sábado, junho 16, 2012

Maravilhas da Ilha da Fantasia


Troca-se um FIAT argentino por um teto cubano

Foi-lhe outorgado pelos seus méritos e o pagou a preço subvencionado em 1975 no mesmo ano do primeiro congresso do Partido Comunista. Ganhou a oportunidade de comprar aquele flamejante FIAT 125, feito na Argentina, porque era um doutor vanguardista e revolucionário irrepreensível. Na primeira vez em que estacionou na sua rua de província os vizinhos o olharam com inveja e respeito. Atrás do volante sentia-se como quem apenas começava a dar o primeiro passo num promissor caminho de bonança. Porém o tempo passou, sobre seu corpo e também sobre a carroçaria azulada que começou a perder a cor e amassar. Agora o automóvel está prestes a completar a mesma idade que sua filha menor, uns 37 dezembros de benefícios e tropeços.

Por décadas desistiu de fazer algum conserto integral, pois seu salário de pediatra não chegava nem para trocar o pára-brisa. Em meados dos noventa não pôde mais e alugou o FIAT para um vizinho que negociava produtos no mercado negro. Entre deixá-lo oxidando na garagem ou alugá-lo para alguém com recursos, preferiu este último. Desse modo o automóvel entregue como prêmio pela fidelidade ideológica foi parar com quem nunca houvera sido eleito pelas instituições para receber tal privilégio. A moeda da lealdade política acabava vencida aos pés de outra mais real, sonante e conversível.

Quando a compra e venda de automóveis foi autorizada decidiram legalizar aquela transferência. O vizinho de posses – que já havia investido em novos pneus, um ar condicionado e até assentos forrados de couro – entregou uns 1 mil CUC (900 USD) para fechar o negócio. Não quis dar nem um centavo a mais, pois já havia pagado um aluguel mensal durante vários anos. Finalmente, ante um tabelião, o FIAT engordou a lista dos 8390 automóveis vendidos no primeiro trimestre de 2012. Com o dinheiro conseguido o médico comprou materiais para restaurar o teto da sua casa e se livrar das telhas estragadas de quase cem anos. Transformou assim o objeto que uma vez havia sido seu maior orgulho na laje de concreto que nunca pode construir com seu salário.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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