
Eduardo Almeida Reis
Pena Capital - Correio Braziliense
Presumo que o leitor, dono de automóvel, ainda se lembre de um kit de primeiros socorros, que nos impingiram tempos atrás. Alguém faturou um dinheirão com aquela porcaria. Meu kit divórcio, para variar, é de graça e visa primordialmente a preparar o leitor para a vida de divorciado, na hipótese de fazer a besteira de se descasar.
Não me lembro do nome do autor da brilhante e maldosa constatação: o pobre não tem nada e consegue perder tudo depois de uma enchente. Também o cavalheiro de classe média razoável consegue perder tudo quando se divorcia.
Na definição do Houaiss, classe média, rubrica sociologia, é a que engloba os que exercem profissões liberais, os pequenos industriais e comerciantes, e os quadros médios e superiores da função pública ou do comércio e da indústria.
Conheço médicos, arquitetos, engenheiros e outros profissionais liberais riquíssimos, daí minha definição de classe média discrepar daquela do famanaz lexicógrafo, porque dividida em alta, razoável e baixa. Os economistas brasileiros inventaram recentemente uma classe média que, para mim, não passa de pobreza motorizada com um veículo zero que custa 40 salários mínimos.
Pois muito bem: quando faz a besteira de se divorciar, o cavalheiro de classe média razoável perde tudo e precisa cuidar de um kit divórcio, que o ajude a sobreviver. O primeiro item, indispensável, é aquela mãozinha de aço inox, na ponta de um tubo telescópico, que lhe permite coçar as costas. Sem ela, mãozinha inox, há que atrasar a separação. Depois é que vêm os outros itens indispensáveis para equipar o apê alugado. Sim, porque se o recém-divorciado tem apê próprio, para morar de graça, faz parte da classe média alta.
Depois de vários descasamentos, fiquei craque na compra do kit de sobrevivência do divorciado. No cartão, em 10 prestações mensais supostamente sem juros (pois sim...), deve orçar pelos R$ 2.000.00 mensais, talvez R$ 2.500,00, se incluídos os móveis básicos: geladeira, micro-ondas, máquina de café expresso, televisor, rádio de pilhas, poltrona, cama...
Epa!, que me esqueci das toalhas, dos lençóis, das louças e dos talheres, da máquina de lavar, do fogão: bota R$ 3.000,00 por mês para começar a viver só, porque homens sérios compram micro-ondas Cuisinart, máquina de lavar daquelas que têm uma janela redonda de vidro (são as melhores, não me perguntem por quê), geladeira de duas portas superpostas e outros itens da melhor supimpitude, preparando o apê alugado para nova união estável, infelizmente inevitável.
É claro, como também é óbvio e evidente, que o computador é indissociável de seu dono, sobretudo e principalmente quando vive de escrever para fora. Monitor, CPU, nobreak, impressora e demais acessórios rivalizam com os casamentos – e rivalizam com vantagem, porque são trocados diversas vezes na vigência de cada união estável. As máquinas de escrever, manuais ou elétricas, eram aparentadas com os casamentos do tempo de antigamente: havia entre elas e o escriba o tal laço indissolúvel que sempre caracterizou os matrimônios sérios. Minha Remington portátil (ainda operacional) data dos meus 12 aninhos, quando pedi ao meu pai uma Harley-Davidson azul e ele voltou da cidade com a máquina de escrever. Naquele dia, fiquei triste, mas hoje reconheço que ele teve carradas de razão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário