sexta-feira, junho 03, 2011

Minha Gente

Hugo Caldas

Pelo o que eu sei a família Mercês provinha do patriarca Deodato José das Mercês Parahiba, do Rio Grande do Norte. Possuia casa à Rua Direita, (Duque de Caxias) no trecho que ia da antiga Rua do Rosário até o Pátio do Palácio. Bem mais tarde essa casa ficou conhecida por todos da família como "A Casa das Meninas". Essas tais "meninas" eram as minhas tias-avós, Marfisa, a misteriosa, Marly, que tinha trabalho na Secretaria de Saúde, Nenen, a intelectual que pronunciava como ninguém, excertos como "pilastras cilindricas" e Nilinha, a faz-tudo, para todos. Todas elas irmãs de Maria Eugênia das Mercês Parahiba que quando do seu casamento com Ambrósio Pereira suprimiu o Parahiba passando a se assinar Maria Eugênia das Mercês Pereira, Dona Dondinha, minha avó materna. Meu avô Ambrósio Pereira se estabeleceu no comércio. Os Pereira moravam em Pilar, pequena cidade do agreste paraibano, em um enorme sobrado conhecido até hoje como "O Sobrado de Seu Ambrósio". Dito sobrado era uma edificação comum como todas as outras, porém majestosa na sua simplicidade. Lembro da enorme escada externa que levava ao andar de cima onde todos moravam. No térreo era a loja de tecidos do meu avô. Por trás da loja existia sua oficina de marceneiro. No descampado da parte térrea, bem ao lado da escadaria havia um pomar coalhado de diversas fruteiras e uma horta para onde a minha mãe, manhã cedo, me levava a passear, arrancando e comendo tomates e me fazendo comer também. Eu, indefeso nos meus dois anos de idade, detestava. Diz ainda a lenda que Dona Dondinha foi a primeira professora diplomada a chegar na cidade. Maior festa para recebê-la, com banda de música, pompa e circunstância. Logo começou a lecionar e se torna mestra de Zé Lins do Rego, que ainda menino, de traquinagem, cuidava de olhar as "bonitas e bem torneadas pernas" da jovem professorinha, como está bem registrado em um dos seus livros.

O tempo foi passando e eis que todos se mudam para a capital indo meu avô Ambrósio estabelecer moradia na rua Capitão José Pessoa, 48 esquina das Trincheiras, tradicional logradouro da cidade. Era uma casa antiga e espaçosa dentro de um pequeno bosque de mangueiras, mamõeiros, fruta-pães, bananeiras, um pé de jenipapo e umas tantas galinhas de corte e de postura. Fogão à lenha e carvão, reinava soberano na grande cozinha manobrada magistralmente por uma negra muito bonita por nome de Rita de Brito, quituteira das boas. Rita namorava o leiteiro que se chamava Luis Alves de Lima Silva, o nome quase completo do Duque de Caxias. Todas as manhãs Luis vinha com a sua carrocinha branca no maior asseio, deixar os dois ou três litros de leite e daí o amor surgiu. Um belo dia uma quase tragédia: Luis fora convocado para a guerra na Itália. Foi um chororô danado. O "Pracinha" logo requisitou um retrato de Rita bem como um vestido, que era para ele pendurar na sua barraca de campanha e olhar quando a saudade apertasse. Não lembro se ao final do conflito ele voltou. Cuido que não.

Em frente à casa ficava o consultório do doutor Cícero Leite, dentista que possuía um automóvel verde musgo claro, que era seu xodó. Esse carro ficava horas estacionado em frente a minha casa e eu costumava brincar subindo e descendo pelo capô e pára-lamas. Resultado: arruinei a pintura, tão zelosamente cuidada pelo valoroso odontólogo que de imediato veio reclamar. Minha avó se desculpou e pediu que ele não contasse nada à meu pai. Ela mesma tomaria as providências devidas.

Quando o meu pai chegou na hora do almoço foi a primeira coisa que falou, já me dando um carão daqueles. Reação da minha avó:

- "Mas eu não disse àquele cavalheiro para não contar nada ao Américo! O que ele merece agora, uma tapa na boca"!

Essa era a minha avó Dondinha que nasceu numa véspera de São Pedro, em 1885 e faleceu no início de julho de 1947 em Campos, Estado do Rio de Janeiro. Tocava piano como ninguém. Se preocupava com a minha educação musical, pois cuidou que eu tivesse aulas de piano e solfejo com o maestro Joaquim Pereira morador das redondezas. Um belo dia, após a morte do meu avô Ambrósio, ela juntamente com a minha Tia Aurinha, tomaram um vapor do Lloide, "O Araranguá", para o sul do país. Foram ao encontro de uma outra Pereira, a minha Tia Céu que há muito se mudara para a cidade de Campos, ao se casar em 1936. Durante a viagem deu uns quantos concertos à bordo durante memoráveis jantares, à pedido do comandante. Maior sucesso. O ponto final da viagem para elas duas seria a chegada ao Rio de Janeiro onde finalmente encontrariam a filha. Consta que a minha avó Dondinha logo revolucionou a vizinhança com seus bolos e doces maravilhosos. Consta também, que em sendo diabética andou fazendo umas extravagâncias, comendo e bebendo do que não devia, nem podia. Para o meu desespero de criança, a minha avó Dondinha jamais regressou dessa viagem. Ficou para sempre, distante. Custa-me a sua ausência. Até hoje.

Ultimamente, após o passamento da minha mãe, garimpando nos seus pertences encontrei dentro de um universo de fotos, pequenas anotações, receitas de bolos e doces, orações e citações, uma verdadeira joia. Uma carta, que estou tentando decifrar, escrita com bela caligrafia pelo meu avô na década de 40, com os seguintes dizeres à lápis no envelope: "Para ser entregue à Dondinha após a minha morte".

- Essa minha gente Pereira continua a me surpreender.

5 comentários:

Marcia Barcellos disse...

Boa tarde, primo Hugo !

Mais um texto interessante sobre nossos parentes tão próximos. Como vovó Céu, ficaria feliz em ler estes fatos, relembrando assim toda sua vida junto aos pais e irmãs...
Muito legal vc escrever estas histórias, proporcionando-nos agradável leitura e imensa satisfação em conhecer um pouco da vida dos nossos antepassados.
Isto nos faz mais felizes. Obrigada. Abraços Márcia

ana arnaud disse...

Excelente! Sem considerar a leveza dos seus escritos, quero lhe falar do quanto sou fascinada por histórias familiares, principalmente quando fazem parte da memória remota das pessoas( o que é quase sempre) e mais ainda quando surgem, do baú do tempo, fotos, anotações, cartas, diários etc, para provar que tudo foi uma saudosa verdade. São, geralmente, pessoas que não morreram, pois não o queriam, e se deixaram ficar nesse mundo que, temporariamente, é nosso..

Mary disse...

Muito bom Hugão!
As suas memórias trazem lembranças vivas de um tempo que está tão presente no seu hoje... e quem mais agradece são os seus antepassados ao brindá-los com as histórias da sua infância aflora o seu sentimento mais bonito de amor, gratidão e reverência por tudo que eles representaram na sua vida.

Mary disse...

Oi Hugão,

Esqueci de comentar...
Muito boa a repaginada do blog, o novo lay out deu mais leveza e os tons de azul, minha cor favorita, suavizam a leitura.
Foi de autoria de Eden?
Parabéns!

Lucia Rosas disse...

Hugo, adorei a sua crônica MINHA GENTE. É muito bom lembrar e escrever sobre os nossos familiares idos, mas que para sempre ficarão conosco. "Recordar é viver". Vou tentar seguir o seu exemplo. Parabéns pelo belo texto. Lucia Rosas