Hugo Caldas
Andei procurando pela net, nos sites especializados em teatro, nada. Nos blogs dos amigos da velha Guarda do Teatro do Estudante da Paraíba e mais uma vez, nada! Enfim, pelo Blog do Pedro Marinho a notícia me chega fria, nua. Morreu Walderedo Paiva. Não me anima fazer aqui um necrológio sobre o delegado, o Secretário de Estado, o deputado ou o advogado Walderedo Paiva. Desconheço este lado da sua vida. Quero, devo e vou relembrar o amigo dos tempos do Teatro do Estudante da Paraíba. Este Walderedo eu conheço muito bem.
Saiu de cena, o ator grandão de bela figura que integrou o elenco do Teatro do Estudante da Paraíba. Na realidade ele nunca foi uma pessoa destinada aos "oscars" da vida, mas até que chamava a atenção para a sua presença no palco. Exuberante, sabia muito bem se posicionar em cena. Trabalhamos juntos se não estou enganado em duas produções do TEP. "O Pagador de Promessas" de Dias Gomes e "O Chapeuzinho Vermelho”, de Maria Clara Machado. É notável a diversidade de temas, linguagem e texto entre os dois trabalhos. Considerado por muitos "o boneco canastrão", Walderedo tirava de letra e dava conta de qualquer papel com a maior dignidade. Via de regra se saía muito bem.
Vivíamos os Anos Dourados, final da década de 50, começo dos anos 60. Éramos todos meros estudantes, desprovidos de quaisquer compromissos e nem um pouco afeitos às responsabilidades da vida. Se fizermos as devidas comparações com os tempos atuais, a vida era um mar de rosas. O país vivia a efervescência do governo JK e Brasília havia sido recém-inagurada.
Para tomar parte nas festividades cívicas do grande evento, os Deuses do Teatro, por intermédio do seu representante aqui na Terra, o saudoso e maluco Ministro Paschoal Carlos Magno, decidiram que o Festival Nacional de Teatro de Estudantes daquele ano seria realizado na Novacap. O TEP é claro, não iria ficar de fora desta. O episódio abaixo me foi relatado ipsis litteris por alguém de quem agora não lembro o nome e comprova sem nenhum deslustre a personalidade única de Walderedo.
"Certa tarde, de agosto, um ônibus lotado com o elenco de ”Isabel do Sertão", peça premiada do pernambucano Luís Jardim, com a qual o TEP pretendía participar do Festival, subia lentamente a Rua Duque de Caxias e parou bem a propósito em frente ao Palácio da Redenção para que Raimundo Nonato apanhasse o número de um tal protocolo, o que iria proporcionar as passagens aéreas para a nova capital.
Walderedo ia passando e se espantou:
- Pra onde vocês vão? Perguntou meio desconfiado.
- Nós vamos pegar o avião em Recife para irmos pro Festival de Brasília, alguém respondeu. Walderedo não pensou duas vezes. Ali mesmo decidiu:
- Ah, mas eu vou também...
E subiu no ônibus com a roupa que estava, a cara e a coragem.
Mas ele era assim mesmo, amigo dos amigos. Incapaz de fazer mal a uma mosca. Só tinha tamanho e besteira. Muito me admira tenha chegado a delegado de polícia. Perseguidor de bandidos.
...era uma bela manhã de sol, eu de plantão no Aeroporto dos Guararapes, encontro o elenco do Teatro do Estudante. Todo mundo fardadinho, nos trinques, tomando o caminho de mais um Festival. Para mim foi uma festa vê-los. A festa acabou no exato momento em que o DC-4 do Loide Aéreo decolou levando o pessoal e eu fiquei no pátio amargando a maior inveja, a olhar o avião desaparecer completamente por detrás das nuvens. Entrei de férias em alguns dias e peguei o primeiro Constellation da Panair para Brasília, com viagem marcada para a Argentina. Contava encontrar o pessoal do TEP. Dito e feito. Brasília era uma festa. O restante da viagem foi cancelado ali mesmo no aeroporto. Adeus, Buenos Aires...
Ao cabo de uns dez dias de mil e uma aventuras na Novacap, fomos até recebidos pelo Presidente Juscelino Kubistcheck, veio o término das festividades e cada grupo recebeu um roteiro com algumas cidades a serem visitadas no trajeto Brasília – Niterói onde o Festival efetivamente terminaria. Seguimos de ônibus pelo Triângulo Mineiro e nossa primeira parada foi em Uberaba, simpatia de cidade. Ficamos eu e Walderedo no mesmo quarto do Hotel Mauad. Era uma situação grotesca porque ele vivia eternamente em cuecas visto não ter trazido sequer uma muda de roupas e não poderia amassar a única que tinha. Walderedo não carregava consigo qualquer incumbência. Seja como artista ou como artífice. Ócio total. Sempre numa boa, sem nada fazer a não ser freqüentar o bar da cidade, tomar umas cervejas e aprontar uma brincadeira ou outra. De volta ao hotel com a pança cheia de boa comida e bebida, deitava na cama, soltava uma rajada de puns estridentes, horrorosos, cujo eco reverberava nas montanhas das Minas Gerais.
- "Eita vidinha merda essa minha." Dizia alto e em bom som, caindo na gargalhada.
Terminado o Festival em Niteroi eu permaneci no Rio de Janeiro a fim de aproveitar o restinho das férias. Foi a última vez que ví o Walderedo. Tempos mais tarde Elpídio Navarro teve a genial idéia de reunir anualmente a velha guarda do TEP em sua casa no dia do seu aniversário. Era uma animada festança, oportunidade para rever os amigos, e por a conversa em dia.Vinha gente até de Nova Iorque. Menos Paulinho Nóbrega. E Walderedo. Quando por ele indagava me comunicavam que havia feito Direito, se mudara para o Território de Rondônia e estava muito bem de vida. Virou delegado de Polícia, dizem que foi um bom líder sindical. Elegeu-se Deputado Constituinte quando da mudança de território para estado. As voltas que o mundo dá!
Ontem, ainda bastante chocado com a notícia, sabia que ele se encontrava mal em uma UTI e torcia para a sua recuperação, contava em vê-lo e já havia até planejado uma viagem à João Pessoa. Ao conferir a correspondência recebo e-mail da amiga Nazaré Xavier, uma das nossas atrizes do TEP:
"Oi, Hugo.
Ao chegar de viagem, ontem à noite, encontro a notícia do falecimento de Walderedo Paiva. Nessas horas passa um filme na cabeça da gente. Me vi em Santa Juliana, no triângulo mineiro, aprontando com Walderedo num barzinho do centro da cidade. Fazíamos um anão e eu era as mãos do dito cujo. Lembra-se? Sempre que nos encontrávamos, ele lembrava essa nossa façanha o que era motivo de muito riso. Bateu uma saudade daquelas. É mais um que se vai. Beijão, e pelo amor de Deus, não vá agora. Naza"
Claro que não, Nazaré. Mas se for o caso, acho bom você vir também, pois iremos encontrar todos os que já saíram de cena: Arlindo Delgado, Genildon Gomes, Pereira Nascimento, Marcos dos Anjos, Guida Cardoso, Walfredo Rodriguez, Paulinho Pontes, Cilaio Ribeiro, Risoleta Córdula, Raimundo Nonato, Martinho Alencar, Valter de Oliveira, Edinaldo do Egito, Zé Bolinho, Marçal, Elcir Dias, Nautília Mendonça, Gilson Medeiros, Lucy Camelo, e agora, Walderedo. Acho que já dá pra fazer um estrago nos festivais do céu. Isto se São Pedro permitir, é claro.

11 comentários:
Beleza de memória sobre o Valderedo, Hugo. Aqui vai a minha:
Elpídio Navarro me liga na noite de domingo para me dizer que Valderedo Paiva morreu.
Lembro-me dele com 33 anos, filmando conosco “O Salário da Morte”, lá em Pombal. Era o típico galã hollywoodiano: alto, louro de olhos azuis, halterofilista. Alguns anos depois, a doutora Livramento – velha amiga lá de Pombal – insistiu que eu deveria fazer uma reportagem sobre Menininho, em cara que abria cadáveres para o IML. “Ele mora diante de uma piscina de merda, Solha”. Referia-se ao emissário, nome dado ao tratamento final dos esgotos antes de jogá-lo ao mar. Fui com ela conhecer o profissional e o entrevistei. Quando lhe perguntei se poderia vê-lo trabalhando, pediu-me que aguardasse um telefonema seu avisando da existência de um corpo no Instituto. Como demorou, fui lá. Um estranho me atendeu no portão de ferro, mãos enluvadas em plástico. Disse-me que Menininho estava de férias. Perguntei-lhe se poderia ver o morto em que estava trabalhando. Entrei, usei o que vi lá dentro em meu romance “Arkáditch”, mas a direção do IML não me permitiu assistir ao trabalho de seu profissional, “porque haveria fatalmente uma reação negativa do público”. Aí é que Valderedo entra de novo na história. Eu voltava para a agência centro do BB, onde trabalhava, quando dei com ele saindo de seu escritório de advogado. “Parece que está chateado!”, disse-me. Falei-lhe da reportagem perdida. Ele então me disse que tinha um laudo interessante para me mostrar e que poderia usar na reportagem, desde que não citasse a fonte. Fui ao escritório dele e li uma descrição de autópsia: o morto, no caso, era um pintor de paredes. Trabalhava na casa de um militar, quando a mulher do homem deu por falta de algum dinheiro e o acusou. Preso, negando ser ladrão, o cara foi morto numa cela em que havia cerca de sessenta prisioneiros, na penitenciária. A polícia, segundo Valderedo, tentara fazer passar sua morte como suicídio, mas a descrição da violência sofrida pelo corpo do coitado era evidente. E o pior: a mulher do milico encontrara o dinheiro, que se esquecera de ter guardado noutro lugar, diferente do que se lembrava. Fiz a matéria, mas a Doutora Livramento disse-me que Valderedo teria de assumir ser a fonte de minha informação sobre o crime. Valderedo, então, corajosamente, assumiu.
Pois bem. Muitos e muitos anos depois, recebo uma ligação de Rondônia: era ele dizendo-me que, secretário de segurança do estado, candidatara-se a deputado federal de lá, mas o problema é que adquirira tal fama de violência, que me pedia a tal reportagem para divulgá-la na sua cidade, para apresentá-lo aos leitores como alguém diferente, que trabalhara num filme comigo. “Preciso mostrar que tenho um lado artista, entende?”
Mandei-lhe a reportagem, que foi reproduzida por lá, e o fato é que, com minha ajuda ou não, ele se elegeu.
W. J. Solha
Não cheguei a participar do Teatro do Estudante.Muitos anos depois fui de uma tentativa de reconstrui-lo saida da cabeça de Elzo,numa montagem de Otelo,onde eu faria o Iago que não deu certo.No tempo de Walderedo como ator, eu era apenas espectador.Vi-o no PAGADOR e em O MENINO DE MOONY NÃO CHORA.Ele era parecido com Burt Lancaster.Anos depois encontrei uma filha dele em O Norte.Ela era do Depto.Comercial.Trabalhamos juntos.A gte vendo o vigor de Walderedo naquele tempo poderia pensar que ele não morreria nunca.Mas morreu.Que Deus o tenha.Já temos um bom elenco "adonde que veve os mortos".Tem Clenio ou Leonel pra dirigir.E nossa amiga Luci Camelo pra digitar o texto.Hugão,vc fez Chapeuzinho comigo!!
Notícia muito triste. Fui vizinho dos irmãos Walderedo e Walter, durante muitos anos na Rua da República, em João Pessoa. Morávamos próximo ao antigo Cine Felipéia.
Todo mundo lembra a figura bonita que Walderedo apresentava.Por conta dela, foi escolhido para fazer o papel de "Bonitão" na peça de Dias Gomes. E, aqui pra nós, ele se achava... Lembro que quando passou o filme "Pagador de Promessa", o elenco da peça foi todinho pro Rex ver a fita. Na saída, encontro Walderedo na porta do cinema que me diz: -"Viu, o bonitão do filme? Que merda!..." Eu também concordei porque Walderedo dava de 10 a zero em Geraldo Del Rei. O cara era bonito, mesmo!!!
Nazareth
Hugo.
Seu depoimento me emocionou, muito obrigado por suas palavras.Walderedo sempre estará vivo em nossos corações.
Waldir Paiva (o Lôbo mau)
Hugo.
Obrigada pela cronica que vc fez sobre o meu irmão Walderedo Paiva.
Lembro muito do meu irmão em cena, e eu na primeira fila do Teatro Santa Rosa assistindo Chapeuzinho vermelho, ainda menina.
José Bezerra Filho escreveu e montou uma peça de sucesso na Paraíba “Enquanto não Arrebenta a Derradeira Explosão, e lá eu estava orgulhosa do meu irmão.
Obrigada, um grande abraço.
Valdete Paiva
Hugo Caldas disse...
Vosmicê deve ser da família do Walderedo. Preciso de algumas informaões. Contate-me por favor, pelo meu e-mail:
hucaldas@gmail.com
Grato, desde já.
Hugo Caldas
Jose Araujo. Fomos vizinhos na Rua da Republica, bons tempos.Vc foi meu companheiro de traquinagem na praça do pavilhão do Chá.
Waldir Paiva
Hugo, fui o caçador na peça Chapeuzinho Vermelho de Maria Clara Machado,saudades da Lindaura Pedroza e todo o elenco.
Hugo.
Obrigada pela cronica que vc fez sobre o meu irmão Walderedo Paiva.
Lembro muito do meu irmão em cena, e eu na primeira fila do Teatro Santa Rosa assistindo Chapeuzinho vermelho, ainda menina.
José Bezerra Filho escreveu e montou uma peça de sucesso na Paraíba “Enquanto não Arrebenta a Derradeira Explosão, e lá eu estava orgulhosa do meu irmão.
Obrigada, um grande abraço.
Valdete Paiva
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