terça-feira, outubro 17, 2006

RECUERDO 11 - O Barão do Bujarí

De como se especula sobre uma possível, talvez-quem-sabe, inclusão à nobreza açucareira nordestina.

HUGO CALDAS

Por força das minhas atividades profissionais passei, há já algum tempo, a ir com frequência à cidade de Goiana, PE. Uma tia, muito chegada às coisas da nobreza me falou de um Pereira, parente não muito distante, que teria sido senhor de engenho, rico e barão. Que eu levantasse a ficha completa daquele parentesco. Tratava-se do Barão do Bujarí. Descobri então por intermédio do historiador Luís Corrêa, goianense ilustre, mais conhecido como Luís da Barba o que se conta abaixo:

Chamava-se o Barão do Bujarí, Antonio Francisco Pereira nascido em 1801 na cidade do Recife. Tinha um irmão gêmeo de nome Francisco Antonio Pereira. O pai, comerciante português radicado no Recife, deveria ter provavelmente o nome de Antonio ou Francisco Pereira. O velho Pereira envolveu-se com a Rebelião de 1817 apoiando os revoltosos, a exemplo de muitos outros comerciantes portugueses radicados no Recife. Sufocada a rebelião e embora não houvesse sofrido perseguição por parte do Governo Real, o Principe D. Pedro não alisava a cabeça de ninguém, mandou o velho Pereira seus dois filhos, à época com 18 anos de idade, à Paraíba a fim de salvaguarda-los de possíveis represálias. Os rapazes seguiram então para o engenho Tapuá, em São Miguel de Itaipu, PB, dirigido à época por frades beneditinos. Vejam vocês que não é de hoje que os beneditinos dão guarida a subversivos.

Em 1821, após a anistia, o velho Pereira sentindo-se mais tranqüilo, chama de volta os rapazes. Antonio Francisco e Francisco Antonio, desfrutando da maior boa vida se recusam a voltar para o Recife e sugerem ao pai a compra do Engenho Tapuá tendo os frades recusado a oferta. O velho Pereira então compra o Engenho Maraú, no mesmo município de São Miguel de Itaipu, na Paraíba e o entrega a Francisco Antonio. Os intermediários dessa compra foram exatamente os frades beneditinos. Logo em seguida, ainda contando com a intermediação dos beneditinos, o velho Pereira compra o Engenho Bujarí em Goiana, PE entregando a Antonio Francisco que mais tarde se tornaria o Barão do Bujarí por decreto do Imperador, datado de 23-11-1867, título de origem toponímica, tomado da propriedade da família. Não houve a baronesa visto ter o Barão morrido solteiro. Deixou, no entanto geração natural. Nove filhos tidos com oito mulheres diferentes. Todos devidamente reconhecidos. O Barão do Bujarí morreu de "cholera morbus" no dia 6-12-1868. Desfrutou apenas 1 ano do baronato. Na segunda metade do século 19, por volta de 1867/68, grassou em Pernambuco uma terrível epidemia de cólera.

A "Peste Bailarina” matou nada menos que 35 mil pessoas no estado, 5 mil só no Recife, foi trazida do estado do Pará por um navio de passageiros. Tinha o nome de bailarina pelo fato de ter sido uma bailarina italiana que vindo da Europa já infectada repassou a doença em Belém. O Barão não gozava das graças do imperador que o achava “uma pessoa intrigante.” De acordo com Luís Corrêa, "era o Barão de estatura mediana, cabeça pequena, quase imberbe e ostentava um bigodinho ralo, muito branco de olhos claros." Essa descrição me lembra muito a imagem de meu avô materno Ambrósio Pereira. Os restos mortais de Antonio Francisco Pereira, Barão do Bujarí, repousam em um jazigo na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Goiana.

Conta-se que perto da morte, o padre Lima, capelão do engenho Bujarí muito interesseiro, tentou convence-lo a casar-se com uma das 8 mulheres a fim de alcançar o Reino dos Céus e morrer em paz com a Igreja, com Deus, com direito a missa de sétimo dia e tudo o mais. Verdadeiro passaporte para o paraíso. O Barão, homem de caráter forte e grande nobreza d’alma recusou a oferta. Não houve casamento, preferindo ele arriscar uma chegada ao inferno. Não achava justo casar com uma e deixar as outras ao Deus dará.

- Muito bem, disse ele ao padre Lima, “caso com uma, mas o que eu terei a dizer às outras?”.

Conta a lenda que esta mesma família Pereira já por aqui estava em meados do século XVII e seus integrantes ofereciam feroz combate aos holandeses. De acordo com Luís Corrêa, o eufemismo “feroz combate” carece de veracidade. O que acontecia na realidade era que os Pereira com freqüência cortavam o pescoço aos holandeses que encontravam pela frente. Gente brava, essa...

Episódio bastante interessante sobre as mulheres da Família Pereira: Conta-se que Francisco Antonio, do Engenho Maraú, em São Miguel de Itaipu, PB, tinha uma filha que a exemplo do pai era muito obstinada. Certa feita se desentendeu com ele, não se sabe ao certo o motivo, tudo leva a crer que o pai queria impor um casamento com alguém que não lhe era muito simpático, coisa bastante comum na época. Altas horas da noite a jovem mandou selar um animal e cavalgou durante a madrugada até Goiana, ao engenho do tio barão que imediatamente a acolheu dando-lhe guarida, não sem antes repreende-la pelo perigo que havia corrido, porém bastante orgulhoso da sobrinha.

Sabe-se que por causa do episódio acima, os dois irmãos Francisco Antonio e Antonio Francisco se desentenderam e cortaram relações surgindo daí uma inimizade bastante forte e nada comum entre irmãos gêmeos. Ficaram anos sem se falar. Um em Goiana e outro em São Miguel de Itaipu. Ocorre que Francisco Antonio adoece e sentindo que talvez passasse dessa para melhor, resolveu ir até Goiana a fim de fazer as pazes com o irmão. Antonio Francisco, após um sonho no qual sentia que Francisco Antonio precisava da sua ajuda, resolveu por sua vez acabar com àquela pendenga e também se pôs a caminho de São Miguel. Encontraram-se no meio da viagem e ali mesmo, na estrada, fizeram as pazes após trocarem um grande e emocionado abraço. Francisco resolveu procurar o irmão com receio de morrer em malquerença. Antonio, após o sonho, não sabia explicar que força estranha o impelia à Paraíba.

Existe ou existiu um parente próximo de nome Gerôncio Pereira que residia em Itambé e tinha ou tem um filho chamado Ednaldo. No Instituto Histórico no Recife está guardada a Carta de Brasão. Tudo leva a crer que nós descendemos do irmão gêmeo Francisco Antonio que se estabeleceu no Engenho Maraú, perto da comarca do Pilar.

De acordo com declarações da minha Mãe, Maria Dalva Pereira Caldas, Tia Mocinha, irmã de Ambrósio Pereira – meu avô materno, teve dois filhos gêmeos, também chamados Francisco Antonio e Antonio Francisco respectivamente. Coincidências se encontrando mais de cem anos depois? Ambrósio Pereira nasceu em São Miguel de Itaipu PB em 7-12-1876 oito anos após a morte do Barão.

A Saga dos Pereira deve seguir....

Um comentário:

Anônimo disse...

Seu Hugão: que maravilha de narrativa! Verdade ou ficção, não importa. Afinal, a nossa história é toda feita de pequenas estórias... finalmente, consegues contar tais acontecimentos, que enriquecem e resgatam a nossa Macondo. Ainda tens panos pras mangas. Continue!
Guy Joseph
PS. Cordeirão, também, tá com a gôta!