terça-feira, novembro 20, 2012

Eu vou chamar o síndico!

Téta Barbosa

Síndico de prédio é como político, um mal necessário.

Lá no edifício dos meus pais, a eleição para renovar o cargo do cara que não vai pagar o condomínio é mais emocionante que final de novela das oito.

A começar pelos moradores, que, assim como os traficantes do Rio de Janeiro, se dividem em três facções criminosas (ou ideológicas, não tenho certeza).

Tem o grupo a favor de Seu Amaral*, tem o grupo do contra, liderado pela galega do primeiro andar, e o grupo do “deixa disso, vamos tomar uma cerveja e resolver depois”.

Quando o partido do Seu Amaral está no poder, os outros dois não pagam condomínio em retaliação. Quando o grupo oposto assume, o do seu Amaral e do deixa disso não pagam por vingança. Quando o grupo do deixa disso assume, pensando bem esse pessoal só assume a cota da bebida da festa do final de ano.

Recentemente a facção do Seu Amaral deu um golpe de Estado e, não podendo o próprio Amaral assumir pela terceira vez consecutiva, colocou um Geraldo Júlio* da vez em seu lugar.

O laranja dele, Seu Roberto, só ganhou a eleição porque, depois que o candidato da facção da galega foi eleito pela maioria, Seu Amaral tirou uma carta premiada da manga: o cidadão tinha colocado o condomínio na justiça num passado remoto. Ou seja, a posse foi impugnada e Seu Roberto Laranja de Oliveira assumiu o cargo.

Já no meu edifício a síndica é ghost, dizem que ela existe, mas nunca vi em carne e osso. Assim como em Atividade Paranormal, ela deixa rastros: bilhetes na portaria, mensagens no hall e, posso jurar, já senti um perfume com cheiro de rose, Emily Rose, que imagino ser dela, no elevador. Tudo que sei é que seu sobrenome é o nome do prédio, o que faz dela, automaticamente, a dona do pedaço.

No prédio do meu irmão, o moço criado com a vó disse, em tom solene, na reunião:

- O condomínio precisa dar um jeito no cheiro do cigarro ilegal que vem de alguns apartamentos.

- Eu não sou policial, Seu Gomes, sou só o síndico.

Pra resolver isso, só chamando Tim Maia.

“cuidado com o disco voador
tira essa escada daí,
essa escada é pra ficar aqui fora
eu vou chamar o síndico
Tim Maia, Tima Maia, Tim Maia”.

*Os nomes são fictícios para evitar a retaliação dos respectivos síndicos.

*Geraldo Júlio parece nome de cantor de brega mas é o atual Prefeito do Recife, indicado pelo todo poderoso senhor de engenho, quer dizer, Governador, Eduardo Campos.

Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures. Escreve sobre modismos, modernidades e curiosidades: http://www.batidasalvetodos.com.br/

Nenhum comentário: