
W. J. Solha
Com meu primeiro romance – Israel Rêmora ( Récord, 1975) – tentei retratar a vida de funcionário do Banco do Brasil que vivi em Pombal nos anos 60. Abordava, pela primeira vez, a classe média urbana, contemporânea, nordestina. Em pleno sertão.
Com outro romance – Relato de Prócula (A Girafa, 2009) – seguindo o modelo de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, busquei reproduzir a intensa vida cultural que conheci na terra de Celso Furtado e de Leandro Gomes de Barros, tanto na zona rural como na “rua”, como se dizia lá, trazendo pra João Pessoa meu padre Martinho Lutero Libório e sua crise religiosa. Agora, com um terceiro romance na mesma linha – Arkáditch (Ideia, 2011) – ponho uma Pombal distante no espaço e no tempo, tornando centro da narrativa a capital paraibana.
Há uma personagem de que gosto muito, neste último livro: Dona Dondon, descendente dos Van der ley, com sua bem cuidada residência na Praia de Cabo Branco. Dondon era o apelido de uma das avós de minha mulher, que conheci já bem velhinha, em Pombal, com seus lindos cabelos alvos, ela toda muito educada e limpinha. Wanderley – Doutor Atêncio Wanderley - era tio de Ione e foi um de meus grandes amigos e o homem mais culto que conheci. No dia em que o vi pela primeira vez, nos idos de março de 63, pensei imediatamente: “Jacobbus Zaffius, de Frans Hals”

Classe média urbana. Os pintores flamengos eram mestres nisso.

Foi muito significativo, pra mim, ter feito papeis de pernambucanos de classe média urbana, contemporânea, nos longas O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kléber Mendonça Filho e Marcelo Gomes, que serão lançados no primeiro trimestre do ano que vem. Na foto abaixo, vemos o Kléber preparando a cena que é o clímax de seu filme. Aí estamos, também, eu - de costas -, Irandhir Santos e Sebastião Formiga no assento em frente, e, na parede, à esquerda, autorretrato meu, feito lá pelos 18 anos. Nada de chapéu de couro, como se percebe.

A designação classe média é invenção de Aristóteles (em Política) para a faixa de cidadãos que poderia garantir a estabilidade de qualquer regime. Foi – paradoxalmente - a grande revolucionária do século passado: Che e Lênin pertenciam a ela. Paradoxalmente? Nem tanto. O que esses grandes homens pretendiam era a diluição do enorme desequilíbrio Oligarquia/Lumpen, criando, na bala, uma sociedade igualitária. A arte (incluindo literatura, cinema, pintura ) tem importância enorme como o grande instrumento da memória dessa luta. O que saberíamos da Revolução de Outubro sem o cinema de Eisenstein, sem a grande História da Revolução Russa, de Trotsky, sem Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, de John Reed, sem a poesia de Maiakovsky, o romance de Gorky, a música de Prokofiev? Que imagem teríamos da Revolução Mexicana sem os murais de Siqueiros, Orozco e Rivera? O que foi a Batalha de San Romano, fora do tríptico de Paolo Ucello?

O que seria da Guerra da Gália, sem o De Bello Gallico de César, o que seria de Canudos e do Conselheiro, sem Os Sertões, de Euclides da Cunha?
O que seria de Dublin sem James Joyce?


Nova Iorque, sem dúvida, é mais Nova Iorque graças às fotos de Feininger, ao Frank Sinatra e à Lisa Minelli cantando New York, New York, ao Woody Allen filmando Manhattan, ao Gershwin compondo a Rapsody in Blue, ao Tom Wolfe escrevendo o romance Fogueira das Vaidades.
Que seria da Bahia sem seu grande escritor?


E do interior paraibano sem os seus?


Quando me acerquei de Guararapes pra escrever meu romance A Batalha de Oliveiros (Ed. Itatiaia, 1989), em busca de nossas raízes, apesar da qualidade literária de algumas obras consultadas, como O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, de Frei Manuel Calado do Salvador, mais a História dos Feitos Praticados por Nassau durante oito anos no Brasil, de Gaspar Barléu, ambos do século XVII, para o visual – sua parte mais viva – me socorri dos velhos
pintores conterrâneos e contemporâneos dos Van der Ley:

Bem. Classe média, urbana, contemporânea, nordestina. Houve o Ciclo da Cana, houve o Ciclo do Cacau. Isso é passado.
Ocupemo-nos do novo filão.

Um comentário:
Che e Lênin pertenciam a ela. Paradoxalmente? Nem tanto. O que esses grandes homens pretendiam era a diluição do enorme desequilíbrio Oligarquia/Lumpen, criando, na bala, uma sociedade igualitária.Acorda sr. Solha. O que essa dupla queria era se arrumar, como hoje fazem os petistas. Filosofia bonita mas pura enganação. Nelmar
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