quarta-feira, junho 20, 2012
Carta de Uma Saudosista
Lise Cavalcante
Acho que deve ter muito Nordestino Autêntico com saudades do São João de antigamente.
No meu tempo (como diriam mamãe e minhas tias), o São João Nordestino era comemorado de maneira muito diferente do que é feito hoje. Eram organizadas quadrilhas juninas, com Padre disfarçado com batina e tudo o mais. Os noivos vestiam-se como noivos de antigamente. As roupas dos outros componentes da festa eram confeccionadas com todos os recursos de um figurino matuto.
As músicas com as coreografias eram executadas com motivação herdada do balanceado francês, que incorporou passos, aportuguesou termos, acrescentou o sanfoneiro, peça fundamental na execução na animação da coreografia da quadrilha que tinha um marcador que orientava os pares que geralmente eram em torno de dezesseis. Além das músicas, tinham também as bebidas e comidas bem próprias do período junino – canjica, pamonha, bolo de milho, pé de moleque, quebra queixo, manguzá, tapioca, cuscuz, cocada de coco, além das espigas de milho cozinhadas na água com sal e temperadas com manteiga da terra para quem quisesse.
Eu, na minha juventude, participei de quadrilhas organizadas pelo Colégio das Neves, onde estudei e também pela Cultura Francesa, que primava em desenvolver a dança com as citações francesas-aportuguesadas, que tornava a brincadeira mais atrativa e com muito mais prazer.
Que saudade ! ...
“Alavantour, Anarriê, Outre-Fois, Damas à Direita, Cavalheiros à Esquerda, Balancê com seus Pares, Olha a Chuva no Caminho ... Travessê Geral. ...”
Teve um ano que fui a dama de Roberto Córdula, irmão de Raul Córdula – Imagine só ! ... Roberto era completamente “desorquestrado” na dança e ficava pisando no meu pé – Tadinho ! ...
Guy e Raïssa sempre faziam parte do grupo com outros matutos amigos que completavam a quadrilha. Os rapazes com chapéus de palha, cachimbos, lenços nos pescoços, remendos nas calças, calçando alpercatas bem rústicas.
As moças com vestidos bem rodados, bastante coloridos, tranças nos cabelos enfeitados com flores, também calçando alpercatas, rostos pintados exageradamente com maquiagem sempre borradas.
As fogueiras eram acesas no início da noite. Quando se formavam as brasas, os mais habilidosos assavam espigas de milho, que exalavam um cheirinho bem agradável e apetitoso.
Naqueles tempos, esses períodos juninos eram uma gostosura só.
As moças faziam simpatias e adivinhações. Tinham também os cravos de papel que eram trocados entre os enamorados:
Basta pensamento basta
Deixa-me enfim descansar.
Um bem que ter não se pode
É um tormento lembrar.
(Bocage)
Esta palavra saudade
Aquele que a inventou
A primeira vez que disse
Com certeza que chorou.
(Afonso Lopes Vieira)
Ó pensamento atrevido
Só me lembras quem não vejo
Ou me tiras do sentido
Ou me matas de desejo.
( Popular)
Eu só gostava de ter
O poder de adivinhar
Que estão teus olhos a ver
Quando te vejo a pensar.
(Sílvia Tavares)
São João está dormindo
Não acorda não
Dê-lhe cravos e rosas
E também mangerição.
(Popular)
Meu São João querido
Meu Santo de carne e osso
Se tu não me dás marido
Atiro você no poço.
E outras e outras, igualmente carinhosas e cativantes.
Naquele tempo era assim. Tudo com muita naturalidade, com aconchego e com muito romantismo.
Depois apareceram uns modernismos em Campina Grande, que influenciaram muitos e inventaram um tal de – “O Maior São João do Mundo.” A partir daí, tudo se transformou para o ruim, deturparam os costumes e esse estrago se expandiu por outras cidades e outros Estados. O que vemos hoje são comemorações plastificadas. Ninguém sabe dançar com graça, com criatividade e autenticidade. Estão confundindo tudo.
O pessoal da Bahia invadiu o São João Nordestino com suas músicas e danças, descaracterizando por completo as nossas mais puras e verdadeiras tradições. Imagine você que agora aparece até Trio Elétrico nessas festas !
Tudo ficou muito diferente, muito estragado, muito repetitivo, tudo com muito luxo e pompa, mas sem nenhuma autenticidade. Imagine que o pessoal está tão enganado que até fazem concurso de quadrilhas e não sei qual o critério que usam para escolher, já que tudo é tão igual entre todos que se apresentam.
Hoje, quando vejo na TV as comemorações desse período, tenho vontade de chorar de tanto desgosto e nostalgia.
Hoje tenho as minhas dúvidas se alguém ainda se lembra do “Anarriê,” “Alavantur” e “Outre-Fois” dos meus tempos de menina feliz e matuta do Bairro do Miramar.
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