domingo, março 25, 2012

Sudestinos X Nordestinos


Ipojuca Pontes

Afinal, surgiu no Brasil um analista político com alguma dose de originalidade. O Sr. Gláucio Soares, doutor em sociologia pela Washington University Saint Louis, invocou (em “O Globo”, edição de 10/12/2012) governadores, políticos e pesquisadores do Sudeste (notadamente São Paulo, Rio e Minas Gerais) para a formação de uma “identidade regional”, segundo ele, passo político estratégico para defender os interesses da região. O sociólogo julga que a afirmação da identidade criou uma ideologia da exploração entre as regiões e que o Sudeste precisa assumir sua identidade regional: “Não há sudestinos” – diz ele. Aqui “É cada estado por si e ninguém contra todos” – conclui, a propósito do imbróglio pela divisão dos royalties do pré-sal, riqueza explorada no Sudeste, mas consumado objeto de desejo do resto do País.

Em contraposição, de acordo com Gláucio Soares, nordestinos, nortistas e sulistas, firmados numa fortíssima identidade regional, a mobilizar sólida força política, asseguram para si o grosso dos recursos federais. Para comprovar a relevância do modus operandi dessas forças regionais junto ao governo central, o sociólogo dá como exemplo a atuação dos políticos brasileiros em Brasília: no conjunto dos discursos ali proferidos em temporadas recentes, segundo dados do Sicon (Sistema de Informações do Congresso Nacional), 3.780 mencionam a região nordestina, outros 1.469 reportam-se a Região Norte, seguidos de 964 discursos apontando a Região Sul e 637 o Centro-Oeste. Na retaguarda, perfila o Sudeste com apenas 270 menções. São quatorze menções nordestinas para uma “sudestina”.


Paralelamente, diante dos números irrefutáveis e da conseqüente irrelevância legislativa do Sudeste em âmbito federal, o sociólogo questiona de peito aberto o discurso da exploração das regiões pobres pelas ricas, muito a gosto dos ricos das regiões pobres. Ele indaga, por exemplo, com certa pertinácia: a miséria do Maranhão se deve mais à exploração por São Paulo ou a décadas de corrupção e inépcias da sua elite – e se a ambos, em que proporções? Indo mais além, interroga: os recursos desviados do Sudeste e do Sul, através do Congresso, vão beneficiar os necessitados das regiões mais pobres ou, ao contrário, a elite, a burocracia e as classes médias dessas regiões?


Com muita ênfase, o articulista denuncia a hipocrisia dos atores políticos que brandem a bandeira da exploração do Nordeste pelo Sudeste, mas que, em números nada desprezíveis, são pessoas ricas e insensíveis à miséria do próprio povo. O analista se insurge especialmente contra os políticos, muitos deles latifundiários, que fazem o discurso da vitimização do Nordeste ao tempo em que possuem nababescas casas de praia, viajam constantemente ao exterior com os familiares e exploram os peões que trabalham em seus latifúndios.


Gláucio Soares é um sociólogo interessado. Reconhece que a imensa burocracia federal reserva para os contendores regionais, ricos ou pobres, tão somente as migalhas do banquete. “O estado brasileiro tem impostos suecos e benefícios africanos” – pondera. No frigir dos ovos, como um ogro insaciável, consome tudo e mais alguns trocados que arranca sem dó nem piedade da população.


Mas há lacunas na invocação do sociólogo. Ele não considera, por exemplo, que, sob a égide do PT, de ideologia estatizante, o tamanho da burocracia oficial triplicou. Nem que o partido esquerdista aparelhou, com sua militância parasitária, a insuportavelmente pesada máquina burocrática do Estado. Por sua vez, não menciona que por mais de cento e cinqüenta anos, pelo menos de D. João VI à inauguração da Ilha da Fantasia, de JK, os “sudestinos” se fizeram ricos em cima de privilégios políticos e fiscais e da inegável exploração da mão de obra escrava das regiões pobres.


Uma falta lastimável para quem, mesmo a meio pau, labora em cima de dados

reais.

Um comentário:

VIRGOLINO disse...

O beijo é um gesto sublime de carinho e afeição.

Mas, esse daí, entre Dilma e Sarney, é de uma obscenidade sem limite.