terça-feira, outubro 21, 2008

UMA VISÃO SOMBRIA DO RECIFE


Plínio Palhano

Imaginemos o centro do Recife sendo preservado desde a segunda metade do século XIX, e os bairros circunvizinhos, ampliando a cidade num crescimento horizontal, respeitando e dando ênfase à sua história urbanística inicial, com seus edifícios, ruas, pontes, cais e outros recantos: seria pensar uma cidade que apontasse uma beleza tropical incomparável.

Mas o nosso caminho foi o inverso: começamos a destruir grande parte da cidade que poderia lembrar um Recife como vemos em fotografias antigas. Com a ânsia da modernidade desorganizada, entendemos que aquelas velharias de edificações teriam que ser destruídas para surgir um novo Recife e construímos estruturas que são verdadeiros aleijões, hoje, na paisagem urbana no centro de nossa cidade. Deixamos, apenas — e ainda damos graças! —, significativas obras, talvez porque não pudemos arrancá-las facilmente, como os fortes, as igrejas mais importantes e o Bairro do Recife, que ainda estava ativo no início e na metade do século XX.

O que segura o impacto da beleza da nossa cidade é, principalmente, a sua paisagem vista por cima, aérea, que nos dá a oportunidade de contemplar os rios e as suas pontes, as ilhas e o imenso mar que banha o seu litoral. Porque, na hipótese de aterrissar ali, na Av. Guararapes, e caminhar pelo centro, teremos uma decepção! As suas calçadas tristemente malconservadas; os edifícios sem uma fiscalização eficaz — se quiserem constatar, entrem em um deles e verifiquem as instalações elétricas —; a sujeira nas ruas, com plásticos e papéis de toda espécie; e a poeira característica da falta de limpeza urbana. O centro do Recife está numa aparência que nos sensibiliza como artista. Não sabemos se está a caminho para se tornar um só entulho. Basta olhar a Av. Dantas Barreto, que não sabemos exatamente para que veio, porque é uma obra dantesca que ficou para sempre instalada no coração da cidade. Para realizar aquilo, destruímos quase toda uma memória, com a sua igreja, a dos Martírios, e a tradição natural do bairro de São José. Lastimável.

A impressão que temos é que empurramos essa paisagem urbana com a barriga, sem nenhum planejamento. É como se a cidade estivesse em estado quase terminal, nesse aspecto. Como se não tivesse um jeito, nem político nem científico, para consertar as coisas. Os urbanistas franceses estiveram aqui e tentaram ajudar com a experiência deles, lá em Paris, num convênio com a Prefeitura, que não sabemos no que deu. Mas preferem, os daqui, dizer: “Vamos emendar!”. Essa é a ordem, presumimos. Às vezes, podemos — porque se supõe que há emergências para certos assuntos — até consertar nessas tentativas, porém muito raramente, claro, porque a chance é de não resolver da melhor maneira. Como, por exemplo, o calçadão de Boa Viagem. Tiraram as pedras portuguesas, quando antes existia o desenho tão poeticamente pensado de barcos sobre as ondas, e colocaram as ridículas lajotas intertravadas, de cimento, com as cores inexpressivas, e uma ciclovia interceptada como por dentes numa engrenagem, na absurda idéia arquitetônica, que destoa da paisagem marinha. Aliás, pobre na concepção: bastava ampliar o que já tinha sido feito; mas uma das coisas necessárias para os políticos é mostrar que está quebrando, para dizer que está fazendo, e tome gasto!

Plinio Palhano, pertence ao grupo de artistas da Geração 70, é recifense da gema e adora a sua cidade. De vez em quando se dá ao desfrute de um artigo ou outro sobre sobre o seu campo específico, a pintura e os artistas pernambucanos. Hoje, anda meio furioso com a degradação que vem ocorrendo com a Mauricéia. Você poderá visitar o Site de Plinio clicando na lista de links, bem alí à direita de quem sobe. Plinio é meu amigo e aluno. H.C.

2 comentários:

Mary Caldas disse...

Realmente Plínio, a vista aérea de Recife é belíssima! Divisamos as três ilhas, o Capibaribe e seu encontro com o Oceano Atlântico e todo o seu esplendor. Não é a toa que é comparada com uma das cidades mais românticas do mundo, Veneza.
Recife se destaca também à noite com a orla toda iluminada e as águas num desenho de coral...
Sem comentários o que fazem os "entendidos" em urbanismo e obras públicas e você colocou muito bem tudo numa frase: "a impressão que temos é que empurramos essa paisagem urbana com a barriga, sem nenhum planejamento."
Um grande abraço, Mary

hugão disse...

Que bom constatar que a sua capacidade de indignação continua presente. Da mesma maneira é revoltante descobrir que estão transformando a nossa Cidade Mauricia em uma cloaca a céu aberto.
Estamos longe do Recife "das rebeliões libertárias" de Manuel Bandeira. É pena. Apesar do mau cheiro nós a amamos muito.
Meu abraço. Hugo