
Eduardo Almeida Reis
Terminada a arrumação de minha pequena biblioteca no apartamento alugado, tarefa que levou exatos 11 meses, descobri duas coisas importantíssimas. A primeira é que não existe profissão mais complicada do que a biblioteconomia e a segunda é que tenho 34 livros do maior humorista brasileiro de todos os tempos, dos mais de 50 que escreveu.
Vamos por partes. Já me desfiz da Encyclopaedia Britannica impressa em mais de 30 grossos volumes, depois que adotei o modelo computadorizado, mas vi como a biblioteconomista classificou a idosa Delta Larousse de 17 volumes: livro por livro, número de páginas, do verbete tal ao verbete tal, tudo explicadinho. Trabalho infernal! Pensei que a regra fosse anotar “Enciclopédia Delta Larousse, estante número tal”, mas o negócio é muito mais complicado do que possa imaginar nossa vã filosofia.
Cuidemos dos 34 livros do maior humorista brasileiro. Não lhe posso dizer o nome, porque tenho boas relações com os seus descendentes, como tive com o autor que nos deixou faz algum tempo. Seu texto dá de mil a zero nos demais textos de humor, pelo seguinte: ele não tinha a menor intenção de fazer graça, era homem seriíssimo e acabava aprontando textos que fazem os leitores urrar de rir.
Dei alguns de seus livros a um arquiteto carioca e estive no jantar em que o amigo recebeu a fina flor da intelligentzia do Rio, ou uma das finas flores, pois há várias. Depois do jantar, o dono da casa resolveu ler trechos dos livros que lhe mandei e o pessoal urrava de rir. Psiquiatra famoso, autor de diversos livros de sucesso, caiu da cadeira do tanto que ria do texto de um patrício que não tinha a menor intenção de fazer graça.
A revelação do lado cômico, irônico ou ridículo dos fatos da vida, englobada no verbete “humorismo”, enseja uma infinidade de abordagens, desde o escracho até a mais fina ironia. Curiosa, no autor que não citei o nome, era sua maneira séria de encarar a vida, produzindo, sem querer, texto engraçadíssimo. Agora, que sei onde encontrar os 34 livros de sua autoria, pretendo reler todos eles para me divertir à ufa e tentar neutralizar o noticiário trágico que recebemos todos os dias.
Já que o assunto “humorismo” veio à baila, pergunto: é possível fazer humor que não seja impiedoso? Sujeito alegre e de bem com vida, procuro analisar os fatos pela óptica da ironia, que é o lirismo da desilusão. No recente imbróglio da ministra Iriny Lopes com a lingerie de Giselle Bündchen, muitos humoristas de nomeada entraram de sola na ministra, mineira de Lavras, filha de pai grego, deputada federal, mãe de três filhas, que ilustra e encanta o ministério de dona Dilma.
Nada mais fácil do que recorrer ao grotesco no episódio estapafúrdico, de uma excentricidade raramente vista da história de qualquer país. Mas o Brasil, coitado, não passa de um acampamento com hino, bandeira, Constituição e tolice, muita tolice. Seria desumano falar do episódio a metade – e faço força para não ser bárbaro, cruel, desalmado.
Na emergência, deixei que o planeta examinasse o ridículo à luz da crueldade e fiquei calado no meu cantinho, fumando belo Romeo Y Julieta enrolado em Cuba. Comigo não, violão.
Pena Capital (quarta, 12/out) CB11.138
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