terça-feira, fevereiro 07, 2012

“Libertas quae sera tamen....”

Caro Hugo: Em face do artigo de Guilhobel Camargo, sobre Tiradentes, e que gerou boa discussão, estou encaminhando um artigo que escrevi há algum tempo sobre a famosa frase e dístico da bandeira mineira e o histórico erro linguístico da senença usada pelos mineiros. Se achar conveniente, pode publicar. Está indo exclusivamente para o seu Blog. Abraços. Virgolino


José Virgolino de Alencar


A expressão “Libertas quae sera tamen”(latim), retirada de um texto de Virgílio(Écloga), foi usada como lema da Conjuração Mineira e hoje está inscrita na bandeira de Minas Gerais. A frase de Virgílio não fazia ponto final em “tamen”, havia continuidade no texto. Quando os mineiros a utilizaram como lema, cometeram um equívoco que levou a uma tradução errônea. A tradução da frase seria: “Liberdade ainda que tarde, todavia...”. Ou seja, o “tamen” não era para fazer parte do lema, que estaria completo com “Libertas que sera”(Liberdade ainda que tarde).

Talvez pela importância histórica do episódio da luta dos mineiros contra o poderio da coroa portuguesa, não consta que alguém tenha proposto a retirada do “tamen” que modifica e enfeia a frase. É um símbolo das ricas minas gerais da época imperial e como tal intocável, mesmo para se corrigir um equívoco lingüístico. A Inconfidência Mineira, que legou tantos heróis para a nossa história, marcou profundamente o Estado de Minas, alçando o episódio às alturas de uma Revolução Francesa, ainda que possa se achar exagerado.

Virgílio, ao escrever o texto, naturalmente já proclamava a necessidade de liberdade, entendendo que dever-se-ia lutar por ela, mesmo que a conseguisse tarde. Antes tarde do que nunca. Nesses milênios passados foram muitas as lutas, revoluções, guerras, movimentos coletivos em defesa da liberdade, contra a opressão. O homem, paradoxalmente, quer a liberdade, mas por um nada faz uma guerra. Quando encontra uma brecha, toma o poder, oprime a população, suprime a liberdade, principalmente a livre expressão do pensamento.

Contudo, é o mesmo homem, o ser que Deus fez e deu livre arbítrio, a antagonizar o autoritarismo, principalmente o homem que pensa, o sapiente, o que sabe usar a palavra para iniciar ou estimular movimentos libertários. Na onda das idéias dos pensadores revolucionários, os oportunistas costumam pegar carona e levar à frente batalhas pela liberdade, porém quando assumem o comando mudam de face e passam a dominadores, arbitrários, desviando-se para a corrupção e a amoralidade na coisa pública.


PS. Como bons exemplos existentes na atualidade, de mudança do discurso idealista para a prática oportunista, principalmente o caso do Brasil, acho que vale a pena a republicação do texto acima, escrito já há algum tempo.

PS - 2
Estou desde a semana passada em Campinas - São Paulo, mas não deixo de acompanhar e participar do Blog.

2 comentários:

Hugão disse...

Se você se animou com o assunto do Tiradentes, imagina o que vai fazer com o que eu descobri sobre o Colombo. Sim, ele mesmo, que adora por o ovo em pé! Me aguarde. Hugo

Anônimo disse...

Ainda sou mais a tradução de Vinicius de Moraes (que sabia das coisas...): liberdade que será também...