sábado, abril 30, 2011

Um Conto de Fadas Hodierno

Hugo Caldas

Ao ser defenestrado do poder em 1952 por um grupo de jovens militares pertencentes à sociedade secreta denominada "Oficiais Livres", dirigida por Gamal Abdel Nasser, o Rei Faruk do Egito, injuriadíssimo, deitou a seguinte falação:

- "No fim deste século somente existirão cinco reis no mundo. Os quatro do baralho e o da Inglaterra".

Como se pode constatar Sua ex-Majestade errou nos cálculos. No mundo hoje, existem as seguintes monarquias: Reino Unido, Suécia, Noruega, Dinamarca, Japão, Espanha, Bélgica, Liechtenstein, Luxemburgo, Mônaco, Holanda etc. Contando ainda com: Vaticano, Andorra, Camboja, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Malásia e Suazilândia. Todas elas vão muito bem, obrigado.

A Monarquia é um regime político onde o Rei, geralmente de forma hereditária, é reconhecido como chefe do Estado. O Rei tem por ofício, sobretudo, o de reger e coordenar a administração do Estado com vistas ao bem comum, além de promover a harmonia social.

Tudo isso vem à propósito do "Casamento do Século" do Príncipe William da Inglaterra e Kate Middleton dora em diante denominada Princesa Katherine de Gales e mais um monte de outros títulos. Para nós, pobres tupiniquins de aquém-mar, foi um Deus-nos-acuda. O maior frenesi, todo mundo acordando cedo, conheço gente que até abdicou da caminhada na praia, para ficar grudada na tela da tv esperando, ó suprema felicidade, o vestido da noiva. Aliás, o que os programas de televisão, todos eles, discutiram sobre vestidos, bolsas, chapéus, não caberia no livro Guinness dos Recordes. Porém o item vencedor dos comentários foi o beijo. Muita gente reclamou do "selinho". Queriam o que, um desentupidor de pias? Não seria o local nem a hora. As academias promoveram a instalação de aparelhos de televisão para que os seus "atletas" assistissem ao casamento real sem sair das esteiras rolantes. Outros viram a solenidade pela televisão dos bares e padarias abertos a essa hora. O nosso fuso horário nos dá um atraso de 4 horas em relação aos ingleses. Nem por isso o espetáculo deixou de ter audiência aqui em Pindorama. Todos, absolutamente todos os canais de TV, transmitiam o evento urbe et orbe.

Tudo realmente muito bonito, como "num conto de fadas", frase mais ouvida durante todo o dia. Tudo muito bem orquestrado. Britanicamente. Coisa feita por inglês para inglês ver. Eles adoram. Faz parte da sua tradição. Todo aquele povo nas ruas com bandeirinhas, a saudar a nobreza, muitas flores, muitos cartazes, crianças carregando pequenos balões em forma de coração e tudo mais. Houve alguém que ditou certa vez: "inglês só existe em divã de psicanalista". Não sei, mas não me surpreendeu nem um pouco, constatar que o cerimonial escalou antigos aviões da Batalha da Inglaterra, na Segunda Guerra Mundial, para sobrevoar com toda a pompa e circunstância o céu de Londres. Alguém mais imaginaria um feito de tal natureza? Só inglês mesmo.

Inglês faz tudo certinho, seja o que for, à tempo e à hora. Principalmente à hora. Na década de sessenta conheci um austríaco que lutou ao lado dos alemães na África. Dizia ele que os ingleses mandavam uma primeira saraivada de balas de canhão. Poucas acertavam. Então paravam, passavam mais ou menos uma hora refazendo os cálculos e mandavam outra canhonada que atingia 99,9% dos alvos. Era o terror dos tedescos.

Voltando ao entusiasmo delirante, ao arrebatamento nativo verde e amarelo, fico deveras impressionado, pois tudo isso vem de certa forma corroborar que nós, brasileiros, vivemos ainda com o Rei na mente e no coração, para não usar a desgastada e demodé expressão no "inconsciente coletivo". Para nós, Rei é sinônimo de excelência, coisa boa, ou como diz a malta, tudo de bom. É Rei dos Parafusos pra aqui, Rei dos Galetos pra lá... acho que Freud explica. Explica mesmo? Então como justificar a derrubada do Rei no último plebiscito? Muito provável por falta de educação e de informação. A seguir, uma história bem catita acontecida no ano da graça de 1992. Desempenhava o locutor que vos fala a condição de franqueado de uma autarquia do governo da qual não citarei o nome e muito menos o santo protagonista do causo. Eram tempos de plebiscito e um dos itens a ser votado era se a monarquia deveria ser restaurada no país.

Na sucursal a qual eu me reportava havia um crioulo (sem ofensas, patrulheiros) que era a alegria personificada. O Negão era a maior simpatia. Vivia sorrindo, trabalhando ou não. Eis senão quando, de uma hora para outra, Dorival (nome fictício) começou a definhar, entristecer a cada novo dia. Emagrecera a olhos vistos. Indaguei a razão do fato inusitado. Contaram-me que seus colegas, para tirar um sarro com a cara dele inventaram que se a monarquia fosse restabelecida a escravidão iria voltar, mas que ele não desesperasse pois os seus amigos, iriam fazer uma vaquinha para comprá-lo de volta. E o pobre do Dorival acreditou!

Mas, voltemos ao real evento. Deve ter sido mesmo um dia memorável para os nubentes, malgré já terem morado juntos por oito anos. Separaram-se e voltaram, casaram e serão felizes para todo o sempre como todo conto de fadas que se preze. Seguramente que gostaria de ter estado em Londres ontem. Não especificamente pelo casório, mas principalmente para ter a chance de ver os velhos e belos Lancasters, Spitfires e De Havillands voando novamente, riscando os céus da Inglaterra.

Vida longa aos noivos.

6 comentários:

W.J. Solha disse...

Belo texto, Hugo. Quando você mencionou os aviões velhos de guerra
sobrevoando os príncipes, lembrei-me de que cheguei com minha mulher à
Saint Paul cathedral logo de manhã... e não pudemos entrar: haveria
uma solenidade para os veteranos britânicos e a praça em volta do
templo estava toda tomada de idosos fardados, em ambiente eufórico,
todos com os peitos forrados de medalhas. Fomos para o outro lado do
Tâmisa, visitamos a Tate Modern, o teatro Globe, almoçamos e voltamos.
Aí entramos. A catedral anglicana é intrigante: não há imagens de
santos, nela, só altares dos grandes heróis ingleses, tipo Nelson e
Wellington. Deutschland über alles? No! England!

Cláudia disse...

A pessoa que deixou de caminhar na praia para assistir o casamento eu sei quem é, hehehee.

Quanto a estória do negão foi ótima, ele acreditou mesmo nisso????


E o comentário do beijo dos noivos também adorei, kkkkkkkkk

Em fim o texto está muito bom!!! :D

Aline Alexandrino disse...

Blog nota 1000!!!... Aline

Zeneudo Luna disse...

Assuntos e comentários bons sobres os aviiões revividos da 2a Guerra.....obg. Luna

Girley Brazileiro disse...

Hugo,

Você é um "danado" mesmo.
Não tive tempo de comentar a coincidencia de tema nas nossas postagens de fim de semana e, ao retornar ao Blog, já dou de cara com uma pá de novos assuntos.

Parabéns. Girley

yanmaneee disse...

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