domingo, junho 12, 2011

CAPITÃO VASCO MOSCOSO

W. J. SOLHA

O HOMEM QUE “REDUZIU O TSUNAMI DA ECONOMIA, EM 2008, A UMA SIMPLES MAROLA.”

Acabo de assistir ao “Trabalho Interno” (Inside Job), Oscar de Melhor Documentário deste ano. Apesar de achar que o tema seria melhor abordado por Michael Moore (de Farenheit 11 de Setembro) – que lhe tiraria o ar de tese – a eficiência de Charles Ferguson é evidente na exposição do que foi a recente crise econômica mundial, a maior desde a Depressão da década de 30, e que começou com a quebra do banco americano Lehman Brothers, seguida de gigantescos desmantelos numa série de outros, com perdas globais estimadas em cerca de US$ 20 trilhões (R$ 33,2 trilhões), em vista da enorme quantidade de falências, também, noutros setores, principalmente o imobiliário, numa onda assustadora de desemprego.

Buscando clareza em matéria bastante complexa, Ferguson abre o filme com este letreiro em fundo negro: “Eis como as coisas realmente aconteceram”, dividindo seu trabalho, a seguir, em cinco partes – feito um clássico grego ou shakespeariano – “Como Chegamos Lá”, “A Bolha”, “A Crise”, “A Prestação de Contas” e “Onde Estamos”. Como numa abertura de ópera, mostra, inicialmente, um país pequeno mas quase perfeito – a Islândia – sendo expulso para leste do Éden, arruinado pela privatização dos bancos e desregulamentação de suas atividades, tudo obtido com eficiência por lobistas e o convencimento feito por prestigiados economistas de Columbia e Harvard, regiamente pagos pelos banqueiros, por baixo do pano.

Nos Estados Unidos, essa desregulamentação fora obtida já no governo Reagan, que colocara no arquivo morto a rígida lei que controlava os bancos de investimento. Com isso escancarou-se o crédito, principalmente para o setor imobiliário, criaram-se fortunas em cima de papeis – nomeadamente de seguradoras -, a maioria das vezes em operações de imenso risco, donde pipocaram inevitáveis fraudes contábeis, até que a bolha, em 2008, estourou.
Ferguson é contundente nas entrevistas e depoimentos que consegue dos principais envolvidos, mostrando-nos economistas que ficam sem respostas, vacilam, recusam-se a dizer qualquer outra coisa mais, a partir do instante em que se veem acuados. É chocante ver um desses grandes nomes dizendo que não via problema em receber grandes boladas dos bancos por prestar “serviços de consultoria” ao Governo Federal, no que é interrompido pelo cineasta:

- O que acha de um médico que receita um remédio não exatamente indicado para um paciente... por ter para isso recebido propina de um laboratório?
O diretor não deixa republicanos nem democratas de fora: Reagan, Bush pai, Bush filho, Clinton e Barack Obama, todo mundo dança. Obama, aliás, nomeou como seus assessores quase todos os envolvidos no desastre financeiro da América e do mundo, no governo anterior, gente que não só jogara tantas famílias na miséria, como criara uma farra permanente , paralela, de executivos e operadores financeiros mergulhados na droga e em prostituição de larga escala, enquanto a corrupção seguia em frente, à altura da impunidade sem limites.

Caramba, Obama ganhou o Nobel da Paz ao incrementar a guerra! Como se pode crer num semelhante sistema?
Mas por que o título deste texto – “Capitão Vasco Moscoso” – com Lula posando de homem da Marinha, se o filme nem menciona o Brasil, geralmente considerado extraordinária exceção na bancarrota geral? Porque ele me lembra muito o personagem de Jorge Amado que se faz passar por marítimo, em “Os Velhos Marinheiros”, e se mete numa fria ao ter que comandar um navio a encostar no porto de Periperi. Alguém da tripulação, ao ver que ele não entende nada do ramo, pergunta-lhe quantas amarras devem prender a embarcação ao cais, ao que o “Capitão”, sem saber o que responder, chuta: “Todas!”, e se torna alvo de gozação geral quando se espalha que há um navio todo emaranhado no porto, até que – homem de uma sorte sem igual – vem uma tempestade nunca vista, à noite, e a nau por ele capitaneada é a única que fica inteira em Periperi. Por que digo isso? Porque é evidente o motivo pelo qual nenhum banco, no Brasil, sequer balançou com a crise: todo mundo sabe que aqui os juros ( como os impostos ) são os mais altos do mundo. Aqui – por essas e outras - é o paraíso dos banqueiros, com total cobertura do PT. Como falir, com lucros nunca dantes navegados?

- “Esse é o cara!”, disse Barack, referindo-se a ele.

Ferguson deveria ter incluído essa patranha no documentário. Daria a ele um toque de malícia e humor.

2 comentários:

Carlos Mello disse...

Nunca tive dúvidas disso, meu caro. Lula é "o cara" pros banqueiros e para a burguesia escrota que forma a "elite" deste país. Só há uma forma de avaliar um governo, no plano interno, sobretudo no caso brasileiro: o que foi feito em matéria de educação popular, saúde e saneamento, reforma agrária, formação e qualificação profissional - enfim, o conjunto de medidas capazes de arrancar da miséria absoluta 16 milhões de brasileiros. O Rio, como todas as grandes e médias cidades brasileiras, é um conjunto de edifícios cercado de uma multidão de favelas. Até agora, o único braço do poder público que chegou até lá foi a polícia. Nosso governador fala de UPPs, mas o "pacificadora" no caso, lembra mais a pax romana, a paz pela submissão. As escolas continuam em ruínas, os postos de saúde são deficientes ou inexistentes, os hospitais públicos uma sucursal do inferno, o esgoto é a céu aberto e os bandidos, fardados ou não, tomam conta de 90% das comunidades pobres, impondo sua lei perversa e explorando os favelados. O Brasil é uma vergonha para quem tem vergonha na cara. Estou bem perto de sair deste mundo, e levo para o outro a tristeza de ver que TODOS os meus sonhos de jovem foram pelo ralo. Abraço fraterno Carlos

Unknown disse...

A Frágil Democracia.
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No interregno democrático autêntico que vivemos no Governo de Fernando Henrique Cardoso se dizia não haver clima para ditaduras nas Américas Latinas; que o Brasil estava livre desse mal e muita gente acreditou... ...Nada foi feito para coibir o que já se desconfiava que fosse provável acontecer e que o “lulopetismo” já exercitava mostrando sua cara... ...Como estávamos errados!...
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Após o movimento civil reivindicando eleições diretas - Diretas Já -, l983-l984; a reunificação das Alemanha Oriental e Ocidental simbolizada pela queda do Muro de Berlim em l989; o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, que durara de l945 a l991, tivemos, na América Espanhola, uma tentativa de realinhamento nas correntes políticas sem que tivessem curadas as feridas dos processos das Guerras de libertação da Espanha, que coincidiu e influenciou a chamada “Guerra de Independência da América Latina” e a Independência do Brasil, por suas motivações!...
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Quando surgiu esta equivocada convicção dizia-se que a tendência ditatorial de alguns Países Latino Americanos enfraquecera; que a globalização, de início na economia, aflorava forçando o realinhamento político; não havendo, portanto, clima para aventuras ditatoriais... ...Ledo engano! Os analistas e pensadores se esqueceram de dois fundamentos: a “Natureza universal” e o “ser antropológico títere do primeiro”...
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Embora estejamos dando os primeiros passos na era do conhecimento globalizado já temos condições de entender que essas leis universais são inexoráveis no caminho traçado para a humanidade, pois, diante delas, somos partículas desprezíveis, que serão levadas de roldão nesse processo sem retorno.
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Independente do que se pensara sobre essa equivocada convicção política, permaneceu uma mente doentia como Fidel Castro e surgiram outras como: Lula, Ugo Chaves, Evo Morales, Cristina, Zelay, todos representantes de um “neolateralismo” como se o Dr. Frankstein tivesse usado partes dos corpos e dos cérebros maquiavélicos de Hitler, Stalin e Lenim e os corações de “Mau Tse-tung” e “Pol Pot”!...
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Mas o processo, ainda, está em andamento, portanto, não nos equivoquemos pela segunda vez... ...O “statu quo” do exercício político no Brasil é exemplo claro desse equívoco. A gênese de Hernán Cortés permanece no pensamento político do “Latino-Americano...”.