Eduardo Almeida Reis
Leitor – Recebi no Taj a visita de um leitor que não conhecia pessoalmente. Professor, pós-doutorado, 50 anos, mulher e dois filhos, nascido em Belo Horizonte, mora e trabalha na Europa numa empresa da mais alta tecnologia.
Terminamos o papo que foi das 15h às 18h30, quando tomamos uma garrafinha de tinto português do Douro, que me soube muito bem, ao som de música civilizada na tevê – pois é, a tevê a cabo tem um monte de canais de músicas – para acompanhar uns queijinhos fabricados no país em que o leitor trabalha.
O visitante muito me alegrou, de mesmo passo em que me deixou arrasado. Evidenciou, de forma indiscutível, a vastidão de minha ignorância. Comecemos pelos clássicos da tevê: o professor conhecia todos os compositores, sabia as peças que estavam sendo tocadas, a Sétima de Beethoven, a Flauta Mágica de Wolfgand Amadeus, toda a música da lavra de Johann Sebastian, que morreu em julho de 1750. Mais que isso: conhece as biografias de todos eles e me contou que Rossini era um gourmet, tanto assim que o Filé à Rossini foi batizado por ele, Gioachino Antonio Rossini, falecido em Paris no ano de 1868.
Releva notar que o professor não é músico profissional, mas biofísico fluente numa infinidade de idiomas. Numa escala de conhecimentos gerais, de zero a 100, o philosopho talvez mereça quatro ou cinco pontos, enquanto o professor, mineiro de BH, 50 aninhos, anda acima dos 95 pontos.
Reivindico minha pontuação de quatro ou cinco, porque preciso deixar os três primeiros pontos, que são os últimos na parte de baixo da escala, para o doutor honoris causa da Silva e outros sujeitos e sujeitas que vemos por aí. Por derradeiro, uma tentativa de explicação: passei mais de 20 anos, na fase em que ainda podia aprender alguma coisa, às voltas com imensa biblioteca zootécnica. Já entendi de bois e capins à beça e à bessa: “Hoje, descrente de tudo resta o cansaço, cansaço da vida, cansaço de mim, velhice chegando e eu chegando ao fim”, com os agradecimentos ao saudoso Antônio Maria, que conheci no tempo em que ele namorava dona Almerinda, dona do Restaurante O Galo, point noturno do jovem philosopho.
Gaffeur – A francesia gafe entrou em nosso idioma no ano de 1938 e significa ato e/ou palavra impensada, indiscreta, desastrada; indiscrição involuntária. Veterano gaffeur, muito me assustam, mais que as gafes praticadas, aquelas que estive a ponto de cometer. Fico remoendo semanas, meses, anos, os desastres verbais que poderia ter cometido. Um dos últimos foi em casamento barulhento, no som imbecil de música em moda no Piscinão de Ramos, dezenas de jornalistas de alta expressão nacional e um cronista de aldeia metido em seu terno azul-marinho, gravata italiana, charutinho aceso.
É impossível conversar com o som naquela altura. Enquanto muita gente dançava, assentei-me num sofá ao lado de um cinzeiro. Assentou-se a meu lado uma senhora, trocamos duas palavras e associei seu nome à figura do maior compositor brasileiro de todos os tempos. É aquela velha história; com champanha e charuto, o cérebro, que nunca foi de confiança, fica obnubilado. E a obnubilação, na rubrica medicina, é o estado de perturbação da consciência, caracterizado por ofuscação da vista e obscurecimento do pensamento, com perdão do duplo “mento” na frase anterior, culpa exclusiva do Houaiss.
De repente, a música parou e o idiota de terno azul-marinho resolveu contar à tal senhora uma cena que assistiu em Brasília, DF, quando uma imbecil perguntou a saudoso amigo meu, aos berros, num salão entupido de altas figuras da República, se era verdade de que mulher do Fulano era amante do então presidente da mesmíssima República.
Meu amigo, que estava em sua quinta garrafa de Periquita, vinho tinto português, e tinha um vozeirão, respondeu: “Minha senhora. Devo os maiores favores ao Fulano. Além do mais, não sou fiscal de xoxota!”. Referiu-se à genitália feminina com aquela palavra que começa por “b”, que não escrevo de jeito e maneira.
Foi um tableau no salão e a tal perguntadora fugiu da cena dizendo: “Ui, ui, mal educado...”. Pois muito bem: fique o pacientíssimo leitor de Tiro&Queda sabendo que baixou ni mim, naquela hora, uma inspiração antigafe que me fez perguntar à tal senhora qual era sua relação de amizade com o imenso compositor. Era ela!, a autora da pergunta sobre a amante do finado presidente da República.
O mundo é uma bola – 6 de setembro de 3761 a.C., primeiro dia do calendário judeu. Em 1522, Juan Sebastián Elcano chega a Sanlúcar de Barrameda (Cádiz) com um navio e os 18 sobreviventes da primeira viagem de circum-navegação. Em 1901, o 27º presidente dos EUA William McKinley Jr. é assassinado pelo anarquista Leon Frank Czolgosz, americano de origem polonesa, executado em outubro do mesmo ano numa bela cadeira elétrica.
Em 1922, oficializado o Hino Nacional Brasileiro, que o jornalista Lauro Diniz adora cantar em posição de sentido, olhos fechados, mão no peito, como bom patriota paraopebense.
Hoje é o aniversário de Muriaé, terra do deputado Bráulio Braz, que me vendeu um Meriva e se diz meu amigo.
Ruminanças – “Prejuízo no leite é que nem hemorroida: todo mundo tem, mas ninguém confessa” (Dra. Arlete, vizinha de fazenda).

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