quarta-feira, abril 10, 2013

Procura-se!

Téta Barbosa

Procura-se: víbora branca, com manchas pretas na ponta das patas, olhos arregalados e rabo cortado. Desaparecida desde quinta-feira.

Virna me esperava todos os dias no hall, perto do elevador. Me seguia assustada (e me assustando) até a porta de casa e ali ficava, no teto.  Coisa de víbora.

Claro que a primeira vez que ela entrou sem ser convidada fui procurar o detefon. Desisti de exterminar Virna unicamente porque Victor riu da minha cara e disse que víboras não morrem com detefon. Pensei no chinelo, mas ele ameaçou me denunciar ao IBAMA ou, o que é pior, ao facebook.

Temendo a retaliação dos animal lovers virtuais, me restou a convivência pacífica com lagartixa de parede. Ela lá, eu aqui. No eye contact. Estabelecemos a regra de convivência amplamente utilizada por muitos casais da raça humana: a indiferença.

Acontece que desde quinta-feira ela está desaparecida. Já procurei no hall, no teto da sala, na escada do prédio, na área de serviço e nenhum sinal da víbora sem rabo.

No primeiro dia sem Virna, imaginei que ela tivesse saído para dar um rolé na vizinhança, sei lá, arrumar um víboro pra chamar de seu. Hoje, no entanto, já começo a pensar no pior. E se ela conheceu um pedófilo no facebook e virou uma escrava branca na Turquia? Ou, o que é pior, se tiver virado crente da igreja universal? E se foi abduzida pela décima oitava temporada de Two and a Half Man? Pode estar, coitada, vagando solitária depois de ter perdido todo seu dinheiro na pirâmide do telexfree. São muitos os perigos desta vida, minha gente, e uma pobre víbora, alheia às desgraças da vida moderna, pode ser uma presa fácil.

- Deve ter morrido entalada com uma muriçoca.

A falta de tristeza na voz de Victor me fez lembrar minha indiferença, da qual hoje eu me arrependo,em relação a Sônia, anos atrás. O dia estava quente e úmido quando entrei, pela primeira vez, na casa de Erasto. Não sem antes me perder porque, né, alguém tem que avisar que existe Maranguape 1, Maranguape 2, Maranguape 3 seguindo em linha reta até o fim dos tempos, amém.

A casa era pequena o que facilitou o tour aqui é a sala, aqui a cozinha e aqui o banheiro, onde mora Sônia, a aranha. Sônia chegou sozinha, mas foi tão bem tratada que logo levou o marido e duas aranhinhas, que Erasto não sabia dizer se eram filhas ou sobrinhas. Enquanto isso, secretamente, as teias do meu pensamento diziam  “se um dia eu ficar amiga de uma aranha, pode me chamar de tamarindo, porque eu vim da Tamarineira.”

Só não lembro se isso aconteceu antes ou depois de ele recitar O Cabelo do Peixe, poema do Jornal da Palmeira onde uma bola de gude se casou com um passarinho e teve três filhos; um verde, um azul e um amarelo, fazendo alguém gritar “Vixe, é brasileiro”.

Os anos passam, os cabelos crescem, o filho ouve rock e a pessoa acaba colecionando eclipses lunares e conversando com víboras. Sad but true, no volume máximo.

E assim caminha a humanidade.

Moral da história – Já não se fazem mais detefons como antigamente.

Moral da História 2 – Quando Victor e Rodrigo estão fora de casa no final de semana, eu tenho ideias estranhas. Muito estranhas.

Nota de rodapé para quem não é do Nordeste: chamamos a lagartixa doméstica de parede (aquela meio transparente que come insetos) de víbora, que nada tem a ver com cobras ou animais peçonhentos.

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