segunda-feira, maio 14, 2012

Deu no Jornal do Commercio


Olindense de coração

Sob o olhar vigilante da gata Mimi, o artista plástico paraibano Raul Córdula, 69 anos, abriu as portas do seu ateliê, na Cidade Alta de Olinda, onde mora há três décadas. Calmamente, conversou com a repórter Manuella Antunes sobre sua carreira, sua vida dividida entre alguns Estados brasileiros e seu gosto pela culinária.

JC - Você é paraibano. Por que veio para Pernambuco?

RAUL CÓRDULA - Nasci em Campina Grande, com 3 anos minha família foi morar no Rio. Quando voltamos, mais de 10 anos depois, fiz minha primeira exposição individual em João Pessoa. A partir daí, passei a receber convites. Um deles foi para fazer a curadoria do 3º Salão de arte: a arte e o homem, aqui no Recife. Vim sem intenção e acabei ficando.

JC - Por que escolheu Olinda?

RAUL - Foi em 1983. Tinha muitos amigos na cidade. Olinda é um presente, morar aqui é muito bom. A cidade em si não é fácil, é quase periférica, mas esse cocuruto onde a gente mora, o Sítio Histórico, distingue-se como um dos mais interessantes e bonitos do Brasil. Além de ser culturalmente rico.

JC - Você curte a cidade?

RAUL - Sim, sim. Apesar de ultimamente ser muito caseiro, eu e Amelinha, minha esposa, sempre passeamos por aqui. A Cidade Alta tem ótimos restaurantes. Além disso, frequentamos a casa dos amigos, como Samico, Tereza Costa Rêgo, Maria Carmem, José Cláudio. Às vezes, penso que a arte faz bem para a saúde, pois veja, todos já tem muitos anos vividos e estão aí ativos, produzindo.

JC - E em casa, o que gosta de fazer?

RAUL - Quando não estou no ateliê pintando ou escrevendo, estou lá embaixo. Gosto de receber os amigos e tenho uma relação forte com o cinema.

JC - Você cozinha?

RAUL - Gosto muito de cozinhar. Mas isso é uma coisa muito simples, não é nada profissional. Cozinhar é uma atividade relaxante, prazerosa. Meu pai e minha mãe cozinhavam muito bem. Acho que vem daí.

JC - Qual a especialidade?

RAUL - Moqueca de caju. É como a tradicional, troco o peixe pela fruta.

JC - Você viveu a ditadura. Militou?

RAUL - Olhe, poucos foram os artistas plásticos que saíram de seus cômodos para fazer alguma coisa. Tive uma exposição censurada em 68 no hall da Universidade Federal da Paraíba. Foi odioso. Alegaram atentado ao pudor e problemas da esquerda, políticos, né. Isso porque algumas das obras faziam alusão à morte do aluno Edson Luís, que foi assassinado durante um confronto com a Polícia Militar no restaurante Calabouço, Centro do Rio de Janeiro.

JC - Alguma dessas obras vão estar na próxima exposição?

RAUL - Sim. Pelo menos dois desses quadros vão estar lá, já que a exposição é uma retrospectiva da minha obra. A mostra marca meus 50 anos de carreira e será na galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, a partir do próximo dia 31.

JC - E projetos futuros?

RAUL - Estou escrevendo o livro Memórias do mangue, que vai falar sobre o Rio de Janeiro e as lembranças de quando vivi lá.z

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