quarta-feira, fevereiro 08, 2012

O acrobata sempre vai novamente à luta

Anco Márcio de Miranda Tavares



Calçado com finas sapatilhas e com o corpo metido numa roupa de lamê dourado o acrobata entra em cena no picadeiro da vida. Nunca teve medo de nada e não será dessa vez que vai ter. Entra dando saltos mortais e fazendo piruetas que mais tarde se acabarão na mais fina e dourada purpurina.

Sem temer a morte sobe no trapézio e se encanta com a visão das pessoas em baixo, que parecem cada vez menores à medida que o trapézio vai sendo puxado para o alto. Esfrega breu nas mãos para que não escorreguem e começa a se balançar ao som de uma valsa ou de um Noturno de Chopin.

O acrobata tem uma fina maquiage prateada feita com pó de ostra e um fino traço preto contorna seu rosto.Sua vida é arriscada em quatro sessões a cada dia para ganhar o sustento e os beijos molhados e quentes da bela bailarina que dá rodopios em redor de uma velha sombrinha.

Faz mil peripécias no trapézio até que se cansa e vai passear no arame com a segurança de quem está no chão. Anda naturalmente no fio de metal sem sequer um escorrego, um tombo, uma vacilação que seja, ao som de uma desafinada orquestra que toca velhas músicas e as mesmas diariamente.

Finge que vai cair, para emocionar a multidão, mas permanece firme no fino arame que lhe serve de alameda, que lhe cabe como uma luva de passeio, parece andar de smoking de tão elegante que está no seu caminhar sereno sobre o fio prateado. Gotas de suor começam a derreter sua maquiage e ele não se importa.

Súbito, um passo em falso, um pé que foi pra trás quando deveria ir pra frente. Ele cai estrondosamente e sente todos os ossos de seu corpo se partirem. A orquestra ataca uma marcha acelerada e entra um batalhão de palhaços para encobrir o corpo do acrobata que está no chão. Escandalosamente morto...

Do Site: http://ancomarcio.com/site/

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