segunda-feira, junho 18, 2012

O lugar dos judeus na percepção de Katia Mesel

Elisa Jacques  
 


Quem assistir ao longa O Rochedo e a Estrela pode ter a impressão de que Pernambuco era o lugar do povo judeu. O documentário, que está sendo exibido no Cinema da Fundação, no Derby, já marca uma certeza: foi durante os 24 anos do governo holandês, sob o comando de Maurício de Nassau, que os judeus tiveram, de fato, um local de culto religioso e de vida livre. Nos 80 minutos de filme, a cineasta Pernambucana Katia Mesel reforça a ideia de que Pernambuco era o único lugar do mundo naquele período onde a liberdade garantia a vida digna do ser humano fosse ele judeu, homossexual ou bígamo.

Esse trunfo perpassa as cenas de natureza e atuação cênica das reconstituições de época no filme, além de aparecer no depoimento de 30 intelectuais que pesquisam e entendem do assunto. O homem e a mulher judia são, antes de tudo, resistentes, conservadores de sua história e cultura; mesmo incorporando a língua e os costumes estrangeiros,prevalecem no crivo do espaço e do tempo. Tal como o rochedo, endurecem sua identidade. Tal como a estrela, se deixam guiar pelo destino e resistem nas terras por onde andam.

Os fragmentos da vida judaica vão sendo reconstituídos a partir de figuração, dança, pintura, escultura e música. Na trilha sonora, a condução da narrativa segue os arranjos pesados e bem marcados de Lula Côrtes. Até a tradicional música das celebrações judaicas Hava Nagila é decodificada e reinterpretada de modo intenso pelo músico, bem ao estilo do rock que também incorpora à música Amsterdã na cena final em que os judeus partem do Recife para fundar a futura Nova Iorque. Maciel Salú e Zé da Flauta também assinam a proposta musical.

Das imagens de Amsterdam, Fernando de Noronha, do pau-brasil, das especiarias, do período açucareiro, entre outras, o elemento norteador da presença e ausência do povo judeu em Pernambuco se encontra na Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, na figura da primeira sinagoga das américas, a Kahar Zur Israel. “Estamos partindo de Recife, de onde levamos nossa cultura e tradições. Deixamos nossa Sinagoga: o rochedo de Israel, a nossa estrela guia”. A partir daí a condução visual da história se apoia nos quadros de Eckhout, Franz Post e outros pintores da época.

Histórias de representantes do estado, nas figuras de Duarte Coelho Pereira e Maurício de Nassau, ganham novos complementos ao lado de outras fotnes, como, por exemplo, a casa de Branca Dias. Até as imagens de colonizador e colonizado surgem paralelas na figura de um belo campo holandês com lagos reluzentes e carneirinhos enquanto o lixão da Muribeca representa a fome na presença decatadores de lixo da contemporaneidade. Imagem essa utilizada de forma estratégica por Katia para expor um problema atemporal do estado de Pernambuco: a fome.

No elenco, a atriz pernambucana Geninha da Rosa Borges e o ator Germano Haiut são um casal de judeus que parte do Recife e vão para Nova Amsterdã (Nova Iorque). Na composição narrativa do filme, as entrevistas viajam através da Europa, Estados Unidos, Caribe e Brasil para desvelar as imagens da comunidade judaica em seus territórios e reforçam a ideia de liberdade religiosa.

O Rochedo e a Estrela levou sete anos para ficar pronto e iniciou a produção como um filme de ficção de grande orçamento, mas foi readaptado para o formato documentário. Já possui uma versão reduzida,de 30 minutos que foi apresentada em Nova Iorque, em setembro de 2004, durante os festejos dos 350 anos da presença judaica na cidade.

A seguir, acompanhe a entrevista que Katia Mesel concedeu a Continente.

CONTINENTE O que te motivou a falar da expansão judaica em Pernambuco?

KATIA MESEL Foi um estímulo do ator Germano Haiut. Eu sou curta-metragista e o longa não era o meu objetivo principal. Um dia, Germano me disse: “Katia você tem que contar essa história. É uma história incrível e tão positiva”. Eu cresci ouvindo essa história de um jeito deturpado, de que os judeus de Pernambuco é que tinham fundado Nova Iorque, isso sem nenhuma explicação, sem pesquisa. Na verdade, Nova Iorque já existia e se chamava Nova Amsterdã e, em relação ao Recife, era uma cidade pequenininha.

CONTINENTE As cenas foram gravadas em mais de 15 municípios pernambucanos. Que cenas de reconstituição emocionam mais o público na sua opinião?

KATIA MESEL São paisagens de Itamaracá, Igarassu, Cabo, Recife, Olinda, Camaragibe, Gravatá, Bezerros, Serra Negra, Ipojuca, Goiana e tantos outros, cada um com a sua característica. Gosto muito da cena em Igarassu. Tanto a interna no pátio da igreja com os escravos, quanto a externa, na rua, quando eles vem por trás da Igreja de Cosme e Damião. Outra que gosto muito, em termos simbólicos, é a da saída dos judeus do Bairro do Bom Jesus. É um grupo de 25 pessoas em caminhada até o Marco Zero, onde tem um balé que simboliza a mudança, eles fazem um movimento de mar bem simbólico e depois vão passando mão a mão objetos de mudança como balaios, cestos, vasos, jarros, baú, e vem a caravela ao longe para que eles viagem.

CONTINENTE A trilha sonora é composta por músicas de Lula Côrtes exclusivas para o filme, inclusive ele encerra com o som pesado da música Amsterdã numa cena em pleno século XVII.

KATIA MESEL São títulos orgânicos, como A moenda, A Saída, que vão compondo as cenas. Na saída simbólica a música é Amsterdã. É um rock' roll que Lula propôs e eu pensei como é que ia ficar isso, já que era uma cena do século XVII com um som desse. Mas o resultado ficou muito bom. Marcante.

CONTINENTE Como o público, principalmente a comunidade judaica, reagiram ao documentário na primeira exibição?

KATIA MESEL A primeira exibição foi no Festival de Cinema Judaico em São Paulo, na Hebraica e no Centro de Cultura Judaica. O público lotou, havia muita gente sentada até no chão e, no final, o filme foi aplaudido de pé. Foi uma loucura, a emoção foi tão grande que no outro dia eu estava com a pressão lá em cima, completamente sem ação, e precisei tomar remédio. A grande imprensa cobriu a mostra. Os veículos principais deram a notícia, lá estavam o Estadão, a Folha de S. Paulo, Valor Econômico e outros. A comunidade judaica adorou, fazia 400 anos da ida dos judeus para lá. Eles ficaram entusiasmados, não era aquela ideia de que judeu era um povo coitadinho, eles já tem muito essa carga. O filme estreou completo no ano passado, no encerramento do Cine PE, esse foi o lançamento nacional, mas, por azar, houve um “dilúvio” e aí não tinha muito público como costuma ter no Cine PE.

CONTINENTE Como foi feita a pesquisa para compor a ideia do documentário?

KATIA MESEL Comecei em 96 conversando, lendo e pesquisando. Entre 1996 e 1997, fiz o curta O Recife de dentro pra fora a partir de um poema de João Cabral de Melo Neto, e, então, comecei a escrever alguma coisa para o roteiro [de O Rochedo e a Estrela]. Daí veio um concurso de roteiro do Dragão do Mar, promovido por Orlando Sena. Eu coloquei um pré-roteiro sobre minhas primeiras ideias. Ele não ganhou, mas eu já tinha um início, estava até registrado na Biblioteca Nacional. Em 1998, através da Lei de Incentivo a Cultura, ganhei o projeto para a pesquisa. Passei quatro anos viajando e pesquisando. Li mais de cem livros, na íntegra ou capítulos, como A gente da nação, O último cabalista de Lisboa, o livro de Barleus sobre Maurício de Nassau, a Prosopopeia de Bento Teixeira, entre outros. Também li os arquivos do Santo Ofício que passaram por Recife e Olinda para saber, por exemplo, o que determinava a morte de uma pessoa na fogueira. Fui para a Espanha, Portugal, Grécia, Holanda, Estados Unidos e pesquisava nesses lugares. Eu queria saber o que era a vida em si para fazer o filme, então pesquisava sobre trajes, costumes, comida, navegações, relações humanas, e isso só os livros não podem te dar. Havia aquelas imagens de exotismo de Pernambuco e do Brasil na Europa.

CONTINENTE Que documentos foram cruciais para resgatar as informações, já que você utilizou mais de mil deles, inclusive digitalizados.

KATIA MESEL A carta da compra de Manhattan, os holandeses a compraram por vinte e seis peças de pele de castor. Documentos e cartas assinadas por Maurício de Nassau, mapas antigos de todo tipo e qualidade , desenhos de animais da época do livro de Barleus, documentos nauticos com coordenadas, muitas fotografias, muitas imagens primitivas que Debret retratou. Moedas, cartas de rabinos, o Manual da Inquisição com as torturas e outros.

CONTINENTE Problemas de edital e financiamento adiaram a estreia de O Rochedo e a Estrela. Como foi esse processo até a finalização do filme?

KATIA MESEL Em 2000, eu estava mais preparada. Trabalhava como assistente de direção com Nelson Pereira dos Santos e me bateu a sensação de que estava com o roteiro pronto. Já havia muita pesquisa e chegou um ponto que exacerbou a minha criatividade. Em 2001, eu coloquei o projeto na Lei de Cultura, ele passou e era de 7 milhões a proposta para fazer uma megaprodução, um longa. Depois veio a questão da captação de patrocínio e o projeto empacou. Vieram os problemas com os editais. Na época, eu era a única nos editais com um filme que representava o Norte e Nordeste, porque até então só entrava produção do eixo Rio-São Paulo. Tinha dois pernambucanos no júri e mesmo assim o projeto não entrou. No final de 2003, para não perder o projeto, transformei o filme que seria uma ficção para o formato de documentário. Foi aprovado um ano depois e no dia 29 de fevereiro de 2004, ano bissexto, fiz a primeira filmagem celebrando, enfim, o início do trabalho. Em 2008 estava completo, em formato digital.

CONTINENTE E agora, algum novo documentário?

KATIA MESEL Meu último documentário se chama Casa Comigo, foi filmado em Paris. É um curta de seis minutos. Estive na França em junho do ano passado e fui com um amigo fotógrafo. Ele levou uma câmera dele para fotografar, mas que também filma, a D5 e disse que ia dar de presente para mim uma filmagem. Pediu que eu escolhesse o que queria filmar. Aí, um belo dia quando saímos da Catedral de Notre-Dame e atravessamos a ponte, um lado dela estava completamente lotado de cadeados. Aí ficamos filmando, coloquei uma trilha sonora e a narração de uma amiga que trabalha na Radio France Brasil. O texto ficou tão redondo sobre o assunto: cadeado-amor, amor-cadeado. Mas como assim cadeado-amor? Amor não prende, tem que ser livre. Havia um cadeado com a inscrição 'Casa Comigo' de onde saiu o nome do filme. Então fiz um documentário de seis minutos. Interessante é essa ponte por lá, é uma obra de arte espontânea e crescente.

Revista Continente

Um comentário:

Anônimo disse...

Em 1637, o Conde Maurício de Nassau passa a administrar a colônia. Os holandeses oferecem empréstimos aos fazendeiros para seus gastos com maquinarias, plantações e com a aquisição de escravos. Nassau também deu liberdade religiosa aos brancos, sendo livre a construção de igrejas católicas, protestantes e de sinagogas para a grande população judia da colônia holandesa. Os colonos judeus eram constituídos por grandes intelectuais, comerciantes, mercadores de escravos e financiadores, formados tanto de holandeses quanto de judeus luso-brasileiros que se refugiaram na colônia flamenga em busca da liberdade religiosa não existente nos territórios brasileiros sob domínio português. Boa parte da produção açucareira dos senhores de engenho era remetida por comerciantes judeus da colônia à seus pares na Holanda, onde o açúcar era refinado e distribuído pela Europa. O açúcar servia aos senhores de engenho como objeto para pagamento de empréstimos e de escravos africanos, uma vez que os fazendeiros normalmente não possuíam dinheiro vivo o suficiente para arcar com suas dívidas. Os africanos que sobreviviam à viagem, onde eram amontoados de tal forma que sua liberdade de movimentação era mínima, eram adquiridos normalmente por revendedores tão logo eram desembarcados na colônia holandesa. Um dos locais de revenda era a Rua dos Judeus, onde ficava o Mercado de Escravos e a Sinagoga Kahar Zur Israel (Rochedo de Israel), a primeira sinagoga das Américas. Como muitos africanos morriam durante a viagem, e em virtude dos tributos e juros de revenda aplicados sobre a "peça", o preço de um escravo costumava ser elevado. Isso garantia enormes lucros aos mercadores, à Companhia das Índias, e à metrópole. Pouco depois de haverem sido adquiridos, os negros eram logo marcados a ferro com o símbolo de seu proprietário. Sendo uma área onde as normas portuguesas e da Igreja Católica, que protegiam os indígenas da escravidão, não vigoravam, os territórios holandeses no Brasil também expuseram estes à escravidão