O enigma do empréstimo a Lula
Raphael Neddermeyer/AE
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AMIGÃO
Paulo Okamotto: o ex-tesoureiro diz que pagou o empréstimo de Lula com dinheiro do próprio bolso. Pois é |
Da
enorme lista de histórias mal explicadas que povoam as CPIs, uma delas é
especialmente intrigante: quem pagou uma dívida de 29 436 reais de Lula
para com o PT? A dívida teria sido contraída em 2002, quando Lula ainda
era candidato. Teria pago gastos com viagens e passagens aéreas da hoje
primeira-dama, Marisa Letícia. Há três semanas, durante o depoimento de
Delúbio Soares à CPI dos Correios, o deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS)
perguntou ao ex-tesoureiro petista se o pagador do débito teria sido o
empresário Marcos Valério. Delúbio se limitou a dizer: "Não vou me
pronunciar sobre esse assunto". O débito foi quitado em quatro parcelas,
em uma conta do PT, entre 2003 e 2004 – ou seja, quando Lula já era
presidente e Marcos Valério o operador das finanças do partido.
À
pergunta sobre a identidade do pagador, o PT respondeu com um
prolongado silêncio. Na semana passada, no entanto, depois que uma
planilha encaminhada pelo Banco do Brasil à CPI dos Correios apontou
Lula como depositário da dívida, apareceu uma outra explicação. Paulo
Okamotto, ex-tesoureiro da campanha de Lula em 1989 e atual
diretor-presidente do Sebrae, afirmou ter sido ele o pagador do débito. A
informação foi divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo. Embora
contradiga a planilha do banco, a versão de Okamotto foi endossada pelo
PT. Okamotto é amigo do presidente. É ele quem administra as contas da
família Lula. Para isso, contaria com a ajuda de outro grande amigo do
presidente, o empresário Antoninho Marmo Trevisan. Trevisan participou
da negociação que resultou no investimento de 5 milhões de reais feito
pela Telemar na Gamecorp, empresa que tem como sócio Fábio Luís Lula da
Silva, filho do presidente.
A
versão de Okamotto, publicada uma semana depois de ele ter viajado com
Lula para Garanhuns (PE) – num vôo durante o qual os dois conversaram
longamente –, não foi suficiente para decifrar o enigma do empréstimo.
Primeiro, porque carece de lógica. Na planilha do Banco do Brasil, Lula
aparece como o pagador. Okamotto, no entanto, diz que pagou a dívida, e
do próprio bolso. Mais: que não informou nada a Lula e que não se lembra
da forma como fez os depósitos. Segundo, porque a explicação se choca
com uma declaração do ministro das Relações Institucionais, Jaques
Wagner. Em nome de Lula, Wagner afirmou que o presidente não tinha
débito algum com o partido. Ora, bolas: então, Okamotto pagou um débito
que não existia? E Lula aparece numa planilha pagando uma dívida que não
tinha? Quando se fala em PT, dinheiro e dívidas, perguntas lógicas
quase sempre carecem de respostas idem.
Juliana Linhares
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