terça-feira, outubro 16, 2012
O SAPO QUE ENGOLIA ILUSÕES
Moacir Japiassu
Durante a eternidade de alguns meses, vivi no casarão do engenho Oiteiro. Não lembro a minha idade, mas quando o trem do Pilar apitava na subida, pros lados de Taipu, eram cinco horas da tarde - a hora de ir dormir.
Meu tio Henrique se encarregava de me trancafiar no quarto de portas imensas. Era um homem cruel, que gritava comigo e usava bigodes.
Cinco da tarde! Nem mesmo as galinhas queriam dormir.
Às vezes eu protestava, e, quando tio Henrique se levantava da mesa de jogo para assassinar-me, dona Cynthia, minha madrinha
e mãe dele, acalmava-o. Eu escutava a voz suave: "Deixa, Henrique, que eu vou sossegar o menino... ". Vinha, pegava minha mão, contava uma história de trancoso e eu dormia.
Uma noite, como eu insistisse em manter os olhos abertos, ela me disse, num sussurro apavorante: "Se você custar a dormir, o sapo do jardim vem e engole os seus sonhos; você nunca mais vai sonhar ... "
Eu podia perder tudo, menos os sonhos, as ilusões que me levavam para bem longe dali, do Oiteiro e do tio Henrique. Dormi. Acordei
numa hora silenciosa, assustado com um enorme clarão dentro do quarto, e me encolhi à espera do trovão que não chegou. Os relâmpagos, de uma surpreendente luz esverdeada, entravam pelos vidros da janela que dava para o jardim dos girassóis.
Na ponta dos pés, abri o postigo e o vi, no meio do jardim: o sapo.
Enorme, avermelhado, com belas estrias douradas e negras. Eu o vi engolir um vaga-lume.
O sapo do jardim dos girassóis alimentava-se dos vaga-lumes que pontilhavam as noites de verão do Oiteiro e o estranho hábito lhe dava
poderes nunca imaginados por mim. Todo ele fluorescia, a instantes precisos, e seu corpo emitia a luz dos vaga-lumes, iluminando o jardim
como um relâmpago.
Era um acontecimento tão raro que os girassóis se inclinavam à procura do clarão e muitos bichos das redondezas ali estavam atraídos pela beleza inusitada. Coelhos, preás, uma multidão de corujas cujos olhos refletiam a luz intensa; havia tatus e capivaras e até o quati Afonso, meu amigo da casa-de-purgar, estava ali, perdido na admiração pelo sapo.
Não sei quanto tempo fiquei à janela, mas jamais esquecerei quando o sapo emitiu um som esquisito, olhou para mim e fez, com a patinha
direita, um sinal para que eu o seguisse. Descalço, com a barra do pijama molhada de orvalho, segui o sapo na direção do bosque dos mulungus, acompanhado pela procissão dos bichos.
Andamos um bocado, mas paramos ao primeiro ruído de vozes adultas. Eu reconheci aquele timbre poderoso que sussurrava alguma coisa e uma voz de mulher lhe fazia contraponto. O clarão do sapo iluminou a cena e tio Henrique, que estava deitado sobre a relva, levantou-se num pulo; a seus pés, com a palidez dos defuntos, estava Rita de Sinhá Detinha.
"Dessa vez ele me mata", pensei, mas tio Henrique me disse, abotoando-se: "É você, meu filho?". Eu apontei para o meu guia, com as palavras presas na garganta: "O sapo ..." .
Tio Henrique me pegou nos braços, não viu o sapo nem o quati nem bicho algum. Estava escuro novamente quando ele entrou comigo no casarão, apertando minha cabeça contra o seu peito quente. Me botou na cama, me cobriu e me beijou na testa, como fazia meu pai quando
chegava de viagem.
Sonhei com isso e com o sapo, que iluminava os peitos de Rita de Sinhá Detinha no meio do bosque dos mulungus. A partir daquele dia, quando o trem do Pilar apitava na subida, pros lados de Taipu, eu ainda estava imundo das brincadeiras com Afonso, na casa-de-purgar.
Certa noite, ouvi minha madrinha dizer: "Mas ninguém bota esse menino pra dormir, meu Deus?".
E o vozeirão do tio Henrique respondeu: "Deixa ele; já tá grande, tá sabido ... "
(Extraído do livro O SAPO QUE ENGOLIA ILUSÕES,
publicado pela Atual Editora em 1993.)
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Um comentário:
Adorei o texto e gostaria de ler o livro. Como consegui-lo?
Nazareth Xavier
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