quarta-feira, novembro 21, 2012

KLEBER E MARCELO

W. J. Solha

Kleber Mendonça Filho e Marcelo Gomes têm vários pontos em comum: cineastas, pernambucanos, passaram bom tempo na Inglaterra, são extremamente cavalheiros, eficientes, bem-humorados, tranquilos, e têm 44 e  49 anos. Fiz teste com os dois – a convite deles -  e participei de seus filmes O Som ao Redor e Era uma vez eu, Verônica, os primeiros a abordar a classe média urbana, contemporânea, nordestina, ambos rodados no final de 2010 e lançados agora, em 2012, coincidentemente com enorme sucesso.

As semelhanças param aí. O Som ao Redor é o primeiro longa de Kleber. Era uma vez eu, Verônica é o terceiro do Marcelo. O Som ao Redor tem 131 minutos e é aberto – em cinemascope - para todo um ambiente do Bairro de Setúbal, com vários personagens significativos, dos quais um é o meu, nenhum, na verdade, protagonista.

Já os closes predominam nos 91 minutos de Era uma vez eu, Verônica, a narrativa toda fechada na jovem vivida por Hermila Guedes, que domina, absoluta, todas, todas as sequências da película que se passa em Boa Viagem. Isso faz com que o trabalho de Marcelo tenha foco definitivamente feminino, enquanto o de Kleber é preponderantemente masculino, o que não impede que seu filme – pela extensão – se detenha bastante na problemática de uma jovem dona de casa, Bia – interpretada por Maeve Jinkings - tão sexualmente insatisfeita, quanto Verônica, que transa livremente, sofre pela incapacidade absoluta de amar qualquer homem, fora José Maria, seu pai.

Pedro Freire, que preparou o elenco para o Marcelo, viu os dois filmes no festival de Brasília e disse que esse José Maria, de Era uma vez, nada tem do seu Francisco, de O Som, e que nenhum dos dois tem nada a ver comigo.  Foi o resultado maior – no que se refere a mim – das diferenças entre os dois grandes cineastas. Lacca e Amanda, que me prepararam para o filme de Kleber, tornaram o velho que vivi um vilão originalíssimo, tão ousado quanto gozador.  Como os dois  filmes terminam com a iminência de minha morte -  que vem de fora, no de Kleber, e de dentro, no de Marcelo -, foi grande o trabalho que dei ao Pedro Freire pra desconstruir o que Amanda e Lacca haviam feito, pois ele teve de me reduzir os gestos, tirar-me as gargalhadas, gestos amplos, voz alta, transformando o grande extrovertido num emérito introvertido sempre a um átimo das lágrimas. Claro que minha experiência nos dois filmes  foi - por isso mesmo - apaixonante.
Kleber e Marcelo são, neste momento, a linha de frente do cinema brasileiro. Gêmeos pela geografia e pelo momento histórico, têm características tão definidas quanto Van Gogh e Gauguin ou Monet e Manet. Por isso foi tão magnífico trabalhar com eles. Caramba, como foi.

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