segunda-feira, março 19, 2012

Felizes por nada





Martha Medeiros




ZERO HORA - 14/03/12


Quando me perguntam a que atribuo o fato de minha última coletânea de
crônicas estar há 32 semanas na lista dos mais vendidos, não me ocorre
outra resposta: só pode ser por causa do título, já que o conteúdo é
semelhante às coletâneas anteriores.

No entanto, nenhuma teve uma receptividade tão calorosa quanto Feliz
por Nada, um livro que traz textos sobre as triviais situações do
cotidiano, e não sobre a “Felicidade” aquela, com maiúscula e traje de
gala. Como se explica?

Surgiu uma pista: foi divulgado, semana passada, o resultado de uma
pesquisa que revela que o Brasil é o campeão mundial de felicidade.
Mundial! As entrevistas devem ter sido feitas numa época do ano
diferente da que estamos, pois quem consegue ser tão feliz prestes a
entregar a declaração do imposto de renda? Pagamos os tubos para o
governo, que gentilmente retribui nos dando uma banana. Os que buscam
saúde de qualidade, educação de qualidade e segurança de qualidade têm
que pagar por fora.

Os pedágios seguem altos. Tudo é caro: roupa, alimento, remédio,
transporte. Aeroportos não dão conta do movimento, criminosos são
soltos por falta de espaço nas prisões, o trânsito nas grandes cidades
está estrangulado, o tráfico de drogas acontece a céu aberto. Nem
precisamos perguntar para onde vão os bilhões que o governo arrecada e
que deveriam ser reinvestidos no país. Vão para o mesmo lugar aonde
vai nosso voto: para o bolso dos sem-escrúpulos.

Logo, somos realmente felizes por nada. Se não temos a bravura de nos
mobilizarmos, ao menos nos sobra capacidade de extrairmos alegria de
todo o resto: desde os gols do Neymar até uma receita nova de
panqueca. Não deixa de ser um estágio existencial avançado – em vez de
um povo frustrado por não ter a casa própria, o vestido de grife ou o
iPad recém-lançado, as pessoas curtem a floreira embaixo da sua
janela, o café da manhã com o namorado, o último capítulo da novela, o
primeiro desenho que o filho fez na escola.

A notícia é boa, mas também é ruim: tudo indica que estamos
valorizando as pequenas delicadezas que a rotina oferece com fartura,
o que explica não nos importarmos tanto por sermos roubados e por
vivermos sitiados dentro de edifícios gradeados.

Faço parte do time que acredita que ficar em casa lendo um livro ou se
reunir com amigos para tomar um vinho equivale a uma festa a rigor (na
verdade, considero melhor que uma festa a rigor). Individualmente, a
simplicidade é uma forma saudável de levar a vida, é o que defendo.
Mas quando uma nação inteira se revela satisfeita com merrecas, sem
ter o básico garantido, alto lá. Consagrar o Brasil como campeão
mundial de felicidade é passar atestado da nossa alienação e do nosso
desinteresse pelo futuro. Seria mais decente nos emburrarmos um pouco.

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