terça-feira, março 20, 2012

Yo no falo americano!






Téta Barbosa



- Atenção colaboradora Jennifer, favor comparecer ao setor L13.

E lá vai Jenny, como é conhecida pelos amigos, com seu crachá de vendedora do setor de cosméticos, andando faceira pelos corredores da loja.

No setor L13 encontra seu supervisor, Maicon. Ele quer apenas apresentar Jeniffer a seus novos colegas de trabalho: Evellyn e Williames.

Não, não se trata de um episódio de novela americana nem filme de Hollywood. Trata-se de uma invasão sorrateira e silenciosa do estrangeirismo nos nomes próprios e vida familiar sertaneja.

O Nordeste virou Miami e nossas Marias e Josés se transformaram em Carolaines e Washingtons.

O y e o w assumiram a realeza letreira e reinam absolutos nas aulas de alfabetização.

Engraçado é que, da última vez que eu chequei, nossa colonização tinha sido portuguesa (quase holandesa), confere produção? Ok, vieram uns ingleses enxeridos para construir umas ferrovias e tal, mas nada que justifique tanto th nos nomes das crianças nordestinas.

Certo, nosso forró vem do for all.

Também nos consideramos o raio da silibrina. A expressão, que significa que somos massa, vem dos faróis ingleses “sealed beam”. O cara olhava de longe aquela luz inebriante e dizia: “lá vem o raio da silibrina”. Daí pra virar expressão “oficial” foi rapidinho: o cabra que é massa, virado no mói de coentro é, automaticamente, considerado o raio da silibrina.

Até aí, tudo bem. Mas daí a Wesleys e Keylas invadirem nossos cartórios e registros, é um longo caminho a ser percorrido. Como João virou John, assim de uma hora para outra, sem que o Governo decretasse estado de alerta e eminência de ataque inimigo?

Verdade seja dita, e aqui entre nós (que nossos cumpadres portugueses não me ouçam), nossos colonizadores mudaram de nome. Hoje atendem por: Walt Disney, Universal Pictures, Sony Music, Warner Brothers e, o chefe da máfia, Tio Sam!

A invasão foi sem armas e não precisou ativar nenhuma ogiva nuclear. Foi mais pra orgia mesmo. Uma orgia econômica/política/globalizada que transformou nosso pão com ovo do café da manhã em cereal com leite. Nossos cabelos castanhos e crespos em loiras de farmácia com madeixas de chapinha. Nossos Ricardos em Richards.

Nos resta esperar que algum Pedro ou Severino, fartos do império, grite um “independência ou morte” antes que a gente comece a hastear a bandeira branca, vermelha e azul enquanto cantamos “the land of the free and the home of the brave”.


Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa aqui e alhures.
http://www.batidasalvetodos.com.br/

2 comentários:

José Afonso - Aracajú-SE disse...

Belo texto. Ainda bem que meu nome é Zé, do qual me orgulho tanto.

ecologiaemfoco disse...

Ah, minha querida. Mas nada supera os paraibanos MILKCHEIKSON e FACEBOOKSON.
Uma preciosa diversão, ler seus escritos.