sexta-feira, maio 09, 2008

LADEIRA ACIMA

Recebi este texto com a seguinte recomendação:
"Ô Hugo, esse minino. Vê se presta mandar
esse negócio aí pro Riobaldo."
Ósculos e Amplexos
Aline

Fiz melhor, postei no Blog.
Olha aí, Riobaldo et caterva,
dessa vez a menina Aline rodou
a baiana. Confiram.
HC


Aline Alexandrino


"O problema nunca foi de esquerda e direita. O problema é que,
em qualquer regime, tem sempre meia dúzia por cima e um
porrilhão por baixo" (Millor Fernandes – A Bíblia do Caos)



Meu caro Riobaldo. Como fui citada no seu último texto do Blog, estou me sentindo à vontade para, como fazem os senadores citando o artigo 14, ter o direito de resposta. Então prepare-se que lá vem a cavalaria...

De início, concordo com você. Tá preta a coisa! Naufrágios por irresponsabilidade, com perdas de inocentes. Falcatruas intermináveis, acompanhadas da respectiva impunidade. Celebridades inconseqüentes até com sua própria sobrevivência no mercado. Aposentadorias milionárias ao lado de um salário mínimo minimorum, como a gente dizia antigamente, quando ainda se estudava Latim. Honestidade, honradez, solidariedade, e valores similares, perdidos na mediocridade reinante e acachapante. Realmente, não tá fácil. Entretanto...

Esse país é constituído por um povo que tem a vocação da sobrevivência. Sobrevivemos ao Tratado de Tordesilhas, às Capitanias Hereditárias, a todos os ditadores de plantão nestes 500 e poucos anos, e às opressões da matriz do hemisfério Norte enquanto construímos, aos trancos e barrancos, um país que é forte, pujante, com riquezas aparentemente inesgotáveis, um povo criativo, e que basicamente realmente não desiste. Deixe logo eu esclarecer: não sofro da síndrome de Pollyana. Tanto que reconheci, no começo deste palavrório, tudo aquilo de que você se queixa. Mas quem tem razão é o filósofo de Copacabana, Ibrahim Sued: os cães ladram e a caravana passa.

Eu sei que incomoda, que é chato a gente agüentar a verborragia do metalúrgico paulista-nordestino, que dói ver a situação das crianças nas ruas, da violência nas cidades e no campo, uma reforma agrária que não acontece nunca, um sistema educacional cada vez mais fragilizado, eu sei que às vezes dá vontade de desistir. De vez em quando digo que na próxima encarnação vou nascer na Finlândia, branca e loira (com direito de voltar todo ano pro Carnaval)...

Mas o Brasil é maior do que tudo isso e me recuso a entregar o ouro aos bandidos. Não posso entregar o ouro quando me lembro de Vinicius, de Elis, de Cartola, das escolas do interior de Pernambuco que, nos últimos 3 anos, ganharam o primeiro prêmio de gerenciamento escolar do país, com soluções incrivelmente criativas e pedagógicas. Não posso entregar o ouro, quando vejo que nós aqui no Blog do Hugão (grande figura!) continuamos sustentando um humor fundamental para agüentar essa vida de brasileiro, e principalmente porque tem um monte de gente pequena que está aí esperando pra participar também dessa festa. Não posso entregar o ouro, quando vejo o país crescer, apesar dos governantes, que estão cada vez mais cínicos e debochados, porque seria então admitir que eles e todos os outros que falam do país tem razão quando criticam e dizem que não temos jeito. É isto que eles querem, acabar com nossa auto-estima, com a nossa certeza da grandeza dessa nação mestiça graças a Deus, para aí sim, poderem se locupletar ainda mais, usufruir do que é de todos e ainda morrer na cama, de velhice.

Comigo não violão! Vou incomodar enquanto estiver aqui! É trabalho de formiguinha? É! Mas veja onde elas chegam e o que fazem. Nós somos muito melhores que eles e não admito estar no mesmo saco. Não sou esse tipo de farinha. Isso não quer dizer que não estou indignada, e confesso que de vez em quando faço como você: entro em deprê, digo que isso aqui não tem mais jeito, que a vaca já tem condomínio no brejo, que não é o fundo do poço porque o poço não tem fundo, e otras cositas más... Aí acordo no outro dia e vejo o sorriso de uma criança que merece ter uma vida melhor, olho pra mim e vejo que bem ou mal resisti à passagem dos anos, com dignidade, que como a grande maioria do povo brasileiro não mato, não roubo, não engano, pago as minhas contas (reclamando, é claro), sou bem humorada, tenho amigos que tem enormes qualidades, gosto de feijoada (se bem que ultimamente tenho que maneirar) e choro toda vez que ouço o Hino Nacional, especialmente se ganhamos o jogo.

Em resumo, acho que gente como nós, que ainda pensa e ama a terra em que nasceu, porque não verá nenhum país como este, está aqui pra impedir que essa canalha dominante não se sinta completamente segura à noite, quando vai tentar dormir. Já passamos por coisas piores, e não é esse bandozinho de aloprados que vai estragar a nossa festa. No meu caso, quem for ao meu enterro pode apostar que vou estar sob protesto e contra a vontade, porque quero ser formiguinha pelo maior tempo possível. Parece pouco, ou ingênuo, mas não é. Eles gostariam que entregássemos os pontos mas isso não vai acontecer. Sabe por que? Porque nós somos a maioria, pô!!! E como tudo que começa acaba, isso tudo também vai passar...

"Sou um índio do asfalto e não sei viver fora do Brasil.
Minha árvore genealógica é a mangueira"
Millor Fernandes, idem)

quarta-feira, maio 07, 2008

LADEIRA ABAIXO


Riobaldo Tatarana


No geral, não há nenhuma vantagem em ser velho. Mas como no Brasil tudo é diferente, descobri uma vantagem na minha idade provecta: não terei que aturar por muito tempo ainda a opereta tediosa em que se transformou esse belo país. E não adianta tapar os ouvidos, deitar na areia da praia que nem o João Valentão, e fingir que não é com você. As notícias chegam, pela internet, pela tv, e até pela loquacidade da D. Mira, que reproduz à sua maneira tudo que escuta nos telejornais.

Somente esta semana registraram-se:

1) o milionésimo naufrágio nos rios da Amazônia com centenas de vítimas, em navios já condenados pela Capitania dos Portos, e que trafegam tranqüilamente pra cima e pra baixo com excesso de passageiros;

2) a centésima milionésima falcatrua envolvendo funcionários públicos federais, estaduais e municipais, com direito a aparecerem algemados em primeira página de jornal, para no dia seguinte obterem ali na esquina o competente habeas corpus e irem para casa usufruir da roubalheira;

3) o centésimo escândalo envolvendo “celebridades” – como esse otário Ronaldinho, um fenômeno de obesidade e obtusidade;

4) mais uma “aposentadoria” milionária concedida a supostas vítimas da ditadura – no caso, Ziraldo e Jaguar – que jogaram no lixo tudo o que podíamos dizer de bom sobre eles.

Por tudo isso, meus amigos, tenho dito que o problema da safadeza brasileira não atinge somente nossos bolsos e nossa “imagem” (qual?!) lá fora. Atingem sobretudo nosso combalido estômago, obrigado a digerir tanta patifaria, desde o olhar fingidamente surpreso do Lula diante da sucessão de escândalos, até o olhar de vestal do FHC, tão sem-vergonha quanto seus sucessores. E haja chá de boldo, haja o carinho de minha santa mulher, haja água de coco e rede na varanda. Um dia desses vi, num desses canais tipo Discovery, uma matéria sobre uma tribo desconhecida, que mora numa ilha perdida na Oceania, um povo primitivo, que anda pelado e vive da criação de bacorinhos. Moram em choças, andam bem sujos, são feios de doer. Mas como riem, como se abraçam, como acham graça em seu próprio trabalho, em suas caçadas pela floresta, em suas crianças. Fiquei pensando comigo: esses caras são incomparavelmente mais felizes do que nós. Eles não têm tv nem internet, nem planos de saúde ou de aposentadoria. Mas também não têm lulas nem efe-agá-cês, nem ziraldos nem jaguares, devem portanto possuir um trato gastro-intestinal de primeira ordem.

Quem leu Os Maias – parece que ainda há uns dois ou três velhinhos, contando comigo, que ainda lêem Eça de Queirós - deve lembrar do desabafo do Carlos da Maia diante da fofocagem reles de Lisboa: “a mim, está a apetecer-me uma cubata na África”. Um outro companheiro, já falecido, antes de ir embora declarou aos amigos que tinha um sonho: vender amendoim torrado em Port-au-Prince. Porque esse é o único sentimento que nos resta, ir embora, ainda que seja para uma cubata no centro da África, ou para a miséria haitiana, por absoluta incompatibilidade entre nosso estômago e o que se passa diante dos nossos olhos. Por que será que ficamos tão safados? Que fenômeno antropológico e sociológico é esse, de uma nação que de repente perde a vergonha na cara, joga o pudor no lixo, e exibe-se de calcinhas sujas diante do mundo? Como chamaríamos essa epidemia? Síndrome do deputado?

Nosso desaparecido Lalau tinha uma expressão excelente para significar algo que ultrapassava os limites da safadeza: “é de encabular senador”. Isso, num tempo em que ainda havia tanta gente de caráter, tanto intelectual sério, de esquerda e de direita, havia um Tristão de Ataíde e um Gustavo Corção, um Carlos Prestes e um Brigadeiro Eduardo Gomes ou um Teixeira Lott. Você podia não concordar com o que eles diziam, mas não tinha como acusá-los de falta de honradez. Tristão e Corção, homens de vastíssima cultura e inteligência, passaram anos brigados por um desacordo puramente intelectual, tal a seriedade com que encaravam suas convicções. No final, fizeram as pazes, Tristão teve a grandeza de dirigir-se à casa do desafeto e pedir-lhe perdão, e o velho reacionário, sem conter as lágrimas, limitou-se a beijar-lhe as mãos. Dois gigantes de dignidade, uma espécie em acelerada extinção no país. Prestes, o Brigadeiro e Lott terminaram quase pobres, porque “contentaram-se com seu soldo”, como manda a Palavra de Deus.

Repito a dúvida camoniana: será que no assento etéreo para onde subiram esses grandes compatriotas, se consente alguma memória dessa vida? Não sei. Mas sei que Deus é bom, o amor é a qualidade que define o Todo-Poderoso. E por isso mesmo, creio que Ele não consente a esses homens e a muitos outros homens e mulheres da memória nacional para sempre passada – que tenham acesso ao Brasil de hoje. Pois como não podem morrer novamente, certamente sofreriam muito ao ver o que estamos vendo. Ó companheiros do blog, vocês que são sábios, o Grisi que nos brinda com seus doutos ensinamentos, a Aline, que não suporta safados nem safadezas, o Valdez, que foi juiz e é homem inatacável, o próprio dono do pedaço, esse Hugo que continua a indignar-se com o que vê, ajudem-me! Digam-me que estou enganado, que ao menos sobramos nós e mais uns três gatos pingados, que as novas gerações serão diferentes. Ajudem esse velhinho a terminar seus dias sem tanta amargura. E se tiverem algum bom remédio pro estômago, forneçam-me, por favor, o nome.

domingo, maio 04, 2008

Queridos Amigos



Hugo Caldas


Antes de qualquer coisa, Data Maxima Venia Senhora Dona Maria Adelaide Amaral, por descaradamente usurpar o título da vossa interessantíssima minissérie. Belo trabalho que prende a atenção de todos. Quem não viveu a época? Quem não passou por aquilo tudo? Quem não teve também os seus queridos amigos e com eles se reunia para, em noitadas memoráveis, encher a cara de chope, meter o pau na ditadura e voltar para casa puxando fogo, certos de que o governo cairia no dia seguinte? Quem não se viu retratado ali? Ah, quem não sofreu, teve amigo ou parente que passou por algo parecido? A nossa realidade era aquela mesma. Ou muito semelhante. Aqueles não foram anos de cólera, foram anos de uma lepra que se alastrava e corroía este sofrido país de norte a sul. Pelo pouco que conseguí assistir da minissérie, devido à inconveniência do horário - o velho dormia à sono solto - me emocionaram principalmente as cenas reais do retorno dos exilados, mixadas com cenas feitas agora. Eu estava ali. No dia da volta de Prestes, Gregório Bezerra, Miguel Arrais e mais uma porção de gente que havia sumido no rabo de um foguete. Já relatei o episódio no Recuerdo de número 12.

Queridos Amigos, passamos por tudo aquilo juntos. Hoje infelizmente, estamos dispersos. Somente nos encontramos em eventos absolutamente especiais, como enterros, batizados, aniversários de antigos companheiros, hoje, muito bem comportados, diga-se de passagem. Quando os reencontro, o "Sinal Fechado", de Paulinho da Viola fica a martelar a cabeça. Não nos vemos com a mesma freqüência. Nos dispersamos, a despeito de tudo. A despeito do pedido do Dr. Tancredo Neves logo após a derrota da emenda das "Diretas Já". O país hoje está, pobre coitado, caminhando no perigoso terreno da galhofa, tudo muito surreal. De alto a baixo. Eu é que continuo o mesmo. O mesmo ingênuo, o mesmo naïf ou seja lá o que queiram entender sobre a minha modestíssima pessoa.

Queridos Amigos, se estávamos juntos durante os anos de chumbo vamos concordar que não poderia ter sido de outra maneira. Odiávamos aquele estado de coisas. Toda aquela exceção. Todo aquele arbítrio, as liberdades indo pelo ralo.

Mal comparando...

Queridos Amigos, lembram o Timoneiro Mao e o General Chiang-Kay Sheck? Pois é, viviam se engalfinhando nos anos 30, até que um inimigo comum muito mais poderoso, fez com que os antagonistas, inimigos figadais, juntassem forças, lutassem contra o japonês invasor e o expulsasse. Ato contínuo voltaram a se guerrear. Para mim, que nunca entendí muito bem dessa tal de dialética era esse o pensamento, era essa a idéia. A de juntar forças, naturalmente. O que não quer dizer em absoluto que eu chegasse a rezar pela mesma cartilha. O meu pai sempre dizia que nunca a esquerda iria ser implantada no país. Não pela via da revolução, pois se a revolta caísse num fim de semana ou no carnaval ninguém iria. O meu pai tinha razão. A esquerda chegou ao poder pela via democrática. Deu no que deu!

Queridos Amigos, a Alemanha, que eu saiba, pagou à Israel pelos seis milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial, 5 bilhões de dólares. Aqui em Pindorama, a farra com o dinheiro público já pagou quase 2 bilhões de dólares, para as "vítimas e os heróis da resistência". Dinheiro, que se sabe, desviado da saúde, da educação, do saneamento básico, da segurança pública. Enquanto isso haja violência, haja dengue. Milhares de pessoas, esperando a morte, que pode ocorrer por falta dos medicamentos mais simples, até esparadrapo e mercurocromo, para não falar em falta de radioterapia. Enquanto isso os corruptos de hoje e sempre, roubam o dinheiro que é meu, seu, nosso, etc.

Queridos Amigos, coisas muito estranhas começaram a acontecer e custo a crer que aqueles que lutaram à época, estariam agora esperando a ocasião propícia para "se arrumar". Investimento nas horas más para colher frutos nada saudáveis no futuro? Será possível mesmo? Não, não quero acreditar nisso. Mas infelizmente as evidências estão aí para qualquer um constatar. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça ignora qualquer crítica à forma utilizada de conceder indenizações a supostos prejudicados pela repressão da ditadura, e volta a distribuir o dinheiro do contribuinte. Ninguém diz nada? Parece que o país está anestesiado, somos o país da mentira. Estamos no melhor dos mundos, é isso?

Queridos Amigos, o Ziraldo e o Jaguar foram brindados cada um com UM MILHÃO DE REAIS além de uma conveniente aposentadoria mensal de cerca de OITO MIL REAIS.Tudo por danos causados pela Redentora. Eles nunca sofreram nada mais contundente do que "uma famosa gripe" que assolou a redação do "O Pasquim". Ao ser perguntado se teria sido torturado na prisão o Paulo Francis declarou afirmativamente:

"O carcereiro ouvia Wanderleia o dia inteiro com o radio nas alturas".
O episódio bem demonstra como ele e o grupo levaram à sério a tão alegada prisão. Aliás, o que diria hoje o famoso "Lobo Hidrófobo" se vivo fosse? Existe ainda uma récua de outros "injustiçados" que estão dando entrada na Comissão de Justiça para o recebimento de suas sinecuras institucionalizadas.

Queridos Amigos, eu também fui preso, está relatado no Recuerdo 7, de 11 da manhã de um dia até 3 horas da madrugada do dia seguinte. Isolado. Confundido com um perigoso terrorista argentino - epa - a família sem saber de nada pois me foi proibido usar o telefone. No trabalho ninguém tinha a menor idéia do que acontecia comigo. Me comportei, apesar do arbítrio, condignamente. Acho que foi aí que eu errei. Durante o interrogatório paranóico, onde só o fulano lá berrava, eu bem que deveria ter pelo menos dado um pontapé nas canelas do general. Se não tivessem desaparecido comigo eu teria ficado um bom tempo em cana o que me daria evidentemente o direito de hoje pleitear a minha Bolsa Ditadura para muito espertamente receber o meu.

Queridos Amigos, no mais é repetir o Barão de Itararé... ou terá sido o Stanislaw Ponte Preta?....

"Ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade"

hucaldas@gmail.com

sexta-feira, maio 02, 2008

Lições de sabedoria


Carlos C. de Melllo

“O essencial é invisível para os olhos”. Quem lembra dessa frase? Está no O "Pequeno Príncipe," livro que encantou algumas gerações do século passado, e que hoje é tido por muitos como cafonice e antigualha. Mas eu não receio ser tomado por antigo – na verdade sou-o – nem cafona – pois não ligo para preconceitos e estigmas de mentes tacanhas. Hoje os que se acham donos do mundo demonstram uma rejeição cada vez mais forte às coisas do espírito – das obras de arte aos textos sagrados. Já o grande poeta Jorge de Lima lamentava em suas Memórias “esse desprezo que votam certos graúdos e burros de hoje pelos poetas. Poetas vivendo em mundos de lua não servem pra capitalizações, negócios e sordícias, dirão que poetas são desprezíveis”.

Verifique você mesmo: pegue o jornal de hoje e veja como o espaço “nobre” é dedicado preferencialmente aos fatos políticos e econômicos (geralmente roubalheiras e traições), aos esportes (sobretudo o lado negativo da violência) e às ocorrências policiais, cada vez mais tenebrosas. Há uma curiosidade mórbida no ar, alimentada sinistramente pela televisão. Sobra pouco espaço para quem anda em busca de algo que eleve o espírito, areje a mente e proporcione algum alento à difícil caminhada nesse deserto de homens e idéias em que vai se transformando o mundo, e com ele nosso país.

Essas reflexões me ocorreram hoje com mais vigor, após a leitura do livro de crônicas "Lições de Viver", do escritor paraibano Carlos Romero. Faço desde já um desafio a qualquer futuro leitor desse livro: leia a primeira crônica e experimente parar. Aposto que não conseguirá. Porque o texto do Carlos é um delicioso biscoito fino, a gente experimenta e fica com aquele gosto de “quero mais”. São 60 crônicas, breves, leves como a brisa marinha que sopra sobre o Cabo Branco, residência privilegiada desse artista sensível, encantado com as coisas simples e maravilhosas que o Criador distribui em profusão pela terra.

A bendita curiosidade de Carlos pelo sol, pela chuva, pelas borboletas e passarinhos é um colírio, que abre nossos olhos para tanta coisa maravilhosa, que preferimos não ver, que trocamos irresponsavelmente pelas cenas de violência, pelo corre-corre, pela pressa amalucada do mundo. Por isso, esse cantor do cotidiano lamenta “os sem curiosidade, que olham as belezas da vida com muita indiferença, que passam sem ver as flores de um jardim, o azul de um céu, o verde das ondas do mar, uma lua solta entre as nuvens”.

Mas Carlos não se limita ao olhar emocionado e agradecido. Dessas coisas aparentemente sem importância, ele retira, com sua larga experiência, sua profunda cultura e sua inteligência privilegiada, lições de vida que encantam pelo bom senso e pela simplicidade. Quantos aproveitarão delas para sua vida? Quantos pararão para refletir sobre o que fazem e sobre o que deixam de fazer? Quantas vezes você, leitor, deixou de olhar para o mar azul à sua frente, porque estava de olhos fitos no relógio? Quantas vezes ficou surdo ao canto de um passarinho, por ter a audição bloqueada pelo celular? Quantas vezes trocou a conversa estéril na agitação do bar por uma lenta caminhada entre as árvores?

Só lhes digo isso: leiam o livro. Deixem-se penetrar por esse canto suave, cheio de doçura e sabedoria. Talvez ainda haja tempo para uma correção de rumo, antes do enfarte ou da depressão. Talvez você possa inverter essa equação mortífera do ter sobre o ser, da posse de bens materiais dos quais muitas vezes sequer usufruímos por falta de tempo, pela fruição daqueles bens sem dono e sem preço, que estão à sua disposição de manhã à noite. Porque, como diz o filósofo Thich Nhat Hann, citado por Carlos na última crônica do livro, “está morto quem não se conscientiza do momento que está vivendo.” Está mais do que na hora de pensar nisso.

sábado, abril 26, 2008

RECUERDO 32 - A Travessa Rio Grande do Sul


Hugo Caldas

Nunca entendi muito bem a razão do gauchesco nome. O que poderia haver entre a Paraíba e o Rio Grande do Sul, além da aliança em 1930; além das balas escamoteadas em latas de manteiga; além das mantas de carne de charque recheadas de armas e munição, desembarcadas na calada da noite em Ponta do Seixas; o que realmente existiu para o nobre estado sulista merecer o nome de uma rua? Aliás, esse assunto de nomenclatura de ruas, cidades, logradouros etc, trocá-los ou não - oh falta do que fazer - anda muito em voga por estes dias em pagos tabajarinos. Me refiro a algo que nada tem a ver com revoluções, e malquerenças Liberais/Perrepistas. A Travessa aí de cima era o nome da rua em que eu morava quando adolescente na década de cinqüenta.

Transversal da Av. Epitácio Pessoa (epa) o simpático logradouro se iniciava descendo uma pequena ladeirinha. Não era calçada, e todo mundo sem exceção, se dava muito bem. Casas geminadas, todas iguais. Não diferiam em nada. Talvez para igualar as pessoas, evitando mania de grandeza. Na casa em frente morava seu Pedro, casado com Dona Anunciada. Tinham um filho por nome Caio. Seu Pedro, amigo do meu pai tinha um irmão gêmeo chamado Paulo. Eram idênticos o que causava a maior confusão na cabeça dos garotos da rua. Junto morava a família de Dona Maristela, mãe de Astrogilda, João e um garoto de uns quatro ou cinco anos muito do chatinho. O pestinha vivia inteiramente pelado, dia e noite. Convenhamos que não era exatamente um belo espetáculo o garoto nú, com os penduricalhos à mostra e chupeta na boca, nariz escorrendo. Às vezes aparecia nos mesmos trajes com um cigarro no bico e uma mão nas costas, andando pra cima e pra baixo no jardim. Chorava por qualquer dez réis de mel coado. Manhoso estava ali. O velho pai lhe fazia todos os seus gostos. Fim de rama!

No mesmo correr descendo um pouco mais à direita ficava a casa de Venelipe, enfermeiro lotado na Secretaria da Saúde, Presidente do Filipéia Futebol Clube, protestante praticante. Tomava uma cana acertada. Venelipe era a elegância em pessoa. Preto, dentes alvíssimos, alto, simpático, educadíssimo, envergava sempre um terno de diagonal muito bem engomado, chapéu de feltro cinza, sapatos sempre lustrando. Espetáculo digno de monta era quando ele voltando para casa absolutamente embriagado descia a ladeirinha, elegantérrimo, tudo no lugar, totalmente à deriva, tentando se equilibrar e ao mesmo tempo salvaguardar a sua inseparável Bíblia. Uma figura no mínimo curiosa. Família também fora do comum, pois além das peripécias do patriarca pinguço, nutria uma outra peculiaridade. Como bons evangélicos que eram, Venelipe e esposa colocavam na prole nomes tirados da Bíblia Sagrada. Adão, Eva, Abel, Isaac, Jacó e por aí vai. Na época, o último rebento foi brindado com o nome de Zorobabel.

Pegada com a nossa tinha a casa de Dona Jarina, sua irmã Tonha que trabalhava em uma firma na Maciel Pinheiro, e as filhas Risoleide e Zenilda. Uma família da mais alta fidalguia. Dizia Dona Jarina, em tom zombeteiro sobre a mão fechada de sua irmã: "Tonha não gosta de gastar dinheiro. Nunca comprou nada pra ela. Na farmácia ela não se agrada nem de um cachete." Certa vez Tonha, que havia terminado um namoro, estava sentada no muro, tristíssima, a pensar na vida. Dona Jarina gritou lá da cozinha:

- Que estás fazendo aí, Tonha? Vai querer se suicidar, é? Cuide de cair pro lá de cá, porque se cair pro lado de lá o cachorro de Seu Cromácio come!

Com o passar do tempo Dona Jarina e família se mudaram para o Rio de Janeiro. De vez em quando a minha mãe e ela se visitavam.

Havia pois na casa ao lado, seu Cromácio Arnaud, casado com Dona Acidália. Vieram do alto sertão curtir uma merecida aposentadoria. Seu Cromácio tinha, como já sabem, uma fera dentro de casa. Um cachorro enorme branco e feroz. Era o terror da rua. O cachorro, evidentemente.

E tinha também o Luís, ah, o Luís! Sujeito magricela, meia idade, recém-casado, era bom alfaiate. Vivia às turras com a mulher sempre terminando suas desavenças num Grand Finale digno dos melhores filmes da Pelmex. Se ensopava de querosene e ameaçava atear-se fogo. A empregada, coitada, escondia todos os fósforos da casa e corria apavorada em busca de alguém a fim de impedir o tresloucado gesto do seu patrão. Meu pai, por ser amigo de Luís, era sempre o escolhido que ia meio a contragosto, salvar o candidato a suicida. Até o dia em que encheu o saco, ao chegar mais uma vez à casa de Luís, à essas alturas mais uma vez encharcado de querosene, a procurar por algo que fizesse fogo. Ameaçava, qual monge budista, imolar-se a fim de ver o que a sua digníssima cara metade faria. Ela, sentada numa cadeira de balanço, não dava a menor bola, acostumada que estava à corriqueira palhaçada. Meu pai, decidido tirou do bolso uma caixa de fósforos entregou à Luís dizendo:

- Está aqui, Luís. Toca fogo, vamos lá, não é homem, não?

Foi água na fervura. Cessaram ali, para sempre as ameaças suicidas do seu Luís. Dizem que depois dessa viveram felizes para todo o sempre. Não sem antes, procedimento da maior sabedoria, demitir a empregada trocando-a por outra.

A Travessa descia mais um pouco e terminava na Rua Rio Grande do Sul perpendicular à entrada do logradouro. Ali, moravam a família de Seu Nelson, um pernambucano que veio transferido do Recife a fim de abrir um escritório da "Arrozina" um produto de alta aceitação. Gente muito boa, família grande: Nelson Filho que terminou casado com Zenilda, filha de Dona Jarina, Dei (era assim mesmo que o chamavam) um outro irmão meio artista, que gostava de tocar bateria nos móveis da sala e mais duas filhas. Uma se chamava Haidée e eu até me enfronhei em ter um namorico com ela. Talvez porque achasse o nome bonito, ela era bonitinha, e eu havia lido recentemente "O Conde de Monte Cristo" onde havia a princesa Haidée. Soube que ela teria enlouquecido tempos depois. Uma pena.

Finamente havia os Pordeus. Família de matemáticos. Meu pai contratava um deles, se não me engano, Gilberto, para me dar aulas extras pois sempre fui burroide na matéria. Tempos depois encontrei José Pordeus trabalhando na Receita Federal no Recife. Basílio era da minha idade e nos dávamos muito bem. Sujeito engraçado, pois via tudo como uma eterna piada. Certa vez veio me mostrar o dedo polegar inchado por conta de um minúsculo pedaço de madeira que acidentalmente havia entrado. Às gargalhadas falava que o que estava dentro do seu dedo tinha dois nomes pra lá de hilários: uma "filepa" ou uma "felpa" e embolava a sorrir. Tinha uma irmã, Terezinha que andou de namoro com um amigo meu, o Celso Almir, mais novo um ano ou dois do que ela. O que nos matava a mim e outros amigos de inveja por ele estar namorando uma "moça de verdade."

À noite a minha casa se enchia de amigos e íamos para a esquina conversar potocas. Vinham Almir, o Cego Silvinha, Serafim, O Magro Gilvan, Paulo Jubert e Calico de vez em quando e o Eudes do Oriente. Durante o dia havia ainda as garotas Célia e Eunice que moravam perto.

Por onde andam todas essas pessoas? Alguns tenho certeza que já se foram. E hoje, ao desdobrar esse filme na minha mente me atrevo a fazer a pergunta do belo poema de Manuel Bandeira:

"Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo.
Estão todos deitados.
Dormindo. Profundamente."

hucaldas@gmail.com

EPISÓDIOS DA VIDA ESTUDANTIL: DO GINASIAL AO COLEGIAL

Breno Grisi


EPISÓDIO II – O CIENTÍFICO. Ver os colegas de antigamente nos dias de hoje, profissionais com títulos acadêmicos e com destaque na sociedade, competentes, sisudos, não dá para associá-los às figuras irrequietas, energéticas, cheias de idéias criativas e ardilosas, que foram nos cursos ginasial e colegial.

Exemplifico com os episódios vividos por Calui (hoje, médico dermatologista Carlos Fernandes Martins), Sérgio Rolim Mendonça (engenheiro sanitarista de renome internacional) e até mesmo o contador de estórias que ora vos alcança através deste “blog”.

No primeiro ano científico, na bagunçada turma de 1959 no Pio X, um de nossos mestres era o irmão Herman que, já um pouco idoso, era alvo de inúmeras brincadeiras dos (ainda) “pestinhas” adolescentes. O lema dessa turma de desvairados era gritado orgulhosamente por um dos seus comandantes, o Cláudio Macaco-Branco (“vulgo” Cláudio Mello e Silva; hoje advogado, aposentado do Banco Itaú):

- Se a vagabundagem está atrapalhando os estudos ... deixe os estudos!

Certo dia, andava o irmão Herman pelo corredor, num intervalo de aulas, quando foi surpreendido por uma “manguitada” bem no meio das costas; ou seja, um atrevido tinha-lhe acertado um fruto imaturo de manga, conhecido como manguito. O irmão Herman virou-se e pensou ter flagrado o agressor, dissimulando com a leitura de um livro, sentado próximo ao acontecimento. Era o nosso pacato colega Calui lendo um livro de José de Alencar, mas que ao ver o irmão Herman vociferando impropérios acusadores em sua direção (se não me engano um ... “Ah! Foi você, sêo moleque!!!), foi obrigado a correr pelo Colégio afora. Dava para se ouvir alguns gritando, entre risadas, ... pega ... pega!!! O bom preparo físico do Calui versus a idade do irmão Herman resultou na vitória do primeiro, que escapou ileso.

A indisciplina reinante era vez ou outra adicionada de toques inusitados, ou melhor dizendo, ruídos inadequados, como no dia em que Sérgio Rolim encheu uma lata com grilos e os soltou em lugares estratégicos na sala, simulando uma manhã na floresta! Na turma de 1960, que tinha o irmão Herman como regente de classe, arranjava-se qualquer motivo para se interromper as aulas. Carlos Antonio Ribeiro Coutinho (filho de Renato Ribeiro Coutinho, grande usineiro na época) simulou um desmaio e aos comentários do irmão Herman ... “aula dramática ... aula dramática” , era carregado entre as filas das carteiras, esforçando-se para conter o riso, sem conseguir. Paulo Cêta (que apelido hein???) o abanava freneticamente.

Já no terceiro ano colegial, turma noturna concluinte de 1962, o irmão Luiz, apelidado de Tupiniquim (pelos seus esforços inexauríveis em defesa da língua pátria), às vezes repelia energicamente as nossas interferências. E num desses dias, rejeitou um sussurro meu e gritou

– Breno! Pula fora!

Eu até que ia sair obedientemente. Mas, um colega provocador (se não me engano, o hoje engenheiro civil Tadeu Pinto), incitou-me à irreverência, falando-me pelo canto da boca

– Obedece Breno! PULA!

E eu, “obedientemente” abandonei a sala com uma pequena corrida e um grande pulo. Não precisaria dizer que ao fundo ouviram-se tremendas gargalhadas.

– Tô lascado!

Ainda pensei. Mas Tupiniquim era também um ser compreensivo. Talvez por façanhas como essas, fizeram algumas pessoas me chamarem de “sonso”, adjetivo que eu odiava! Dissimulador, talvez fosse uma denominação suavizadora mais adequada.

... e éramos, de verdade, todos felizes.

sexta-feira, abril 25, 2008

MEMÓRIAS DE AMOR


Kátia Dias

Sob o céu azul — calor do sol aquecendo meu corpo e minha alma — ao som do mar, relembrei meu grande amor. Recordei mais uma vez o dia mágico em que nos conhecemos.

Como que por encanto, naquele oceano de gente, um ser logo se destacou! Tudo nele me chamou atenção: olhos, cabelos, boca... Naquele instante, senti o tempo parar, e quase cheguei a cair, quando, em verdadeiro transe, o vi caminhar em minha direção. No momento em que ele se dirigiu a mim, não pude conter o nervo-sismo, falei feito autômato sobre assuntos sem importância como o tempo, o sol, o calor e coisas mais, tudo sem nexo. Até que,lentamente,fui recobrando o controle, e a conversa passou a fluir com algum sentido.

E aí nasceu nossa amizade.

Após um mês de telefonemas diários e passeios com amigos, veio, finalmente, o primeiro beijo. Quando isso aconteceu, tive a sensação de que meu coração iria explodir. Foi desse beijo — desse encantamento — que tudo começou a se solidificar entre nós.

A cada dia que passava, me sentia mais envolvida pelo sentimento mágico. Dia-a-dia íamos nos conhecendo, nos admirando e nos tornando mais e mais próximos. Aos poucos, fomos perce-bendo, o quanto éramos necessários um ao outro. Nossa cumplicidade crescia, compartilhávamos desejos e anseios, esperanças e frustrações.

Lembrei do dia em que ele tentou terminar o namoro. Que fracasso! Chegou a ser engraçada a situação. Ele queria colocar ponto final no sonho, pois precisava de liberdade, segundo disse. Mas queria terminar sob a condição de continuarmos amigos, como havíamos combinado que sempre o seríamos. Contudo, não mais aceitei tal idéia, desejava-o como namorado, unicamente. Diante de minha firmeza, com lágrimas nos olhos ele pediu perdão, voltou atrás. Posteriormente rimos muito desse quase lastimoso fato.

Transcorrido algum tempo, partimos para algo mais sólido: o casamento. Momento inesquecível e maravilhoso vivido por nós. Na bela cerimônia, achei-o lindo como nunca. Tenho que admitir, eu também estava deslumbrante. Quanta felicidade a nos envolver! A ventura era tanta, que quase se podia ver seus raios emanarem de nós em todas as direções. Nossos familiares e amigos não cansavam de comentar, de dizer da felicidade que se lia em nossos semblantes.

Após um ano de completa ventura, a emanação continuava a mesma. Quando, em conversa com pessoas amigas, carinhosamente me referia a meu marido, todas perguntavam há quanto tempo estávamos unidos. Diante da resposta, manifestavam-se surpresas: ah, está explicado tanto amor, ainda estão em lua de mel! Em seguida, algumas dessas pessoas vaticinavam como aves de mau agouro: esperem o tempo passar... Mas, contrariando todos os presságios, após dez anos, ainda nos sentíamos vinculados, dependentes um do outro.

Com o passar do tempo, as pessoas continuaram percebendo a amplitude de nossos sentimentos. E já não se admiravam da intensidade de nosso amor. É claro que aconteceram dificuldades entre nós, ele sabe tanto quanto eu. Juntos, passamos por momentos dolorosos. Lembro-me, com dor no coração, do pior desses momentos, a morte do pai dele. Presenciamos ruir, à nossa frente, um dos pilares de nossas vidas. Mas eu estava ao lado dele, pronta para consolá-lo e dar-lhe o apoio necessário a fim de superar essa dor.

Durante dezessete anos, simbolizamos a encarnação do amor devotado. Nos últimos tempos, porém, passamos a ver as coisas de forma diferente. O curioso é que, até nessa mudança de ótica, concordávamos. Ambos estávamos vendo possibilidades outras em nossas vidas. Descobrimos que, nem mesmo esse grande amor seria suficiente para manter-nos unidos e felizes.

Hoje estamos separados, cada um com sua vida. Estamos felizes, graças a Deus, com os caminhos que escolhemos. E continuamos amigos. Amigos de verdade. Torcemos de coração um pela felicidade do outro. Tenho certeza de que, em qualquer situação, podemos nos amparar mutuamente. Por tudo isso, posso concluir que almas gêmeas existem. Mas essas almas não precisam, necessariamente, partilhar a vida para estarem felizes e realizadas. A felicidade e realização podem ocorrer só por se saber da felicidade e realização do outro. Mesmo quando se está longe.

Enquanto estas lembranças vão fluindo à minha mente, o calor do sol, ao som do mar, continua aquecendo o meu corpo e a minha alma.

Sou feliz.

quarta-feira, abril 09, 2008

POEMA DE DJANIRA SILVA




ESCRITA DO TEMPO


Lágrimas frias o olhar tristonho

Esconde as cores do meu desencanto

Encerra uma tristeza no meu pranto

Deixa saudade no lugar do sonho


Recordo sempre de um olhar risonho

E de um sorriso de alegria e espanto

Ao descobrir o amor em cada canto

Sem inda saber que a vida é apenas sonho


E assim o tempo amortalhou a vida

Nos sorrisos, da face envelhecida

Na ilusão dessas saudades mortas


E agora tenho no lugar do rosto

O meu passado revelado, exposto

Escrito certo nestas linhas tortas

http://blogdjanirasilva.blogspot.com