sexta-feira, abril 12, 2013
Domésticas - o que faltou dizer
José Pastore - O ESTADO DE S. PAULO
Se a sua empregada doméstica precisar fazer uma hora extra, lembre-se de que ela terá de descansar 15 minutos antes de começar. Se você precisa de muitas horas extras, atente que ela não pode exceder dez horas por semana. Se dorme ou não no emprego, ela terá de ficar 11 horas sem trabalhar depois de
encerrada uma jornada. Atenção: ela não pode comer em menos de uma hora em cada refeição. Se ela demorar mais de dez minutos para entrar no serviço, trocar de roupa ou tomar banho na hora da saída, esse tempo será contado como hora extra. Se ela dorme no quarto com uma criança ou um doente, terá de ser remunerada com adicional noturno e eventualmente hora extra por estar à disposição daquela pessoa.
Se você tiver de compensar em outro dia as horas a mais que ela trabalhou no dia anterior (banco de horas), lembre-se de que isso tem de ser previamente negociado com o sindicato das domésticas. Se você concede à sua empregada um plano de saúde e ela se acidentar e for aposentada por invalidez, o plano terá de ser mantido pelo resto da vida. Se, para melhor controle do seu desempenho, você estabelecer metas e tarefas diárias que sua empregada considere exageradas, ela pode processá-lo por danos morais. E se você não pagar a indenização que o juiz determinar, ele penhorará (online) o saldo da sua conta bancária - sem prévio aviso.
Tudo isso está na lei e na jurisprudência. E há muito mais. Para ser franco, o espaço todo deste jornal não seria suficiente para explicar as complicações decorrentes dos 922 artigos da CLT e dos milhares de normas administrativas e orientações dos tribunais. Por isso vou parar por aqui, mesmo porque não quero ser considerado catastrofista. Nem por isso, porém,
posso concordar com a opinião da nobre desembargadora Ivani Bramante, publicada neste caderno (2/4), segundo a qual os patrões estão com paranóia (sic) em relação à nova lei das domésticas.
O fato é que, no País inteiro, não se fala noutra coisa. A apreensão é geral. Os políticos já perceberam o desconforto e a irritação causados pelo impensado ato. Muitos já reformulam o seu cálculo eleitoral: se ganharam a simpatia das empregadas, perderam o apoio dos milhões de eleitores que não podem prescindir dos serviços de uma babá ou de um cuidador de idoso. A esse grupo se juntarão as empregadas que serão dispensadas.
Convenhamos, a execução do atual cipoal trabalhista já é difícil nas empresas. O que dizer das famílias, que não dispõem de contador, departamento de pessoal e assessoria jurídica? A nova lei, além de encarecer os serviços (que já estão caros), vai mudar o relacionamento entre empregada e empregador, que, de confiável e amistoso, passará a burocrático e conflituoso.
Os políticos buscam agora colocar uma tranca na porta que acabaram de arrombar. Mas as emendas poderão sair pior do que os sonetos. E podem ser inúteis, pois, a esta altura, as famílias que podem já se puseram a desenhar a sua vida sem a ajuda das empregadas domésticas.
A questão do encarecimento também é séria. O meu amigo Osmani Teixeira de Abreu, conhecedor profundo das relações do trabalho no Brasil, acredita que, em médio prazo, vai sobrar empregada doméstica, porque muitos empregadores não terão condições de cumprir a nova lei. Ele argumenta que na empresa, quando há um aumento de custo, o empresário o repassa ao preço ou o retira do lucro. O empregador doméstico não tem como fazer isso, porque geralmente é empregado e vive de salário, que não é elástico.
Ou seja, na pretensão de melhorar a vida das empregadas domésticas, nossos legisladores deixaram de lado o que é mais prioritário no momento presente, que é a formalização dos 5 milhões de brasileiras que não contam sequer com as proteções atuais. Será que aumentando os direitos e criando tanta insegurança elas vão ser protegidas? Penso que não. Muitas serão forçadas a trabalhar como diaristas, sem registro em carteira.
José Pastore é professor de Relações do Trabalho da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Letras.
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3 comentários:
Pastore confirma: O país só faz merda!
Sempre tive empregada doméstica que além do serviço e do salário mínimo pago integralmente no final do mês, das férias, da licença maternidade quando tinham filhos, era recolhido o INSS e o FGTS.
A relação de confiança e amizade além do peixe na semana santa, do panetone e cidra pelo natal, dos presentes e conversas sentadas na mesa com uma boa xícara de café faziam um bem enorme a mim e a ela(s).
No ano de 2000 deixei de ter empregada pq ( a vida muda) não teria mais como pagá-la.
Hoje com a nova lei o Pastore está certo a boa e velha amizade no lar está prestes a acabar. Uma pena!
Mais uma lei eleitoreira, sem que tenha havido a participação da sociedade. Responsabilidade dos nossos pseudos representantes. Criar leis para proteger uma categoria profissional é uma coisa(justa), mas inviabilizar a manutenção de postos de trabalho desta categoria é uma coisa bem distinta. O elo mais importante no desenvolver do trabalho doméstico é a confiança entra as partes, haja vista a sede laboral ser o lar do empregador, equiparar este vínculo a de uma atividade produtiva, onde a lucratividade é o fim, é um erro incorrigível, mas o que esperar dos representantes de um povo sem educação, sem discernimento, onde o voto é comprado por milheiro de tijolos, cimento, dentadura etc...A luta continua companheiro..., a classe média sempre pagará a conta...Pompeu Cantrelli
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