi), casa de Pedro Santos e adjacências), que no bairro do Miramar.
Abraços
Guy Joseph
Meu distinto sr. Guy Joseph:
O Edson é figura desconhecida na sua própria cidade, em virtude de viver ausente por mais de 30 anos. Sou paraibano, pessoense, nascido no Hospital Santa Isabel em 1950, crescido no Roger e em Miramar. De família humilde, filho de um carteiro e de uma professora da rede estadual, passei toda a minha infância e juventude dedicado aos livros, estudando desde o Grupo Escolar Tomás Mindelo e o Liceu, e, após tentar o vestibular de medicina por tres vezes, consegui a maior vitória de minha vida: ser médico. Mes pais são falecidos e eu, filho único, vivo em Cuiabá, desde 1981, mas, vou todo ano com minha família passar férias em João Pessoa, onde fico hospedado em uma Pousada na Praia do Bessa. Sou um desconhecido na cidade onde nascí. A minha família "Pessoa", não tem relação com os "Pessoa" de Umbuzeiro. É apenas uma coincidência de nomes.
Descobri o blog de Hugo Caldas, que tambem é de João Pessoa, há pouco tempo, e, apesar de não conhecê-lo, gosto muito de ler os seus escritos.
Feitos os esclarecimentos, despeço-me com um respeitoso e afetuoso abraço. Edson.
Caro Edson
Obrigado pela parte que me toca. Muito honrado em tê-lo como leitor dessas mal traçadas. O Guy é meu primo e morava à época em Miramar. Moro em Recife, também exilado da Paraíba. Meu abraço. Hugo
Vou ler em casa mais mil vezes porque achei lindo. Fábia
Hugão fiquei muito emcionada e feliz com o carinho e a boa lembrança que vc tem do seu pai!
É maravilhoso ver a cumplicidade de vcs. Parceiros de verdade
É real e viva as suas recordações, lembre sempre assim.
Vc é um bom amigo.
Amanda
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