
Téta Barbosa
Não sou árvore.
Tentei.
Li todos os poemas de Manoel de Barros*, mas não escutei a cor do passarinho.
Não agarrei o rabo do vento nem peguei a voz do peixe.
Sou asfalto. E poeira, e fios, e poluição e viadutos. Nasci na cidade, nos prédios altos, no calor do Recife, no cheiro das pontes.
Não sou árvore, sou poste.
Poste com fios e energia elétrica. A mesma energia feita pela Chesf*, onde meu pai trabalhou a vida inteira. A energia que virava luz, a luz que vinha de um rio com nome de homem: Francisco!
E o senhor Rio São Francisco pagava nossas contas.
Na casa do poeta Manoel, o rio era uma cobra de vidro mole, na minha vinha em forma de contra-cheque. Um rio-salário líquido (que sempre tinha uma grande diferença em relação ao rio-salário bruto).
Coisa que eu nunca entendi, se tratando de um rio.
Imaginava apenas que um rio líquido era um rio sem barragens nem adutoras.
Um rio que circulava livremente e que tinha, dentro dele, novas espécies da fauna ainda não descobertas pelos biólogos especialistas: o jacaré Xingó, a garça Paulo Afonso e a sucuri Itaparica.
O rio do poeta conversa com as rãs e por lá falam de poesia.
O meu rio é amigo das hidroelétricas e os dois, velhos conhecidos, versam sobre linhas de transmissão.
Manoel de Barros é árvore.
Meu pai é rio.
Eu sou poste. Mas, sabe que pode haver muita poesia num poste?
*Chesf – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco
* Manoel de Barros – Poeta Mato Grossense, autor do poema “Árvore”
Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. Ela também tem um blog - http://www.batidasalvetodos.
3 comentários:
Puxa Téta vc é uma menina de ouro!
Gostei das suas comparações: o poeta é árvore, seu pai é rio e vc poste atendendo ao modernismo dos dias de hoje com a CELPE.
Continua escrevendo, bjs, Mary
Como é agradável ler seus textos.Inspiração é o que não lhe falta! Parabéns! Abraço. Márcia
Eita, acabei de me achar aqui! Que bom esse cantinho.
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