
José Virgolino de Alencar
O governo brasileiro e uma certa imprensa comprometida com o oficialismo, além de pessoas que entraram no falso nacionalismo, todos fizeram um carnaval fora de época com a frase do Secretário Geral da FIFA, Sr. Jerôme Valcke.
Claro que a linguagem do cartola da entidade mundial do futebol não foi adequada dentro de um discurso oficial, de uma séria palestra onde se discutia a morosidade do Brasil em organizar a estrutura da Copa, naquilo que é responsabilidade do governo.
Contudo, não merecia ter sido levada à condição de incidente diplomático, de afetação das relações entre o Brasil e a FIFA. Até mesmo porque a observação é verdadeira, o Brasil está bastante atrasado em relação às providências necessárias à garantia de êxito do evento.
Apesar do barulho, a frase serviu para despertar os responsáveis brasileiros, tanto que se apressou, no Congresso Nacional, a votar a Lei Geral da Copa, enquanto os órgãos encarregados da segurança, da mobilidade urbana, do sistema de transportes e de outros segmentos acordaram e começaram a agir, na tentativa de recuperar o tempo perdido.
Mas, o quero mesmo abordar não é o efeito e nem a discussão da frase de Valcke. Estou pegando o gancho da frase para mostrar que o país, seu governo, seu sistema político, vivem de levar chute no traseiro para poder se movimentar na direção cobrada pela sociedade.
O governo atual é o esquema de poder que transformou em hábito o fato de “se donner um coup de pied aux fesses”. Só quando a imprensa solta a notícia, que é um verdadeiro “chute no traseiro”, com denúncias estarrecedoras, é que os responsáveis palacianos, depois de muito reagirem e tentarem desmentir os fatos, passam a dar chutes no traseiro dos auxiliares denunciados e os mandam ao chão.
Foram sete ou oito ministros que passaram a ser moídos por denúncias escabrosas, o sistema de blindagem oficial foi acionado e usado à exaustão, mas não teve jeito. Sempre terminou no “se donner um coup de pied aux fesses”. Todos levaram o inevitável chute no traseiro, embora tenham sido tão-somente defenestrados dos cargos, continuando suas privilegiadas vidas de benesses, com quase todos voltando às suas cadeiras no Congresso Nacional, quer dizer, à imunidade, ou seja, ao manto da impunidade.
Com efeito, não resta dúvida, de qualquer modo, que o caráter de modelo que só age “se donner um coup de pied aux fesses” ficou como lema oficial ou como norma de conduta do governo.
O comando do governo leva um chute no traseiro da imprensa e da sociedade e, para não dar com a cara no chão, repica um chute no traseiro do auxiliar, se recobra na posição de mando como se nada tivesse acontecido, enquanto a opinião pública só aguarda o próximo ponta-pé da mídia e da cidadania irresignada com a corrupção, mesmo sabendo que, reincidentemente, o governo dará o seu ponta-pé no bode expiatório escolhido e tudo volta a ser como dantes no quartel de Abrantes.
Mas a imagem fica. É o governo vivendo sob o anátema: “se donner um coup de pied aux fesses”.
O próximo chutaço na região glútea não demorará.
Nenhum comentário:
Postar um comentário