segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Alencar


Eduardo Almeida Reis


Pena Capital (segunda, 6/fev)


No meu penúltimo livrinho, transcrevo comentário de José Roberto de Alencar sobre o autor: “Pinguço e reacionário, mas tem caráter”. Caráter é aquilo que o sujeito tem ou não tem. Portanto, não existem as figuras do mau caráter e do bom caráter. Assumo o pinguço que já fui e o reacionário que sou, depois de ter descontado 10% do meu salário para o Partidão e descobrir que a maioria dos comunas, esmagadora maioria, roubava muito mais do que o resto da humanidade. E o Partido dos Trabalhadores não me deixa mentir.

Grande Alencar! Vários casamentos, muitas dezenas de namoradas, feio como ele só: magruço, sempre de colete de fotógrafo, um dos maiores, senão o maior repórter que este país conheceu.

Sucesso extraordinário com as mulheres, pelo motivo que acabei descobrindo: despejava sobre elas uma blitzkrieg de elogios – e não há mulher que não goste de ser elogiada. Era generoso. Sem nadar em ouro, sempre foi o primeiro na hora de pagar as contas. Orgulhava-se das moças que vinham de São Paulo, de ônibus, para passar com ele o final de semana em Belo Horizonte. E dizia: “Veio de ônibus!”. Realmente, encarar a Fernão Dias, by bus, para viver dois dias de tórrido romance, é diploma para ninguém botar defeito. Aproveito esta oportunosa ensancha para informar que o Google tem 502 milhões (!) de entradas para by bus.

Mineiro de Santa Rita de Caldas, o Zé nunca foi comunista, mas anarquista. E o anarquismo, di-lo Houaiss, em filosofia, história e política foi teoria social e movimento político, presente na história ocidental do século 19 à primeira metade do século passado, que sustentava a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado, sendo este considerado dispensável e até mesmo nocivo ao estabelecimento de uma autêntica comunidade humana.

Não concordo com essa definição de anarquismo, quando diz que arrefeceu na primeira metade do século passado. Diante do lulismo, sou anarquista de primeira água. Resumindo: movimento político em tudo e por tudo diferente do Estado Democrático de Direito que vemos por aí. Até o Agnelo – quem diria? – chamando o parceiro de “meu mestre”. E o Lupi, ex-jornaleiro do Brizola, na lista dos Orlandos, Paloccis, Erenices, Dirceus, Nascimentos, Gushikens, Rossis e o pequerrucho do Turismo, aquele do motel, como é mesmo o nome dele? Ah, já me lembro: Novais, deputado pelo Maranhão. Razão tem o meu amigo R. Manso Neto quando diz que, no Brasil, os ministros entram indicados e saem indiciados.

O Alencar não admitia que o Estado o obrigasse a usar cinto de segurança. Tinha um JPX, fabricado pelo Eike Batista, e rodava pelo Brasil sem cinto, enxergando com um só olho, mesmo assim com uma lente de contato inventada... por ele! Com a lente de sua invenção, passou em todos os exames de vista dos Detrans.

Se me ponho a escrever sobre o Zé apronto um livro capaz de tomar quatro meses de Pena Capital. Fica o registro, com a seguinte observação: tenho pena de quem não o conheceu e mais pena ainda de quem não teve o privilégio de ser seu amigo.

eduardoalmeidareis@terra.com.br

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