segunda-feira, dezembro 02, 2013

Ladeira abaixo

Carlos Mello

O leitor que se aventurar até a quarta ou quinta linha, mudará imediatamente de leitura, pois pensará “lá vem outro velho a falar mal da Internet e a querer parar a marcha do progresso”. Pois bem, não estará totalmente equivocado, pois embora não queira perder tempo falando mal da técnica, tenho de dizer – para quem quiser ouvir – que o computador veio, sim, em prejuízo da leitura das obras clássicas, empobrecendo ainda mais a inteligência e a cultura contemporâneas. Mas, dirão apressadamente, já existe o e-book, não há mais necessidade desse objeto obsoleto e incômodo chamado livro. Será verdade?

A leitura de obras clássicas – ou de qualquer obra que ultrapasse o ramerrão comum da subliteratura – requer um certo nível de concentração. Ora, hoje quase todo mundo gasta um tempo enorme em frente à tela do computador. Não é por acaso que há tantos jovens com necessidade de óculos, devido à radiação que emana da tela. Mas há outro fato alarmante: as pessoas ora estão no Facebook, ora no blog, ora no Google, ora escrevendo para um amigo, ou lendo o noticiário de algum provedor – e essas mudanças de uma tela a outra se dão em questão de minutos, já que tudo é sucinto, superficial e rápido.

Ao saltar freneticamente de uma tela a outra, cria-se o chamado “cérebro de pipoca” – desatento às coisas mais importantes e permanentes.  Esta estimulação constante torna-se com o tempo uma segunda natureza, da qual será difícil desarraigar-se para processar a vida que está longe das telas – e que antigamente se chamava “realidade”. Quanto mais Facebook – ou qualquer outro similar – menos concentração. Efeito, aliás, recebido com palmas pelos que preferem o público absorto e alienado de seus problemas reais.

Outro problema é a ilusão em que caem muitos internautas de que se acham super bem informados e em dia com os últimos acontecimentos. Mas quais acontecimentos? Basta entrar na página inicial de qualquer provedor para avaliar do teor das notícias. A grande maioria refere-se ao que “os famosos” andaram fazendo nas últimas horas – se foram à praia, se estão malhando em alguma academia, quem está comendo quem...  E também a catadupa de faits divers – cachorro que foi encontrado abandonado, assaltos, acidentes, inaugurações – entrando em tudo isso a antiga e permanente prática de incluir “notícias” que vêm em benefício de alguém ou de algum produto ou marca – o velho e bom “jabaculê”.

Não é de estranhar que cada vez as pessoas se expressem de forma mais confusa e pobre. Se alguém se der ao trabalho de ler os comentários às notícias veiculadas pelos sites, constatará que além da dificuldade em usar corretamente a língua – desprezo pela gramática (sem a qual é impossível falar correta e claramente), abundam os erros crassos de ortografia e sintaxe, os lugares comuns e as platitudes abomináveis – tudo isso condicionado por uma luxuriante ignorância. Quando, no século passado, Napoleão Mendes de Almeida afirmou que, devido à péssima condição do ensino da língua, estávamos adotando “uma linguagem de babás e trombadinhas”, foi crucificado e arrastado pelas ruas como elitista e fascista (é fácil empregar esses termos, servem pra tudo e evitam o trabalho de pensar com honestidade). “Babás e trombadinhas” – deveria ter ele explicado - não são pessoas desprezíveis, mas sim compatriotas nossos, desprezados por um sistema educacional iníquo e incompetente, que trata a língua materna como uma lata de lixo. Como comentava sabiamente Machado, em um de seus romances: “Valha-me Deus! É preciso explicar tudo”.         
   

4 comentários:

Dayse de Vasconcelos disse...

Dayse de Vasconcelos Mayer
Puxa, Carlos, que artigo bem escrito e cheio de conteúdo! Li, reli e reli".

Aline Alexandrino disse...

Aline

Já leu A Civilização do Espetáculo de Llosa?

Leonardo Melo disse...

Leonardo Mello

Boa!
Estamos mesmo vivendo a era do twitter, onde só cabem textos até 140 caracteres. Isso quando as pessoas se dão ao trabalho de ler tudo... hehehe

Delmar Fontoura disse...



A Internet sob outro ponto de vista.


A Internet é a “unidade” de mídia mais "orgânica" da Comunicação, se constituindo no maior instrumento de difusão do comportamento do ser social, daí sua importância e perigo transcendentais para uma sociedade subdesenvolvida – sob o desenvolvimento – como a nossa...

Nosso corroído "Sistema de Comunicação” é tão sofrível com: o Rádio, a TV, a mídia impressa – gigante e anã –, que, há muito, deixou de ser o informador e formador de opinião, enquanto era o “Manto protetor da Democracia”. Mas os culpados por essa transformação são seus “agentes orgânicos”, pois, a qualquer custo, deveriam impedir que esse Manto se transformasse em um “trapo roto”, incapaz de cobrir e proteger, como se transformou.

Sobrevivemos todos... ...como náufragos embalados nessa marola de “desvio de direitos e deveres”, enganosamente salvos porque nos agarramos à tábua que nos mantém boiando precariamente: a Internet!...

Mas enganamo-nos ao pensar que ela é ou será a salvação. Não! Ela só comprova o que somos. NÁUFRAGOS!...

Independente da Internet, o que não deveríamos ser é: carimbadores do comportamento alheio nas “gôndolas” da sociedade... ...que é assim.


INTELECTUALIDADE E A BURRICE...

Só a intelectualidade
É uma baita chatice,
Embora não seja só ela,
Pois é também a burrice!...

Fossem todos “Doutores”,
Que habilidade haveria
Para pendurar o Renoir
Ou atender na editoria?...

Fosse o burro desprezado
Quem a carga levaria:
A estante, a escrivaninha
E até toda a livraria!...

Quem imprime, encaderna,
Empacota, a porta entrega,
Por certo não é um doutor
Sempre é um “burro brega”!...

Quem sabe se essas qualidades,
O saber com essa burrice,
Con’senso mediadas fossem...
Descesse o Doutor um pouco abaixo,
Subisse o “Burro” um pouco acima
E nesse encontro se abraçassem!..


Delmar Fontoura