Ao ensejo das celebrações do aniversário de Frei Damião de Bozzano comemorado neste dia cinco de novembro achei por bem republicar texto postado neste Blog no dia 31 de agosto de 2007. À época recebi umas tantas ameaças que não me tiraram nem o sono e muito menos o apetite. HCHUGO CALDAS
Não me tomem por iconoclasta. Não é o caso. Coisas que ficaram por uma vida inteira "varrumando o meu miolo", realmente aconteceram. Precisam e devem ser contadas. Daí a razão pela qual as relato. Não sou evangélico, muito menos católico, considero-me cristão por um mero acidente histórico-geográfico. Nascí em uma terra descoberta e colonizada por cristãos. Acho até que sou uma boa pessoa, um bom "cristão". Como poderia ter nascido lá pras bandas do Oriente e hoje seria apenas e tão somente um bom Mulçumano.
O "Capuchinho Nazista" em epígrafe não é outro senão o tão propagado Frei Damião de Bozzano. Nascido Pio Giannotti, em Bozzano Itália, em 5 de novembro de 1898, radicado no Brasil desde o final da década de 30 até a sua morte em 1997. Filho de camponeses, interrompeu seus estudos eclesiásticos para ir à guerra de 1914/1918. Combateu pelo exército italiano. Será que matou alguém? É bem provável. Ninguém vai à guerra levando flores para o inimigo.
Ao final das hostilidades volta ao seminário e torna-se padre em 1923. Diplomado em Teologia (sic) vem para o Brasil em 1938 e aí se inicía toda uma imensa loucura. Frei Damião de Bozzano era, nada mais natural, inimigo declarado do comunismo, era contra a minissaia, contra o sexo antes do casamento porém, o mais grave, era fanáticamente, useiro e vezeiro em perseguir evangélicos e tudo o que eles representavam.
Conta-se que Frei Damião, junto com outras autoridades católicas, mandava cercar, incendiar, cortar a energia, e apedrejar templos protestantes os quais após tamanha agressão, e sofrimento ainda conseguiam se reerguer das cinzas. Essas agressões e cercos às vezes duravam horas. Muitos desses agressores gritavam insultos aos crentes, que na época eram chamados de “bodes” pelos católicos. A maioria dos fanáticos usava túnicas marrom-escuro, típicas dos capuchinhos e gritavam palavras de ordem exaltando Frei Damião.
Aliás, muito antes dele, essas perseguições já aconteciam em pleno Século Dezenove. A escritora Leonice Ferreira da Silva em seu livro "Primeira Igreja Batista do Recife, Episódios De Sua História" relata:
..."No interior, vigarios e autoridades tomavam-lhes as bíblias que eram queimadas nas feiras livres. Em 1892, em Pernambuco, estão no auge as perseguições na Capital e no Interior do Estado. No Recife, levantou-se o Frei Celestino de Pedavoli, criando a Liga Anti-Protestante, que realizou queima de bíblias, uma no pátio da Igreja da Penha e a outra, por causa dos protestos e das reações, inclusive dos não crentes, na horta do convento..."
A minha participação nessa historiada toda:
No início da década de sessenta, eu trabalhava em um escritório do exército norte-americano e involuntariamente tomei parte em uma dessas histórias malucas tendo o "piedoso" frade como protagonista. Por qual razão um Doutor em Teologia se transforma no mais fanático adepto das práticas nazistas, é dificil acreditar.
Se não me falha a memória, o caso a seguir quase teve implicações diplomáticas, e se deu em Pesqueira, interior do Estado, quando ele, Frei Damião de Bozzano chegou ao paroxismo de excomungar os leiteiros da cidade que tivessem a audácia de vender leite para as famílias protestantes. Perceberam a gravidade e a crueza do ato? Sem leite, com o tempo, as crianças iriam definhar e naturalmente a morte sobreviria. O imbróglio envolveu o Consulado Geral dos Estados Unidos e o Arcebispado. Vale ressaltar que todas ou quase todas as igrejas protestantes eram apoiadas pelo Consulado Americano visto a presença de pastores norte-americanos na implantação dos templos. Não obstante as inúmeras reuniões e encontros entre as partes Cônsul - Arcebispo, "segure esse maluco", chegou a declarar o Cônsul para o Arcebispo que teve de engolir calado por conta das barbáries cometidas pelo "santo homem". Ficou acertado, em vista da grave situação, que o governo americano iria daquela data em diante, enviar sacos de leite em pó, distribuidos pela Aliança para o Progresso - àqueles mesmos que os gringos sacodem dos aviões para os esfomeados que conseguem escapar dos seus bombardeios. Eu mesmo despachei dois caminhões enormes com o tal leite para o interior. O problema foi sendo esquecido e terminou sem maiores consequências como tudo neste país, e ficou o dito pelo não dito.
Ao final da sua vida de "romarias e pregações" vivia Frei Damião conluiado com os políticos matreiros que se aproveitavam e tiravam fotos ao lado dele, a fim de mais tarde serem usadas para estampar santinhos de campanhas eleitorais. Collor e Nilo Coelho recebiam o seu apoio e costumavam usar o odioso expediente das fotos.
O processo de beatificação que já está bastante adiantado, é o primeiro passo para receber a canonização ou seja, o frade vai terminar recebendo o brevet de santo. Este ano se comemoram os dez anos da sua morte. Precisam ver a caravana de ônibus com placas de todo nordeste atrapalhando o trânsito aqui no bairro do Pina onde existe o Mosteiro de São Félix de Cantalice aonde o frade está enterrado.
Este fim de semana a cidade de São Joaquim do Monte, no agreste pernambucano, está promovendo mais uma romaria dos devotos do frade. Com missas, terços, ladainhas, (está virando atração turística) e uma estátua enorme, mal ajambrada, pobre arremedo, débil paródia de outra estátua maior ainda, de outro malucoide, o Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço do Juazeiro, que boa coisa também não era.
Espero, se realmente existir alguém lá em cima, que este alguém tenha piedade desses dois desarrazoados.
hugocaldas.blogspot.com
hucaldas@gmail.com
5 comentários:
Frei Damião, aquele que no final da vida não conseguia mais erguer a cabeça, como os suínos, era deverasmente um monstro de escuridão e rutilância, como escreveu o nosso Augusto dos Anjos.
É claro que preenche todas as exigências para ser canonizado por uma religião que já abrigou toda sorte de assassinos, muitos dos quais foram papas e depois santos...
Tudo isso é um nojo. Em pleno século 21 vemos o catolicismo a se meter em tudo, com seus bandidos disfarçados de heróis.
Pau nessa canalha, consideradíssimo amigo Hugão!!!
Grande abraço do Japi.
Carlos Mello disse...
Hugão, esse "pescoço de bengala" era um grande mau caráter, sempre aliado aos poderosos, e disposto a descer o cacete em quem não concordasse com suas idéias fascistas. Mas o povão é cego e surdo, ele vai ser canonizado e virar mais um mito na longa história de alienação e ignorância de nossa gente. Por que a Igreja Católica, que se mete na vida de todo mundo, não vem a público dar sua opinião?
Carlos
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Mary Caldas disse...
Hugo,
Não tinha idéia das armações do Frei Damião. Com o crédito e fidelidade de tantas peesoas inocentes os seus seguidores, e agora como ficam???
Agora na condição em que está a prestação de contas só com Deus.
Muito bom o texto. Parabéns.
Mary
Sábado, Setembro 01, 2007
Amilcar Lins disse...
Hugo, gostei da historia do Frei Damião, que nunca fui com sua cara e nem com suas pregasões.
Aquele abraço, Amilcar
Sábado, Setembro 01, 2007
Amigo Hugo:
Um belo artigo sobre o velho Torquemada do Cariri. E o amigo está escrevendo cada vez melhor.
Abraços,
Almir
Sábado, Setembro 01, 2007
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