Estou – mais uma vez - vivendo um grande filme
Depois do terceiro ou quarto dia de filmagem, a produtora Sara Silveira – gaúcha que é uma força da natureza – me disse em voz alta e forte, à noite, enquanto nos descontraíamos fumando e tomando cerveja, em meio a vários integrantes da equipe técnica do longa Era Uma Vez Verônica, num bar de Boa Viagem:
http://www.life.com/image/89716971- Solha, tu és um cara com um enorme cu virado pra lua: trabalhar no primeiro longa do Kleber Mendonça Filho – autor de curtas magníficos, que adoro - e emendar com o terceiro de Marcelo Gomes, participando de dois grandes filmes dos dois maiores cineastas brasileiros de atualidade?! Vai ser cagado assim no inferrrno, caralho!
De fato, O Som ao Redor, do Kleber – já sendo editado -, e Era uma vez Verônica, do Marcelo, em realização, serão grandes filmes, com certeza. Senti isso nos dois roteiros soberbamente concebidos, muito bem armados e escritos, na direção tranqüila e extremamente segura dos dois cineastas, na assistência especialíssima de que se assessoraram, nos atores de primeiríssima linha com que, de repente, fora de qualquer projeto meu, tive a beatitude de contracenar. Em O Som ao Redor tive Irandhir Santos (que confirma sua genialidade em Tropa de Elite II e Olhos Azuis), ao lado de nosso ótimo Sebastião Formiga; em Era uma vez Verônica estou tendo a delicada, meiga, misteriosa e feminina Hermila Guedes, enorme atriz, como filha...
http://www.overmundo.com.br/uploads/overblog/img/1176106970_5.jpg... e o também premiadíssimo João Miguel como o namorado dela.
Detalhe de um momento com ele, num intervalo das filmagens: cerca de três da tarde, sob um sol furioso, estou de pé à sua frente, no calçadão da praia de Boa Viagem, e João Miguel, de óculos escuros, pernas cruzadas, sentado à minha frente, num daqueles bancos de concreto, fala-me de sua paixão por Shakespeare. De repente vejo-o dizendo-me toda a impressionante e amarga fala em que o Príncipe da Dinamarca manda sua doce Ofélia pro convento, forma de dizer Vá pra zona de meretrício, na Inglaterra elisabetana.
http://1.bp.blogspot.com/_ycbSASM07-k/S8TQnP7SasI/AAAAAAAAAow/cxTMGEX3Tes/s1600/joao-miguel-tropa-deixa436.jpg- Você já fez o Hamlet? – pergunto-lhe.
- Não, infelizmente.
- E de onde vem essa paixão?
- Meu pai, como quase todo cara de esquerda, de antigamente, lia muito. Ao me ver lendo gibis, quando eu tinha uns... seis anos, disse-me Tenho coisa muito melhor pra você. E me deu várias histórias em quadrinhos, de altíssima qualidade gráfica, uma delas com A Tempestade, Romeu e Julieta e Hamlet...
- Eu também dei essas revistas para meus filhos, João Miguel!
- Lembra-se, então, do movimento do Príncipe da Dinamarca fracionado... como no cinema?
- Claro!
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/e/e7/Luca_gianni_de_hamlet.jpg/240px-Luca_gianni_de_hamlet.jpgSim, exatamente como num dos quadros mais famosos de Marcel Duchamp, o Nu descendo a escada:
http://blog.dclick.com.br/wp-content/uploads/ny-7047.jpgPutz!
E no set, na base, em todo lugar a que o filme me leva, vejo as figuras extremamente significativas que vão surgindo. Chego ao Paço Alfândega, que fica ao lado da bela Livraria Cultura, no Recife, passo por cima do enorme mosaico armorial que homenageia o Ariano Suassuna, no piso do grande salão do edifício, subo a escada rolante, entro numa sala que parece ser de balé, e sou apresentado a Pedro Freire, encarregado de me preparar e a todo o elenco principal do filme.
http://www.jblog.com.br/media/127/20090813-Imagens%20Tolipan%20007.jpgEntre outras coisas, ele é o autor do sensibilíssimo e muito premiado curta O Teu Sorriso, com Paulo José e Juliana Carneiro da Cunha, foi assistente de direção de O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, estudou cinema em Santo Antonio de Los Baños, Cuba, e tem absoluto domínio do que vem a ser a interpretação de um texto cinematográfico. Foi fácil, para ele, ajudar Hermila a se transformar em Verônica, João Miguel no Gustavo, trabalhar com as amigas da personagem-título e com os velhos amigos de meu personagem, mas não foi mole sua missão de me transformar no doente, tímido e maravilhoso ser humano que é o meu José Maria. Felizmente Pedro Freire é dotado de tanta generosidade quanto de paciência. Como Marcelo Gomes:
http://omelete.com.br/imagens/cinema/news/diversos/marcelo_gomes2.jpgSempre muito afável e risonho, Marcelo tem uma voz que me fez dizer-lhe:
- Lembra-me muito a de Ariano Suassuna.
- Ele me imita! – respondeu-me, rindo, provocando-me uma gargalhada.
Acho que já li umas sessenta, setenta vezes o roteiro de Era uma vez Verônica – de cabo a rabo e de rabo a cabo, para conhecê-lo, decorá-lo, dissecá-lo, ensaiá-lo, representá-lo. Romancista, percebo nele um belo romance, e isso ele o seria até o século XIX, mas o twentieth century substituiu o gênero – infelizmente para mim – pelo cinema. É como romancista, também, que acompanho, fascinado, o processo de aprimoramento que ocorre quase todo dia no script, geralmente através de cortes, algumas vezes com trocas de uma palavra e outra, nos ensaios ou na hora mesma da filmagem.
Nos laboratórios, ensaios e nas primeiras seqüências que já realizamos, em Era uma vez Verônica, percebo, como também me ocorreu em O Som ao Redor, do Kleber Mendonça Filho, que estou sendo conduzido por um grande diretor – do porte de um Ettore Scola, Ford, Kubrik ou Ridley Scott.
Realmente, como disse Sara Silveira, ando tendo muita, muita sorte ultimamente!
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