domingo, janeiro 06, 2013

Vale a pena ler de novo...?

A Festa das Neves

Nos idos de mil e novecentos e preto & branco, a Festa das Neves era a mais importante celebração profana em homenagem a Nossa Senhora das Neves, Santa Padroeira da Paraíba. No meio da rua, em frente ao prédio da Maçonaria, um enorme pavilhão de madeira, à guisa de restaurante aonde os abonados do burgo eram servidos por moçoilas da mais alta sociedade travestidas de garçonetes. Para a gandaia, os menos afortunados, existia depois do pavilhão, já chegando em frente à Catedral, a bagaceira, com a barraca de Rosa onde se tinha bebidinhas e comidinhas de se comer fechando os olhinhos. No pavilhão tinha ainda um eficiente serviço de "telegramas" que incitavam a nossa imaginação pois raramente se sabia quem estava mandando.

Era um acontecimento memorável. Esperávamos o ano inteiro. Quando adolescentes, quase meninos íamos à tarde andar nos brinquedos do "Parque de Diversões" especialmente a Roda Gigante. Certa vez o Carlinhos Cordeiro e o Mago Gilvan Meira Lima jogaram lá de cima uma porção de pequenos pára-quedas. Foi um sucesso. Aliás, teria esse inocente brinquedo a ver com a Segunda Guerra? Acho que sim. Lembro bem deles.

Um pouquinho mais crescidos íamos de terno novo, feito especialmente nas alfaiatarias Grisi, Sorrentino ou João Caldas e partíamos para o flerte, (paquera) que aliás, era a coisa mais fantástica deste mundo, as meninas em grupos de três ou quatro, braços dados, rodando na calçada e os marmanjos invariavelmente encostados nas paredes, a apreciar o desfile com o coração aos pulos. Às vezes algum engraçadinho deixava disfarçadamente cair umas pimentas malaguetas no chão do passeio e em questão de minutos tudo ficava absolutamente intransitável. Bons tempos de alegria inocente. A minha Tia Nevinha morava em um pensionato da Rua Nova e eu ia para o quarto dela encontrar a namorada. Na janela, Nevinha apreciava o "footing" e nós dois fazíamos a nossa festinha particular, no maior chamego. Tempo realmente muito bom!

Ah, e a "Difusora", "De alguém para você" onde a gente sacaneava os amigos dedicando de vez em quando:

"Assim como as flores abrem as suas pétalas para receber o orvalho da manhã, abra também o seu coração para ouvir esta linda mensagem que alguém que muito lhe ama lhe oferece."

E tome versinho de pé quebrado, e canção na voz de Augusto Calheiros. "Não sei porque razão tu tens ciuuumes..."

A jovem intelectualidade da época tomava parte ativa na festa onde jornais irreverentes, existiam três ou quatro, eram impressos e destribuídos todos os dias. Muito me envaidece hoje, saber que Augusto dos Anjos "o Paraibano do Século" começou em um jornal da festa das Neves. "O Tabefe" foi o nosso jornal que por causa de uma suprema quixotada teve vida efêmera, curtíssima, sendo empastelado logo na segunda edição. Ordem expressa do governo. O motivo? Ah, eu ainda lembro:

Estampamos na primeira página a "Frase do Dia"

- "Que importa que a tábua lasque o que eu quero é bater prego" - Governador Flavio Ribeiro Coutinho.

- Outra: "Certos matrimônios deveriam ser denominados - patrimônios”. Referência a um possível Golpe do Baú dado por figurão da cidade:

Foi o mesmo que cutucar a onça com vara curta. Fazíamos "O Tabefe", o locutor que vos fala, Carlinhos Cordeiro e Antoninho Caçador (por onde anda?). Bons tempos em que fomos levados muito a contragosto até a presença do delegado de plantão a fim de levarmos uma enorme e imerecida descompostura.

Passo a bola um pouco para o Carlinhos Cordeiro:

"O Tabefe" na verdade recebeu uma queixa na polícia, por causa da piada "matrimônio/patrimônio". Mandaram "a viuvinha" (o carro preto da polícia) lá em casa com uma intimação, e tivemos de ir à DIC. Mas ainda saiu mais um número. Fomos ameaçados de porrada pelo Badu Norat, por causa de uma piada que ele achou ofensiva. E o pior é que o cara era forte paca e não tinha o mínimo senso de humor!"

Outras seções de "O Tabefe" também faziam o maior sucesso, especialmente, o "Coisas que incomodam":

O bigodinho de Juarez Muriçoca
O nariz de Yalmita prato raso
A traseira de Juberlita (o ônibus)
A voz de Teones Barbosa
E suprema irreverência para a época...

Na barraca de Rosa impera a sujeira. "Ela nem copo lava!" ... assim eram as coisas.

E tinha também O Dia dos Estudantes, onde tudo era exigido de graça.

Belos tempos de alegria inocente, em que valiam os códigos de honra e ninguém era capaz de uma sacanagem maior, mesmo contra o maior desafeto. Saudades de um tempo cheio de vida e emoção. As meninas eram lindíssimas e a gente se apaixonava à toa, várias vezes ao dia.

Osman Godoy, cineasta paraibano também habitante da Mauricéia Desvairada, faz a pergunta transcendental: "Será que a Festa ainda existe?" Ele mesmo responde:

"Seguramente sem aquele romantismo que a névoa do tempo se encarrega de exacerbar."

9 comentários:

Osman Godoy disse...


Osman Godoy disse...

Caro Hugo
Você não sabe quanto me fez relembrar aqueles tempos de cinema P&B como vc diz. Seguramente nos cruzamos no vai e vem pelas calçadas daquela avenida em frente à catedral.
Até a algum tempo eu guardava um daqueles jornais da Festa, com alusões ácidas ou cômicas de personagens como o Prof Pacote e sua irmã Dulce Pacote, entre outras figuras folcloricas de João Pessoa. Lembro-me de uma charge cujo título era: Prof Pacote ensinando violino a Augusto Simões. O Pacote era meu amigo e gozava de fama de sabe tudo. Ele era professor de Inglês no Liceu. Vc deve tê-lo conhecido. No Liceu havia também a professora Argentina,parece que de português. Estudei apenas um ano no LIceu.
Mas voltando à Festa...e o dia dos estudantes , onde tudo era exigido de graça?
Será que a Festa ainda existe? Seguramente sem aquele romantismo que a névoa do tempo se encarrega exarcerbar.
abrs Osman

Carlos Cordeiro disse...



Carlos Mello disse...

Hugão,
esse tema "Festa das Neves" merece um longo artigo. Quuando a gente ainda era aborrecente, ia de tarde, andar nos brinquedos. Eu o o Mago Gilvan subimos na roda gigante com mini paraquedas nos bolsos e atiramos lá de cima. Uma festa! Depois de crescidos, todo ano a gente fazia um terno novo, "para a procissão" (na verdade, para a paquera, que era a coisa mais fantástica, as meninas rodando na calçada e os marmanjos paquerando, com o coração aos pulos. Tinha também uma amplificadora, onde a gente sacaneava todo mundo. E finalmente o pavilhão, onde o quente eram os "telegramas", sobretudo porque a gente nunca sabia quem estava mandando. Tempos maravilhosos, de alegria inocente, em que valiam os códigos de honra e ninguém era capaz de uma crocodilagem, mesmo contra o pior inimigo. E depois do pavilhão, ainda tinha a bagaceira, com a barraca de Rosa. O Tabefe na verdade recebeu uma queixa na polícia, por causa da piada "matrimônio/patrimônio". Mandaram "a viuvinha" (o carro preto da polícia) lá em casa com uma intimação, e tivemos de ir à DIC. Mas ainda saiu mais um número. Fomos ameaçados de porrada pelo Badu Norá, por causa de uma piada que ele achou ofensiva. E o pior é que o cara era forte paca e não tinha o mínimo senso de humor! Saudades de um tempo cheio de vida e de emoção. As meninas eram lindíssimas e a gente se apaixonava à toa. Todo mundo "roía" e tomava porre. Mais, oú sont les neiges d'antan? Carlos

Ipojuca Pontes disse...


Ipojuca Pontes disse...

Caro Hugo, gostei muito da memorialistica da Festa da Neves. Ótimo, ótimo e ótimo. Você - como de resto, Augusto dos Anjos - começou em jornal da festa das Neves - logo fechado pelo Dr. Flavio.
A proposito, lembra de outro jornal que publicou um artigo sobre as moças da sociedade local, intitulado "Borboletas e Mariposas"?
O seu autor, um estudante de direito chamado Armando Frazão, teve de se mudar da terrinha. Veio para o Rio. Abraço
Ipojuca

Antonio Caldas disse...


Antonio Caldas disse...

Primo Hugo
Li sueus comentários sobre a FESTA DAS NEVES de nossa Capital, relembrada muito bem pelo primo. Fiquei com saudades dos velhos tempos, pois morei na Rua Nova durante 30 anos e todas as noites estava com minha turma na BAGACEIRA.
Faço votos de muita saúde para você e familia durante o NOVO ANO.
Com um abraço do primo e amigo, Antonio Caldas.

Anônimo disse...

Maravilha, Hugão. Essa parte de suas memórias me lembra um comercial pra TV, sobre a Festa das Neves, feito pelo Arcela, e de que participei, há uns dez anos, no papel de um velho morador da Duque de Caxias, cuja melhor lembrança da infância era da dita festa, em que meu personagem era vivido pelo meu neto. Sabe que gostei imensamente de ter feito aquilo? Porque - paraibano de Sorocaba - aquilo foi como implante de lembrança no meu passado, como se eu fosse um daqueles replicantes de Blade Runner.

Beleza, meu caro. Suas memórias estão cada vez mais cada vez


W. J. Solha

Celso Japiassu disse...

Beleza, Hugo.
Nossa juventude merecia um cronista como você.

Girley Brazileiro disse...

Grande Hugo,

Que delicia de crônica! Recordar é viver, meu caro. Não sou da Paraíba e nem sabia dessa festa. Mas, lembro de algumas aqui no Recife e no interior (Caruaru e fazenda Nova) que tinha o mesmo estilo.
parabéns.
Girley Brazileiro

Carlos Mello disse...

Hugão, essas memórias são ótimas. E não serão só os velhinhos que vão ler com prazer. Uma história (ou estória) bem contada, todo mundo aprecia. A Festa das Neves dá pano pra mangas, camisolas e fardões. É só pôr a memória pra funcionar. Se quiser, vou ajudando.
Carlos

Márcia Barcellos da Cunha disse...

Hugo,
Claro que vale a pena ler de novo! Super bacana seu texto!!!
A "babá" de mamãe, que veio da Paraíba quando vovó casou chamava-se: Maria das Neves. Grande e afetuoso abraço. Márcia