Palmarí de Lucena
Mundial de 2010, na África do Sul, dia 14 de junho, véspera da partida entre o Brasil e a misteriosa seleção da Coréia do Norte. Instalados em todos os lares do país, os aparelhos de rádio controlados externamente por autoridades governamentais, que servem como despertadores para toda a população difundiam propaganda e instruções produzidas pelo aparato de comunicações oficiais do Estado. Qualquer tentativa de desligá-los era punida com o corte de eletricidade do local ou algo mais severo. O conteúdo informativo se desenvolve ao redor de atos heróicos ou atividades extraordinárias, às vezes super-humanas, do membro da família Kim no poder. O futebol não era uma exceção. O Estimado Líder Kim Jong-il transmitiria instruções precisas sobre as táticas futebolísticas a serem usadas contra o Brasil ao técnico da equipe, através de um telefone invisível. Tudo em ¨real time¨, como era confirmado pela equipe técnica após a conclusão da partida.
A extraordinária classificação da Coréia do Norte, após quarenta e quatro anos de ausência do Mundial, gerou uma grande expectativa de abertura do país ao mundo através da transmissão de jogos e de reportagens sobre os países participantes. Infelizmente, Kim Jong-il baniu qualquer transmissão das partidas ao vivo ou em vídeo, no caso de que sua equipe fosse consagrada campeã. Vídeos de transmissões sul-coreanas foram editados para enfatizar lances em que um jogador norte-coreano obtivesse vantagem sobre um adversário, inclusive em faltas violentas, e foram exibidos esporadicamente na televisão.
Transições políticas em estados totalitários são extremamente complexas
e perigosas. À Coréia do Norte, compulsivamente isolacionista,
mobilizada excessivamente com armas convencionais e nucleares,
sobrevivendo precariamente com uma economia falida, os perigos se
multiplicam exponencialmente. A solução encontrada pelo regime e
dinastia Kim, fundada há sessenta e seis anos por Kim Il-sung, foi
estabelecer um longo e opaco processo de sucessão hereditária - uma
variante stalinista garantindo o divino direito dos reis, pois o Líder
escolhido também é o próprio deus.
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| O pequeno ditador |
Incerteza é um fator constante nas relações entre a comunidade
internacional e os líderes do regime eremita da Coréia do Norte.
Enfrentamento permanente e militarização são as peças chaves da
ideologia de autossuficiência adotada pelo Eterno Presidente Kim
Il-sung. Cultivando incerteza e demonstrando a destreza do arsenal
nuclear que possuem, o regime vem sobrevivendo por mais de meio século.
Muitas vezes, com ajuda dos seus inimigos em alimentos e petróleo, como
incentivos ou troca de garantias de moderação e respeito pleno às leis
internacionais.
Palmarí de Lucena é membro de União Brasileira de Escritores


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