terça-feira, novembro 09, 2010

"Meus Amigos o Negócio é o Seguinte"

Hugo Caldas

O título que ostenta esta croniqueta foi tirado do inicio de uma peroração de Vicente de Paula Holanda Pontes, mais conhecido como Paulo Pontes em uma noite memorável de muita chuva, o Santa Roza lotado e impaciente. Era noite de estreia de um dos costumeiros festivais de teatro da Paraíba e Paulinho foi destacado, pela sua bela voz de locutor, para dizer algumas palavras a fim de acalmar a plateia. Falou por mais de uma hora e ninguém se deu conta.

Paulo Pontes começou sua vida artística como produtor de programas radiofônicos na Rádio Tabajara, da Paraíba, passando depois a colaborador do jornal "A União".

Como ator ele teve sua iniciação no velho e querido Teatro de Estudante, com participação na peça “Os Inimigos Não Mandam Flores, de Pedro Bloch”.

Se muda para o Rio de Janeiro onde participa, juntamente com Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, da fundação do Grupo Opinião e escreve o texto de estréia, o show "Opinião", em 1964.

Já em 1969, ingressa no grupo de dramaturgia da TV Tupi. Em 1970 escreve o roteiro do show interpretado por Paulo Gracindo e Clara Nunes, "Brasileiro: Profissão Esperança".

Em 1971, se torna nacionalmente conhecido com a peça "Um Edifício Chamado 200," espetáculo que assisti no Teatro Tereza Raquel, se não me falha a memória, protagonizado por Milton Moraes, no Rio de Janeiro, e por Juca de Oliveira, em São Paulo. Com esse texto ele dá uma ressuscitada na decadente comédia de costumes carioca.

Em 1972, no Rio de Janeiro, encena a peça "Check-Up", com direção de Cecil Thiré. No ano seguinte, sob direção de Flávio Rangel e com Jorge Dória no papel central, estréia "Dr. Fausto da Silva".

Paulo Pontes traduziu para o português "Man of la Mancha," musical escrito por Dale Wasserman, com música de Mitch Leigh e letras de Joe Darion, baseado em D. Quixote de Cervantes. Aqui no Brasil, a peça "O Homem de La Mancha" foi dirigida por Flávio Rangel. Chico Buarque e Ruy Guerra fizeram a versão para o português das canções. O espetáculo estreou em agosto de 1972 no Teatro Municipal de Santo André, contando no elenco com os atores Paulo Autran, Bibi Ferreira e Grande Otelo nos papéis de Dom Quixote, Dulcinéia Del Toboso e Sancho Pança, respectivamente. Em seguida, a peça foi então encenada no Teatro Anchieta, em São Paulo. Com a inauguração do Teatro Adolpho Block em 1973 no Rio de Janeiro, o musical permaneceu oito meses em cartaz.

Na televisão, Paulo escreve juntamente com Max Nunes, Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa, "A Grande Família," baseada, no seriado de TV norte-americano "All in the Family," e inicialmente dirigida por Milton Gonçalves (1972) e por Paulo Afonso Grisolli (1973-1975). Em 1977, estréia seu premiadíssimo espetáculo, "Gota d'Água", em parceria com Chico Buarque, e com o qual ganhou o prêmio Molière de melhor autor.

"Paraí-Bê-A-Bá" foi o título inventado por Paulo Pontes para um texto que escrevera para um espetáculo no Teatro Santa Roza. A coordenação do espetáculo foi de Raimundo Nonato e a direção de Elpídio Navarro tendo como assistente Rubens Teixeira e o próprio Paulinho. Infelizmente nunca tive a oportunidade de assistir ao espetáculo visto já morar em Recife. Uma pena. "Paraí-Bê-A-Bá," como se pode deduzir pelo título, era uma cartilha sobre a Paraíba, seus filhos, suas glórias e sua história.

Autodidata, considerado como um dos homens mais inteligentes e cultos do País, Paulo Pontes viveu 8 anos com a atriz Bibi Ferreira, que o acompanhou até a sua morte, aos 37 anos, vitimado por um câncer no estômago. Estava no Rio à época e decidimos, eu e um grupo de seus amigos ir até o seu apartamento fazer-lhe uma visita, talvez uma despedida. Fomos dissuadidos do nosso propósito por Bibi que se deu ao trabalho de nos encontrar no saguão e nos pediu que guardássemos na memória a figura de Paulinho em perfeita saúde. "Ele está muito debilitado", disse-nos ela. E assim foi. A imagem que guardo até hoje dele é de um carnaval em que nós dois brincamos juntos na Paraíba em 1971. Ele havia acabado de chegar do Japão inconformado porque lá não existia o menor resquício de festa momesca.

Ninguém é profeta em sua terra. Vejo no Blog do Pedro Marinho que passou em brancas nuvens a data do nascimento de Paulo Pontes, que se vivo estivesse teria completado ontem, segunda-feira dia 8, setenta anos. Nem mesmo a direção da Fundação Espaço Cultural, cujo teatro tem o seu nome, lembrou de fazer alguma homenagem, nem que fosse uma pequena nota nos jornais. A Paraíba é mesmo muito ingrata com os seus filhos ilustres. O meu velho amigo Paulo Pontes foi esquecido na própria terra que tanto glorificou. Completou 70 anos, e não ganhou sequer um bom dia. Deixa estar, tenho a mais absoluta certeza de que ele está lá no céu, onde deve ter entrado que nem Irene, sem pedir licença.

3 comentários:

Ipojuca Pontes disse...

Caro Hugo,

Correta, digna e solidaria a sua nota sobre a morte do Paulo que, se vivo fosse, estaria completanto 70 anos. Pessoalmente, fiquei comovido - e vou arquivá-la com um documento.
Fico grato pela lembrança oportuna e espero que ela repercuta na terrinha.
Abraço,
Ipojuca

Unknown disse...

Caro Hugo,

impressionante a (falta de)memória do brasileiro em geral.
Embora todas as instituições criadas para isso, há um certo descaso em manter aspectos da nossa cultura VIVOS, não somente arquivados em algum porão, e o reconhecimento de seus 70 anos de nascimento poderia e deveria ocasionar grandes comemorações.
Em sua brevíssima existência, Paulo Pontes foi de uma importância crucial para a nossa cultura.
Obrigada por nos lembrar disso.
Um abraço,
Cristina Vieira

Moacir Japiassu disse...

Velho amigo

Paulo Pontes morreu aos 37 anos. Teria feito 70, na última segunda-feira, dia 8, mas poucos souberam disso porque ele, celebrado autor de teatro e TV, parece que já foi esquecido. Meu conterrâneo, foi amigo e vizinho naquele balança-mas-não-cai chamado Edifício Richard, no 200 da R. Barata Ribeiro, Copacabana, no início dos anos 1960. Nós dois aproveitamos aquela experiência única; ele, para escrever a peça "Um Edifício Chamado 200"; eu, para criar um dos cenários do romance "Quando Alegre Partiste".
Moacir