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| A Gaivota, de Millôr Fernandes pelo Teatro da Juventude Cristã de João Pessoa. Em cena Elzo Franca e Djanete Iracema.1958 |
Hugo Caldas
Quando foi mesmo que conheci Elzinho Franca? Acho que desde sempre. Difícil lembrar a primeira vez em que nos encontramos ou se alguém nos apresentou. O instante, como disse o poeta, sumiu na poeira do tempo. Acho, no entanto, que deve ter sido no Teatro Santa Roza. Certeza absoluta? Ou nas matinais de domingo do Cinema Plaza que ele displicentemente freqüentava usando sandálias havaianas. Uma desmedida afronta aos bons costumes da época, mas ele não estava nem aí!
Para mim, e para muitos da minha geração, o casal Elzinho e Leninha, ambos jovens e belos, era uma inspiração. Imaginávamos como seria a vida de dois jovens, casados com um filho, o pequeno Chiquinho, uma linda criança.
De espírito absolutamente irrequieto, de um talento maior do que esse mundo Elzinho, qual louco maestro, regia mil orquestras ao mesmo tempo. Música, teatro, literatura, gastronomia, esporte e acima de tudo era amigo dos amigos. Outra faceta, deverasmente espantosa: embora de maneira canhestra, ele apreciava ser empresário. Abria e fechava restaurantes numa rapidez assombrosa. Lembro, glândulas salivares estimuladas, de uma bela macarronada italiana, prato de resistência das suas casas de pasto. Enquanto tudo corria bem ele vivia a vida intensamente. Entrava de cabeça e coração em tudo o que fazia. Via de regra se dava mal. Esse, o destino dos grandes artistas. Das grandes almas. Quando as vagas pungentes do fracasso se aproximavam ele mais que depressa deixava o que estava fazendo e ia cuidar de outra coisa. Tratar de, mais uma vez, viver a vida à sua maneira, intensamente.
O meu amigo Elzo Franca na realidade se chamava: Manoel Heliodoro Coelho da Franca. Nome esquisito cheio de pompa e circunstância, que ao longo do tempo vai se transformando. Explicável: em família o chamavam Manoelzinho, que logo passou para Elzinho e culminou em um registro no cartório de uma nova marca: Elzo Franca. Isso mesmo, Elzinho não tinha um nome, tinha uma marca!
Convivi com ele durante suas inúmeras incursões pelo teatro. Dentre vários trabalhos, montou e dirigiu "O Chapeuzinho Vermelho", de Maria Clara Machado e me chamou para fazer o papel do Caçador. Era um faz tudo na cena. Dirigia, tomava conta da iluminação, contracenava e produzia a trilha musical que ele mesmo fazia brotar das teclas do piano, na hora. Cena memorável: Chapeuzinho Vermelho (Iara Rosas) cansada, a caminho da casa da Vovó (Maria do Livramento) se senta à beira da estrada. Adormece e sonha. O Caçador aparece no sonho, espingarda imensa mais parecendo um canhão, em busca do Lobo Mau (Anco Márcio) e Elzinho se esmerando ao piano tocando uma música misteriosa, Tchan, Tchan, Tchan, pausadamente, a cada passada do Caçador. De súbito, ele emenda com "La Cumparcita"! Eu não me fiz de rogado, dancei o tango alí mesmo, com a espingarda enorme. A platéia veio abaixo.
Trabalhamos no "Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna. Ele, o Padre, eu o seu subserviente Sacristão. Era uma farra trabalhar com Elzinho. Até seus fracassos eram engraçados. Dirigiu "A Raposa e as Uvas", de Guilherme de Figueiredo e colocou Bel, jogador de basquete da cidade, para interpretar um Centurião. Ora, Bel era nosso amigo, mas não tinha a mínima noção sobre o que era teatro. Fracasso total. Após o espetáculo fui falar com ele no camarim. Era a cara da derrota. Rosto suado, hirto, sobrancelhas vincadas, acentuadas, fungando muito denotavam o momento desagradável pelo qual passava. Fila de amigos a cumprimentá-lo. Todos o abraçavam e diziam palavras de estímulo ou brincavam para minimizar o fracasso: Wilson Maux ao se referir à interpretação do "Centurião", pegou-lhe pelos ombros e disse: "Elzinho, mate Bel"! Quando chegou a minha vez, disse-lhe apenas: "Foi horrível, meu caro, sinto muito". Sua reação foi um longo, demorado, silencioso e sentido abraço.
O tempo passou, os ventos mudaram na Paraíba, amargou uns apertos e eu então o convidei para vir ao Recife, para uma temporada. Me ajudou com certos trabalhos na minha escola. Alugamos uma casa para ele e Leninha. Os ares do Recife também não lhe foram favoráveis e eles terminaram por voltar à Paraíba.
Mais uma vez o tempo passa inexorável. Tive também os meus percalços financeiros. Fechei a escola e voltei a ter patrão. Viajei pelo mundo afora, mas sempre voltava à Paraíba. Principalmente aos encontros anuais do TEP promovidos por Elpídio Navarro. Era uma benção dos Deuses do Teatro rever os amigos. Nunca, entretanto, o reencontrei. Punha-se em isolamento total, de tudo e de todos. Certa vez fui até a sua casa e o convidei para sairmos, tomarmos uma cerveja, conversarmos. Irredutível se negou a sair e designou um dos seus filhos para me acompanhar. Desconhecia aquele velho ranzinza em que ele se tornara. Ora, eu fui até lá para vê-lo. Por fim, consegui que me conduzisse até a casa de um parente no Miramar. Ele veio calado o tempo todo. Ainda lembro das palavras de despedidas. "Até qualquer dia, a gente se vê"! Foi a última vez que nos vimos!
Chocado, logo imaginei que algo estava muito errado. Onde o Elzinho que personificava a alegria? Onde o Elzinho que ao me telefonar aos domingos sempre iniciava a conversa com uma brincadeira bem típica dele: "Eu queria mesmo era mandar uma carta, um telegrama...” e quase num sussurro, tô brincando“. Conversávamos por um bom tempo.
E agora essa! Soube, com um certo atraso que ele havia subido para o andar de cima.
Então é assim? Vai embora, sem mais nem menos? E os amigos, como ficam? Com a cara mexendo? Com esse vazio enorme para preencher! Isso não se faz, meu querido amigo: "Sem ao menos uma carta, um telegrama!” A gente se vê qualquer dia... Tô brincando!

6 comentários:
Ainda bem que você é meu amigo, pois isso me reserva o direito de esperar um belo necrológio como o que acaba de fazer . Solha
Sinto-me honrada de ter uma pessoa tão especial do meu lado. Bela homenagem, Hugão para Elzinho.
Somente hoje abro minha caixa de entrada e recebo seu pedido de ajuda. Estive viajando. Cheguei ontem para cumprir meu dever cívico do qual já estou dispensada, mas como cidadã continuo na ativa. Li seu blog com o texto sobre Elzinho e vi que não teria nada a acrescentar. Ainda bem que vc e seu blog existem representando os que ficam nas homenagens aos que se foram. O carinhoso beijo de Nazareth
Caro Hugo,
Na sua bela e justa cronica voce esqueceu de mencionar que Elzinho tambem tentou o futebol, jogando pelo Comercial, um time de camisa verde e expressão limitada. Porque os treinos eram puxados, o nosso amigo desistiu.
A inquietação de Elzo, me parece, era proprio da Famila, e Carlos Neves, o pai, era um genio de humor e bondade, que soube repassar aos filhos - qualidade rara. Abração e tudo de bom! Ipojuca
Desculpe Hugo, mas só vi sua mensagem agora. Já vi o texto no seu blog. Foi como eu falei: havia uma grande amizade entre vocês. Achei a homenagem muito bonita. Fiquei muito feliz com o carinho dispensado ao meu pai.
Abraços, Luiz Antonio
O Elzinho era essa figura mesmo. Fazia tudo atabalhoadamente. A
Gaivota foi um redondo fracasso também. Em "Apenas uma cadeira vazia" ele morre no primeiro ato, mas até que foi bem. E era um excelente companheiro, engraçado, sacana, inteligente à maneira dele, quero dizer, sacador, fino. Felizmente não conheci essa fase deprê dele. Capaz de já ter encontrado o Orley lá por cima e estão ambos
rindo de nós aqui embaixo.Carlos
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