No entorno daquela esquina (onde hoje se encontra o prédio do Banco Francês e Brasileiro S.A), ficavam os jornais mais importantes da capital pernambucana. Nos últimos anos da década de 20, tínhamos, na Rua do Imperador, o Jornal do Commércio, o Jornal do Recife, o Jornal Pequeno, de Tomé Gibson, e o Diário da Manhã, fundado pelos irmãos Caio e Carlos de Lima Cavalcanti; e, um pouco mais distante, na Praça da Independência, o Diário de Pernambuco.
Fotografias da época mostram multidões se comprimindo, diante dos prédios do Jornal do Commércio e do Diário de Pernambuco, à espera das últimas notícias liberadas pelas agências noticiosas. Como ninguém, naqueles tempos, ia às ruas com as cabeças descobertas, as fotos feitas do alto mostram, num espetáculo curioso, um verdadeiro mar de chapéus em frente aos jornais. As notícias, coladas às suas paredes, eram, depois de lidas, transmitidas, boca a boca, e seriam, depois, na famosa esquina, motivo para debates e acaloradas discussões. Era natural que para lá, terminado o expediente da redações, afluíssem os que trabalhavam naqueles cinco jornais, ávidos por uma troca de idéias e pelos inevitáveis comentários sobre os últimos acontecimentos políticos, locais, nacionais e internacionais.
Joaquim Cardozo, o excelente poeta pernambucano, ao se referir ao Lafayette, rememorava os tão concorridos encontros noturnos em torno das mesas, lembrando que ali se reunia não somente um grande número de políticos e de intelectuais como, também, de facadistas, e de agiotas, tudo isso configurando um tempo que ele classifica como a belle époque pernambucana. A esquina do Lafayette era, naqueles tempos, o verdadeiro coração do Recife, as notícias mais quentes dali sendo impulsionadas para todo o restante do Estado.
No Café Lafayette, como ele era comumente chamado, funcionou, durante muitos anos, uma verdadeira academia literária, que teve os seus inícios em 1919 e se manteve ativa até os últimos anos da década de 30.
Seus primeiros freqüentadores parecem ter sido Benedito Monteiro, Ascenso Ferreira e Osório Borba, este último trabalhando no Diário de Pernambuco, a dois passos dali. Muitos foram os seus componentes, desde os “contumazes” até os que apenas esporadicamente para lá se dirigiam. Joaquim Cardozo era um dos seus principais membros, pontificando pela sua inteligência e dialética. Diz-nos Souza Barros que ele se constituía o centro das reuniões, comentando artigos publicados em revistas estrangeiras que ele adquiria e sempre levava consigo, como uma maneira de convencer os incrédulos do que afirmava. Outro influente membro daquela confraria era Ascenso Ferreira, um gigante, quase dois metros de altura, seguramente mais de 120 quilos, roupas bastante folgadas, paletós enormes e chapéus de abas tão grandes que mais pareciam sombreiros e que, com lábios grossos e pendurados, recitava trechos de suas poesias, conseguindo, com aquele vozeirão característico abafar as vozes dos demais circunstantes.
Entre os muitos que faziam parte daquele cenáculo, uns esporadicamente, outros de uma assiduidade quase diária, estavam Nilo Pereira; Esmaragdo Marroquim; o irreverente Eugênio Coimbra; Mário Melo; Altamiro Cunha, que, em palavras de Souza Barros, rodopiava entre as mesas, sempre preocupado com as roupas, a par dos mínimos detalhes da moda masculina, e sempre tendo um caso do society para comentar, ele que foi, juntamente com Willy Lewin, o iniciador da crônica social no Recife; o irônico Silvino Lopes; o jovem mas atuante poeta Waldemar Lopes, na época editorialista e subsecretário do Jornal do Commércio, depois efetivado como seu secretário, quando do afastamento, por motivo de doença, de Caio Pereira; o elegante e namorador Austro Costa, que escrevia crônicas sob o pseudônimo de João-da-Rua Nova; Evaldo Coutinho, cujas conversas prediletas giravam em torno do cinema. Gilberto Freyre, em ocasionais aparições; e muitos outros, como José Augusto, bancário e poeta, que se casaria com Rachel de Queiroz, a quem chegou a trazer, em algumas ocasiões, para aquelas reuniões do Lafayette. Para lá afluíam, também, literatos dos Estados vizinhos, por exemplo, Luiz da Câmara Cascudo, Zé Lins do Rego, os irmãos Abelardo e Aderbal Jurema, Gilberto Amado, os irmãos Olívio e Lauro Montenegro. E nem sempre eram pessoas ligadas às letras, mas intelectuais num sentido amplo, como era o caso do pianista Ernani Braga e do Violinista Fittipaldi.
Jornal do Commércio – 08-10-2000.
Rostand Paraíso é membro da Academia Pernambucana de Letras.

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