
Hugo Caldas
Nunca entendi muito bem a razão do gauchesco nome. O que poderia haver entre a Paraíba e o Rio Grande do Sul, além da aliança em 1930; além das balas escamoteadas em latas de manteiga; além das mantas de carne de charque recheadas de armas e munição, desembarcadas na calada da noite em Ponta do Seixas; o que realmente existiu para o nobre estado sulista merecer o nome de uma rua? Aliás, esse assunto de nomenclatura de ruas, cidades, logradouros etc, trocá-los ou não - oh falta do que fazer - anda muito em voga por estes dias em pagos tabajarinos. Me refiro a algo que nada tem a ver com revoluções, e malquerenças Liberais/Perrepistas. A Travessa aí de cima era o nome da rua em que eu morava quando adolescente na década de cinqüenta.
Transversal da Av. Epitácio Pessoa (epa) o simpático logradouro se iniciava descendo uma pequena ladeirinha. Não era calçada, e todo mundo sem exceção, se dava muito bem. Casas geminadas, todas iguais. Não diferiam em nada. Talvez para igualar as pessoas, evitando mania de grandeza. Na casa em frente morava seu Pedro, casado com Dona Anunciada. Tinham um filho por nome Caio. Seu Pedro, amigo do meu pai tinha um irmão gêmeo chamado Paulo. Eram idênticos o que causava a maior confusão na cabeça dos garotos da rua. Junto morava a família de Dona Maristela, mãe de Astrogilda, João e um garoto de uns quatro ou cinco anos muito do chatinho. O pestinha vivia inteiramente pelado, dia e noite. Convenhamos que não era exatamente um belo espetáculo o garoto nú, com os penduricalhos à mostra e chupeta na boca, nariz escorrendo. Às vezes aparecia nos mesmos trajes com um cigarro no bico e uma mão nas costas, andando pra cima e pra baixo no jardim. Chorava por qualquer dez réis de mel coado. Manhoso estava ali. O velho pai lhe fazia todos os seus gostos. Fim de rama!
No mesmo correr descendo um pouco mais à direita ficava a casa de Venelipe, enfermeiro lotado na Secretaria da Saúde, Presidente do Filipéia Futebol Clube, protestante praticante. Tomava uma cana acertada. Venelipe era a elegância em pessoa. Preto, dentes alvíssimos, alto, simpático, educadíssimo, envergava sempre um terno de diagonal muito bem engomado, chapéu de feltro cinza, sapatos sempre lustrando. Espetáculo digno de monta era quando ele voltando para casa absolutamente embriagado descia a ladeirinha, elegantérrimo, tudo no lugar, totalmente à deriva, tentando se equilibrar e ao mesmo tempo salvaguardar a sua inseparável Bíblia. Uma figura no mínimo curiosa. Família também fora do comum, pois além das peripécias do patriarca pinguço, nutria uma outra peculiaridade. Como bons evangélicos que eram, Venelipe e esposa colocavam na prole nomes tirados da Bíblia Sagrada. Adão, Eva, Abel, Isaac, Jacó e por aí vai. Na época, o último rebento foi brindado com o nome de Zorobabel.
Pegada com a nossa tinha a casa de Dona Jarina, sua irmã Tonha que trabalhava em uma firma na Maciel Pinheiro, e as filhas Risoleide e Zenilda. Uma família da mais alta fidalguia. Dizia Dona Jarina, em tom zombeteiro sobre a mão fechada de sua irmã: "Tonha não gosta de gastar dinheiro. Nunca comprou nada pra ela. Na farmácia ela não se agrada nem de um cachete." Certa vez Tonha, que havia terminado um namoro, estava sentada no muro, tristíssima, a pensar na vida. Dona Jarina gritou lá da cozinha:
- Que estás fazendo aí, Tonha? Vai querer se suicidar, é? Cuide de cair pro lá de cá, porque se cair pro lado de lá o cachorro de Seu Cromácio come!
Com o passar do tempo Dona Jarina e família se mudaram para o Rio de Janeiro. De vez em quando a minha mãe e ela se visitavam.
Havia pois na casa ao lado, seu Cromácio Arnaud, casado com Dona Acidália. Vieram do alto sertão curtir uma merecida aposentadoria. Seu Cromácio tinha, como já sabem, uma fera dentro de casa. Um cachorro enorme branco e feroz. Era o terror da rua. O cachorro, evidentemente.
E tinha também o Luís, ah, o Luís! Sujeito magricela, meia idade, recém-casado, era bom alfaiate. Vivia às turras com a mulher sempre terminando suas desavenças num Grand Finale digno dos melhores filmes da Pelmex. Se ensopava de querosene e ameaçava atear-se fogo. A empregada, coitada, escondia todos os fósforos da casa e corria apavorada em busca de alguém a fim de impedir o tresloucado gesto do seu patrão. Meu pai, por ser amigo de Luís, era sempre o escolhido que ia meio a contragosto, salvar o candidato a suicida. Até o dia em que encheu o saco, ao chegar mais uma vez à casa de Luís, à essas alturas mais uma vez encharcado de querosene, a procurar por algo que fizesse fogo. Ameaçava, qual monge budista, imolar-se a fim de ver o que a sua digníssima cara metade faria. Ela, sentada numa cadeira de balanço, não dava a menor bola, acostumada que estava à corriqueira palhaçada. Meu pai, decidido tirou do bolso uma caixa de fósforos entregou à Luís dizendo:
- Está aqui, Luís. Toca fogo, vamos lá, não é homem, não?
Foi água na fervura. Cessaram ali, para sempre as ameaças suicidas do seu Luís. Dizem que depois dessa viveram felizes para todo o sempre. Não sem antes, procedimento da maior sabedoria, demitir a empregada trocando-a por outra.
A Travessa descia mais um pouco e terminava na Rua Rio Grande do Sul perpendicular à entrada do logradouro. Ali, moravam a família de Seu Nelson, um pernambucano que veio transferido do Recife a fim de abrir um escritório da "Arrozina" um produto de alta aceitação. Gente muito boa, família grande: Nelson Filho que terminou casado com Zenilda, filha de Dona Jarina, Dei (era assim mesmo que o chamavam) um outro irmão meio artista, que gostava de tocar bateria nos móveis da sala e mais duas filhas. Uma se chamava Haidée e eu até me enfronhei em ter um namorico com ela. Talvez porque achasse o nome bonito, ela era bonitinha, e eu havia lido recentemente "O Conde de Monte Cristo" onde havia a princesa Haidée. Soube que ela teria enlouquecido tempos depois. Uma pena.
Finamente havia os Pordeus. Família de matemáticos. Meu pai contratava um deles, se não me engano, Gilberto, para me dar aulas extras pois sempre fui burroide na matéria. Tempos depois encontrei José Pordeus trabalhando na Receita Federal no Recife. Basílio era da minha idade e nos dávamos muito bem. Sujeito engraçado, pois via tudo como uma eterna piada. Certa vez veio me mostrar o dedo polegar inchado por conta de um minúsculo pedaço de madeira que acidentalmente havia entrado. Às gargalhadas falava que o que estava dentro do seu dedo tinha dois nomes pra lá de hilários: uma "filepa" ou uma "felpa" e embolava a sorrir. Tinha uma irmã, Terezinha que andou de namoro com um amigo meu, o Celso Almir, mais novo um ano ou dois do que ela. O que nos matava a mim e outros amigos de inveja por ele estar namorando uma "moça de verdade."
À noite a minha casa se enchia de amigos e íamos para a esquina conversar potocas. Vinham Almir, o Cego Silvinha, Serafim, O Magro Gilvan, Paulo Jubert e Calico de vez em quando e o Eudes do Oriente. Durante o dia havia ainda as garotas Célia e Eunice que moravam perto.
Por onde andam todas essas pessoas? Alguns tenho certeza que já se foram. E hoje, ao desdobrar esse filme na minha mente me atrevo a fazer a pergunta do belo poema de Manuel Bandeira:
"Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo.
Estão todos deitados.
Dormindo. Profundamente."
hucaldas@gmail.com