quarta-feira, março 14, 2012

Tiro&Queda



Eduardo Almeida Reis




Terra natal
– Bastou que a Forbes Magazine constatasse que o Rio de Janeiro é a cidade mais feliz do mundo, happiest em inglês, para que muita gente se lembrasse da opinião de Elizabeth Bishop sobre minha cidade natal: “O Rio não é absolutamente uma cidade maravilhosa, mas apenas uma cidade edificada em um lugar maravilhoso”. A poetisa ou poeta, sei lá, teria dito que dava nota 10 para a natureza e nota 2 para a cidade.

Não precisavam mexer comigo, que andava quieto aqui no Taj Mahal. Esse negócio de falar mal da terra da gente dá um bololô dos diabos. Famoso cronista mineiro, nascido em Barbacena, resolveu brincar com o visual de Lafaiete, a velha Queluz de Minas, e comeu o pão que o diabo amassou. Eram 1500 (mil e quinhentos!) e-mails por dia, que só faltavam chamar o cronista de bonito.

Entendo a fúria lafaietense, porque não gostei nem um pouquinho da transcrição do que a poetisa (poeta?) falou de minha cidade. Conheci Bishop pessoalmente, fui citado por ela na introdução de um livro que traduziu para o inglês, estive em sua casa na região serrana do RJ. Prêmio Pulitzer, deve ter sido brilhante em poesia e em inglês, mas nunca foi urbanista, antropóloga, socióloga. Por isso, deveria abster-se de opinar sobre as cidades dos outros, bem como sobre relacionamentos amorosos, pois sua vida sempre foi meio complicada. Basta lembrar que sua namorada se suicidou.

Greve – Anteontem, amanheci pendurado no rádio e na tevê para acompanhar a greve dos ônibus de BH. De saída, uma conclusão: as grandes vítimas do movimento foram o povo trabalhador e o idioma português. Deliciosa a declaração “os patrões manteram” de um líder sindical sobre a intransigência dos empresários, que ofereciam cerca de 12% de aumento, em vez dos 49% pedidos, e não prometiam fazer os banheiros femininos para as motoristas e cobradoras, servindo também para o cartunista Laerte.

Fiquei fascinado com outro líder que falou sobre “os trâmites legais das leis”. É isso aí.

Obituário – Quando todos pensavam que também fosse imortal, José Ribamar esticou as quatro canelas há dois meses. Beirava os 30 anos, muita idade para um burro, mas ainda se metia em todos os serviços da fazendola de um amigo meu, próxima da Rodovia Fernão Dias e não muito longe da capital de todos os mineiros, tanto assim que o excelente patrício trabalha em BH e dorme na roça. Só mesmo uma picada de urutu na veia para mandar José Ribamar desta para a pior.

Mais grave foi agora, quando uma onça matou e comeu Dona M..., mula da tropa da fazenda. Onça mesmo, aqui pertinho de Belo Horizonte. Como animal de serviço, Dona M... não faz muita falta; metia-se em tudo e nada de útil produzia. Presumivelmente parda, a onça continua por lá, o que significa dizer que habita a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em setembro, outra onça foi atropelada na Fernão Dias, perto de Itaúna. E os jornais nos dizem das onças que têm sido encontradas em garagens, terreiros e galinheiros de diversas cidades de São Paulo.

Mais dia, menos dia, o problema exigirá solução das autoridades competentes. Não pelo passamento de Dona M..., que não valia grande coisa. Meu amigo, graças ao seu trabalho, tem dinheiro de sobra para comprar outros burros e mulas que façam companhia ao Honoris e ao Amorim, mas existe o risco de as onças começarem a comer gente.

Ridícula! – É louvável que redes de tevê tenham correspondentes noutros países. Todos vimos o trabalho admirável do jornalista Roberto Kovalick, no Japão, cobrindo a tragédia de Fukushima. Mas peço ao leitor, se está esquecido, que dê uma olhada no mapa da América do Sul para confirmar que a Colômbia faz fronteira com o norte do Brasil, enquanto a Argentina fica ao sul do país grande e bobo, fazendo fronteira conosco ali na região das Cataratas de Iguaçu. E tem mais: a Colômbia NÃO faz fronteira com a Argentina.

Ora muito bem - quando os narcotraficantes das Farc anunciam que vão liberar 10 civis presos há muitos anos, a rede de televisão, sediada em São Paulo, recorre ao jornalista Sérgio Gabriel, correspondente na Argentina. Além de ridícula, a providência faz o telespectador de bobo. E tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

O mundo é uma bola – 14 de março de 1879: nascia Albert Einstein, cabeça da melhor supimpitude. Dava-se mal com a mulher, problema que costuma ocorrer com os gênios, sobretudo e principalmente quando avisados de que o almoço está na mesa. Está para nascer a mulher que entenda a desimportância da hora do almoço diante do filosofar de um gênio.

Hoje é o Dia Nacional da Poesia. Palmas para Yedda Prates Bernis, que reina absoluta no poetar em língua portuguesa e brilha no Conselho Estadual de Educação.

Ruminanças – “Síria, guerra civil, 20 mortos/dia no último ano. Brasil, último carnaval, 40 mortos/dia só nas rodovias federais” (R. Manso Neto).

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